Blog do Odir Cunha

O ombudsman do Santos FC

Tag: Armênio Neto

A verdade, só a verdade, sobre os Neymares e eu

Fiquei abismado sobre a nota que saiu no site oficial de Neymar sobre mim. Sei que não foi Neymar quem escreveu, e sim o seu assessor Eduardo Musa, mas fiquei preocupado por perceber que Neymar está avalizando declarações inverídicas de um funcionário de sua equipe que distorce os fatos e usa de todos os recursos – até a deselegância de divulgar e-mails que trocamos confidencialmente – para me jogar contra os Neymares, pai e filho.

Na verdade, o texto está assinado por Neymar da Silva Santos, que é seu pai. O nome completo de Neymar tem um “Junior” no fim. Portanto, como eu previa, Neymar, o craque do Santos que amamos, não tem nada a ver com esse texto, que o pai pediu e o assessor Eduardo Musa escreveu.

Em primeiro lugar, e os leitores do meu blog sabem, não tenho absolutamente nada a esconder e costumo usar desses, digamos, mal entendidos, para esclarecer os fatos.

Todos sabem que quando escrevo que adoro Neymar, adoro mesmo. Adoro seu talento, seu coração e seu caráter. Declaro isso desde a primeira vez que o vi jogar, pelo Paulista de 2009. E quero, quero mesmo, nunca escondi isso, que ele permaneça a vida inteira no Santos e no Brasil. Quem tiver paciência, pesquise o primeiro texto que escrevi sobre o garoto quando estreou no Santos, e procure depois por todos os posts nos quais comprei e compro briga com colegas jornalistas que preferem vê-lo longe de nós.

Já disse pessoalmente a Neymar que ele é mais importante para o Brasil do que para a Europa, que aqui ele fará a diferença, influenciando os jovens e chacoalhando esse complexo de vira-latas que faz com que nossa imprensa esportiva considere abandonar o futebol brasileiro como o caminho mais viável para ele.

Lancei no blog e no twitter a campanha para que Neymar e Ganso fossem convocados por Dunga para a Copa de 2010, lancei a campanha pelo “Dia do Fico” quando da primeira proposta séria, do Chelsea, em 2010. Pressionei até rudemente a direção do Santos para dar tudo que Neymar e seu pai pedissem, a fim de que o garoto não fosse embora. Acho até que extrapolei a condição de jornalista para defender Neymar dos abutres que o menosprezam e, no fundo, querem ver o seu mal.

Já cheguei a sugerir a Eduardo Musa que consultasse Neymar sobre a possibilidade de nós, santistas, criarmos uma campanha para arrecadar dinheiro a fim de mantê-lo no Brasil. Neymar foi consultado por seu assessor e não concordou. Segundo Musa, o menino disse que não se sentiria bem sendo pago pelos torcedores, o que para mim foi mais uma prova de seu enorme caráter.

E já que não tenho dinheiro e nem parentes importantes, uso de argumentos para convencer a ele e a quem cuida de sua carreira de que ainda é cedo para ir embora em busca de um destino incerto. E se meus artigos incomodam tanto, a ponto deste último provocar uma resposta no site oficial de Neymar, é porque calam fundo na consciência de quem se sente tocado por eles.

Bem, mas o objetivo deste post é esclarecer as acusações escritas por Eduardo Musa no site oficial de nosso Menino de Ouro. Vamos, então, ao seu texto e as verdades sobre cada um dos fatos relatados. Principia ele:

Há algum tempo fomos procurados insistentemente pelo jornalista Odir Cunha, um profissional bastante identificado com o Santos FC e autor de vários livros dedicados a contar a história do clube pelo qual declaradamente torce. Ele mostrava disposição em escrever um livro sobre o Neymar Jr a quem, palavras dele, “simplesmente adorava”!!

Seguiu-se a troca de e-mails tradicional em toda negociação comercial. Claro está que não se trata de uma publicação escrita por um fã que deseja apenas elevar a imagem de um clube e de um atleta. Há toda uma preocupação comercial neste tipo de ação e não foi diferente com o Sr. Odir Cunha. O que não é nenhum pecado, deixo claro.

