Blog do Odir Cunha

O ombudsman do Santos FC

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Últimas notícias do caso Chera. E minha conclusão

Depois de ouvir os dois lados, e também ler atentamente a todos os comentários recebidos neste blog, estou pronto para dar uma opinião definitiva sobre o caso Jean Carlos Chera. Antes, porém, consegui informações importantes sobre a proposta que Celso Chera, pai de Jean Carlos, fez ao clube para que o filho assinasse o seu primeiro contrato como profissional, dia 12 de maio, quando completará 16 anos.

Fontes fidedignas me garantem que a proposta do senhor Celso foi:

R$ 1 milhão de luvas na assinatura do contrato.
Contrato de três anos, sendo salários de R$ 75 mil no primeiro ano; R$ 95 mil no segundo e R$ 125 mil no terceiro.
50% dos direitos federativos;
70% dos direitos de imagem;
Garantia de que Chera seja titular de todos os torneios sub-17 daqui pra frente, além de participar da Copa SP 2012.

É oportuno lembrar que em seu primeiro contrato como profissional do Santos, depois de ser um destaque nas categorias de base, Neymar recebia R$ 20 mil mensais. E Paulo Henrique Ganso só passou a ganhar R$ 130 mil mensais em março de 2010, aos 19 anos e nove meses, depois de se revelar um ótimo jogador profissional. Até lá ele ganhava menos da metade. O primeiro contrato profissional do Ganso, em 2006, aos 16 anos, só lhe rendia mil e 100 reais por mês.

O mundo visto pelo olhar dos Chera

Se há uma coisa que me atormenta é a possibilidade de ser injusto. Por isso fiz questão de ouvir os dois lados antes de formar minha opinião. Fica claro que há duas questões em jogo: uma, legal; outra, moral. A legislação vigente, a malfadada Lei Pelé, é totalmente favorável ao jogador e extremamente nociva ao clube que o formou e o cultiva com tanto carinho desde a mais tenra idade. Mas há, também, a questão moral, da qual eu e, pelo que percebo, a maioria dos freqüentadores deste blog, felizmente não abrimos mão.

Antes, porém, tentemos entender a posição de alguns personagens desta história, a começar pelo principal. Jean Carlos Chera, aos seis anos, já era um fenômeno na pequena Vera, cidade de 9.500 habitantes no Mato Grosso. Mudou-se para Campo Mourão, Paraná, e lá foi descoberto por Eduardo Jenner, que trouxe o menino de nove anos e seus pais para morar em Santos.

De sua habilidade com a bola e da esperança de se tornar um novo Menino da Vila, veio o sustento da família, formada pelos pais e pelo irmão menor, Juan. Aos dez anos, Jean Carlos tinha salário de adulto. O Santos assumiu o aluguel do apartamento da família e a escola particular de Jean e Juan. A vida para a família Chera mudou da água para o vinho. Vivem bem, gostam da cidade e torcem para o time. Os tempos difíceis de carência e incerteza ficaram para trás.

Porém, no campo, Jean Carlos não tem correspondido à toda expectativa que gerou. Recentemente, pouco fez nos dois jogos finais do Campeonato Paulista Sub-15, em que o Santos foi vencido facilmente pelo Corinthians, em São Paulo e na Vila Belmiro. E, ao contrário de outros garotos da base santista, jamais foi convocado para uma Seleção Brasileira da categoria.

Há dois anos passou um bom tempo na sala de recuperação física do Santos, corrigindo problemas clínicos que vieram com a puberdade. De lá para cá, não me lembro de vê-lo repetir as grandes atuações de quando era mais criança.

A verdade é que deixou de entusiasmar os responsáveis pela base do Santos. Hoje, segundo alguém que acompanha a categoria, ele joga no mesmo nível dos outros titulares e não é um dos jogadores de mais destaque do time. De qualquer forma, o Santos lhe ofereceu um primeiro salário, como profissional, de R$ 30 mil por mês, além de gatilhos a cada ano.

O papel do senhor Celso, o pai

Não conheço o seu Celso, pai de Jean Carlos, porém, presumo que como todo o pai, quer o melhor para o seu filho. A questão é se este “melhor” está ligado apenas ao aspecto material. Não sei se Celso tem alguma profissão e trabalha em Santos, ou se passou a dedicar-se exclusivamente à carreira de Jean – o que sempre acaba gerando uma grande pressão nos jovens atletas.

