Blog do Odir Cunha

O ombudsman do Santos FC

Tag: Almir Albuquerque

Uma grandeza puxa outra

Raça é isso!

Ralar a cara no chão para marcar um gol de cabeça, correndo o risco de levar uma pancada do goleirão no meio das fuças! Sim, este é o gol da vitória que Almir Albuquerque, o Almir Pernambuquinho, fez pelo Flamengo contra o Bangu, que tinha um bom time naquele ano de 1966 e um goleiro imenso chamado Ubirajara. Esse Almir é o mesmo que substituiu Pelé e se tornou herói da decisão do Mundial Interclubes de 1963, contra o Milan. Um pouco dessa garra é o que a gente gostaria de ver hoje, no Pacaembu, contra o Santa Fé.

Uma grandeza puxa outra

Tenho respondido a alguns santistas sobre qual seria a melhor forma de administrar o Santos para que ele utilize todo o seu potencial mercadológico. Bem, admitindo que hoje o Santos usa apenas uma pequena parte desse potencial não é preciso ser nenhum gênio para encontrar essa resposta, pois todas as iniciativas e fases que levam ao objetivo final estão ligadas ao mesmo princípio.

Basta determinar uma primeira meta e todas as outras se seguirão a esta, naturalmente. Sabendo-se que, com exceção da visibilidade na tevê, as duas condições que expressam a dimensão de um clube são a média de público de seus jogos e sua quantidade de sócios, podemos começar por qualquer um desses dois requisitos e chegaremos às mesmas conclusões quanto à forma correta de se gerir o Santos.

Creio que falo por todos nós quando digo que queremos e podemos aspirar a um quadro de 100 mil associados. Se clubes como o Porto, de Portugal, com 1,5 milhão de torcedores, têm mais de 100 mil sócios, nosso Santos, caso organize um bom programa de recompensas e trabalhe duro e ininterruptamente atrás dessa meta, não chegará a 100, mas a 200 mil sócios. Porém, pensemos em “apenas” 100 mil como uma boa meta para uma gestão de três anos.

O dinheiro que vem do quadro associativo não depende de negociações com a tevê ou com patrocinadores, é uma manifestação direta do amor e da confiança do torcedor no seu time e na direção do clube. Creio que o santista apoiará em peso o clube desde que confie em seus dirigentes, desde que os julgue competentes, trabalhadores, ousados e honestos. Portanto, não tenho dúvida alguma de que esse objetivo de 100 mil sócios em três anos é plenamente viável.

Se um clube tem muitos sócios, chegamos ao segundo passo, que é definir onde mandar seus jogos. Com 100 mil associados o Santos terá de jogar em um estádio que comporte ao menos um terço deles, ou seja, 30 mil torcedores. Esse tem sito o segredo dos bons públicos do alviverde e do alvinegro da capital. É uma receita que pode e deve ser copiada pelo Santos.

Qualquer criança de dez anos sabe que um clube com 100 mil sócios e média de público superior a 20 mil pessoas conseguirá melhores negociações com o patrocinador máster, o patrocinador de material e as empresas interessadas em merchandising, sem contar, obviamente, os acordos com a televisão.

Tudo isso melhorará o faturamento do clube, reduzindo suas dívidas e aumentando a verba destinada a contratações e à preparação de jogadores jovens, ou seja, esse rendimento financeiro se reverterá em um time mais forte e competitivo, fechando um círculo virtuoso que, desde que as premissas da administração não sejam mudadas, manterá o clube em um estágio invejável.

Isso não pode ser olhado como um conto de fadas. Tudo o que citei é plenamente realizável e tenho certeza que o será, por mim, ou por outro presidente com visão, capacidade de trabalho e compromisso de honra com a seriedade e a honestidade. Não faço questão de ser o líder que levará o Santos ao seu melhor caminho, mas faço questão que o nosso querido clube, nosso amado time alvinegro praiano encontre esse caminho.

Como última consequência natural de tudo o escrevi, é óbvio que o Santos deve permitir o voto à distância, deve permitir e saudar a participação de seus santistas de todos os cantos, pois há muito tempo nosso clube não é mais um time de vila, mas um time do mundo. Essa é a realidade do Santos incomensurável que queremos. Espero que essa visão regionalista, que poucos tentam impor a muitos, seja sepultada definitivamente na próxima eleição e que o Santos siga, livre, forte, atrevido, em busca de seu futuro universal.

