Pelé e quem seria seu herdeiro no Santos

Hoje, 3 de março, é dia em que Arthur Antunes Coimbra, o Zico, popular “Galinho de Quintino”, comemora 57 anos. Carioca, filho de portugueses, Zico era tão franzino quando chegou ao Flamengo, que só se firmou como titular em 1974, com 21 anos. Com ele, o clube carioca, que jamais havia conquistado um título nacional, conquistou quatro, além de mais sete estaduais, uma Libertadores e um Mundial.

A história do Flamengo não pode ser contada sem se falar, muito, de Zico, pois ele, bem coadjuvado por Junior, Andrade Adílio, Tita e outros bons jogadores, conquistou os títulos mais importantes do clube – pelo qual marcou 508 gols como profissional, em 731 partidas (média de 0,69 por jogo).

Pena que não tenha tido a sorte de ser campeão do mundo com a Seleção Brasileira em em 1982 e 86. Sua geração, que tinha ainda foras de série como Falcão e Sócrates,bem que merecia. Também não jogou em um time de ponta na Europa. Em 1983 foi vendido ao Unidese, da Itália. Não fracassou lá. Na verdade, tirou leite de pedra. Mesmo em um time limitado, marcou 56 gols em 76 jogos. Depois, semeou o futebol no Japão, pelo Kashima Antlers, pelo qual marcou mais 54 gols em 88 jogos.

Em uma noite de 1980, em Ribeirão Preto, vi, de dentro do campo, Zico jogar. Sem lugar na pequena tribuna de imprensa do estádio do Comercial, o Palma Travassos, tive de ficar às margens do gramado, ao lado dos repórteres de rádio. O Galinho pegava a bola no meio do campo e vinha serpenteando entre os zagueiros. Era liso, insinuante, se destacava dos demais, sem dúvida.

Não fosse Zico, o Santos de Pita provavelmente teria sido campeão brasileiro nos anos 80. Por azar, os Meninos da Vila sempre pegavam o Flamengo pela frente, time que, além de ser muito forte, era claramente protegido pela arbitragem e pela CBF. Bem, mas Zico não tinha nada a ver com isso.

Em 1983 as duas equipes decidiram o título nacional. Depois de ganhar no Morumbi por apenas 2 a 1, em jogo que merecia ter feito quatro ou cinco, o Santos foi ao Rio precisando “apenas” de um empate. O técnico Formiga passou a semana planejando uma forma de segurar o ataque do Flamengo. Mal o jogo começou, porém, e Zico marcou. Era dose.

Mas, como craque é craque e quem gosta de futebol gosta de ver talento em campo, seja de que time for, faço esta homenagem ao Zico, que conheci na cobertura dos treinamentos da Seleção de Telê Santana,  em 1981.nos preparativos para a Copa da Espanha.

Sei que em 1974, quando Pelé parou e Carlos Alberto Torres queria muito sair do Santos e voltar para as praias do Rio, o presidente do Flamengo chegou a propor ao Santos uma troca de Carlos Alberto, um ídolo no Rio, por um garoto promissor da Gávea. O presidente do Alvinegro Praiano, Modesto Roma, nem quis ouvir o resto da história.

Trocar o capitão do Tri por um garoto franzino apenas “promissor”? Ora, que o cartola rubro-negro fosse cantar em outra freguesia. Pois assim, sem mais, o Santos deixou de ter o melhor herdeiro para a camisa 10 de Pelé e prosseguir, por mais uma década, com o rosário de vitórias e títulos que desfiava desde 1955.

Tudo bem. Depois vieram Diego, Robinho, agora Neymar… e a vida seguiu, sorrindo novamente para os lados da Vila Belmiro. Mas que Zico ficaria muito bem com a 10 da Vila, ah, como ficaria… E ele se sentiria honrado se isso acontecesse, como me confidenciou em uma tarde de treino da Seleção lá na Toca da Raposa. Parabéns Zico! O futebol agradece.