Vi muito isso no tênis. Testemunhei pais tirando os filhos dos estudos para se dedicarem ao sonho de se tornar um novo Bjorn Borg, ou John McEnroe. Hoje esses futuros astros são professores de tênis, o que não é nenhum demérito, mas o ruim é poucos tiveram uma boa formação acadêmica. Gastaram muito tempo nas quadras e pouco diante dos livros.

No futebol isso também tem sido freqüente. Há muitos familiares – pais, irmãos, irmãs – cuja profissão é amparar a carreira do craque da família. Isso mais atrapalha do que ajuda. Acho sempre melhor quando o jogador pode decidir seu futuro apenas por sua própria cabeça.

Sei que quando a nova administração assumiu o Santos, o Jean Chera, tratado como uma jóia rara, tinha muitos privilégios no clube. Um deles é de que só seu pai tinha permissão para assistir aos treinos. Isso, obviamente, gerava uma saia justa com outros atletas, familiares e um problema seriíssimo para técnicos e coordenadores. E o complicador é que o garoto não produzia para justificar esses favorecimentos.

Mais do que agente, seu Celso é o pai de Jean Carlos, e um pai tem a obrigação de educar o filho, não de torná-lo rico. Aliás, posso ser romântico, mas acho que a maior riqueza que um pai pode dar aos seus filhos é justamente a educação, o caráter, uma maneira ética de ver e viver a vida.

A diferença entre o legal e o moral

Legalmente, se quiser ir embora – e parece que este é o plano de Jean Carlos Chera e seu pai –, nada poderá impedi-lo. Neste sábado poderá viajar para Milão e lá acertar sua transferência para o clube italiano, que, segundo o seu pai, lhe fez uma primeira proposta de três milhões de euros e salários de 50 mil euros mensais.

Se conseguir na Itália, como conseguiu do Santos, casa para a família e escola para ele e seu irmão, Chera terá dado um salto em sua carreira, ou ao menos na sua conta bancária e, aos 16 anos, sem ter ainda justificado a esperança no seu futebol, já será um menino rico.

E o Santos? Bem, o clube não terá direito a um centavo, pois nenhum contrato na fase amadora tem validade para a justiça trabalhista. Para recuperar o que investiu em Chera, o Santos terá de entrar com uma ação que até agora não tem precedentes jurídicos.

Como se vê, legalmente o Santos não poderá fazer nada se, como ameaçou Celso, os Chera forem embora sem dar nenhum retorno ao clube que os acolheu e deu mais dignidade às suas vidas. Porém, resta a questão do caráter, da moralidade, da ética.

Se esta questão é elevada a serio pelo pai de Chera, creio que ele separará uma parte do que receber do clube italiano para destinar ao Santos, ao menos para pagar as despesas materiais que sua família deu ao clube. Um milhão de reais? Dois? Não sei precisar. Mas para quem diz que receberá três milhões de euros, destinar um terço deste valor ao Santos seria ao menos um gesto de gratidão. E um gesto que aliviará o peso de sua consciência.

O “Caso Chera” é o inverso do “Caso Afonsinho”

Caso essa perfídia se concretize e o Santos seja passado para trás de maneira tão ignóbil, creio que este caso Chera poderá ser comparado ao do jogador Afonso Celso Garcia, ou Afonsinho, que em 1974 entrou para a história por ser o primeiro jogador de futebol a conseguir, na justiça, o passe livre.

Instruído, formado em Medicina, Afonsinho se rebelou contra o autoritarismo dos dirigentes e conseguiu ser o dono de seu próprio passe. A façanha foi um divisor de águas, pois naqueles tempos o jogador era mesmo escravo dos clubes, a quem podia ficar amarrado por toda a carreira, sem aumentos significativos de salário.

A Lei Pelé, como o próprio Rei do Futebol anunciou, veio para acabar com a escravidão dos jogadores. Só que criou outra. Hoje é o clube que é cativo do atleta, a quem deve oferecer tudo e, muitas vezes, não tem o direito de exigir o mínimo em troca.

A lei obriga que os juvenis promissores ganhem fortunas, pois do contrário podem sair do clube de uma hora para outra, desde que um interessado deposite o valor da malfadada multa, calculada a partir do salário do atleta. É por isso que Jean Carlos Chera recebe mais de 20 mil reais por mês sem ao menos ter feito um jogo pelo profissional.