E você, o que acha disso?

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Costumo dizer que o livro é o melhor presente, pois ninguém joga um livro fora e duvido que um santista jogaria um Time dos Sonhos ou um Dossiê fora. Uma camisa do time, que é bem mais cara, fica velha, esgarça, fura, e é abandonada. Um livro, jamais. Fica na prateleira, sobrevive a gerações, conta histórias que se imortalizam.

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Há 47 anos o Santos se tornava o primeiro bicampeão mundial do futebol


O Santos para a final, sem Pelé, Calvet e Zito. O pênalti de Maldini em Almir.


Dalmo cobra o pênalti do título, o time dá a volta olímpica e, no vestiário, Pelé agradece a Almir.

Há 47 anos, em um sábado à noite, no Maracanã, o Santos se tornou o primeiro bicampeão mundial da história do futebol ao bater o Milan, campeão europeu, por 1 a 0. Dois dias antes, na virada mais importante e espetacular do futebol brasileiro, os santistas transformaram em 4 a 2 uma derrota parcial de 2 a 0 no primeiro tempo, devolvendo o mesmo marcador com que haviam perdido em Milão.

Ainda sem os titulares Pelé, Calvet e Zito, que, machucados, já não tinham podido jogar na segunda partida, o Santos entrou em campo com Gylmar, Ismael, Mauro, Haroldo e Damo; Lima e Mengálvio; Dorval, Almir, Coutinho e Pepe.

Como dois dias antes, o Maracanã estava superlotado. Oficialmente, pagaram ingressos 120.421 pessoas, mas testemunhas afirmam que o estádio tinha cerca de 200 mil pessoas. Depois de perder a final da Copa de 1950, 13 anos antes, o maior estádio do mundo poderia ver o futebol brasileiro reinar naquela noite em que a classe santista seria substituída pela raça de onze guerreiros comandados por Almir Albuquerque.

Volte no tempo e acompanhe a decisão do Mundial Interclubes de 1963. Para contar como foi a partida, recorro a um capítulo do livro Na Raça!, que escrevi para a Editora Realejo e foi lançado em 2008.

Primeiro Tempo

A expectativa pela decisão do título Mundial Interclubes é enorme. Até o presidente do Brasil, João Goulart, não se nega a dar seu palpite para o jogo: 3 a 1 para o Santos é o seu prognóstico.

Um estrondo digno da era atômica – assim o jornal A Gazeta Esportiva descreve o barulho provocado pelos fogos de artifício e pelos gritos da torcida quando o Santos entra em campo.

Exatamente às 21 horas (de Brasília) Lodetti, o camisa oito do Milan, inicia a partida decisiva do Mundial Interclubes de 1963 tocando para Mazzola. O primeiro ataque do campeão europeu é perigoso. Mora penetra pela direita, passa por Dalmo e é combatido por Mengálvio, que joga para escanteio.

Aos cinco minutos, Dorval toca para Coutinho, que é cercado por Trapattoni. Ao tentar recuar para Ismael, o centroavante santista faz um passe curto que é interceptado por Amarildo. Este avança e ao tentar chutar a gol é prensado por Dalmo, que alivia o perigo.

Um minuto depois, Pepe cobra uma falta e a bola, rebatida por Balzarini, sobra para Almir. Ao tentar o chute, o atacante brasileiro acerta a cabeça do goleiro, que começa a sangrar (a partir daí Balzarini jogaria com a cabeça enfaixada, e seria substituído ao final do primeiro tempo). Maldini se revolta e vai pra cima de Almir, que ergue os braços, alegando inocência. Os italianos partem para a briga. Junto à linha de fundo, Pellagalli agride Coutinho. Mauro vem correndo e entra no bolo. Pela TV Record, o locutor Raul Tabajara diz: Vejam o clássico zagueiro santista, que dizem jogar com luvas de pelica, sair em defesa de seus companheiros. Repórteres e policiais invadem o campo e a área do Milan se transforma em um pandemônio. O ponta Mora vai ao chão, agredido não se sabe por quem.

