Tem gente que diz que já nasceu torcendo por um time, como se fosse questão de herança ou doença genética. Eu não. Nasci para gostar da arte, do belo, mas também da disputa esportiva, da luta incansável pela vitória. Um guerreiro com alma de artista, ou vice-versa. E por isso escolhi o Santos, um time que expressa o meu caráter, minha forma de viver e ver a vida.

Que time fez mais gols? Que time revelou tantos craques e tantos artilheiros? Que time ganhou mais títulos importantes no campo do adversário, com torcida contrária? Que time saiu de uma cidade menor para reinar nas capitais do mundo? Tudo isso forma a personalidade estética e corajosa do Santos, com a qual eu e milhões de brasileiros se identificam.

Sei que outros torcedores tiveram outros motivos, ou “programação”, para escolher um time. Eu os respeito, claro. Todo time de futebol tem uma marca, um estilo que começa na sua fundação e segue pela vida, como um fio condutor. Esse jeito de ser acaba sendo compartilhado por torcedores de todos os gostos. Alguns anseiam os títulos, mesmo com futebol feio, outros adoram a garra, a luta; há os que vivem à espera de triunfos dramáticos e, por incrível que pareça, existem os que parecem gostar de sofrer.

Fiz um post na semana passada para o meu blog só para santistas, mas, ao ser publicado no site do Milton Neves, teve uma repercussão desmesurada. Ao comentar o alto índice de rejeição do alvinegro da capital, recebi críticas por usar as palavras “inimigo” e “ódio”. Ora, utilizar uma palavra não quer dizer que aprovemos a ação ligada ao seu significado. A referida palavra apenas existe e é a melhor, no contexto, para explicar o que se está dizendo.

As pessoas que prestaram atenção ao texto devem ter percebido que não fui eu quem considerou meu colega de ginásio “inimigo”. Ao contrário. Sempre o considerei amigo e por perceber o quanto comparar o meu time com o dele o deixava transtornado, simplesmente nunca mais conversei sobre isso com ele.

Por outro lado, a palavra “inimigo” parece pior do que realmente é. Uma pesquisa no pai dos burros, o velho Dicionário Aurélio, nos mostrará que “inimigo” quer dizer: 1. Hostil, adverso, contrário. 2. De, ou pertencente a grupo, facão ou partido oposto.

Agora eu pergunto: Ora, torcidas opostas de times de futebol rivais são o quê, além de adversas, contrárias, adversárias, opositoras, inimigas?

A pesquisa analisada no post anunciava os “índices de rejeição” dos clubes brasileiros. E o que quer dizer “rejeição”? Ainda segundo o Aurélio é o mesmo que “desprezo”, que por sua vez é uma das definições de “ódio”. E que quer dizer, realmente, “ódio”, segundo este dicionário que todo mundo deveria ter?

Ódio: 1. Paixão que impele a causar ou desejar mal a alguém; execração, rancor, raiva, ira. 2. Aversão a pessoa, atitude, coisa, etc; repugnância, antipatia, desprezo, repulsão.

Temos exemplo desse ódio, desse “desejar mal a alguém”, quando um torcedor expressa sua vontade de que o jogador adversário se machuque. Já ouvi várias histórias de que nos tempos do tabu era comum ouvir, no meio da torcida do alvinegro da capital, votos de que Pelé quebrasse a perna. Isso é ódio. Há coisa mais vil e repugnante do que torcer para o ferimento, a dor física de alguém?

Um leitor deste blog nos trouxe um comentário lido estes dias no UOL, assinado por um leitor denominado “Corin7x1ans”. Ele diz: “Escrevam o que eu digo. O Ganso vai para a 5ª cirurgia e acaba a carreira (o Garrincha foi mais longe). O Arouca não passa de 15 minutos, volta o estiramento e para por 90 dias (depois vira chinelinho para sempre).” Eu pergunto: que sentimento esse torcedor expressou, com um comentário aprovado no site mais lido do Brasil?

