Ontem o River Plate, que seus torcedores chamam de “Milionário”, jogou em casa e perdeu para o humilde Lanús por 2 a 1. Agora, pela primeira vez em 110 anos de história, o River terá de disputar uma repescagem – que lá chamam de “la promoción” – para se livrar do rebaixamento. A amargura foi demais para um torcedor de 68 anos, que morreu de infarto no imenso e triste Monumental de Nuñez.

A decadência do River, maior vencedor de campeonatos nacionais (34), assim como a do Boca Juniors, que este ano sequer participou da Copa Libertadores, e a do Racing, que de grande virou apenas um time mediano, não são apenas um problema do futebol argentino, mas de todo o continente.

As razões do fracasso lá são as mesmas que, em menor escala, persistem aqui. A má administração dos clubes, a corrupção de dirigentes e árbitros, a politicagem, o jogo de interesses, enfim, a falta de credibilidade que afasta do negócio as empresas e as pessoas sérias.

Tudo isso agravado por um esquema de exploração do talento infanto-juvenil, que consiste em descobrir e revelar jogadores para fornece-los, ainda imberbes, para o rico mercado internacional – em um sistema amparado por uma imprensa que, no geral, tem se revelado parcial e conivente, defensora de interesses particulares e clubísticos.

No Brasil, populismo e injustiças

A economia mais forte diminui no Brasil a crise que já se alastra pelos grandes, ou ex-grandes, do falido futebol argentino. Mas não há motivo para comemorações. Aqui o futebol se baseia em uma injusta divisão de castas, que premia a quantidade e pune a qualidade.

Falando assim, parece brincadeira. Mas, analise comigo: o maior dinheiro que os clubes podem receber, que é o das cotas de televisão, é distribuído, prioritariamente, para aqueles que têm mais torcida, independentemente de seu desempenho em campo.

Enquanto isso, as equipes mais vitoriosas, com jogadores de maior destaque, são obrigadas a se desfalcar para participar de mais de uma competição ao mesmo tempo e para ceder boa parte de seus jogadores às várias seleções nacionais convocadas pela CBF.

Ao invés de estimular a competência e a competitividade, esta reserva de mercado aos grandes clubes, determinada pela tevê, gera a acomodação e o desleixo, que, invariavelmente, levam à decadência que se vê hoje no futebol argentino.

Para complicar, boa parte dos formadores de opinião são para-quedistas que se valeram da não obrigatoriedade do diploma de jornalista para invadir a profissão. Sem serem repórteres e não terem o mínimo comprometimento com a ética, são marqueteiros de terceira categoria e contatos de publicidade que se valem da fachada de jornalista para defender interesses e obter vantagens pessoais.

Dívida dos grandes, um assunto que é tabu…

No Brasil, o torcedor só vai saber o tamanho exato da dívida de seu clube quando este for obrigado a decretar falência. Porém, como isso só acontecerá quando o país tiver um governo sério e viver sob um regime de respeito às leis, por enquanto não há o que temer.

Há alguns anos, no programa Arena Sportv, o ex-jogador Leonardo, ex-técnico da Internazionale que está indo para o PSG, disse que a dívida do Flamengo era “impagável” (no sentido de não se poder pagar). Pouco depois, uma fonte que conhece bem os bastidores do clube carioca, me confidenciou que a dívida do rubro-negro chegava a um bilhão de reais. Uma dívida dessas seria realmente “impagável”, pois só de juros teria um acréscimo mensal de quase 100 milhões de reais.

Pois bem. Há dois meses soube de uma cena diante do caixa do Flamengo, onde Ronaldinho Gaúcho e seu irmão, Assis, brigavam em altos brados pelo não recebimento dos salários do ex-número um do mundo. Todo funcionário do Flamengo sabe disso. Porém, nada se lê sobre caso tão grave.

E é como se ninguém soubesse de nada, mesmo, pois o clube continua contratando jogadores caros e até consegue a primazia de ter vultosos contratos de patrocínio com empresas estatais. Ou seja, eu, você, o contribuinte brasileiro torcedor de outros clubes está ajudando a alimentar uma instituição caótica que virou uma imensa devoradora de dinheiro.

Enquanto isso, a imprensa esportiva prefere gastar mares de tinta para descobrir se Neymar simula faltas ou não. Ora, se o interesse nesse permanente desvio de foco é acobertar esses assuntos “desagradáveis” e não se indispor com os milhões de flamenguistas, o tiro pode sair pela culatra.

As sujeiras, mesmo as escondidas sob os mais grossos tapetes, um dia aparecem. Se a imprensa esportiva carioca, ao longo do tempo, tivesse sido mais crítica e menos conivente com os desmandos da maioria dos dirigentes de futebol do Estado, certamente as administrações teriam se aprimorado e hoje os torcedores dos grandes do Rio não sofreriam tanto.

Ao contrário do que muitos pensam, o oba-oba, a exaltação inconseqüente, leva pra baixo, pois impede a detectação de problemas e atrapalha o aperfeiçoamento. A crítica, exercida com isenção e coragem, se revela bem mais eficiente.

Usados, durante anos, para enriquecer oportunistas, desocupados e desonestos, a maioria dos clubes de futebol do Brasil padece dos mesmos males que estão levando o River Plate a passar a maior vergonha de sua história. Não precisava ser assim. Nenhum torcedor merece isso. Se é para morrer no estádio, que seja por um motivo nobre, em um momento sublime de orgulho e alegria…

Reveja lances do jogo que levou o River para a repescagem:

Você acha que o que está acontecendo com o futebol argentino pode acontecer no Brasil? O que os grandes clubes podem fazer para evitar a tragédia?