Em primeiro lugar, reproduzir os e-mails comerciais foi um gesto extremamente amador e comprometedor do sr. Musa. Com que confiança outras pessoas tratarão de negócios com ele, sabendo que de uma hora para outra todas as condições confidenciais de uma negociação virão a público?

Mas, aspectos éticos à parte, vamos aos fatos. A história do livro começou bem antes. Em meados de 2011 fui procurado por Marcia Batista, editora-chefe da editora Universo dos Livros, com a proposta de escrever um livro sobre Neymar. Ela sabia de minha afinidade com o Santos e dos livros que eu já tinha escrito sobre o clube. É claro que gostei da idéia. O projeto foi encaminhado ao sr. Musa, mas não andou.

Em 2012 eu era editor do Selo Jovem da Novo Conceito, editora de grande prestígio, sediada em Ribeirão Preto, e surgiu a ideia de lançarmos um livro sobre Neymar, aproveitando sua grande penetração entre os adolescentes. Depois de troca de e-mails pelos quais informei o currículo invejável da Novo Conceito, editora que ficou entre as que mais venderam livros em 2011 e 2012, marquei reunião com o sr. Musa e fui ao seu escritório, em Santos.

Na reunião, fiquei sabendo que Neymar preferiria que seu livro fosse escrito por um amigo dele, a quem já havia prometido a tarefa. Concordei prontamente. O essencial, para mim, era editar e lançar o livro. Como alguém que já escreveu tantos livros de esporte, entre eles a biografia de Oscar Schmidt, é óbvio que eu gostaria de ter a honra de contar a história de Neymar, mas na mesma reunião me convenci de que um autor mais próximo e mais familiarizado com o estilo de vida de Neymar, poderia se sair melhor.

Voltei para Ribeirão Preto e passei a responder, por e-mail, todas as informações pedidas pelo escritório do sr. Musa. Ofereci a ele o máximo que a editora podia, com relação a royalties, marketing, divulgação. Até que recebi o pedido do escritório do sr. Musa de que, além do livro de Neymar, a editora teria de fazer uma outra obra, sobre o pai de Neymar. Aí não pude concordar. Expliquei que como o pai era importante para a vida e a carreira do filho, dedicaríamos um bom capítulo sobre ele, mas não havia interesse comercial de fazer um livro apenas sobre o pai de Neymar. A partir daí os contatos cessaram e o projeto foi abortado.

No post no site oficial de Neymar ainda está escrito: Apenas estranho que alguém que defenda tanto o Santos FC em seus textos não pense, em momento algum, em participar o clube nas receitas provenientes da venda do produto. Afinal, mesmo que indiretamente, o livro que seria desenvolvido usaria a imagem do clube. Digo isso com tranqüilidade baseado no primeiro e no terceiro dos e-mails reproduzidos abaixo onde são discutidos percentuais sobre as venda.

Aqui há uma confusão muito grande e, provavelmente, Eduardo Musa tenha se valido de outras fontes para produzir esse parágrafo. Esse tema já foi motivo de uma discussão minha com o Arnaldo Hase, assessor de comunicação do Santos, e com Armênio Neto e Luciana Xavier, do departamento de marketing do clube.

Respeito as opinião deles, claro, mas acho que um livro, uma obra cultural, não deveria pagar royalties aos clubes. Se obras artísticas e culturais dessem dinheiro neste País, não haveria tantas leis de incentivo à cultura. Quando se coloca 10%, ou mesmo 8% de royalties de um livro para o clube, as contas não fecham. Vamos checar?

Do preço de capa de um livro, 55% metade ficam com a distribuidora e a livraria. Coloque mais 8%, que seja, para o clube, e terá 63%. Coloque mais 8% para o autor, e chegará a 71%. Ou seja, apenas 29% irá para a editora, que investiu em profissionais qualificados, papel, impressão, escritório, depósito e ainda paga imposto sobre as vendas.

