Há exatos 75 anos, em 17 de novembro de 1935, o Santos conquistava seu primeiro título estadual. E conquistava batendo o Corinthians em pleno Parque São Jorge, por 2 a 0. Vale a pena relembrar essa façanha…

Nos dois primeiros amistosos que fez em 1935, o Santos sofreu duas derrotas: 3 a 2 para o São Paulo e 1 a 0 para a Portuguesa de Desportos, ambos na Vila Belmiro. Como o Campeonato Paulista demorava a começar, deu tempo para se redimir, com vitórias sobre Corinthians (3 a 2), São Cristóvão (2 a 1), Espanha (10 a 1)… Deu até para aceitar um convite para uma excursão ao Rio Grande do Sul, de 12 a 26 de maio, onde venceu Novo Hamburgo (4 a 2) e Riograndense (4 a 3), empatou com o Internacional (1 a 1) e perdeu para Grêmio (3 a 2) e Seleção Gaúcha (3 a 2).

Uma excursão como essa, naqueles tempos de poucas viagens, era tudo que os jogadores queriam. Só que chegaram a Santos no dia 29 de maio e descobriram que a tabela marcava para o dia 2 a estréia contra o Palestra, atual campeão paulista.

Logo de cara, um jogo decisivo, pois se o time tinha alguma pretensão de brigar pelas primeiras posições, deveria vencer o Palestra na Vila. No segundo turno o jogo seria no Parque Antártica e a dificuldade seria bem maior. Sabendo disso e lutando como nunca, o Santos venceu por 1 a 0, gol do centroavante Raul. Bastante modificado com relação à temporada anterior, o time jogou com Ciro, Neves e Badu; Figueira, Ferreira e Marteleti; Saci, Moran, Raul, Logu e Paulinho.

A vitória sobre um dos favoritos ao título animou os santistas, que em seguida venceram também o Espanha, no campo do Macuco (2 a 0), e o Paulista, da Capital, no Parque Antártica (5 a 1). No quarto jogo veio a derrota para o Corinthians, na Vila Belmiro (2 a 1), mas o time se aprumou de novo e venceu a Portuguesa Santista, na Vila Belmiro (3 a 1) e o Juventus, na Capital (4 a 1). Nesta última partida, a que encerrou o primeiro turno, o time ganhou o reforço de Araken, que voltava ao Santos.

Na estréia do segundo turno, outro confronto com o Palestra, desta vez no Parque Antártica. Jogo tenso, difícil, que terminou sem gols. Depois, uma goleada no Espanha, na Vila (4 a 1) e outra no Paulista (5 a 2), também em casa. Mas a Portuguesa Santista complicou as coisas em Ulrico Mursa (3 a 3) e o time depois teve de vencer o Juventus em nervosos 2 a 1, na Vila, para jogar pelo título e pelo empate a última partida, contra o Corinthians, no Parque São Jorge.

Finalmente, o primeiro título paulista estava bem próximo. Mas Bilu, o técnico santista, temia que a emoção traísse seus jogadores, ou que o árbitro, Heitor Marcelino Domingues, pudesse puxar a sardinha para os times da Capital. O Corinthians não tinha chance de ser campeão, mas sua vitória daria o título ao Palestra Itália, mesmo clube que venceu o Santos na Vila Belmiro, em 1927, quando o empate bastaria para que a taça ficasse em Santos.

Bilu, que jogou a decisão de 1927 como zagueiro, jamais escondeu a mágoa pela forma com que o campeonato lhe tinha sido tirado, com uma atuação parcial e cínica do árbitro Antonio Molinaro. Naquele 17 de novembro, no Parque São Jorge, finalmente Bilu teria a chance de, por linhas tortas, saborear sua vingança.

Por felicidade, Bilu pôde escalar o melhor santista para cada posição: Ciro, Neves e Agostinho; Ferreira, Marteleti e Jango; Saci, Mário Pereira, Raul, Araken e Junqueirinha. A boa torcida que subiu de trem para São Paulo fez o time se sentir à vontade, mesmo no campo do rival.

Um grupo de torcedores do Santos que trabalhava na estiva do Porto, cansados de ver o time ser prejudicado pela arbitragem em jogos decisivos, levou galões de gasolina para o estádio do Corinthians. Se o Santos fosse roubado mais uma vez, prometiam colocar fogo na Fazendinha.

Mas não precisaram chegar a tal extremo. Jogando melhor, o Santos venceu por 2 a 0, com gols de Raul e Araken, um em cada tempo. O
título ficou mesmo com o melhor do campeonato. Tanto, que o Santos teve o ataque mais positivo (32 gols) e a defesa menos vazada (10).

Confira a ficha técnica do jogo que deu o primeiro título estadual ao Santos:

Corinthians 0, Santos 2
(Primeiro tempo: 1 a 0).
Campeonato Paulista (jogo que decidiu primeiro título do Santos).
17 de novembro de 1935, domingo à tarde.
Parque São Jorge
Corinthians: José, Jaú e Carlos; Brito, Brandão e Munhoz; Teixeira, Carlito, Teleco, Alberto e De Maria.
Técnico: José Foquer.
Santos: Cyro, Neves e Agostinho; Ferreira, Martelete e Jango; Sacy, Mário Pereira, Raul, Araken e Junqueira.
Técnico: Bilu.
Gols: Raul aos 36 minutos do primeiro tempo; Araken aos 17 do segundo.
Árbitro: Heitor Marcelino Domingues.
Público: 15.000 pagantes.

Quanto era proibido ao Santos ser campeão

Antes de 1935 o Santos teve um período, mais especificamente de 1927 a 1931, em que foi um dos melhores times do país e poderia, naturalmente, ter sido campeão paulista em mais de uma temporada.

Porém, vários fatores contribuiram para que isso não acontecesse. O Santos não só foi prejudicado pelo poder do futebol paulista, como pela intransigência de seus próprios dirigentes. Leia um longo artigo sobre o assunto clicando nesta página: Quando era proibido ao Santos ser campeão

Você sabia alguma coisa deste jogo e do título de 1935? Qual foi o primeiro título que você viu o Santos ganhar?