Acordei com a entrevista de um tenista norte-americano na cabeça. Eu a li há uns 20 anos, provavelmente na revista Tennis americana, mas ainda é atual. O rapaz, que estava entre os 20 melhores do mundo, reclamava que ganhava menos dinheiro e tinha menos prestígio do que tenistas de outros países que estavam bem atrás dele no ranking. Como este caso é um exemplo bastante oportuno para ser comentado agora, em que se discute os prós e contras da ida de Neymar para a Europa, faço questão de lembra-lo.

O tenista reclamava que, mesmo estando no grupo seleto dos top twenty, estava atrás de outros quatro jogadores norte-americanos no ranking, e por isso não era requisitado pelo mercado publicitário dos Estados Unidos, que se baseia na valorização do chamado number one.

“A sociedade norte-americana se baseia no ideal de ser o primeiro, o número um. O mercado publicitário é a mesma coisa. As empresas não querem associar a sua imagem ao número dois, quanto mais ao número cinco”, reclamava ele, mais ou menos com essas palavras.

E o choroso atleta lembrava que o número um de países como Brasil e Índia ganhavam muito mais dinheiro e eram muito mais conhecidos e idolatrados do que ele, mesmo mal figurando entre os 100 mais bem classificados do ranking. Isso era mesmo verdade, pois, à época, os melhores do Brasil eram Luiz Mattar e Jaime Oncins, idolatrados por aqui, presentes em várias campanhas publicitárias, que, no entanto, ocupavam posições próximas do número 80 no ranking da Associação dos Tenistas Profissionais.

O culto ao número um não é só um fenômeno norte-americano. É mundial, é típico de países capitalistas e, por conseguinte, marcante também na sociedade brasileira. Aqui Neymar sempre será o primeiro a ser lembrado para divulgar empresas, produtos, eventos. Aqui ele alcançou o status de number one. Lá estará saindo, na melhor das hipóteses, da terceira posição, para tentar ultrapassar os já lendários – e europeus – Lionel Messi e Cristiano Ronaldo (não me diga que Messi é argentino, por favor. Ele só nasceu na Argentina, mas foi criado, educado e pensa como um cidadão de Barcelona).

O desafio é ir, ou ficar?

Muitos defendem que Neymar não pode se furtar ao desafio de ir à Europa e provar que pode ser o número um do mundo. Pois eu penso exatamente o contrário. O desafio é ficar e quebrar o paradigma, ter coragem de dizer não às aparentes vantagens oferecidas pelo futebol europeu e se consolidar como ídolo e líder do futebol brasileiro e sul-americano.

Ser mais um famoso, ou meio-famoso, na Europa, é fácil. Não requer mérito ou qualquer qualidade moral. É só balançar a cabeça, como um cordeirinho, ao dinheiro que lhe esfregam na fuça. É só seguir o roteiro pré-estabelecido por seu agente, pelos donos do futebol e pela banda baba-ovo da limitada imprensa esportiva brasileira.

O mérito está em escolher o próprio caminho, dar um exemplo que ficará para a história e começará a mudar a estrutura do futebol mundial. E quando se pode fazer isso e não correr nenhum risco de se morrer na miséria – sorte que, infelizmente, já tiveram muitos dos craques que fizeram a fama do nosso futebol –, por que não faze-lo?

Claro que é uma questão dos valores de cada um. Estivesse eu no lugar de Neymar, não iria de forma alguma para a Europa antes da Copa de 2014. E talvez não fosse nunca, como jogador. Passaria muitas férias lá, claro, voltaria muitas vezes a Paris, compraria até um castelo em Portugal ou na Escócia, mas não jogaria em clube algum de lá, não exporia minhas canelas à sanha dos zagueiros e nem correria o risco de ser discriminado pela cor da minha pele, ou pela carapinha de meu cabelo.

E quanto mais dinheiro me oferecessem para deixar o Brasil, mais prazer eu teria de responder com um prazeroso NÃO! Já pensou que maravilha?! Pois se há algo que todo o dinheiro do mundo do futebol não pode comprar, é a personalidade de um jogador realmente acima de todos os outros. E a grandeza, reafirmo, não se mede pelos dígitos dos salários, mas pelo poder de escolher o próprio caminho.