Aos sete minutos, Maldini comete falta em Almir, mas, descontrolado, não gosta quando Juan Brozzi marca a inflação e o encara, dando-lhe uma peitada.

O Santos é mais ofensivo. Aos 18 minutos Coutinho tabela com Almir, a bola desvia em Trapattoni e sobra para Lima, na meia-direita, próximo à entrada da grande área. O santista atira rasteiro, Balzarini não pega e a bola passa raspando a trave.

O bicampeão sul-americano prossegue tentando o gol. Aos 27 minutos Coutinho recebe de Lima e passa na esquerda para Almir. Mesmo pressionado por Pellagalli, o atacante santista corre em direção à linha de fundo e chuta cruzado, obrigando Balzarini a uma defesa acrobática.

A defesa do Santos só assiste a partida, que se desenrola no campo do adversário. O Santos toca de pé em pé e o Milan se encolhe na defesa.

Aos 30 minutos, Lima centra para a área. A bola vai em direção de Almir. Trebbi escorrega ao tentar cortar o passe e o desesperado Maldini, quando busca chutar para a frente, acerta a cabeça de Almir, que cai rolando no gramado. Juan Brozzi marca pênalti, para revolta geral dos italianos, que o cercam, enfurecidos. Sobre o lance, Almir escreveu assim em seu livro “Eu e o futebol”: Lima fez um cruzamento alto. Eu estava mais ou menos ali pela marca do pênalti. Ia chegar um pouco atrasado na bola, mas tinha de tentar, tinha de acreditar em mim. Vi quando Maldini, desesperado, levantou o pé, tentando cortar o lançamento. Eu tinha de dar tudo ali naquele lance: meter a cabeça para levar um pontapé de Maldini, correr o risco de uma contusão grave, ficar cego, até mesmo morrer, porque o italiano vinha com vontade. Agora era ele ou eu. Meti a cabeça, Maldini enfiou o pé, eu rolei de dor pelo chão. O argentino não conversou: pênalti.

O jogo fica interrompido por cerca de quatro minutos. Os italianos protestam, tiram a bola da marca do pênalti. Maldini, que segundo Almir, parecia “enlouquecido”, ofende o árbitro e tenta agredi-lo, sendo expulso. Revoltado, o capitão do Milan só abandona o gramado com a intervenção dos policiais, com os quais discute também. Outros jogadores do Milan ameaçam abandonar o campo. A torcida vaia os italianos.

O campo é invadido por repórteres, fotógrafos e policiais. Os italianos tinham tentado impedir que repórteres e fotógrafos acompanhassem o jogo de dentro do campo, mas o vice-presidente do Santos, Modesto Roma, disse que no Brasil mandavam os brasileiros. Nossa imprensa sempre teve toda a liberdade para trabalhar e não vamos tirá-la agora, disse o dirigente santista em uma reunião anterior com dirigentes do Milan e representantes da Confederação Sul-americana, realizada no Hotel Glória.

Em meio ao tumulto, Dalmo se aproxima de Pepe, diz que está confiante e pede para cobrar o pênalti. Pepe, que seria o cobrador natural, percebe que o companheiro realmente está decidido e cede ao lateral aquele que seria o seu maior momento na história do futebol.

Gol do Santos. 1 a 0. Dalmo

Aos 34 minutos, o lateral-esquerdo Dalmo aproxima-se da bola para cobrar a penalidade, mas interrompe o movimento do chute ao perceber que Balzarini adiantou-se tanto a ponto de pisar quase na risca da pequena área. O árbitro admoesta o arqueiro italiano e pede que ele volte à sua posição inicial. Novo apito e desta vez Dalmo bate de pé direito, rasteiro, no canto esquerdo. O goleiro pula no canto certo e quase chega a tocar na bola, mas esta morre no fundo do gol.

Depois, Dalmo descreveria os momentos que antecederam o gol: Era um barulho ensurdecedor, aquele povo todo gritando. Houve um desentendimento. Quando eu ia bater, dava a paradinha, (sou o inventor da paradinha), e o goleiro se adiantava. O árbitro mandou que eu não fizesse a paradinha e que o goleiro não se adiantasse. Fui frio e calculista, pois estava acostumado a cobrar pênaltis nos outros clubes em que joguei. Quando corri para a bola, o estádio silenciou. Mas já estava decidido. Bati no canto esquerdo do goleiro, rasteiro e fiz o gol.

