Eu e o dr. João Nóbrega em Paris. A paixão pelo Santos sempre atravessou continentes.

Há uma repercussão desmedida pela frase de Léo, que, ao analisar o vandalismo de boa parte dos torcedores do Corinthians no aeroporto de Cumbica, disse: “Quem está acostumado com rodoviária não pode ir a aeroporto”. Este delicado assunto deve ser analisado sob vários aspectos…

Em primeiro lugar, nunca a classe média andou tanto de avião como agora. Se o usuário tiver sorte de pegar uma boa promoção, viajará pagando até menos do que o preço de uma passagem rodoviária. Bem, este é apenas o aspecto econômico-social da questão e, exclusivamente por ele, Léo está equivocado e poderia muito bem ter evitado provocar os torcedores rivais.

Em segundo, e para bom entendedor o contexto basta, Léo não quis se referir à condição social dos torcedores do alvinegro de Itaquera, que tem aficionados em todas as classes sócio-econômicas, mas sim à pouca familiaridade do time com viagens intercontinentais. Uma brincadeira menos pesada, acredito, do que quando a Nike embrulhou um peixe em jornal para comemorar o título paulista do alvinegro paulistano em 2009, ou quando um dirigente do tricolor do Morumbi diz que o Santos é pequeno, do mesmo nível de Jabaquara ou Juventus, como acaba de fazer este João Paulo de Jesus Lopes.

Porém, e Léo perceberá isso amargamente, se é que já não percebeu, os tempos mudaram e as regras – até mesmo para a provocação que sempre houve entre jogadores e torcedores – são outras desde que a mídia elegeu o alvinegro de Itaquera como o time a ser bajulado. Creio que Léo será patrulhado e ofendido de uma forma sistemática e grosseira, como se tivesse xingado a mãe de Cristo, ou algo assim.

Imagino minha doce e inocente mãe, diante das cenas vistas em Cumbica, sair-se com a frase que a ela foi passada pelas gerações anteriores: “Quem nunca comeu o mel, quando come, se lambuza”. Ora, é um ditado popular sábio, que não deve provocar revolta, e sim reflexão.

A indignação do doutor João Nóbrega

Nas minhas férias de outubro, durante encontro com o doutor João Nóbrega, jovem médico brasileiro que trabalha em Paris, ouvi dele que um dos motivos que o fará voltar ao Brasil – com sua mulher, Alice, e a filhinha, Jully –, é a saudade do Santos, de ver os jogos do Alvinegro Praiano.

E no café que tomamos à tardinha no bairro de Marais (pronuncia-se Marré), eu e Suzana ouvimos dele uma queixa sentida pela forma como a imprensa minimizou a importância da torcida do Santos no Mundial do Japão no ano passado. “Éramos no mínimo 10 mil, Odir, e não vi ou ouvi ninguém noticiar isso”.

Sim, João esteve no Japão, com consentimento de Alice, e acompanhou passo e passo toda a campanha do Santos no Mundial. Disse que por um erro, a torcida do Santos foi dividida em duas no estádio, mas que, unida, se compunha de mais de 10 mil pessoas, maior do que as torcidas que antes acompanharam os times brasileiros na competição.

Fiquei de dar uma nota sobre isso no blog, mas o tempo foi passando, novembro se foi, e nada escrevi sobre o testemunho do doutor João Nóbrega. Até porque, confesso, não dou tanta importância à quantidade de torcedores. Sempre repeti que, no caso do Santos, como já escreveu Matheus, “muitos são os chamados, poucos os escolhidos”. É só ver o que dá mais ibope no Brasil…

Que programa de tevê tem mais audiência? Que tipo de música vende mais? Por aí se percebe que o bom gosto ainda não é uma qualidade da maioria dos brasileiros. Portanto, ter uma torcida especial, mais educada, creio ser mais relevante do que atrair multidões que parecem existir para brigar e destruir.

Hoje, porém, depois de ouvir um médico torcedor do outro alvinegro falar na tevê que a torcida do Santos só tinha 2.500 torcedores no ano passado, lembrei-me de restabelecer a verdade e lembrar o depoimento de João Nóbrega, alguém que esteve lá, nas arquibancadas, e não apenas ouviu falar.

Dizem que Léo fez essa brincadeira porque está de saco cheio de perceber a diferença de tratamento que a imprensa – TV Globo, principalmente – reserva ao time que usa um aumentativo para se referir a si próprio. Nessas horas, a gente se pergunta: será que a tevê fala mais de um time porque ele tem mais torcida, ou esse time tem mais torcida porque a tevê fala mais dele?

Folclore é uma coisa, incentivo à bagunça é outra

Essas matérias com torcedores fanáticos, que fazem de tudo pelo time – como perder o emprego, esquecer a família, beber, brigar etc –, às vezes são engraçadas. Todo time tem torcedores assim. Eu mesmo já escrevi dois livros com inúmeros casos de santistas malucos pelo Alvinegro Praiano. Teve até uma senhora que estava à beira da morte e saiu da UTI no mesmo dia em que soube que o Santos havia vencido o Fluminense por 5 a 2 e se classificado para a final do Brasileiro de 1995.

Essas histórias dão tempero ao futebol. Porém, a mídia precisa ter muito cuidado, ainda mais nos tempos anárquicos que vivemos, para que o interesse pelo inusitado, pela loucura do torcedor, não passe a idéia de que a paixão por um time dá direito a desobedecer as leis e infringir a ordem.

Obviamente não eram todos que estavam em Cumbica que compartilhavam do desvario dos torcedores. E, pelo que se sabe, muitas pessoas – mulheres principalmente – se sentiram constrangidas, amedrontadas e ameaçadas com a bagunça e o quebra-quebra que tomou conta do principal aeroporto de São Paulo. Creio que este tema é que deveria merecer espaço nos programas esportivos, e não a frase jocosa do Léo.

Resultado do vandalismo em Cumbica:

http://youtu.be/eS0zdE4NsRQ

Perguntas ao Alvaro de Souza

Amigos, eu tinha dito ao Arnaldo Hase que enviaria uma quantidade bem menor de perguntas do que enviei para serem respondidas por Alvaro de Souza. Então, terei de reduzir aquele total de quase 70 questões para apenas 25. Farei a seleção e enviarei novamente. Sinto pelos que ficarão de fora, mas o que importa é termos a palavra oficial de um importante membro do comitê gestor do Santos.

O que você achou do comportamento da mídia diante do quebra-quebra?