Então, é necessário que um livro venda no mínimo 10 mil exemplares para começar a dar lucro para uma editora no Brasil. E menos de 1% (um por cento) dos livros lançados sobre futebol vende isso. Portanto, a não ser em datas específicas – como a comemoração de um grande feito –, livros sobre futebol são deficitários. Sempre disse isso e sempre defendi que ao menos o Santos não cobrasse royalties, pois isso estimularia mais editoras e mais autores a escreverem sobre a história do nosso glorioso Alvinegro Praiano.

Para concluir o assunto, lembro de uma conversa que tive com um gerente de marketing do Santos de uma gestão anterior: “Um dos maiores argumentos de marketing do Santos não é a sua história?”. “Sim”, ele respondeu. “Se ninguém fizesse um livro sobre a história do Santos, o próprio clube não teria de fazê-lo?”. “Sim”, ele concordou novamente. “Pois então”, concluí, “se há uma boa editora interessada em editar o livro por sua conta e risco, e se esse livro poderá ser usado pelo marketing do clube, por que inibir essa editora cobrando-lhe royalties?”.

Enfim, ajudo o Santos como posso, divulgando-lhe a história, resgatando suas conquistas, pagando minha anuidade de sócio (mesmo sendo jornalista e podendo entrar de graça nos jogos), argumentando e até mesmo brigando contra os que querem diminuí-lo. Também incentivo, ajudo e apoio quem pesquisa e escreve sobre o Santos, mas não posso concordar com o tratamento que coloca livros no mesmo nível de latinhas de cerveja e pacotinhos de biscoito. Quem preserva a história, a cultura do Santos, deve ser incentivado, e não taxado. Essa ao menos é minha opinião e creio que tenha o direito de tê-la.

O post no site do nosso ídolo prossegue: Chegamos em determinado momento a receber o jornalista no escritório da NR Sports, em Santos. Eu não estava presente. Todas as conversas foram conduzidas pelo Sr. Eduardo Musa. Eu e minha família não o conhecemos pessoalmente e não fazemos questão de conhecer. As negociações foram interrompidas a meu pedido em razão de termos sido informados sobre o caráter do jornalista, informação que viria a se confirmar com os fatos de hoje.

Este parágrafo obviamente não poderia ser escrito por Neymar. E acredito que nem por Musa. Mostra uma arrogância que Neymar ou seu assessor jamais demonstrariam. Dizer que não faz questão de me conhecer e julgar o meu caráter mesmo sem me conhecer é profundamente desrespeitoso.

Tive pouco contato com o Neymar craque – entre eles a participação em um programa de fim de ano na TV Gazeta –, mas sempre deixei claro que o admirava e o respeitava. Sem contar os muitos artigos que escrevi ressaltando suas qualidades e fechando os olhos para suas idiossincrasias de menino. Na verdade, as negociações sobre o livro não foram interrompidas por Neymar pai ou mesmo por Eduardo Musa. Cessaram quando não concordei em publicar um livro sobre o pai de Neymar.

O lamentável post do qual Neymar nem deve ter tomado conhecimento, apesar de ser publicado em seu site oficial, termina assim:

A negociação não avançou. O livro não foi escrito pelo Sr. Odir Cunha e publicado pela Editora a qual ele está(va) ligado. Hoje, 19/04, ele publicou um texto em seu blog – http://blogdoodir.com.br/2013/04/o-pai-de-neymar-e-a-vida-apos-a-morte/ – com graves acusações pessoais sobre a minha família. Os constantes elogios foram trocados por palavras que expõem certa mágoa com o fracasso da negociação, com a perda da receita esperada, mostrando o quanto interesses comerciais podem mover a “caneta” de um jornalista.
Lamentavelmente Sr. Odir Cunha, após recebermos você em nossa “casa”, descobrimos quem é a “mídia do mal” a quem você se referiu no e-mail encaminhado em 10/09/2012.
Você !!
Neymar da Silva Santos

É óbvio, também, que este final piegas e apelativo, foi escrito pela dupla pai de Neymar/Eduardo Musa. Ficou evidente que a negociação não avançou porque não concordei em lançar um livro sobre o sr. Neymar. Com todo o respeito por ele, de quem só tinha ouvido boas referências, acho que o livro não teria grande interesse. Não foi uma decisão pessoal, mas estritamente profissional.