O Alvinegro Praiano se anima com a vantagem e continua melhor do que o Milan, que parece atordoado. Aos 40 minutos o Santos tem um gol anulado. Em casa, assistindo pela TV Record, percebo que ao saltarem para tentar aproveitar um cruzamento na área italiana, Mengálvio e Coutinho fazem falta no goleiro. A bola sobra para Coutinho, que chuta para as redes, mas o gol é invalidado e os santistas não reclamam.

Aos 43 minutos, Balzarini cai no gramado e pede atendimento médico. O sangue escorre por seu rosto. Sem condição para continuar, o goleiro é substituído pelo reserva Barlucci.

Um gesto de elegância em meio ao clima hostil da partida: aos 46 minutos Dalmo joga a bola pela lateral para que Fortunato, caído, seja atendido.

Oito minutos além do tempo regulamentar, Amarildo dá uma entrada forte em Ismael, que parte para cima do atacante do Milan e lhe desfere uma cabeçada. Amarildo cai, exagerando, e Juan Brozzi expulsa o jogador do Santos. Profundamente arrependido, Ismael sai de campo acompanhado por Coutinho e, aos prantos, é recebido pelo massagista Macedo, que o acompanha até o túnel.

Juan Brozzi dá onze minutos de descontos. Ao final do primeiro tempo, os milaneses saem de campo vaiados, enquanto os santistas são aplaudidos.

Segundo Tempo

Às 22h45m Coutinho dá a saída.

O clima é tenso os jogadores pegam pesado. Almir é o primeiro a ir ao chão. Antes de se completar três minutos de jogo, Haroldo dá uma entrada violenta em Amarildo.

Aos sete minutos, Almir dá um belo drible em Trapattoni e segue em direção à área italiana. Já batido, o zagueiro italiano apela e derruba acintosamente o brasileiro, merecendo apenas uma bronca do árbitro.

Aos 10 minutos percebe-se que o Milan, mesmo sem criar lances de perigo, está jogando melhor. Dalmo e Haroldo erram passes e quebram a evolução do time, que não consegue atacar.

Mas o Santos se reapruma e aos 14 minutos Almir tenta escapar pela direita e sofre falta de Trapatoni. Pepe cobra, a bola passa pela barreira, mas Barlucci agarra firme, quando Haroldo já estava pronto para aproveitar um possível rebote.

Aos 20 minutos o Santos tem uma chance de ouro de ampliar o marcador. Após receber excelente passe de Haroldo, Lima surge livre na frente de Barlucci. Mas o meia santista demora muito para atirar e, quando o faz, o goleiro, que já fechou o ângulo, salta para espalmar para escanteio, numa grande defesa.

Na seqüência da jogada, Pepe cobra o escanteio e Coutinho cabeceia, encobrindo Barlucci. A bola vai entrando, mas Benitez consegue salvar.

Aos 24 minutos Almir corre e evita a saída de bola pela linha de fundo. Trapattoni vem marcá-lo e o atacante brasileiro usa o corpo para proteger a bola. Sem ter como desarmar o santista, Trapattoni o derruba, cometendo falta.

A 15 minutos para terminar a partida, o Santos segue sem dar oportunidades ao campeão europeu. Com a expulsão de Ismael, o ponta Dorval recuou para a lateral-direita e conseguiu anular Fortunato, o bom atacante do Milan.

A primeira grande oportunidade do Milan surge aos 32 minutos, quando Fortunato passa por Haroldo e cruza para a direita. Mora vem na corrida, domina a bola e penetra livre. Na hora de concluir, entretanto, entorta o chute e a bola sai à esquerda da meta de Gilmar.

As coisas começam a se complicar para o Santos com as contusões de Almir e Pepe (à época só eram permitidas substituições de goleiros). O substituto de Pelé, de tanto correr e levar pancadas, sente uma contusão na coxa direita e passa a jogar com uma cinta elástica, deslocando-se para a extrema direita. Minutos depois, Almir cai e em seguida aparece com duas cintas, uma em cada coxa. Pepe também manquitola e é atendido pelo massagista Macedo. O Santos está em frangalhos e o Milan vem para cima.

