Confesso que tive a tendência de brincar novamente com esse negócio de Robinho ter se tornado um crente fervoroso e criar um título tipo “Leiloa-se um homem de fé”. Porém, resisti à tentação, pois estaria sendo injusto com Robinho. Ele já fez muito pelo Santos. Não tenho e, acredito, nenhum santista tem, o direito de exigir que ele abra a mão de melhores condições de trabalho e de uma ótima remuneração para continuar em um clube que não está cumprindo as obrigações básicas com seus trabalhadores, que é pagar-lhes em dia, e é tão desorganizado que o presidente vai à Europa negociar algo que Robinho já tinha decidido por telefone.

Não sei por que o espanto de tantos santistas com a provável saída de Robinho. Era só prestar atenção nas entradas e saídas do caixa, desde o início desta temporada, para constatar que as contas não fechavam. O plano óbvio e rápido de faturamento, que seria uma campanha nacional para atrair associados, nem entrou no papel ainda; as arrecadações são pequenas, já que o Santos é dominado pela mentalidade de que “Coca-Cola é de Atlanta”; a falta de patrocínio máster completa seu segundo aniversário (se não dá para conseguir 30, 20, por que não fechar por 10 milhões ao ano, perguntou-me esta semana o grande santista dr. Victor Haddad, e eu não soube responder. Só sei que com 10 milhões na mão os pagamentos estariam em dia e Robinho talvez pudesse ficar).

Li em um comentário deste mesmo blog que “não dá para vender a Vila Belmiro para ficar com Robinho”. Concordo. Mas entendo a preocupação dos torcedores com a provável ausência do maior ídolo e do líder desta equipe. Sem ele, muitos temem, o Santos poderia até vir a brigar contra o rebaixamento. Acho que aí já seria exagero. Tática e tecnicamente, hoje considero Lucas Lima mais importante para o time do que Robinho.

Ele foi importante com sua alegria, sua fé, seu carisma, sua habilidade, inteligência e talento. Sem ele, talvez o Santos não fosse campeão paulista e não tivesse mostrado aos maledicentes que, quando o assunto é apenas futebol, sempre será um dos grandes. O problema é fora de campo. O problema é esta gestão assumir que um clube profissional de futebol, como o nome diz, tem de ser administrado com uma visão estritamente profissional. Não podemos exigir que Robinho seja amador.

A verdade é que o Santos, na situação financeira em que está, não pode pagar por um jogador ainda com mercado internacional e convocado para a Seleção Brasileira, como é o caso de Robinho. Os dirigentes do clube devem assumir essa realidade e trabalhar duramente, de cabeça aberta, sem preconceitos e bairrismos, para mudá-la.

Agora assista à entrevista de Robinho sobre o assunto e perceba, em suas frases, que ele demonstra descontentamento quando se refere à diretoria do Santos e, líder que é deste grupo de jogadores, condiciona sua permanência no clube à quitação de todos os atrasados do elenco. Fica evidente, nas entrelinhas, que ele está dando adeus ao amadorismo do Santos:

“Eu nem sabia que o presidente ia viajar. Quem sou eu para dizer o que o presidente tem que fazer. Ele sendo o presidente do Santos, sabe o que tem que fazer. A viagem do presidente, só ele tem que explicar.”

“O Santos vai ter a preferência, mas claro que o clube que fizer a maior proposta, vou analisar com carinho.”

“Sou profissional. O time que me fizer uma proposta melhor, vou procurar trabalhar da melhor maneira possível.”

“Primeiro a diretoria tem de acertar as pendências, não só comigo, mas com o grupo todo, e depois pensar em renovação.”

“Eu peço aquilo que o Santos pode pagar. Quando a gente volta da Europa, o engraçado é que os clubes pedem para a gente abaixar o salário, a gente abaixa, mas muitas vezes não recebe. Peço o que o clube pode pagar. Se não puder, sigo a minha vida.”

“Na minha vida, quero melhorar em tudo. Quero melhorar meu chute de pé direito, esquerdo, e, inclusive, o meu salário quero melhorar.”

Até que ponto Robinho fará falta ao Santos?