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Sportv não aceitar a Unificação é um precedente muito perigoso

Renato Maurício Prado e André Rizek eram contra a Unificação mesmo sem ler o Dossiê. Agora lerão…

A participação no programa Redação Sportv de ontem me gerou duas reações ambíguas: primeiro, a felicidade de reencontrar queridos companheiros. A segunda, um misto de decepção e preocupação por constatar que a emissora não reconheceu a Unificação dos Títulos Brasileiros e continua discriminando os campeões do país de 1959 a 1970.

Temo que o longo e exaustivo trabalho para esclarecer a CBF tenha de ser recomeçado agora, desta vez para ilustrar os jornalistas do Sportv e de outros veículos de comunicação, que teimam em fechar os olhos para a rica história do futebol brasileiro e já têm uma opinião formada sobre o caso, mesmo sem estarem devidamente informados.

O engraçado é que mesmo a tão criticada CBF colocou três de seus departamentos para analisar e dissecar o Dossiê: o técnico, o histórico e o jurídico. Antes de um veredicto, alisaram os documentos escritos, as fotos e os testemunhos coletados. Cheguei a ser requisitado pelo departamento jurídico da CBF para explicar alguns pontos do Dossiê. E o fiz com fatos irrefutáveis. Daí veio o tão aguardado Reconhecimento.

Agora, fico sabendo que a principal equipe de esportes de canais por assinatura do País se reuniu em um dia qualquer e, sem ler o Dossiê e sem fazer qualquer consulta aos seus autores – eu e o amigo José Carlos Peres – decidiu que, para ela, apesar da decisão da CBF, que foi considerada “política”, tudo continuará como antes, ou seja: os campeões brasileiros só serão contados para o Sportv a partir de 1971 e de 1959 a 1970 serão considerados “campeões nacionais”.

Há tantos equívocos nessa infeliz decisão dos jornalistas do Sportv, que na estrutura normal de texto eu gastaria milhares de caracteres para discuti-la. Apelo, então, para o sistema de tópicos. Vejamos por que ela é falha e criou um precedente extremamente perigoso para a história do futebol brasileiro e para a própria credibilidade do Sportv e do jornalismo esportivo:

1 – Em primeiro lugar, isso não poderia ter sido decidido sem uma análise minuciosa do documento e, posso garantir, nenhum jornalista do Sportv adquiriu o Dossiê – que ontem presenteei a André Rizek e Renato Maurício Prado e nos próximos dias chegará às mãos do chefe de redação Paulo César Vasconcelos e ao gerente de eventos Mário Jorge Guimarães, nos quais deposito grandes esperanças de uma análise mais sensata…

2 – No mínimo eu ou José Carlos Peres, ou ambos, autores do Dossiê, deveríamos ter sido chamados para uma discussão com os colegas do Sportv. Uma decisão tão relevante para o esporte brasileiro, com graves conseqüências futuras para a história do nosso futebol, merecia um pouco mais de atenção. Não poderia ter sido tomada sem o conhecimento necessário dos fatos e dos argumentos.

3 – Uma das explicações que ouvi para a estranha decisão do Sportv, dita pelo Renato Maurício Prado, é de que a Unificação gerou o fato incomum, segundo ele, de se ter dois campeões brasileiros no mesmo ano. Ora, isso é explicado no Dossiê. Pena que ele não tenha lido. Em uma fase de transição de uma fórmula de competição para outra, infelizmente é normal termos dois campeões no mesmo ano. No próprio Rio de Janeiro, onde ele nasceu e onde fez e faz sua carreira de jornalista, isso aconteceu oito vezes. Por oito anos o Rio teve dois campeões na mesma temporada. O próprio Flamengo, time preferido do Renato, foi duas vezes campeão carioca no mesmo 1979. Duvido que ele tenha se esquecido disso. Em São Paulo tivemos dois campeões estaduais no mesmo ano 11 vezes e em Minas Gerais, outras três. No Rio-São Paulo ocorreu duas vezes, sendo que em 1966 nada menos do que quatro times dividiram o título. Portanto, os precedentes são fartos. Como se sabe, apenas um precedente pode justificar uma decisão jurídica, quanto mais quando se tratam de dezenas deles.