Aos 37 minutos Mazzola perde ótima oportunidade para empatar. Após receber de Amarildo, na posição de meia-esquerda, ele avança livre e chuta, mas a bola sai.

Mesmo sem poder andar direito, Almir continua lutando como um leão. Aos 43 minutos ele acerta bom passe em profundidade para Pepe, que sofre falta de Pellagali na entrada da área. O mesmo Pepe cobra a falta e obriga Barlucci a grande defesa, jogando a bola para escanteio.

O final da partida é de pressão total do Milan. Aos 44 minutos Mora avança pela direita, passa por Dalmo e cruza rasteiro para Amarildo. Mas Gilmar se antecipa e agarra firme.

A impressão que se tem é que se o Milan empatar, o estropiado Santos não terá forças para buscar a vitória e o título na prorrogação. Os italianos ainda estão inteiros, enquanto os santistas capengam pelo campo, tentando suportar de todas as formas a pressão do adversário.

Quando Juan Brozzi apita, assinalando o final da partida, os jogadores do Milan saem correndo do campo em direção aos vestiários, sem cumprimentar os santistas ou dar entrevistas aos repórteres, o que era usual à época. Percebia-se, entretanto, que protestavam contra a atuação do árbitro. Na verdade, durante todo o jogo tinham sido insuflados contra a arbitragem pelo seu técnico, o argentino Luiz Carniglia. Dos vestiários, foram direto para o Aeroporto Internacional do Galeão.

Os jogadores do Santos, por sua vez, recebem o apito final do árbitro com alívio e alegria. Pulam, carregam Almir nos braços, enquanto Ismael, que voltou a campo ainda de calção, mas sem meias, chora copiosamente. Lima, Coutinho e Haroldo caminham aos saltos. Organiza-se uma volta olímpica. O Santos parece um exército Brancaleone. Alguns jogadores mancam, outros estão semchuteiras. Todos erguem as mãos para o público, agradecendo o comovente apoio nos dois jogos.

O capitão Mauro Ramos de Oliveira é convocado para subir à tribuna de honra e receber a taça de campeão mundial interclubes das mãos de Raul Colombo, presidente da Confederação Sul-americana de Futebol. O estádio rompe em aplausos. Em menos de um ano e meio o elegante zagueiro santista erguia duas taças de campeão do mundo (a primeira pela Seleção Brasileira, no Chile, em 17 de junho de 1962).

Almir Albuquerque, o Almir Pernambuquinho, descreveu esse momento em seu livro: Eu ouvia o público gritar meu nome num coro que tomava o Maracanã de ponta a ponta: – Al-mir! Al-mir! Àquela altura eu não tinha condições de fazer a volta olímpica, com os demais jogadores. Estava no bagaço, de tão massacrado. Dei muita pancada, mas também apanhei demais. Saí do campo capengando, me arrastando, não agüentava de tanto cansaço. Fiquei um tempão na banheira térmica do vestiário… Nós estávamos hospedados na concentração do próprio Maracanã. Várias vezes os jogadores tiveram de chegar à janela para acenar à multidão, ali em frente à rampa das arquibancadas. O povo dançava acompanhando a marcação do surdo com um coco que alternava duas palavaras: – Al-mir! Bicampeão! Al-mir! Bicampeão! Quase arrastado por seu Moran, cheguei á janela: houve um delírio ali diante do lugar onde o Santos mandou colocar uma placa à homenagem à torcida carioca. Eu tinha me comportado como um marginal? Para o povo, ali, e para a imprensa, no dia seguinte, eu era um herói. Eu, Almir Morais Albuquerque, apenas havia aplicado o que o futebol me ensinou.

A placa foi mesmo encomendada pela diretoria santista e colocada na entrada das arquibancadas do Maracanã. Ela dizia: Às palmas dos cariocas, o coração do Santos Football Club. Os cariocas elegaram o triunfo santista como uma vitória deles também, uma vitória do Brasil. Há três anos a capital da nação havia se mudado para Brasília, mas a verdade é que o Rio de Janeiro ainda se sentia o coração do País. A vitória do Santos era a vitória da raça brasileira. A imprensa nacional se colocou ao Santos do Santos cem por cento. O time se sentiu amparado por ela nas 72 horas martirizantes que decidiram o Mundial de 1963.