Outro detalhe é que não fui recebido na casa de Neymar, mas sim no escritório de seu empresário, interessado, mui justamente, em fazer um bom negócio para o seu atleta.

Também não tenho mágoa alguma por deixar de escrever o livro. Não sou e nunca fui dinheirista. Não sou de ir à missa ou ao culto, mas não jogo meus princípios para escanteio por causa do dinheiro, nunca servi a dois senhores ao mesmo tempo. O livro era uma oportunidade de consolidar a imagem de Neymar junto aos jovens e com isso conquistar mais torcedores e simpatizantes para o meu Santos. Sou santista acima de tudo e vejo em Neymar alguém que já fez, tem feito e ainda pode fazer muito mais pelo time que amamos.

Não me lembrava de ter usado essa expressão “midia do mal”, mas todo santista sabe a quem estou me referindo. São as pessoas que usam dos veículos de comunicação pretensamente neutros para expulsar Neymar do Brasil (já pensou se tudo que é dito nos bastidores do futebol fosse revelado?).

Não faço nenhuma acusação contra família alguma. Ao contrário. Sei que o instinto familiar de Neymar, que o atrai para junto de seu filho, sua irmã e seus pais, é que o mantém no Brasil. Apenas apelo para a consciência cristã do pai de Neymar, que cuida da carreira do filho. E para não ser mal interpretado mais uma vez, lembrarei uma frase que o pai de Neymar deve conhecer de cor, pois está na Bíblia. Ela diz: “Muitos são os chamados, poucos os escolhidos” (Mateus, 22:14).

Meu desejo, enfim, é que apesar dos muitos chamados para ir embora, Neymar seja o escolhido para ficar no Brasil e iniciar a redenção do futebol brasileiro. Quanto a mim, esse episódio não diminuiu uma gota no imenso mar de simpatia, carinho e gratidão que sinto por Neymar, nosso eterno Menino de Ouro.

E você, o que achou disso tudo?


“Futebol é Arte” – este é o slogan do Centenário do Santos


Sugerido pelos profissionais de marketing e comunicação do clube e aprovado por unanimidade pela comissão julgadora, o slogan escolhido para o Centenário do Santos é: “Futebol é Arte”.

Ele exprime a alma do Santos, explicou o gerente de marketing Armênio Neto, com o que concordo plenamente. Cada time de futebol tem sua cultura, e a do Santos está voltada à beleza, à estética, à arte.

Há times baseados na garra, na luta, no sofrimento, na vitória a todo custo. O Santos também já foi campeão na raça, como no bicampeonato mundial de 1963, e sempre que é preciso seus jogadores se transformam em leões.

Mas o espírito de luta é natural ao homem e acomete mesmo os jogadores medíocres, os chamados pernas de pau. O diferencial, mesmo, é o talento, a categoria, a arte, enfim, de jogar futebol. Esse dom que favorece a tão poucos, mas que é tão frequente na Vila Belmiro.

O slogan “Futebol é Arte” será usado não só durante o Centenário, mas também em outras ações do clube, pois, repito, exprime o espírito do santista.

Neste momento, os nove pré-classificados estão trabalhando para chegar ao logotipo do Centenário. Até o dia 14 de abril, data do 99º aniversário do Santos, deveremos ter o vencedor.

Gostou do slogan? Acha que “Futebol é Arte” exprime a alma do Santos?


