Tem gente criticando Neymar pelo incidente em Fortaleza. Alguns, como o ex-jogador Neto e o repórter André Plihal, escreveram que o craque do Santos está com “frescura” por se irritar com as faltas dos adversários.

Acho que democracia é bom, todos têm o direito de ter sua opinião, mas crítica tem limite. Há termos chulos, ofensivos, que parecem esconder alguma mágoa profunda. Sabe-se lá se nas pedaladas, chapéus e paradinhas o garoto já não machucou o coração de alguns desses críticos, apaixonados por outros clubes?

Além do mais, crítica exige bom senso. Neto foi um péssimo exemplo como jogador. Extremamente indisciplinado, fechou as portas em todos os clubes pelos quais passou – com exceção, talvez, do Corinthians. Ele tem o direito de analisar o desempenho técnico do Neymar, mas não é a pessoa mais indicada para julgá-lo como homem.

Na verdade, Neto, assim como outros jogadores-comentaristas, nem jornalista é. Está usurpando uma profissão, exercendo um cargo que exige diploma, que requer um mínimo conhecimento da língua portuguesa, de técnicas jornalísticas e de ética. É mais um que se vale desta época populista-boçal que predomina no País há oito anos, a começar pela presidência da República.

Além disso, como ex-jogador de alguma habilidade, Neto deveria saber que só quem não levou pontapés por trás, que não foi vítima de agressões premeditadas, é que acha normal os outros apanharem. Eu diria ao Neto e ao Plihal que pimenta no… ou melhor, nos olhos dos outros é colírio.

Digo isso porque depois que quebrei a perna duas vezes, fiquei com uma vontade um tanto homicida de pular na jugular de todo cara que me batia por trás, entrava de sola, dava cotovelada ou fazia qualquer coisa para me machucar, menos ir na bola.

Lembro que uma tarde no Hobby Interlagos, quando participava de uma pelada com a presença ilustre de Oswaldo Ponte Aérea, que jogou no Flamengo e fez um gol no Yustrich, protegia a bola quando o adversário chutou justo o joelho que eu já tinha operado. Contei até 20 e disse pro rapaz: “Chuta a bola, não o meu joelho”. Qual foi a resposta? “Ah, você fica ensebando aí…”.

Pois é. Porque o troglodita achou que eu estava “ensebando”, se julgou no direito de me chutar por trás, e no joelho. Sorte que não pegou de jeito. Claro que depois de uma agressão dessas, não há sangue que continue morno. Na primeira bola que sobrou no meio-campo, entrei pra rachar. Por sorte o rapaz pipocou, pois eu teria operado suas amídalas sem anestesia e, fatalmente, teria me arrependido depois.

Como conseqüência, evitei jogar futebol, mesmo no clube. O futebol é o único esporte no qual as pessoas se agridem e depois, se sobreviverem e não forem obrigadas a sair de ambulância, vão tomar cerveja e contar piadas sujas juntas. Parei com isso há muito tempo. Hoje analiso, mas tento me colocar no lugar do jogador, principalmente do jogador que tenta construir algo em campo.

Futebol é pra quem sabe jogar

Percebi um discurso machista e belicoso em todos que criticaram Neymar. É aquela velha história do “futebol é pra homem”, a eterna desculpa dos que não têm recursos, dos que querem vencer pela intimidação, dos limitados em todos os sentidos.

Desde Pelé os craques do Santos sofrem com a selvageria inimiga. A Pelé e Coutinho deram o conselho de revidar, e era o que faziam. Pelé chegou a quebrar a perna de quatro jogadores e nunca fugia do pau. Coutinho, coitado, já tinha os dois joelhos operados aos 24 anos. Pagão estava sempre quebrado. Edu, o Garrincha da ponta-esquerda, cansou de ser agredido por Pablo Furlan, a Besta Tricolor.

Com a geração de Juary, João Paulo, Pita e Nilton Batata não foi diferente, assim como com a de Diego e Robinho, sempre jurados por adversários maiores, mais fortes e menos capazes.

Acho que até por isso é que o santista elegeu Serginho Chulapa como um de seus maiores ídolos. Cansado de ver seus meninos bons de bola apanharem do começo ao fim das partidas, os torcedores do Santos vibravam ao ver o adversário arrepiar carreira diante do olhar esbugalhado de Serginho.

Mas a cultura do Santos não é essa, ou Domingos não teria sido demitido para virar ídolo no Grêmio e na Portuguesa. Se há um time que ainda cultua a arte do futebol, este é o que está sediado na lendária Vila Belmiro. Mas está cada vez mais difícil entrar no campo para, simplesmente, jogar futebol, um esporte repito, pré-histórico.

No basquete, falta intencional, mesmo um leve empurrão, é falta técnica e dá direito a dois lances livres e mais a posse de bola. Mesmo no boxe há regras rígidas. E sabe porque ele se chama nobre arte? Porque no início só os nobres praticavam. Era inglório se bater contra pessoas de classe social inferior.

No futebol pode-se agredir à vontade, pois tudo depende da visão e da interpretação do árbitro, que oscila a cada jogo e diante de cada adversário. E nobres, artistas, como Neymar, são obrigados a dividir o espaço com plebeus sanguinários, que na impossibilidade de criar algo belo e vistoso, passam o tempo todo destruindo as jogadas e os próprios adversários.

O Santos ganhou tudo no primeiro semestre, vamos dar a vez para outros. Chega de Meninos da Vila. Pau neles! Parece que é assim que funciona a cabeça de muita gente que trabalha com o futebol.

Vestem, por baixo do terno e da gravata, a camisa de seus clubes. São menos sinceros do que eu, que não escondo para que time torço. Mas não torço apenas por um time. Torço por uma cultura do futebol que privilegia a arte, o talento, o craque.

O Santos fez um esforço tremendo para manter no Brasil um dos raros craques que ainda nos dá a ilusão de torcer para um futebol cinco vezes campeão do mundo. E em troca Neymar é criticado, chamado de “fresco” – isso simplesmente por reagir às agressões constantes das quais é vítima. Olha, na boa, é óbvio que um rapaz de 18 anos ainda tem muito o que aprender na vida, e o fará. Mas ser homem não depende só de músculos. Depende muito mais de ética e educação, virtudes que Neymar tem de sobra e que talvez faltem a muitos dos que o criticam.

E você, o que acha das críticas ao Neymar?