king kong
Os povos civilizados sentem medo e ao mesmo tempo atração pelo que é diferente e poderoso, mas fazem questão de dominá-lo. Por isso não podiam deixar Neymar no Brasil – e nem King Kong na selva.

Como um troféu ganho depois de longa batalha, ou um animal raro de uma espécie que já se julgava extinta, Neymar foi exposto em praça pública, ou melhor, no coliseu do Barcelona, para delírio da turba catalã. Tal qual um exímio malabarista, teve de fazer embaixadinhas para demonstrar a excelsa habilidade. E para provar que já está civilizado, que se despiu dos hábitos e das ideias bárbaras do terceiro mundo, cortou o cabelo e assegurou que o seu sonho sempre foi jogar no Barça e que estava desembarcando na Espanha para ajudar o idolatrado Messi a continuar a ser o número um do mundo.

Graças a todos os deuses jamais precisei ouvir de Pelé que ele estava indo para a Europa para ajudar o argentino Di Stefano, astro do Real Madrid, a ser o número um do mundo. Os times mais extraordinários, a bola jogada como um sonho e o Rei do Futebol em carne e osso moravam aqui. O Brasil era o centro do universo. Parece mentira, mas eu vivi aquela época. De 1958 a 1970 o melhor futebol de todos os tempos vivia aqui, ao lado de nossas casas. Hoje, dos 20 jogadores mais destacados do planeta, só Neymar teimava em não ser conquistado pela Europa. Mas a resistência infelizmente acabou…

Os generais romanos tinham o hábito de, após uma vitória consagradora, desfilar pelas ruas da cidade com o comandante das tropas inimigas. Era como se dissessem ao povo: está vendo este que vocês temiam tanto, pois está aqui, preso, impotente, à nossa mercê. Isso é para que ninguém duvide de que é impossível resistir a Roma.

Imagino a alegria e o alivio dos líderes do futebol europeu ao testemunhar o grande ídolo sul-americano cativo, dócil, dizendo-se apaixonado pelo Barcelona. Que propaganda poderia ser mais poderosa para proclamar ao mundo que não há e não pode haver futebol a não ser na Europa?

E nossos tupiniquins de tanga aplaudem, embasbacados diante da tevê, sem alcance para perceber que ao comprarem Neymar os europeus compraram também a escassa arte sobrevivente de um futebol que já reinou entre os homens, e hoje se contenta em viver de migalhas.

Aníbal, o grande general cartaginês, preferiu o suicídio a servir de atração circense para os romanos. King Kong também escolheu a morte, e no lugar mais alto da capital do mundo. Bem, mas eram outros tempos, hoje as próprias pessoas se aprisionam sem perceber e ainda se dizem felizes por isso. De qualquer forma, um artista indomável não deveria se sujeitar à submissão. Pelé não seria chamado de Rei até hoje se um dia tivesse perdido a majestade.

E você, o quê achou da recepção do Barcelona para Neymar?