O novo técnico do Santos

“Não foi fácil, mas conseguimos contratar como técnico a pessoa que mais conhece o Santos futebol Clube. Com vocês…”

O telefone tocou eram seis horas da manhã. Pra mim, madrugada. Nem sei como acordei. Devo ter tido um sono leve. Geralmente não atendo, mas desta vez atendi. Alguma coisa me dizia que podia ser importante.

“Odir”, perguntou a voz grave e amigável do outro lado.

“Sim, é ele, quem é?”.

“Luis Álvaro. Tudo bem? Já tomou café?”.

“Tô acordando agora, presidente… Que surpresa, o que houve?”.

“Preciso falar com você antes de ir pro Santos. Está morando no mesmo lugar?”.

“Estou…”.

“Daqui a 40 minutos passo pelo Franz Café da Avenida Sumaré. Pode me ver?”.

Estranhei muito a ligação do Luis Álvaro. Acho que ele foi ao lançamento de todos os meus livros, chegou até a levar suas netinhas ao Bar Boleiros, quando fiz o “Pedrinho escolheu um time”, mas não falava comigo há meses, desde que assumiu a presidência do Santos.

Explicou-me que como eu era coordenador das festividades do Centenário do clube na administração de Marcelo Teixeira, não podia me manter no Santos porque os xiitas da Resgate Santista não queriam ninguém da diretoria anterior. Entendi, claro. Sei como é em política. Entra um partido e emprega os correligionários.

Fui lá e estranhei ver Luís Álvaro do lado do vice-presidente Fernando Silva. Pareciam tensos. Esperaram que eu pedisse um café com leite e foram logo se abrindo:

“O Dorival não vai ficar mesmo. Ele insiste que a suspensão do Neymar tem de ser de 15 dias. Assim, quer que o menino fique fora do jogo com o Corinthians, o Cruzeiro, o Vasco…”, começou Luis Álvaro.

“O cara tá louco. Se o Santos perde do Corinthians sem o Neymar, a torcida quebra a Vila Belmiro”, interrompeu Fernando Silva com o seu jeitão direto.

“Por que o Dorival resolveu endurecer agora?”, perguntei. “Ele já tinha engolido sapo de todo mundo…”.

Luís Álvaro e Fernando Silva não disseram nada. Apenas se olharam, significativamente. Não insisti, mas percebi logo que a valentia do técnico não era só uma questão de amor-próprio ferido pela quebra de hierarquia. Uma multa monstruosa amparava seus atos. Se o Santos quisesse mandá-lo embora, teria de lhe pagar uma fortuna.

“E vocês não podem forçar a escalação do Neymar, porque estariam passando por cima do Dorival…”, observei, meio que perguntando.

“Pois é”, concordou Luís Álvaro. “Se mandarmos ele embora, não poderemos contratar um técnico de ponta até o final do Brasileiro. Não haveria dinheiro e pra contratar um meia-boca não adianta”.

“E no que eu posso ajudar?”, perguntei.

“O Armênio Neto teve uma idéia que nós achamos genial. O Arnaldo Hase também concordou. Uma grande jogada de marketing seria anunciar um cara diferente para dirigir o time. Não adianta Geninho, Zetti, e nem um técnico da base. Pensamos em alguém que conhece muito bem o Santos, sabe qual é a vocação do time, que é santista e respeitado pelos santistas, e também tem bons conhecimentos de técnica e tática”, disse Luis Álvaro.

“Por que técnico é tudo a mesma merda…”, complementou Fernando Silva. “Eu poderia ser, mas não quero acumular funções”.

“Pensamos em alguém da mídia, que tem amigos na imprensa e sabe lidar com os jornalistas. Não escolheram um jornalista para dirigir a Seleção Brasileira nas eliminatórias para a Copa de 70, e não deu certo?”, reforçou Luis Álvaro.

“O que vier nesse campeonato é lucro. O importante é motivar o time, criar um diferencial”, disse Fernando Silva.

“Mas o João Saldanha já tinha sido técnico pelo Botafogo”, argumentei.