Os exemplos de Teófilo Stevenson e Felix Savón

O cubano Teófilo Stevenson, que conheci nos Jogos Pan-americanos de Porto Rico, em 1979, foi o maior pugilista amador de sua época. Tricampeão mundial e tricampeão olímpico, o peso pesado Stevenson abandonaria o boxe invicto e com o rosto intacto. Antes, porém, seria convidado para o maior desafio do século: um combate contra Muhhamad Ali, que eu prefiro chamar pelo nome antigo de Cassius Clay, o campeão do mundo do boxe profissional.

Ofereceram a Stevenson uma bolsa de cinco milhões de dólares para enfrentar Ali – uma fortuna incalculável para a época, que lhe garantiria uma vida de luxo e fartura. Porém, ao aceitar o dinheiro e fazer o combate, Stevenson decepcionaria o povo e o regime comunista cubano, e, de ídolo, passaria a ser visto como mais um que se vendeu ao capitalismo.

Sua resposta aos homens que comandavam o obscuro mundo do boxe profissional não tardou: “Prefiro continuar amado por cinco milhões de cubanos do que ganhar cinco milhões de dólares”, disse ele, com a mesma altivez com que subia aos ringues para enfrentar adversários de todas as nações.

Hoje Stevenson vive em Cuba, feliz e saudável, e continua amado por seu povo. Tem um cargo no governo e sabe que deixou o nome na história cubana. Se tivesse aceitado os milhões de dólares para enfrentar Ali, provavelmente seria mais um dos cubanos exilados em Miami, caminhando para uma velhice sem reconhecimento ou carinho.

O exemplo de Stevenson foi seguido por seu compatriota Félix Savon, hexacampeão mundial e tricampeão olímpico entre 1992 e 2000. Mesmo insistentemente assediado pelo boxe profissional, Savon também preferiu continuar no seu país.

“Muita gente tentou me tirar de Cuba”, diz ele. “Ofereciam milhões de dólares, mas não aceitei. Eu já sou milionário, com os milhões de cubanos que me apoiam. Sou um símbolo de Cuba”.

Sim, símbolos de um país e de um povo. Assim podem ser definidos Stevenson e Savon. E olhe que são exemplos radicais, pois Neymar, aos 19 anos, já ganhou mais do que os dois lendários pugilistas angariaram em toda a vida. Ou seja: não será preciso que o jovem craque brasileiro abra mão de ser milionário para se tornar um símbolo do Brasil. Basta que resolva ficar.

Aqui Neymar será mais útil

Há um outro detalhe essencial nessa história toda: aqui Neymar será muito mais útil à sociedade brasileira do que na Europa. Ao decidir ficar, ele dará uma demonstração de confiança no Brasil, se tornará um exemplo para milhões de jovens que vêem nele um espelho.

Por que é preciso ir embora? Por que se deve comemorar quando se consegue um passaporte comunitário para morar na Europa, ou o green card para viver nos Estados Unidos? O Brasil é apenas um lugar onde se nasce contra a vontade e deve ser abandonado o mais rápido possível?

Bem, nunca acreditei nisso. E não falo só da boca pra fora. Quanto Thiago recebeu proposta para estudar marketing e jogar tênis nos Estados Unidos, não concordei. Ele cursou em São Paulo a excelente Escola Superior de Propaganda e Marketing e hoje é um profissional muito mais engajado em nossa realidade, e por isso mais eficaz.

Aqui um ídolo carismático como Neymar pode ser extremamente útil em campanhas nacionais contra a violência, contra a direção irresponsável no trânsito e, principalmente, contra as drogas – este mal que devasta nossa juventude e nosso futuro. E é muito diferente fazer campanhas morando aqui e morando em Madrid ou Barcelona. Quem foi embora, esta é a imagem que fica, fugiu de sua responsabilidade como brasileiro e por isso perdeu a credibilidade, o peso de suas palavras.

Não acredito que viver no Brasil envolva muito mais riscos do que morar em qualquer outra nação. Não acredito que haja propostas “irrecusáveis” baseadas apenas em uma oferta maior de dinheiro. Não acredito, enfim, que ir embora de um país em que se pode ser tão útil, represente algum desafio. Ao contrário. O desafio é ficar, envolver-se no aprimoramento da sociedade brasileira, consolidar-se como um ídolo eterno do nosso futebol, quebrar o paradigma do futebol mundial e um dia ser reconhecido como o melhor jogador do mundo sem sair da América do Sul.

E para você, é importante Neymar ficar no Brasil? Por que?