anderson silva
O brasileiro Anderson Silva, 38 anos, abandona a arena com a perna fraturada.

Vivemos tempos grosseiros, desrespeitosos, violentos. Tempos rudes. Há, por todos os lados, evidências de que a sociedade não está evoluindo para o caminho da justiça, da compreensão e da paz, como desejamos a cada Natal, a cada passagem de ano. O esporte, ou o que tem sido tratado como tal, é um retrato disso. A sordidez do nosso futebol, por exemplo, vai além dos campos.

Não me refiro apenas à corrupção das instituições, como o STJD, a Fifa, a CBF, a comissão de arbitragem e os dirigentes dos clubes. Refiro-me também à corrupção das pessoas, boa parte delas, que parecem ter perdido seu código interior de justiça, ética e moral.

Alguns meses antes de sua morte, estive no Rio com Armando Nogueira, o último dos grandes cronistas esportivos brasileiros, e ele me confidenciou, desanimado, que não tinha mais gosto de escrever sobre futebol, principalmente pela Internet, pois tudo era levado para a estreita visão clubística e os leitores, agressivos e mal educados, o ofendiam de todas as maneiras.

Armando era de um tempo romântico e muito mais elegante, em que a opinião dos leitores vinha por carta, com nome e endereço do signatário. Hoje os sites e blogs estão repletos de pseudônimos falsos, que se multiplicam com o único objetivo de ofender a instituições e pessoas. Sim, pois além de tudo, vivemos um tempo propício aos covardes.

Talvez por isso, pela carência de heróis realmente corajosos, esse tipo de luta vale-tudo, que vitimou o brasileiro Anderson Silva, tenha se tornado tão popular.

Há cinco décadas o público se divertia com a luta-livre, ou o telecatch, transmitido pela TV Excelsior, no qual mocinhos e bandidos faziam combates faz de conta que empolgavam a platéia. Os ídolos Ted Boy Marino, italiano de nascimento, mas naturalizado argentino, e Fantomas, cujo nome verdadeiro era Guerino Cicon, um marceneiro de Piracicaba de quase dois metros e mais de 100 quilos, contra os vilões Moicano, Cantinflas e Aquiles, em encontros históricos.

Eram lutas de mentirinha que, entretanto, envolviam riscos e exigiam dotes acrobáticos. Os golpes mais festejados eram as chaves de perna, as voadoras e, é claro, os socos na barriga ou no rosto. Só os bandidos usavam, ou melhor, fingiam usar, os cotovelos para ferir o adversário. Tratava-se de recurso tão ignóbil, tão reprovável, que o público, mesmo adorando a pancadaria, ficava indignado com tal artifício.

Hoje, nessa nova modalidade de luta que atrai milhões de olhares, um lutador pode se tornar campeão, famoso e milionário, desde que use bem os cotovelos para abrir avenidas nos supercílios dos rivais. E ao final, feliz, ainda explicará a técnica utilizada para destruir o rosto do oponente.

Diante da tevê, um público imenso, majoritariamente jovem, assiste a tudo sem grandes sobressaltos. Assim como uma barata resistente, que só poderá ser morta com doses cada vez mais poderosas de inseticida, as pessoas se tornaram insensíveis a pequenas violências. Para que sejam tocadas, é preciso mais sangue, mais terror, mais grosseria. Então, a tevê dá o que o telespectador quer.

A mesma Globo que desprezou o inspirador mundial de handebol feminino, escalou sua melhor equipe para trazer, de madrugada, o grande duelo de cotovelos e supercílios que no final só mostrou a constrangedora fragilidade do ser humano, em um evento patético que lembrou as derradeiras lutas do circo já decadente do Império Romano.

Seres humanos não foram feitos para sangrarem na frente da tevê. Não me diga que penso assim porque sou “velho”. Admito que comecei a ver tevê em uma época em que cada emissora tinha a sua orquestra, o seu corpo de baile e o noticiário jamais passava cenas reais de violência. Percebia-se uma preocupação de transmitir cultura e lapidar o caráter dos brasileiros.

Hoje, o que vale é o ibope, que se transforma em publicidade e daí vira dinheiro vivo. Se querem socos e pontapés, não perdem por esperar. A tevê assumiu a total amoralidade. O que gera lucro é bom, o que não gera, é ruim. Que a sociedade desenvolva seus valores sozinha, pois a tevê lavou suas mãos.

Porém, como tudo tem uma explicação, esse culto aparentemente repentino à violência não nasceu do nada. Para a Suzana, a atração popular por essas lutas que mancham de sangue os octódromos do mundo, pode ser explicada pela necessidade de as pessoas exorcizarem a violência que está dentro delas.

Concordo. O que não podemos, ou não devemos, fazer com os políticos e dirigentes do esporte, com motoristas que passam o sinal vermelho, com motoqueiros e ciclistas que cortam caminho pela calçada e com as pessoas que se expressam por meio de palavrões, os gladiadores modernos fazem por nós. É triste que tenha de ser assim. Mas é a dose de inseticida que nossa sociedade precisa para suportar as cotoveladas na cara que leva todos os dias.

Uma homenagem a Ted Boy Marino, o ídolo do telecatch, nascido em 8 de outubro de 1939, em Fuscaldo Marina, Itália, falecido em 27 de setembro de 2012, no Rio de Janeiro, aos 72 anos:

E pra você, por que essas lutas ficaram tão populares?