“Esse que a gente está pensando nunca foi técnico de time profissional, mas dirigiu equipes amadoras na Zona Sul de São Paulo, fez dois cursos de técnico de futebol, é jornalista esportivo premiado, com 33 anos de profissão e conhece o Santos como ninguém”, contou Fernando Silva.

“O José Roberto Torero?”, perguntei.

“Não, o Torero escreve bem, mas não manja nada de tática”, respondeu Luis Álvaro. E sei que não aceitaria o convite.

“O Vladir Lemos? O Fábio Rocco Sormani? O Cláudio Zaidan?…”, fui lembrando todos os jornalistas santistas que conheço, enquanto os dois só balançavam a cabeça, negativamente.

“Sabe, Odir, acreditamos nessa história de DNA. Achamos que o Santos só dá certo se segue o seu instinto. E quem primeiro falou nisso, quem escreveu vários livros sobre isso, é você”, enfatizou Luis Álvaro, olhando-me fixamente.

“Eu???!!!”, exclamei em voz alta, chamando a atenção das mesas do lado.

“Por quê? Não se sente capaz?”, perguntou Fernando Silva.

Antes que mudassem de idéia, respondi: “Não, não, quer dizer, sim, sim, sinto-me plenamente capaz. No mínimo comigo o Santos jogará com mais coragem e o ambiente entre os jogadores vai melhorar”.

“Ótimo, ótimo… E que time você colocaria em campo contra o Corinthians?”, quis saber o presidente.

“Olha, eu faria o óbvio, levando em conta a vocação ofensiva do Santos e o talento da garotada. Na defesa, o Danilo jogaria na sua posição original, que é a lateral-direita. Teríamos, então, Rafael, Danilo, Durval, Bruno Aguiar e Léo”.

“Prefere o Léo ao Alex Sandro?”, perguntou Fernando Silva.

“Acho que o Alex Sandro acabará ganhando a posição, mas o Léo tem muita experiência e sempre cresce nos jogos contra o Corinthians. Em todo o caso, o Alex Sandro será uma boa opção no banco de reservas”.

“E o meio-campo?”, apressou-se Luís Álvaro.

“Colocaria dois volantes: o Arouca e o Rodriguinho. Se o Rodriguinho ainda estiver machucado, o Roberto Brum mesmo. É pra ficar lá atrás, marcando, saindo pouco, para dar mais liberdade aos dois meias, que poderão apoiar mais o ataque”.

“Roberto Brum…”, fez Fernando Silva, desconfiado.

“Se eu passar o Danilo para o meio, terei de colocar o Pará na lateral-direita. O Danilo não marca tão bem como o Brum e o Pará, no momento, não é um lateral melhor do que o Danilo”, expliquei.

“E que mais?”, quis saber Luis Álvaro.

“Madson e Alan Patrick serão os meias, com Neymar e Zé Eduardo lá na frente. Nenhum dos quatro terá posição fixa, mas o Neymar cairá mais para a esquerda, e o Madson pela direita. O Alan Patrick será o chamado elemento-surpresa, se metendo onde tiver espaço. O Zé também se deslocará bastante, mas terá de ficar mais tempo dentro da área, como centroavante, segurando os dois zagueiros deles lá”, anunciei.

“Mas o Marcel é uma boa opção na bola aérea”, lembrou Fernando Silva.

“Sim”, respondi, “mas o nosso jogo será pelo chão. Ele pode até entrar no segundo tempo, mas não será a primeira opção”.

“E o Zezinho?”, perguntou Fernando.

“Vai passear com o Huguinho e o Luizinho”, brinquei, mas logo corrigi: “Ainda não está no ponto. Pode vir a ser um grande jogador. É canhoto, tem alguma habilidade… mas pra ser titular não dá. Para dar oportunidade a mais um garoto, prefiro o Tiago Alves. Aliás, uma das primeiras coisas que anunciaria é que o Tiago Alves seria promovido e já estaria no banco de reservas na quarta-feira. Seria engraçado ver o Adilson Batista pesquisando para saber como o Tiago joga”.