O mais inflamado de todos era o locutor da Rádio Globo Valdir Amaral. Ele, que dramatizou ainda mais os últimos minutos de jogo com seu bordão “o relóóógio maarcaaa” agora discursava apoteoticamente, num som metálico que reverberava entre a multidão que abandonava o Maracanã com a alma lavada: Esse maravilhoso Santos deu ao Brasil, a mim, a você, senhor, ao País, a glória imensa de ser bicampeão do mundo! Transcendemos como nação!.

Naquela noite o Santos e a imprensa carioca fizeram o brasileiro acreditar que vivia no maior país do mundo: o maior estádio, o maior futebol, Pelé, o Carnaval, Copacabana… O milagre do futebol se espalhou pelas pessoas. O Santos não pertencia mais a ele mesmo.

Veja agora um vídeo sobre as finais do Mundial de 1963. Há mais cenas do jogo na Itália, em Milão, em que o Milan venceu por 4 a 2 e Amarildo disse que era melhor do que Pelé. No final do filme vê-se o pênalti cobrado por Dalmo. Repare que é como o milésimo de Pelé: de chapa, rasteiro e no canto esquerdo do goleiro.

O que você sabia deste Mundial de 1963? Tem alguma lembrança?


Duas histórias sobre Pelé

Ao pesquisar para o livro Time dos Sonhos, na busca de histórias de Pelé que ainda não tivessem sido contadas, me deparei com uma do zagueiro Maneco, que foi assistir a um treino na Vila Belmiro e teve a fortuna de ser contratado pelo Santos, no início dos anos 60.

Maneco recorda que na época ganhava-se mais sendo reserva no Santos do que titular na maioria dos grandes times brasileiros. Mas não era fácil treinar contra Pelé e Coutinho. “Eu saía exausto, morto, e eles assoviando, como se nada tivesse acontecido. Jogavam como se estivessem brincando”.

Pelé já era considerado o melhor jogador do mundo e numa tarde o treino foi visitado por uma equipe de tevê da França que queria gravar algumas jogadas geniais do rei. Conversaram com Pelé, que se dirigiu a Maneco antes de um escanteio.

“O crioulo me pediu para não encostar nele, pois daria uma bicicleta. Veio a bola e ele pumba, caixa! O Laércio, que não gostava de perder nem no palitinho, ficou louco comigo. Expliquei que era para a filmagem e passou. Mais algum tempo, outra bola na área e o negão acerta outra bicicleta. O Laércio saiu do gol esbravejando e perguntando quando ia terminar a filmagem. Mas a equipe de tevê já tinha ido embora. Aquilo foi gol no duro mesmo”, arremata Maneco, com um sorriso.

O amigo Lalá

O goleiro Lalá, paranaense da Lapa, que jogou no Ferroviário (hoje Paraná) e veio para o Santos trazido por Ferreira, campeão paulista de 1935, fez parte do elenco santista de 1959 a 61 e quando parou, a exemplo de boa parte dos ex-jogadores do Santos, preferiu ficar na cidade, onde seu posto de gasolina (hoje loja de esportes) se tornou um ponto de encontro dos veteranos santistas. Bem falante, ele lembrou duas façanhas de Pelé que a tevê não mostrou: ambas na excursão à Europa em 1959.

“Tive sorte. Um mês depois de chegar, o Santos saiu em uma excursão que encantou o mundo. Fiquei no mesmo quarto do Pelé em Valência, onde o Santos iria decidir a Taça Teresa Herrera com o Botafogo – um timaço que tinha Nilton Santos, Garrincha, Didi, Zagalo. Era um tira-teima. Os dois times eram a base da Seleção Brasileira que tinha sido campeã do mundo. Saímos para passear na manhã do jogo e demos de cara com uma vitrine onde a taça estava exposta, com as medalhas para os jogadores. O Pelé disse: ‘hoje vou ganhar uma medalha dessas para você’. Mas, à noite, o jogo estava difícil, empatado”.

