Inteligente e sensato como é, o presidente Luis Álvaro Ribeiro não satisfez o desejo ardoroso de muitos jornalistas-moralistas que pediam uma suspensão de Neymar por alguns jogos, “para botar a cabeça no lugar”. Laor sabia que agindo assim estaria punindo o Santos e os planos do time de chegar ao título brasileiro. O puxão de orelhas e a multa de R$ 54 mil estão de ótimo tamanho. Neymar é o principal jogador brasileiro do momento e, se quiserem passar pelo Santos, terão de fazer isso com ele em campo.

Se o presidente do Santos fosse o médico Antonio Guilherme Gonçalves, que comandou o clube de 1925 a 1931, provavelmente Neymar ganharia seis meses de férias. O doutor Antonio Gonçalves era tão zeloso com as questões da disciplina, que chegava a ser mais rigoroso com os jogadores santistas do que as entidades do esporte.

Graças ao doutor o Santos chegou a receber o epíteto de “campeão da técnica e da disciplina”, mas também se deve às suas atitudes rigorosas o fato de o clube não ser campeão paulista nenhuma vez de 1927 a 1931, quando teve um ataque irresistível e chegou a ser vice-campeão quatro vezes.

Como um pai irritantemente rígido e honesto, o doutor Gonçalves tinha o hábito de reservar aos jogadores mais famosos do Santos as penas mais rigorosas, o que acabava desfalcando o time justamente em seus compromissos mais importantes.

Suspensões a Siriri, Bilu, Araken…

Em um clássico com o Corinthians, na penúltima rodada do Campeonato Paulista de 1926, o atacante Siriri, nervoso com a atuação do árbitro e com a derrota (2 a 3), acabou desrespeitando o representante da Apea, o que foi o bastante para que o doutor Gonçalves suspendesse o ótimo atacante santista por seis meses.

Em setembro de 1929, Bilu e Siriri, sem pedir permissão à diretoria do Santos, jogaram pela equipe do Sul-América em um festival da LAF – Liga de Amadores de Foot-ball, à qual o Alvinegro Praiano não estava filiado. Ambos foram suspensos por seis meses. Araken escreveu uma carta à diretoria solidarizando-se com os companheiros e também foi suspenso, por três meses.

As penas dos três titulares absolutos só foram canceladas em novembro, depois que o Santos havia perdido para o Corinthians, em São Paulo, jogo no qual a vitória praticamente lhe daria o título, pois faria a última partida na Vila Belmiro contra o limitado Sílex – ao qual acabou goleando por 6 a 2.

Dos três suspensos, só Bilu continuou no clube. Siriri foi para o São Paulo e Araken, após passagem pelo Athlético Santista e Flamengo, também ingressou no São Paulo. Estava desfeito assim, pela própria diretoria do Santos, o mais temido ataque daqueles tempos: Siriri, Camarão, Feitiço, Araken e Evangelista.

Em 1927 o presidente do Santos suspendeu por seis meses o artilheiro Feitiço (foto) e o goleiro Tuffy. Consequência: o Santos perdeu um dos títulos mais ganhos de sua história e Tuffy não voltou mais, contratado pelo Corinthians.

O lichamento de Feitiço e a perda de Tuffy

O fato marcante, que fez o jornalista carioca Carlos Gonçalves batizar o Santos de “campeão da técnica e da disciplina”, foi a eliminação do artilheiro Feitiço e do goleiro Tuffy em novembro de 1927, após uma tumultuada decisão do Campeoanto Brasileiro entre as seleções Carioca e Paulista, em São Januário.

Faltavam 17 minutos para terminar a partida, empatada em 1 a 1, quando o árbitro Ari Amarante deu um pênalti para os cariocas, interpretando como mão na bola um toque de Bianco. Inconformados, os paulistas não queriam deixar que o pênalti fosse cobrado. Tuffy já tratara de mandar para as arquibancadas a bola que Amarante trouxera embaixo do braço e colocara na marca de cal. Feitiço e Amílcar peitavam o árbitro…

Nisso, o presidente da República, Washington Luís, enviou da tribuna de honra um ajudante de ordens que desceu ao campo com a incumbência de ordenar aos paulistas que deixassem cobrar o pênalti, para que a partida pudesse continuar.

“O excelentíssimo senhor presidente da República solicita aos paulistas que deixem a Seleção Carioca bater o pênalti”, teria dito o serviçal da presidência.

“Pois diga ao excelentíssimo senhor presidente que ele manda no Palácio do Catete, mas quem manda aqui no campo somos nós”, foi a resposta de Feitiço.

