Desde 2008 a Globo aposta na queda de Dunga

No único contato pessoal que tive com o jornalista Alex Escobar achei-o muito simpático, educado, um bom rapaz. Quanto a Dunga, do tempo em que jogou no Santos, em 1986, também era um bom sujeito, serião, mas boa praça. Então, só posso considerar lamentável este incidente que atrapalha o ambiente da Seleção em plena Copa do Mundo.

O problema não está no Alex Escobar ou no Dunga, mas no relacionamento entre a comissão técnica da Seleção e a imprensa brasileira, que nunca foi muito harmonioso. Zagalo já teve de pedir para os críticos engolirem e Felipão brigou com todo mundo por não levar Romário à Copa de 2002.

Acho que a última grande exceção foi Telê Santana. Lembro-me com prazer de uma tarde na Toca da Raposa, em 1980, após uma partida entre a comissão técnica e a imprensa (em que entrei no segundo tempo e marquei dois gols). Ficamos ali a tomar cerveja, conversar e brincar. Telê, muito alegre, chegou a brincar com Valdir de Moraes, o preparador de goleiros que naquele dia defendeu a meta da comissão técnica; “O garoto acertou um belo chute, hein Valdir”. E o grande goleiro, meio sem graça, alegou que não pode tirar a bola do ângulo porque estava com um problema na virilha.

Todo mundo gostava tanto de Telê que ele voltou para a Copa de 1986, mesmo depois de ter perdido a de 1982. Porém, depois dele, nenhum técnico teve mais sossego na Seleção.

O técnico está estressado

Quem viu Dunga receber a taça em 1994 e, ao invés de sorrir, soltar um tremendo palavrão contra os jornalistas, sabe que este é o jeito de ele se motivar e motivar o seu grupo: imaginando que todos estão contra eles. É uma maneira limitada de ver as coisas. É claro que um técnico da Seleção Brasileira de Futebol sofrerá pressões. Quem não as suporta, é melhor ficar em casa, assistindo futebol do sofá (com um cobertor nas pernas e tomando um chazinho, de preferência).

Por outro lado, se a história é como me dizem, Alex Escobar poderia ter evitado fazer gestos de desaprovação quando Dunga estava falando. Uma das regras básicas de uma boa entrevista é não acuar o entrevistado, deixá-lo à vontade, confiante para se abrir.

Um jornalista de estúdio, sem grande experiência de matérias in loco, está sujeito a cometer esse tipo de falha. Comentar de longe é uma coisa, conviver diretamente com os fatos e as personagens é outro. Exige um tato e uma vivência que nem todos os que estão na África do Sul têm. Não digo que é o caso de Alex Escobar, mas a hipótese não pode ser descartada.

De qualquer forma, o descontrole de Dunga não se justifica. Uma sala de entrevistas não é um campo de futebol, em que palavrões são impunes e a grosseria é permitida. Não cabe bem a um técnico de Seleção Brasileira reagir assim.

Os privilégios da Globo

Não creio que a briga tenha sido provocada pelos privilégios da Rede Globo que o técnico cortou. Mas não se pode negar que a mais poderosa das emissoras de tevê do Brasil sempre tratou a Seleção Brasileira como seu patrimônio e já foi muito mais influente nas decisões do Escrete antes de Dunga assumir o posto.

Quanto a mim, não é porque Dunga não levou os craques Ganso e Neymar para a Copa, que torcerei contra ele. Ao contrário. O sucesso de Dunga, da Seleção, é a alegria do povo.

E o povo é tão sábio, tão mais sábio do que qualquer amontoado de jornalistas, que tem demonstrado total solidariedade ao técnico neste imbróglio. O homem comum, sem vaidade, que quer apenas ver o Brasil campeão, sabe que qualquer discussão agora só pode atrapalhar o sonho do sexto título mundial.

Como escreveu alguém no twitter: “Dunga ao menos está trabalhando, tentando fazer o time campeão. Deixem o homem trabalhar”. Eu concordo.

A relação entre o técnico e a imprensa deveria ser bem mais amistosa e respeitosa. Dunga pode ter muitos defeitos, mas já mostrou que tem estrela e pode, sim, levar o Brasil a mais um título.

Normalmente já seria difícil vencer equipes como Argentina, Itália e Espanha, mas com esse clima hostil entre jornalistas e técnico, os obstáculos se tornam ainda maiores.

Bem, que os deuses do futebol olhem pela Seleção Brasileira. Não pelo Dunga ou pelos vaidosos homens de imprensa, mas pela gente simples, pelo torcedor desinteressado, que vê em cada vitória da Seleção um motivo insuperável de felicidade.

E você, o que achou dessa pendenga entre Dunga e a Rede Globo?