“Num escanteio cobrado pelo Garrincha, eu subi, encaixei a bola e ao cair esbarrei no Pelé. Então perguntei: ‘O que você está fazendo aqui, negão? Como é que a gente vai ganhar com você aqui na área?’. Ele não falou nada, só pediu a bola. Eu dei, ele saiu com ela, driblou todo mundo e fez o gol. O Santos ganhou por 4 a 1, foi o campeão e eu fiquei com a minha medalha”.

O mesmo Lalá conta que no Pentagonal do México de 1961, em Guadalajara, Pelé estava no banco de reservas, com uma tipóia, quando a própria torcida do América mexicano começou a pedir sua presença. O Lula perguntou para ele se dava e ele respondeu que podia tentar. O banco de reservas ficava perto da área do América (naquele tempo não era preciso entrar pelo meio de campo).

“O Pelé entrou sem aquecimento, massagem, nada. Pediu para o Dalmo segurar o lateral. Recebeu a bola ainda amarrando o calção, driblou o zagueiro e fez o gol. O América deu a saída, o Santos roubou e foi ao ataque, com ele e Coutinho tabelando. O lance acabou em escanteio, que Pepe cobrou, o Pelé subiu mais alto que todo mundo e marcou de novo. Em dois minutos o jogo estava decidido e a torcida começou a pedir para ele sair de campo” (o Santos venceu por 6 a 2).

Édson Arantes do Nascimento Meia-esquerda
Data e local de nascimento: 23/10/1940, em Três Corações/MG
Altura: 1,74m
Peso: 70 quilos
Chuteira nº: 39
Clubes que defendeu: Santos (de 1956 a 74) e Cosmos/NY (1975 a 77).
Jogos pela Seleção Brasileira: 114 (93 oficiais e 22 não oficiais).
Jogos na carreira: 1367.
Gols marcados na carreira: 1281, dos quais 1091 pelo Santos e 95 pela Seleção Brasileira.
Títulos mais importantes: Tricampeão mundial pela Seleção Brasileira em 1958/62/70, bicampeão mundial Interclubes e da Taça Libertadores da América em 1962/63, pentacampeão brasileiro em 1961/62/63/64/65, decacampeão paulista em 1958/60/61/62/64/65/67/68/69/73, campeão do Torneio Rio-São Paulo em 1959/63/64/66, campeão das Recopas Sul-Americana e Mundial e do Torneio Roberto Gomes Pedrosa em 1968.
Recordes: jogador que fez mais gols na história do futebol (1281); único a marcar em quatro Copas do Mundo (1958/62/66/70); único a ser 11 vezes artilheiro do Campeonato Paulista (1957/58/59/60/61/62/63/64/65/69/73); único a marcar mais de mil gols por um mesmo clube (1091, pelo Santos).
Família: Divorciado de Assíria Lemos Seixas, com quem teve gêmeos Joshua e Celeste, de 12 anos. Foi casado com Rosemary Cholby entre 1966 e 1978, com quem teve os filhos Kelly Cristina, 34 anos, e Édson Cholby do Nascimento (o Edinho, ex-goleiro do Santos), 31. Também é pai de Sandra Regina Machado Arantes do Nascimento, 37 anos, cuja paternidade foi reconhecida na Justiça, e…
Ocupação: Depois que parou de jogar passou a atuar como garoto-propaganda de diversos produtos (com exceção de cigarros e bebidas alcoólicas), foi executivo do grupo norte-americano Time Warner, Ministro dos Esportes do Brasil, diretor do Santos e empresário de múltiplas atividades à frente de sua empresa, a Pelé Sports & Marketing.

Uma frase sobre Pelé

“Quando a gente joga ao lado de um craque, sabe o que vai fazer. Um craque entende o outro. Mas Pelé não é só um craque, é um supercraque, chegou a um ponto onde ninguém encosta. Pelé é como uma cascavel: seus olhos estão saltados para fora, lhe dão uma percepção que nenhum outro jogador tem, nem nunca teve. Ninguém vê e sente o jogo melhor do que Pelé. Os sentidos dele penetram todos os mistérios do futebol: além de ver tudo, ele ouve o barulho e sente o cheiro dos jogadores se movimentando em campo. Por isso a gente tem a impressão de que ele vê o que está à frente e atrás” (Almir Albuquerque no seu livro “Eu e o futebol”).

Todo mundo tem uma frase ou uma história sobre Pelé. Qual é a sua?


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