Robinho, um amor correspondido, o bom filho que volta à casa

Ontem falamos dos sentimentos aparentemente volúveis de Paulo Henrique Ganso, que anda dizendo por aí que jogaria normalmente nos rivais Corinthians, São Paulo e Palmeiras. Não deve ter falado por mal. Afinal de contas, vários jogadores já jogaram em mais de um time grande de São Paulo. Mas se ele soubesse como o torcedor se ofende com tanta falta de correspondência, ele ficaria quieto.

Sim, o termo é correspondência mesmo. Lembra da expressão: amar e ser correspondido? Pois é. Houve tempo em que tudo que um homem – e uma mulher – queriam na vida era amar e ser amado. O torcedor não é diferente.

Ele ama o seu time e não admite que o jogador que veste a camisa sagrada, que beija o distintivo, que comemora os gols e reclama das derrotas, um dia vai bandear para o lado do inimigo, como se fosse apenas um ator desempenhando um papel.

Por que será, que na enquete deste blog, estou ganhando disparado como o técnico do Santos? Por que sou um grande especialista, por que conheço mais de tática e fundamentos do que os outros técnicos citados? Não, porque eu entendo mais a alma do Santos e do santista, porque sofrerei cada derrota e me alegrarei com cada vitória como se ainda fosse um torcedor.

E porque ouviria a voz do torcedor antes de montar um elenco ou escalar um time. O torcedor é sábio. E essencial. O futebol existe por causa dele. Tudo gira em torno de sua paixão e de seu conhecimento de futebol – que não é pequeno. Ignorá-lo é cometer o maior erro que um técnico pode fazer.

Casos de amor e dor

Alguns dos grandes ídolos do Santos já vestiram outras camisas. Araken Patusca, filho de Sizino, o primeiro presidente do Alvinegro Praiano, jogou também no São Paulo, e com sucesso. Mas voltou para o Santos para ser campeão paulista em 1935.

Dorval, Formiga e César Sampaio jogaram no Palmeiras; Tite, João Paulo e Edu atuaram no Corinthians; Pagão e Pita no São Paulo… Alguns se adaptaram tão bem no outro clube que esqueceram o caminho de volta, como César Sampaio. Outros, porém, sofreram…

Testemunhas dizem que Pagão chorou no vestiário após a vitória de 4 a 1 do São Paulo sobre o Santos, em 1963. Era uma sensação estranha para ele jogar contra o time da sua cidade, que ele ajudou a se tornar o melhor do mundo.

Eu estava lá, em um Morumbi com mais de 100 mil pessoas dividido ao meio pelas duas torcidas, quando Edu tentou jogar pelo Corinthians e se arrastou em campo. Ao ser substituído, levou a maior vaia de sua vida. Fiquei com dó dele, mas a história tratou de apagar sua passagem pelo alvinegro paulistano. Edu é Santos, eternamente Santos.

Alguns jogadores, santistas quando crianças, deixaram de ser quando se tornaram profissionais e fizeram a fama em outros clubes. Sócrates, Careca, Enéas e Serginho Chulapa estão neste caso. Não sei onde li que, na infância, Kaká também era santista.

Bem, não importa. O que interessa é que não confirmaram a escolha. Com exceção de Serginho Chulapa, que é o maior artilheiro do São Paulo, mas gosta mesmo é do Santos. Do tricolor também veio o grande Mauro Ramos de Oliveira, zagueiro que sentiu o gosto de ser campeão no Santos.

Uma escolha para toda a vida

Hoje as pessoas amam menos, ou a obsessão pelas coisas práticas e materiais embotou a capacidade de amar? Talvez essa falta de amor à camisa que vemos nos jogadores de futebol reflita apenas o estado geral de falta de amor em que vivemos. Não tenho visto mais namorados apaixonados pelas esquinas, olhos brilhando de felicidade, rostos grudados, mãos juntas. O amor está em falta.

Um time faz milhões de pessoas se alegrarem e sofrerem unidas, mesmo que não se conheçam. Escolhemos um time para amar como escolhemos a pessoa com quem viveremos toda a nossa vida. Toda mesmo, porque nesta relação não há divórcio e só mesmo a morte – a nossa – poderá nos separar.

Porém, apesar da generosidade que transborda em seu coração, que perdoa as derrotas mais doídas e até mesmo o rebaixamento para a série B, o torcedor quer ser correspondido. Quer ver no seu ídolo alguém que chora e ri pelo time como ele, alguém com quem possa se identificar.

Isso é muito claro para mim. Se eu, que sou apenas um jornalista que escreve livros, já me sentiria estranho se fizesse algum trabalho para um clube rival, imagine o atleta do Santos, o herói que entra em campo para as batalhas de cada rodada… É duro para o torcedor ver, jogando contra, alguém que ele julgava para sempre do seu lado.

Amar o Santos, para mim, é ser fiel a este amor nas vitórias e nas derrotas, até que a morte. Também é ficar atento ao que pode ser feito para tornar o clube melhor e mais amado por mais pessoas.

E para você, amar o Santos é…?