4 – Coerência. Essa foi a principal lição que aprendi como pesquisador do esporte, mais propriamente do futebol brasileiro. Não se pode criar uma tese para fatos esportivos, a não ser que esta seja calcada na coerência. O mesmo argumento que serve para um caso, deve servir para o outro, ou a tese se desmorona. Isso se aplica ao fato de se ter dois campeões no mesmo ano, assim como serve para a alegação de que o Torneio Roberto Gomes Pedrosa de 1967 não poderia dar o título de campeão brasileiro porque não foi organizado pela CBD, a maior entidade do futebol brasileiro à época. Ora, a Copa União, em 1987 e 1988, e a Copa João Havelange, em 2000, também não foram organizadas pela CBF, entidade que herdou o futebol da CBD. Por que estas três competições devem ser reconhecidas e o Roberto Gomes Pedrosa de 1967 não? Não há coerência e por isso a mesma regra não pode abarcar os dois acontecimentos.

5 – Se há uma entidade responsável, suas decisões devem ser acatadas. Ou teremos uma anarquia. Confesso que fiquei embasbacado quando o André Rizek disse, no ar, que assim como a equipe do Sportv decidiu que os campeões brasileiros só existirão a partir de 1971, também já tinha determinado que, para o canal, os campeões mundiais antes da organização deste torneio pela Fifa continuariam sendo reconhecidos pela emissora, independentemente das resoluções da própria Fifa. Então, eu pergunto: para que existem Fifa ou CBF, se o Sportv cria suas próprias leis e sua própria visão da história do futebol? E o pior: cria essas leis e esse ponto de vista embasado apenas na opinião formada de seus profissionais que, em boa parte dos casos, não se informam adequadamente antes de te-las?

6 – Sei que certas atitudes fazem parte do repertório mal humorado do Renato Maurício Prado, que eu conheço há muitos anos e de quem me considero amigo. Porém, sua atitude de, ao receber o Dossiê, dizer que o lerá, mas não mudará sua opinião, chocou muitos espectadores. Alguns reagiram neste blog, e com razão. De que adiantam os fatos e argumentos se os formadores de opinião do Sportv já têm aquela velha opinião formada sobre tudo?

Isso reforça em muitos torcedores a suspeita de que a antipatia do Sportv à Unificação se deve ao fato de a maioria de seus repórteres, narradores e comentaristas torcerem para times que não venceram a Taça Brasil ou o Torneio Roberto Gomes Pedrosa, casos de Flamengo, Corinthians, São Paulo e Vasco. Sei que parece absurdo imaginar que um profissional, que é contratado e pago para ser neutro, possa deixar a paixão clubística influenciar suas opiniões e decisões. Porém, além da cegueira da paixão, o que mais pode fazer alguém ter uma opinião formada sem estar bem informado?

7 – Precedente perigosíssimo. Se o exemplo do Sportv pega, e se cada veículo de comunicação criar regras próprias para avaliar os fatos esportivos segundo o humor – e a paixão – de seus jornalistas, então teremos uma grande bagunça. Cada um puxará a sardinha para o seu lado e não haverá consenso sobre nada. Alguém poderá instituir que erros crassos e confessos de arbitragem terão o dom de anular um campeonato e daí boa parte das competições nacionais iria para o ralo, pois o que não faltou na história do futebol brasileiro foi título conquistado de forma, digamos, duvidosa.

Assim, o caminho certo, civilizado e que enriqueceria os arquivos do nosso futebol é se fazer um estudo detalhado sobre o que se pretende alterar, juntar documentos, entrevistas, e apresentá-lo à entidade responsável – como, aliás, José Carlos Peres e eu fizemos. Pelo que percebi do contato com essas entidades, e ao contrário do que muitos imaginam, tanto a Fifa, como a Conmebol ou a CBF estão dispostas a analisar esses trabalhos – que podem ser chamados de Dossiês – e, se contiverem informações comprovadas e incontestáveis, certamente serão oficializados e deverão ser divulgados por todos.

8 – Para quem não acompanhou o trabalho ou as discussões, para os jornalistas que negligenciaram a sua própria profissão e não leram o Dossiê, eu lembro que ao final do livro está reproduzida a resolução da CBF. Ela, de número 03/ 2010, depois de considerar todas as causas, diz:

Art. 1º – Ficam reconhecidos como Campeões Brasileiros os clubes que venceram a disputa pela Taça Brasil de 1959 a 1968 e pelo Torneio Roberto Gomes Pedrosa / Taça de Prata entre 1967 e 1970… Revogam-se as disposições em contrário”.

Portanto, a Unificação é irrevogável. Não admiti-la e sem argumentos, só diminuirá a credibilidade do veículo de comunicação que proceder de forma tão arrogante. Eu confio que a TV Globo e o Sportv, tão importantes para a difusão do futebol no Brasil, revejam seus conceitos. Até porque, recentemente a emissora divulgou com alarde uma carta de intenções que fala de “isenção e correção”, qualidades que foram ignoradas no caso.