O estupefato ajudante de ordens voltou à tribuna de honra e repetiu as mesmas palavras do atacante, fazendo com que um surpreso e contrariado mandatário máximo da nação procurasse a porta da saída no mesmo instante.

Mas nisto, outro cartola entrou em campo, o doutor Antonio Gonçalves, que acumulava as presidências do Santos e da Associação Paulista de Esportes Atléticos, a Federação Paulista da época. Porém, por mais que se esforçasse para impor sua autoridade, chegando a trocar ofensas com Tuffy e Feitiço, a Seleção de São Paulo continuou irredutível em não deixar cobrar o pênalti.

Quanto o delegado de polícia, Olinto Cobra, temendo uma invasão de campo de conseqüências trágicas, deu um ultimato para que os paulistas permitissem aos cariocas cobrar a penalidade, a Seleção de São Paulo decidiu abandonar a partida. Só permaneceram em campo Heitor, Bianco e Evangelista, para ver Fortes empurrar, com cuidado, a bola para o gol vazio.

Ainda no vestiário o doutor Gonçalves disse aos jornalistas que “dois cafajestes do meu clube já estão eliminados: Tuffy e Feitiço”. Diante da gravidade da situação, vários sócios do Santos solicitaram uma assembléia geral, em Vila Belmiro, para tratar do assunto. Mais de 700 pessoas compareceram, na noite de 22 de novembro, ao debate que colocaria, cara a cara, o craque Feitiço e o dirigente ofendido.

“Reconheço ter procedido mal no Rio. Mas agi assim porque o juiz já deixara de punir duas faltas máximas contra o Rio de Janeiro e resolveu dar um penal que só ele viu. Foi aí que todos nós, jogadores, nos revoltamos”, disse Feitiço.

O bate-boca continuou, até que em certa altura o doutor Gonçalves deixou claro que não tinha a menor intenção de perdoar o artilheiro santista: “Senhor Luiz Matoso (este era o nome de Feitiço), a sua saída deste clube é uma felicidade que eu procurava há muito tempo”, esbravejou.

Quando o resultado da votação foi anunciado, às duas e meia da madrugada, não causou surpresa a ninguém: por 318 votos a 14, o artilheiro Luís Matoso e o goleiro Tuffy Neugen estavam eliminados do Santos Futebol Clube.

Sem eles, o Santos – que não perdera um ponto sequer nas 11 partidas anteriores – seria derrotado nos seus dois últimos jogos no Campeonato Paulista de 1927, e deixaria escapar sua maior oportunidade de conquistar seu primeiro título importante. Mesmo jogando pelo empate para ser campeão paulista de 1927, campeonato em que marcou 100 gols, média de 6,25 por partida, o Alvinegro foi derrotado pelo Palestra Itália, na Vila Belmiro, por 3 a 2, em uma atuação palestrina do árbitro Antonio Molinaro.

Feitiço, um atacante tão espetacular que seria artilheiro dos Campeonatos Paulistas de 1929, 30 e 31, só seria perdoado e voltaria ao Santos em julho de 1928. Quanto a Tuffy, foi contratado pelo Corinthians no período em que estava suspenso, e, grande goleiro que era, se tornou um ídolo no Parque São Jorge (o Santos teve a sorte de revelar, do segundo quadro, o também excelente Athiè Jorge Cury, que quase duas décadas depois se tornaria presidente do clube).

Aviso aos navegantes: Neymar vem aí

É óbvio que os interessados em ver o mal do Santos gostariam que a punição a Neymar fosse a suspensão. Pergunte a torcedores de Guarani, Corinthians, Cruzeiro, Vasco, Fluminense e Palmeiras, os próximos adversários do Alvinegro, se não acham que Neymar deveria ganhar um tempo de seis jogos para pôr a cabeça no lugar.

Do time do primeiro semestre já saíram três jogadores importantes para a Europa, e Paulo Henrique Ganso só voltará à equipe no ano que vem. Pois ainda querem que o Santos jogue sem Neymar? Ahhhhhh… Mamar na vaca ninguém quer, né?

Se tiverem de vencer o Santos, que vençam no campo, enfrentando o que de melhor o Alvinegro tem, e não usando o falso moralismo para desfalcar o time. Suspender jogador é reforçar os rivais, Luis Álvaro sabe disso. Felizmente os tempos do doutor Antonio Guilherme Gonçalves ficaram na pré-história do futebol.

Bem, esta é minha opinião, mas você pode discordar à vontade. Acha que a multa em dinheiro foi a melhor punição a Neymar, ou a suspensão seria o melhor castigo?