Se fizermos um cálculo preciso, veremos que o salário de Chera, aos 15 anos, é equivalente ao de Dorval, Mengálvio, Coutinho ou Pepe no auge de suas carreiras. Este absurdo só foi possível, ironicamente, pela lei que leva o nome do jogador mais famoso daquele ataque.

Que todos se unam para que esta lei seja corrigida o mais rápido possível. Prejudicado pela divisão de cotas de tevê, que não leva em conta o currículo ou o mérito de cada time, mas apenas a sua quantidade de torcedores; os outros clubes grandes do Brasil, como o Santos, têm na revelação de jovens talentos uma boa possibilidade de diminuir a desigualdade. Porém, com a vigência da Lei Pelé, não há nenhuma garantia de que o jogador formado no clube um dia recompense o investimento e o empenho empregados em sua formação.

E você, já tem sua opinião final sobre o caso Chera?


Neymar entrou para a história, assim como meu amigo Afonsinho há 40 anos

Afonsinho, da música do Gil, o jogador-doutor que mudou a Lei do Passe em 1970.

E este, bem, este é o Príncipe Neymar, dizendo não ao imperialismo do futebol europeu.

Ao recusar a proposta milionária do Chelsea, o garoto Neymar da Silva Santos Júnior fez história no futebol brasileiro com um gesto que pode ser comparado ao de Afonso Celso Garcia Reis, o Afonsinho, que há 40 anos se tornou o primeiro jogador de futebol a conquistar o direito de decidir sobre sua própria carreira.

Nascido em Jaú em 3 de setembro de 1947, o rebelde Afonsinho, cabeludo como os hippies da época, mas muito mais instruído do que os outros jogadores de futebol – já que era formado em medicina –, foi à Justiça contra a Lei do Passe que o prendia ao Botafogo do Rio, onde se sentia escravizado.

“Tive desentendimentos com Zagalo, o futebol estava deixando de ser uma coisa prazerosa e, nessa época entrei na Justiça reivindicando o direito de exercer minha profissão em outra equipe, uma vez que os cartolas do Botafogo não se dispunham a liberar meu passe. Não aceito interferência em minha vida, eles alegavam que eu tinha que cortar a barba e o cabelo, que era indisciplinado e coisa e tal. Mas o que estava por detrás disso era que eles queriam me aprisionar ao clube”, disse-me Afonsinho em um debate na PUC de São Paulo do qual participávamos.

Encontrei novamente Afonsinho no salão nobre do Fluminense, quando eu e José Carlos Peres fomos apresentar um painel para a imprensa carioca sobre a ratificação dos títulos brasileiros da Taça Brasil e do Torneio Roberto Gomes Pedrosa. Além de ter sido um grande meia – que atuou em todos os times grandes do Rio e no Santos, ao lado de Pelé, em 1972 – Afonsinho deixou o nome na história por enfrentar e vencer a então escravizante Lei do Passe.

Ídolos comprados a preços de banana

Com a Lei Pelé, sancionada em 24 de março de 1998, o jogador não é mais escravo dos clubes – ao contrário –, porém outro tipo de escravidão cresceu e acorrentou nosso futebol às limitações econômicas e morais do País.

Depois de ganhar três Copas do Mundo – 1958, 62 e 70 – com todos os jogadores, titulares e reservas, em atividade no Brasil, a Seleção nacional se tornou uma verdadeira legião estrangeira e o torcedor passou a amargar seguidamente a frustração de ver seus maiores ídolos partindo para o exterior ainda imberbes.

Ídolos incomensuráveis foram embora por preços de banana. No início dos anos 80, Paulo Roberto Falcão, maior jogador do Internacional em todos os tempos, foi vendido à mediana Roma por 2,5 milhão de dólares; Zico, o Pelé do Flamengo, aquele que divide a história do clube da Gávea em antes e depois dele, abandonou o time mais popular do Brasil para jogar na pequena Udinese por 3,5 milhões de dólares, e Sócrates, o maior craque do Corinthians de todos os tempos, ao lado de Rivelino, transferiu-se para a Fiorentina por 3 milhões de dólares.

Quando Romário, aos 22 anos, foi vendido para o PSV Eindhoven, da Holanda, em 1988, por meros 5 milhões de dólares, esta foi, até aquele momento, as mais cara contratação de um jogador brasileiro.

