Esquiva Falcão, primeiro brasileiro em uma final olímpica do boxe.

A medalha é apenas uma maneira de analisar o desempenho dos atletas de um país na Olimpíada. Mas não é a mais justa. Por que um quarto lugar não teria valor algum, ou por que ficar entre os dez melhores de uma modalidade não deve ser levado em conta? Veja o tênis profissional, em que ser um top ten é um privilégio de poucos. Por isso, façamos um esforço para ver e aprender com os atletas brasileiros em Londres, sem julgá-los apenas pelo prisma da medalha.

Ele saiu dos Jogos sem medalha. Oficialmente ficou apenas com o quinto lugar. Mas, para mim foi um dos grandes atletas brasileiros na Olimpíada. Estou me referindo a Diogo Faria, o brasileiro da categoria até 68 quilos do taekwondo. Lutou como um mestre, mostrou coragem, inteligência, sangue-frio e conseguiu algo inimaginável: um golpe espetacular nos segundos finais da semifinal com o iraniano Mohammad Bagheri Motamed, bicampeão olímpico.

Diogo não foi para a final por uma decisão equivocada dos juízes. Depois, mesmo machucado, empatou de novo com o norte-americano Terrence Jennings na disputa pelo bronze, mas os árbitros consideraram legal um golpe de Jennings quando o tempo já havia terminado.

Irreverente e sincero como sempre, Diogo disse que saia da Olimpíada sem perder, e concordo com ele. As arbitragens não têm sido nada favoráveis aos brasileiros em Londres. É por essas e outras que o país-sede de uma Olimpíada sempre ganha muitas medalhas, principalmente nas várias modalidades que dependem das cabeças indecifráveis dos árbitros.

Mas eu quero falar é da coragem e da confiança de brasileiros que, mesmo às vezes desvalorizados em nosso País, se agigantam na competição mais importante do esporte. Minha reverência à menina do Piauí Sarah Menezes, ao garoto do ABC Arthur Zanetti, à baiana Adriana Araújo, que mostrou garra e técnica para subir ao pódio do boxe.

Minha admiração aos irmãos pugilistas Esquiva e Yamaguchi Falcão, obras de amor e dedicação do pai, o também pugilista Touro Moreno, hoje com 75 anos, que treinou os filhos nos caules das bananeiras do quintal da casa humilde em Vitória, no Espírito Santo. Percebam que mesmo na era das mais avançadas tecnologias, nada ainda supera a paixão pelo que se faz.

Falam sempre de falta de apoio quando se referem aos atletas brasileiros. A palavra que mais se ouve é “apoio”. Mas veja que o sonho do velho Touro Moreno virou realidade com uma receita que requer apenas vontade, amor ao esporte e bananeiras.

Maturidade para suportar a dor

Meus amigos, a dor física é suportável. Mas a dor mental, a pressão que acomete os atletas nas grandes decisões, chega a ser intolerável. Por isso, ao ver Juliana e Larissa saírem lá do fundo do poço para vencer as confiantes chinesas e conquistar a medalha de bronze no vôlei de praia; e, mais do que isso, ao presenciar, coração na mão, o time feminino de vôlei superar seis match points e derrotar a temida Rússia, fiquei com a clara impressão de que somos, sim, um povo que está deixando de ser vira-lata.

É claro que do lado de lá também temos grandes atletas, que são mesmo melhores, ou que se superam em uma Olimpíada. Paciência. Competir envolve sujeitar-se a todos os resultados, a todas as alegrias e tristezas. O importante é tentar, dar o máximo pela vitória limpa e justa. Se ela não vier, a sensação do dever cumprido deve bastar ao grande atleta.

Muitos torcedores de futebol criticam os atletas brasileiros na Olimpíada sem o mínimo conhecimento, sem a mínima empatia com o verdadeiro mundo do esporte. Olham um corredor que ficou em décimo lugar e o colocam abaixo de cachorro. Mal sabem, entretanto, que o rapaz está radiante, pois acaba de bater o recorde sul-americano, de superar-se a si mesmo ao fazer o melhor tempo de sua carreira.

Vejam vocês que o handebol feminino fez um jogo equilibradíssimo com a Noruega, que está na decisão do ouro. Isso é maravilhoso. Não importa que a medalha não tenha vindo, o que importa é que o Brasil mostrou uma evolução espantosa nessa modalidade e está caminhando para ser um dos melhores do planeta, com grandes chances de brilhar nos Jogos do Rio em 2016.

O basquete masculino também foi muito bem, pois só caiu depois de uma partida equilibradíssima diante da poderosa Argentina – equipe tão forte que já ganhou uma medalha de ouro olímpica.

Então, busquemos na participação dos atletas brasileiros em Londres os exemplos edificantes. Eles mostram que, apesar das aparências, o atleta brasileiro está mais seguro, mais confiante, e isso reflete o amadurecimento de um povo que está aprendendo a se respeitar e se valorizar.

E para você, o que os atletas brasileiros têm ensinado?