Meus amigos, sei da necessidade das discussões jurídicas, mas às vezes elas me parecem pouco práticas. Ontem, na reunião do Conselho Deliberativo, perdemos um tempão para analisar a punição ao ex-conselheiro Ananias, aquele que fraudou a eleição. A resolução é que o homem será enquadrado em outro quesito, que poderá provocar sua expulsão do clube. Falaram até de “delação premiada”, para que ele tivesse imunidade para dizer quem o ajudou nessa fraude. Acho isso relevante, mas a questão vital para o Santos, no momento, é sua enorme dívida, que foi de quase 59 milhões de reais só no ano passado, o último da gestão Laor/Odílio; alcança 190 milhões apenas a curto prazo e chega a 400 milhões no total.

Não que não considere importante discutir o caso Ananias, que provocou nova data para a eleição e manchou o nome do clube, mas isso já passou e o pleito acabou sendo limpo e elegendo Modesto Roma. Vida que segue. O certo, agora, é que o nome do clube será muito mais manchado se, por falta de dinheiro, o Santos se apequenar. É preciso não só investigar as causas desse endividamento brutal, como implementar rapidamente medidas pra aumentar o faturamento que, ao menos, dará ao mercado a mensagem de que o Santos está iniciando o penoso caminho de sua recuperação.

Ficamos sabendo, pela explanação do Conselho Fiscal, que todas as despesas previstas para o ano passado estouraram desavergonhadamente sem que o Conselho Deliberativo fosse informado ou consultado. A presidência, do médico Odílio Rodrigues, escorada pelo Comitê Gestor, fez o que quis, quando e como quis. Os números são absurdos. Em alguns itens se chegou a 700% a mais do que se previa.

Na minha fala, lembrei que o grande dilema do Santos é a eterna luta entre amadorismo e profissionalismo. Quando a diretoria ouviu os jogadores e fez a semifinal da Copa do Brasil do ano passado, contra o Cruzeiro, na Vila Belmiro, perdeu, no mínimo, três milhões de reais, que viriam com o jogo no Morumbi, por exemplo. Robinho foi um dos líderes do movimento que pediu o jogo na Vila. Hoje ele fala que é “profissional”. Bem, ele está certo, mas quem deve ser mais profissional e pensar, primeiro, nas finanças do clube, é esta diretoria. Os jogadores são empregados contratados, não têm a obrigação de zelar pela estabilidade financeira da entidade.

Lembrei, ainda, que teria sido melhor fechar com um patrocinador máster por um valor menor, do que ficar dois anos sem nenhum. Se não dá por 30 milhões, que se feche por 25, 20, 15, 10. Se tivesse fechado por 10, o Santos teria 20 milhões hoje, que seriam decisivos para as necessidades emergenciais, ou já teriam impedido novos empréstimos.

A situação de busca de sócios também está parada. A CSU não ata e nem desata. Segundo depoimento da ouvidoria, em alguns casos o interessado tem de esperar dois meses para se filiar ao Santos. Outros clubes fazem isso na hora, pela Internet. A promessa é de que tudo mude no segundo semestre.

Dentre as muitas vezes em que se manifestou, o presidente Modesto Roma disse algo bem interessante: destacou, em alto e bom som, que será demitido sumariamente o profissional do departamento de futebol que exigir aos jogadores em vias de serem contratados que apresentem um empresário. Como se sabe, o empresário facilita as negociações por baixo do pano, que sempre oneram o clube mais do que o previsto.

O Goiás está dando o exemplo ao não aceitar mais negociações com empresários, esses intermediários que acabam inflacionando o já combalido mercado do futebol “profissional’ brasileiro. É uma atitude que deveria se espalhar aos demais clubes do País.

Por fim, quando meus cinco minutos já tinham se esgotado e o presidente da mesa Fernando Bonavides ameaçava cortar minha palavra, sugeri que o Santos recrutasse estudantes e fizesse uma enquete com os torcedores que vão aos seus jogos. Isso representaria o embrião de uma pesquisa para se saber quem somos nós, quem são os santistas que comparecem aos jogos do clube: idade, sexo, endereço, se sé sócio ou não, com que frequência vai aos jogos, o que faz com que vá ao estádio… Sem esse tipo de pesquisa fica impossível criar um plano de marketing eficiente.

Vejo a função do conselheiro do Santos bem parecida com a de um ombudsman. É evidente que somos santistas, torcedores, amadores, e queremos o melhor para o clube e para qualquer diretoria que o dirija. Mas temos a obrigação de apontar falhas e sugerir mudanças. Se seremos ouvidos ou não, é outra história que, infelizmente, não depende de nós. Mas ao menos temos de dizer o que tem de ser dito.

E você, o que achou disso tudo?