Dez anos depois, em 1998, um outro recorde seria estabelecido: Denílson, 21 anos, do São Paulo, que se destacava pelos dribles, foi vendido pelo São Paulo ao pequeno Bétis, da Espanha, por 32 milhões de dólares.

Em 2003, duas jovens estrelas do futebol brasileiro seguiram o mesmo caminho: Kaká, aos 20 anos, foi negociado com o Milan por 10,3 milhão de dólares (hoje algumas fontes dizem que o valor foi de 8,5 milhões de euros, enfim…) e Diego saiu do santos para o Porto por 10 milhões de euros.

Em 2005, depois de espernear bastante, o Santos vendeu Robinho, 21 anos, ao Real Madrid, por 30 milhões de dólares, e em 2007 foi a vez de Alexandre pato, 18 anos, maior revelação do Internacional depois de Falcão, ir para o Milan por 20 milhões de dólares.

Tabelinha Neymar-Laor abre novos caminhos

Até ontem, parecia que o enredo seria o mesmo: o clube europeu escolhe quem quer no futebol brasileiro, faz a proposta, aumenta um pouquinho e espera sentado pela aprovação, já que a situação falimentar de boa parte dos nossos clubes nunca permite recusá-la.

Manifestado o interesse, outros acontecimentos, coincidentemente, costumam forçar a saída do craque: o rapaz começa a jogar mal, envolve-se em “escândalos extra-campo” alimentados diariamente pela mídia, a torcida pega no seu pé e no fim sua saída chega a ser pedida pelos torcedores.

Claro que essa crise final era plantada pelos agentes dos jogadores e pelos dirigentes do clube brasileiro, que manipulavam a torcida para iniciar a perseguição ao ídolo. Passional, o torcedor logo entrava na onda e chegava a se dizer aliviado com a evasão do craque.

Como os valores reais nunca eram revelados – numa clara sonegação de imposto de renda – as vendas de jogadores ao exterior sempre serviram a dirigentes desonestos para compensar regiamente a si mesmos o trabalho “voluntário” a favor do clube.

Alguém já acreditou na honestidade de um trabalho não remunerado de diretor de futebol, ou de presidente de um clube de futebol? Pode e deve ter existido, claro, mas não é isso que os bastidores do esporte contam. As histórias são muitas e variadas…

O agente, ou “empresário” Francisco Monteiro, o Todé, responsável por trazer Ronaldo ao Corinthians, deu uma entrevista ao Blog do Cosme Rímoli confirmando que José Eduardo José Mesquita Pimenta, presidente do São Paulo, “quis ganhar dinheiro às custas da venda do Mário Tilico”, caso que acabou provocando a saída de Pimenta da presidência do clube.

Se Luís Álvaro Ribeiro não fosse a pessoa íntegra que é, provavelmente não resistiria tanto à pressão para se desfazer de Neymar. Afinal de contas, até a imprensa já dava como certa a ida do jogador para a Europa. E entre uma dinheirama para lá e para cá, alguma parte jamais seria explicada, como aconteceram tantas vezes antes, em outros clubes e, provavelmente, no próprio Santos.

Parece brincadeira admitir que essa total falta de transparência era normal nas transações dos ídolos brasileiros, mas é assim mesmo que acontecia. Tudo por baixo do pano, sem contratos e valores definidos, tudo para acobertar o “por fora” que invariavelmente rechearia as contas bancárias dos dirigentes envolvidos.

Enfim, mais do que um recado histórico de que é possível manter os craques aqui no Brasil, a bela dupla titio Laor e garoto Neymar deram uma aula de amor ao Santos e ao futebol, de ética e honestidade.

É claro que seria muito mais fácil fechar o negócio. Todos entenderiam e a parte da opinião pública preocupada com o crescimento do Santos ficaria aliviada. Correr atrás de parceiros e acordos de marketing dá trabalho, exige criatividade, disciplina. Mas o Santos assumiu a luta com coragem e mostrou uma grandeza que não se encontra nem em estádios monumentais ou nos mais fulgurantes títulos. Uma grandeza que vem da alma.

Você tem alguma idéia de ações de marketing que o Santos poderia fazer para valorizar ainda mais o Neymar e compensá-lo por ter ficado no Santos?


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