Ódio, todos devem saber, é o contrário do amor. Quem é fanático e ama o seu time, tem a tendência de sentir aversão pelo maior rival. Todo mundo que acompanha o futebol sabe disso. É hipocrisia fingir o contrário. Por isso, no final do post, levando-se em conta o alto índice de rejeição do adversário, eu perguntava – e não afirmava – se o leitor do blog estava entre aqueles que tinham esse sentimento. Como já disse um personagem da tevê, “perguntar não ofende”. Em uma democracia – regime para o a qual ainda estamos nos adaptando –, dar opiniões sobre quaisquer assuntos é um direito do cidadão.

O sujeito pode dizer se é a favor ou contra o casamento gay, o aborto, o uso da maconha, mas não pode responder se odeia ou não um time de futebol rival? Ah, parem com isso. Nem os puritanos são tão puritanos. A paz não pode depender do silêncio medroso das pessoas. Ela deve coexistir com a livre expressão do pensamento. Do contrário, será falsa e frágil.

Por que os times são amados ou odiados?

Este blog parte do princípio de que todos os assuntos podem e devem ser discutidos, desde que isso contribua, de alguma forma, para o desenvolvimento do futebol e das pessoas envolvidas com ele. Descartes já afirmou, há séculos, que “não há nenhuma coisa existente da qual não se possa perguntar qual é a causa”. E se um time é o mais rejeitado do País, é pertinente querer saber por que.

Em 35 anos de imprensa esportiva e 50 como torcedor, sei muito sobre a índole de torcedores de diversos clubes. Conheço muito melhor os santistas, é evidente, mas também convivi e convivo de perto com aficionados de várias outras agremiações. Dos outros, posso dizer que conheci pouquíssimos palmeirenses desagradáveis, na verdade me parecem os mais simpáticos, depois dos santistas. Já os são-paulinos, percebo que muitos são vaidosos demais, tendendo para a arrogância. Agora, os corintianos, ao menos para mim, em grande parte são insuperáveis na arte de se fazer antipáticos.

Provavelmente convencidos pela propaganda de que seu time é todo-poderoso, uma nação, uma república, timão, a torcida mais fiel e outras ideias plantadas na mídia, a maioria dos seguidores do alvinegro da capital consideram-se, mesmo, superiores. É comum ouvir deles que “corintiano não gosta de futebol, corintiano gosta do Corinthians”. Esta é uma clara diferença entre torcedores dos dois alvinegros, pois o santista ama demais o seu time, mas também gosta muito de futebol, e futebol bonito, ofensivo.

Essa coisa de DNA ofensivo, conclusão a que eu cheguei ao pesquisar e escrever o livro Time dos Sonhos (Códex, 2003), não é balela. Mesmo quando viveu suas vacas magras, o Santos fazia mais gols do que muitos campeões. Veja você que de 1924 a 1939 o Corinthians foi sete vezes campeão paulista, enquanto o Santos foi apenas uma, em 1935. Mesmo assim, se contarmos os gols que os dois times fizeram nesses 19 campeonatos estaduais, o Santos marcou 23 a mais.

O leitor Serjão nos envia uma preciosa crônica escrita pelo lendário Nelson Rodrigues para a revista Manchete Esportiva de 23 de maio de 1959, na qual o incomparável cronista fala do título Rio-São Paulo conquistado pelo Santos com uma vitória de 3 a 0 sobre o Vasco, no Pacaembu, maravilha-se com Coutinho, 15 anos, autor de dois gols na partida, e, por fim, descreve o espanto de um vascaíno diante do poder ofensivo do Santos. Reveja:

Mas o povo, com o seu instinto agudo, sua vidência terrível, reconhece e aponta os jogadores que “comem” a bola, como se a estraçalhassem nos dentes, fazendo esguichar o sangue da redonda. E se, na verdade, existem “tarados” da pelota, