Os santistas não gostam de reclamar do árbitro porque estão mal acostumados. Quando o time está muito bem, como agora, costuma ser campeão apesar dos homens de preto. Mas, a bem da justiça e da verdade, não se pode deixar passar em branco não só a atuação de domingo, como o retrospecto deste árbitro Antonio Rogério Batista do Prado, que parece querer afastar dos nossos campos um dos raros e mais promissores craques do Brasil no momento, que é Neymar.

Confesso que minha experiência no futebol me faz, antes de cada partida, imaginar para que time o árbitro decidirá os lances “duvidosos”. Domingo, não há dúvida de que para “o bem do campeonato” era melhor o Santos perder. Uma derrota e o Palmeiras estaria vivendo o limbo da total obscuridade, enquanto o Santos dispararia na ponta. Bem, mas isso pode ser apenas impressão minha…

A verdade é que, com olhos que às vezes enxergam demais e às vezes não enxergam nada, sua senhoria não viu apenas falta para vermelho direto, mas também agressão na jogada do franzino Neymar contra o misto de jogador de futebol e lutador de mai-tai Pierre. Depois, colocou na súmula, que o santista, ao ser naturalmente surpreendido pela expulsão, teria dito “Vai tomar no cu, pô”.

Tudo bem. Vamos considerar a atuação do árbitro na partida e a situação do lance. Para o ex-árbitro da Federação Paulista de Futebol, Euclydes Zamperetti Fiori, que analisa o desempenho dos árbitros de São Paulo em um site especializado, no jogo Santos e Palmeiras o senhor Antonio Rogério Batista do Prado “cometeu falha na parte disciplinar ao deixar de marcar algumas faltas”.

Sim, o que é preciso lembrar é que coincidentemente Antonio Prado deixou de marcar a joelhada de Pierre em Neymar, o carrinho do mesmo Pierre em Paulo Henrique Ganso na jogada do terceiro gol do Santos (Pierre que, aliás, pintou e bordou e saiu de campo sem sequer cartão amarelo), interpretou como bola na mão um lance em que a bola era dirigida á área pequena do Palmeiras (pênalti que provavelmente elevaria a vantagem santista para 3 a 0) e fez vistas grossas e brandas a entradas muito mais violentas, dos palmeirenses, do que a de Neymar.

Quando o juiz vê tudo de um lado e não vê nada do outro, até um cara meio idiota já começa a desconfiar. Mas, para não ser injusto, fui procurar antecedentes deste Antonio Rogério Batista do Prado e me deparei com um rol de coincidências: além deste jogo de domingo, em outros dois clássicos – e olhe que não se trata de um árbitro de tantos clássicos assim – este mesmo senhor, segundo a própria imprensa, prejudicou o Santos.

Em 11 de março de 2007 Santos e São Paulo empataram na Vila Belmiro em 1 a 1 e o árbitro, atendendo à sinalização da bandeirinha Ana Paula Oliveira, anulou um gol legítimo de Jonas aos 34 minutos do segundo tempo, quando o Santos perdia por 1 a 0. O gol de empate, que manteve o Santos na liderança, só veio no final, através de Carlinhos. A confusão quase fez o Alvinegro perder vários mandos de campo, pois Rogério Ceni foi levar um chinelo ao mediador dizendo que tinha sido jogado por um torcedor. O dono do chinelo foi detido e o Santos seguiu rumo ao título, justíssimo.

Em 10 de fevereiro de 2008, no Morumbi, o Santos pressionava o São Paulo no final, depois de empatar em 2 a 2, quando Miranda, caído, deu um tapa na bola com a mão, impedindo Kléber Pereira de fazer o gol. Antonio Prado nada marcou. Rodrigo Souto perguntou ao árbitro porque não marcou o pênalti e ele, com desdém, respondeu: “Pode chorar, o choro é livre”. Antes da jogada do pênalti não marcado, o São Paulo tinha desempatado o jogo em uma jogada irregular, pois Fábio Santos empurrou acintosamente toda a barreira do Santos para que a cobrança de falta de Juninho passasse por ela.

No finalzinho da partida, depois de o São Paulo marcar o terceiro gol, Rodrigo Tabata sofreu falta clara de Carlos Alberto no meio-campo e ao reclamar foi expulso. Antes, Tabata já tinha sido agredido por trás por Adriano, que só recebeu cartão amarelo. Na súmula, carregada, para gerar uma suspensão de 10 jogos a Tabata, o árbitro relatou que o santista teria dito “Vai tomar no cu, safado filho da puta”.

Remexendo ainda na folha corrida do senhor Antonio Rogério Batista do Prado, descobre-se que ele perpetrou um dos pênaltis mais absurdos dos últimos tempos. A favor de quem? Palmeiras, coincidentemente, claro. O jogo, pelo Paulista de 2007, entre Palmeiras e Mirassol na Arena Barueri em 26 de janeiro de 2007, terminou 2 a 2, mas o segundo gol alviverde foi conquistado em um pênalti que só o árbitro viu. O zagueiro André Turatto cortou a bola e o chileno Valdivia saltou grotescamente e se atirou ao chão. Uma farsa!

Um filme interessante sobre isso foi feito por Armando Tadeu. Os fatos não mentem. Para ver, Clique na frase azul a seguir:

Antonio Rogério Batista do Prado, um árbitro que vê só o que quer

Uma palavra sobre palavrões

Este episódio com Neymar me dá a oportunidade de tocar em um ponto extremamente hipócrita de nossa sociedade terceiro-mundista: o falso pudor contra o palavrão.

Ora, não digo que seja elegante e nem recomendável.Costumo não falar e nem ensinei meus filhos a se expressarem assim. Mas punir alguém severamente por ter dito um palavrão, ainda mais quando é uma expressão de desabafo, é o ó do borogodó de uma sociedade podre.

Se o Neymar tivesse, longos minutos após a partida, depois de um banho relaxante, olhado calmamente para dentro dos olhos e da alma de sua senhoria o árbitro Antonio Rogério Batista de Almeida e dito: “Vai tomar no cu, seu ladrão, safado, filho da puta, por que você  sempre prejudica o Santos?!”, eu concordaria com a punição. Mas o garoto, que é a grande revelação do futebol brasileiro no momento, um raríssimo representante do futebol-arte que não se vê mais por aqui, estava saindo de campo, decepcionado, revoltado, e disse o que qualquer um neste país fala em situações assim.

Crianças mandam, senhoras mandam e até uma música que fez sucesso no youtube mandou todo mundo tomar no cu. O entrevistado Jô Soares convidou a intérprete para seu talk show e ela pode mandar, em alto e bom som, brasileiros e brasileiras tomar no cu. E todos riram, satisfeitos, e a aplaudiram muito. Ninguém se rebelou. Nenhum árbitro colocou na súmula.

Aliás, há coisa mais grotesca do que a súmula de um árbitro? Mesmo que todos tenham visto a mesma coisa, cria-se uma comoção nacional para se saber o que o bendito do homem garranchou no pedaço de papel. Se ele escrever um absurdo, é o que prevalecerá.

Imagine um árbitro com espírito de repórter, que anota tudo: “Mal pisei no gramado e 80 mil pessoas me mandaram tomar no cu”. Pedi para o goleiro bater o tiro de meta rápido e ele respondeu: “Não enche, filho da puta”. Ao fazer o gol, o centroavante passou por mim e perguntou: “Anula agora, seu veado?”.

Por saber que seria ridículo encher a súmula de palavrões, o árbitro só anota os que interessam. No jogo com o Corinthians, na Vila Belmiro, Dentinho mandou várias vezes o juiz mandar no cu e olhando para os olhos dele. Mas sua senhoria dava uma de desentendido e fingia que seus ouvidos estavam cegos.

Finalmente, eu diria que “vai tomar no cu” não é mais palavrão. É uma interjeição inocente de desabafo. Era considerado palavrão quando a sociedade, bem mais machista, olhava o homossexualismo como crime. Mas aos poucos o mundo do futebol se rendeu às modernidades. Hoje está repleto de pessoas que tomam no cu regularmente. Grandes árbitros eram – e são – gays assumidos. Mandar um árbitro desses tomar no cu é o mesmo que dizer “vá fazer o que você mais gosta” e isso, convenhamos, está longe de ser uma ofensa.

Cris Nicolotti canta o sucesso nacional Vai tomar no cu

Eliana, ídolo das crianças, canta Vai tomar no cu

Jô Soares entrevista compositora e intérprete de Vai tomar no cu