E você, acha que, ao lerem o Dossiê, os jornalistas do Sportv aceitarão a Unificação dos Títulos Brasileiros a partir de 1959, ou a questão não é só falta de conhecimento?


Olha só quem vai torcer pro Santos contra os europeus


Mas vê se não seca… (arte da www.semprepeixe)

Neste quinta, pela manhã, estarei com o André Rizek e o Renato Maurício Prado no Redação Sportv. Prestigie. Abraços!


Japão provou que esta vem sendo a Copa dos times, não das estrelas

Antes de Japão e Camarões o comentarista do Sportv, André Rizek, chamou-nos a atenção para Samuel Eto’o, que para o comentarista confirmaria sua condição de um dos melhores atacantes do mundo. Porém, quando a bola rolou, o que se viu foi um Japão mais aplicado e decidido, que chegou à vitória por 1 a 0, gol de Honda, ídolo do Japão bem menos badalado do que o craque camaronês – que, bem marcado, pouco fêz.

Por mais que o comentarista do Sportv tenha diminuído a atuação dos japoneses, depreciando a equipe e repetindo que ela veio a campo para praticar o “não-futebol”, a verdade é que em toda a partida o Japão foi um time melhor, ou menos ruim, do que o confuso Camarões.

Se colocar cinco jogadores no meio-campo é suficiente para tirar a superioridade técnica do adversário, então nenhum favorito conseguiria prevalecer. Mas não foi só isso que se viu. O Japão não só se defendeu melhor, como foi mais claro e objetivo no ataque.

Não podemos nos esquecer, ainda, de que esta foi a quarta partida entre estas equipes e até agora o Japão está invicto: ganhou três e empatou uma contra Camarões. Portanto, não dava mesmo para dizer que o time africano era favorito.

Confesso que imaginava a vitória de Camarões, menos pelos times e mais pelo clima desta Copa, a primeira disputada na África. Porém, o que tenho notado é que os técnicos europeus contratados para dirigir as seleções africanas não estão respeitando o instinto criativo e naturalmente ofensivo do futebol local.

É como colocar o sargentão Felipe Scolari para orientar o Santos. Ele já ia armar um time com 40 volantes, cismar com Neymar, André ou com o Ganso e até impedir as dancinhas depois dos gols. Quando as seleções africanas forem treinadas por africanos, certamente representarão de maneira mais fidedigna o espírito de seu povo.

Foi isso que o Japão fez: colocou um japonês, Takeshi Okada, para treinar sua equipe. E o homem ao menos sabe entender a alma do time e a personalidade de seus jogadores. Admitiu que marcaria Samuel Eto’o com dois ou três jogadores, se fosse preciso, e ao anular a principal arma de Camarões, equilibrou o jogo e ainda venceu. Palmas pro Okada, que entende até onde o jogador japonês pode chegar!

Não foi nenhum jogo maravilhoso, claro. Nenhum dos dois times apresentou um futebol digno da Série B do Campeonato Paulista. Depois de assistir a uma partida como esta é que constatamos o quanto o futebol estrangeiro é supervalorizado pelos jornalistas brasileiros – principalmente os mais jovens, que não tiveram contato com a fase áurea do futebol brasileiro.

Mas, como reconheceu Rizek, peladas como esta também fazem parte da Copa e servem até para valorizar as equipes mais técnicas e criativas. O que se pode constatar, mesmo assistindo a espetáculos sofríveis como este, é que no final acaba prevalecendo o jogo de conjunto, a melhor estrutura tática. Mesmo um grande jogador não conseguirá nada em uma equipe fraca e mal distribuída, que não consegue lhe proporcionar boas oportunidades.

Fiquei feliz com a vitória do Japão, pois, como quase todo paulistano, tenho amigos e companheiros na vibrante colônia nipônica de São Paulo. Agora espero o jogo da tarde com muita expectativa. Neste caso, mesmo tendo muito mais conhecidos de ascendência italiana, confesso que torcerei para nossos valentes irmãos paraguaios.

Espero que, mais do que defender-se bem, o que geralmente faz com eficiência, o Paraguai seja mais ousado contra os campeões do mundo. Não é impossível vencer a forte Itália, mas para isso é preciso que os paraguaios não duvidem um só minuto desta façanha. Mesmo sem craques famosos, como os rivais, os paraguaios têm um jogo solidário que pode fazer a diferença.

Será que estou delirando, ou é mesmo possível uma grande zebra logo mais?


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