“É, o torcedor iria gostar, estão muito empolgados com esse Tiago Alves”, concordou Fernando Silva.

“Pois é”, reforcei. “O Santos é o único clube que nem precisa contratar uma estrela para preocupar os adversários. É só promover um garoto e os outros já ficam tremendo, achando que será um novo Robinho, Diego, Neymar, Ganso…”.

“Mas o Tiago Alves já poderia jogar na quarta-feira?”, disse Luís Álvaro.

“Ficaria no banco, presidente. Se o Madson não render tudo o que eu espero dele, ou se estiver cansado, eu colocaria o Tiago Alves tranqüilamente”.

Aproveitei para explicar que o Marquinhos, que anda sem muito fôlego, seria uma opção para o segundo tempo, caso o time esteja vencendo e precise segurar um pouco mais a bola no ataque. Após esta última explicação, ambos se olharam.

“Ótimo, ótimo, acho que a torcida gostará dessas alterações e apoiará o time. Queremos que você desça agora com a gente para o CT, onde anunciaremos sua contratação. Mas tem um problema, Odir”, disse Fernando Silva. “Não podemos lhe pagar nem cinco por cento do que o Dorival ganha. Espero que você entenda”.

Percebi que Luis Álvaro ficou meio constrangido com esta última frase de seu vice-presidente. Mas tratei logo de desanuviar o ambiente:

“Já estou acostumado. Tudo bem. Nem quero saber quanto vou ganhar. Dirigir o Santos e poder fazer o time jogar pra frente, sem medo, não tem preço”.

O telefone do Franz Café começou a tocar cada vez mais alto, a ponto de atrapalhar nossa conversa. Não conseguia mais ouvir o que Luís Álvaro e Fernando Silva falavam. A imagem dos dois começou a se desfazer no espaço. E o telefone tocando, tocando…

Virei-me para fazer um gesto na direção do garçom e pedir-lhe que atendesse o maldito telefone. Minha mão bateu em algo que caiu ao chão. Olhei e era o celular, ainda tocando. Havia programado para que me despertasse às sete horas…


Real Madrid quer Ganso: a velha história se repete… Está na hora do marketing e dos parceiros entrarem em ação para transformar o Santos em uma potência

Até onde o Santos poderá chegar se não vender os dois?

Os 30 milhões de euros que o Real Madrid parece estar disposto a pagar pelo passe de Paulo Henrique Ganso quitariam a parte mais preocupante da dívida do Santos. Restariam ainda R$ 100 milhões de débitos fiscais, que vem sendo pagos gradativamente. Mas a pergunta que não quer calar é: a nova diretoria do quer tornar o Santos novamente um dos times mais vitoriosos e conceituados do planeta, ou colocar a casa em ordem e se manter entre os grandes do Brasil está bom?

Como o Santos já é um dos grandes do País e da América do Sul e sua dívida pode ser normalmente paga ou drasticamente reduzida, em dois ou três anos, e como o tema que levou esta diretoria ao poder dizia “O Santos pode mais”, estou certo que a busca desse “mais”, desse plus, passa por manter um time forte e competitivo. Aliás, é exatamente isso que tem afirmado o presidente Luís Álvaro Ribeiro, o simpático Laor.

Com a bênção dos céus a Vila Belmiro tem, hoje, mais uma geração iluminada. Enquanto continuarem juntos, Ganso, Neymar, André, Wesley, Arouca & Cia certamente brindarão os torcedores – santistas ou não – com espetáculos que muitos já julgavam extintos.

Mais do que elevarem o nível do futebol do Santos, estes jogadores, apoiados pela filosofia ofensiva implantada pelo técnico Dorival Junior, têm ajudado o futebol brasileiro a viver momentos de satisfação e orgulho. É bom ver o Santos jogar não só pelo Santos, mas porque o adversário também é instigado a mostrar o seu melhor futebol, o que resulta em jogos memoráveis, com muitos gols.

Caso o Santos siga o mesmo roteiro de outros grandes clubes brasileiros e se desfaça de seus craques para “fazer caixa”, obviamente deixará de ter problemas financeiros. Mas aqui venho com outra pergunta: Um time de futebol deve ser administrado na mesma forma que se administra um banco? Que tipo de lucro deve mover uma empresa cuja matéria-prima é a paixão?

O que se ganha e o que se perde com a saída de um ídolo

A saída de Ganso e Neymar só podem dar ao Santos uma coisa: dinheiro. Bem, este é 100% do objetivo de uma organização financeira. Mas será que para um clube de futebol, só isso basta? Nem é preciso ouvir o torcedor para se chegar à conclusão de que não, é muito pouco.

Mais do que um belo estádio, um CT moderno e uma infraestrutura invejável, um time de futebol só se realiza nas vitórias, nos títulos, nas grandes jornadas. Elas é que constroem uma tradição, uma história. Momentos de sonho que serão contados e revividos através das gerações.

Há, ainda, um benefício concreto gerado por um grande time: ele seduz e sensibiliza pessoas de todas as idades, ele torna a equipe mais popular, com mais adeptos – e isso, os profissionais do marketing sabem muito bem, é a condição indispensável para que um clube se instale entre os maiores do futebol.

A cada dia em que Ganso e Neymar estiverem vestindo a camisa do Santos alguma criança deste País estará tomando uma das decisões mais importantes na vida de um brasileiro: escolher um time para torcer e, ao mesmo tempo, tornando-se um dos “escolhidos”.

O mercado brasileiro tem como manter super craques?

Surpreendi-me outro dia ao constatar que os valores pagos pelo patrocínio de camisa de um grande time europeu já está se aproximando de alguns destinados aos maiores clubes do Brasil. A maior diferença ainda está nos valores advindos da tevê, o que deve ser corrigido com a com concorrência crescente entre as maiores redes.

A arrecadação nos estádios ainda dá ampla vantagem aos clubes da Europa, mas a tendência, felizmente ou não, é de que o espetáculo também seja mais valorizado por aqui. Os estádios, pela necessidade de se aparelhar para a Copa de 2014, se tornarão mais modernos, seguros e confortáveis, mas haverá um preço a ser pago por isso.

Assim, creio que a tendência é a de que aumente a possibilidade de se manter grandes jogadores no Brasil, mesmo muito jovens, como Ganso e Neymar. Sei que ao menos por agora seria impossível pagar os mesmos salários que se oferece na Europa, mas talvez se possa chegar a 60% ou 70%, que, somados a um custo de vida mais baixo, o conforto de continuar em sua casa, ao lado de amigos e familiares, e com maior probabilidade de se atingir o status de ídolo, façam muitos optarem por ficar.

Obviamente haverá obstáculos para se conseguir isso: o primeiro é o empresário, o agente, que só embolsará sua pequena fortuna se o seu atleta for negociado; o outro é o próprio jogador, que sonha com a Europa porque foi catequizado para achar que esse é o caminho natural do craque, caminho que o levará, um dia, a ser considerado o melhor do mundo (como se só pudesse ser o melhor do planeta se atuasse por lá).

O Santos pode mostrar o caminho

Não sei precisar como conseguir condições financeiras e mercadológicas para manter Ganso e Neymar no Brasil por toda a carreira. Mas que é, ou será possível, não tenho dúvidas. Há personagens do show business nacional que já ganham mais do que os maiores astros do futebol europeu, e não têm a mesma popularidade e carisma que os Meninos da Vila já granjearam em tão pouco tempo.

Bem, este é um quebra-cabeças para Armênio Neto, Duda e a equipe de marketing do Santos. E também um estímulo para que os ricos investidores que emprestaram seu nome à campanha de Luís Álvaro digam a que vieram e coloquem as mãos nos bolsos não só para manter estes ídolos precoces no Brasil, mas para provar que é possível reverter o êxodo abominável de nossos craques para o futebol europeu.


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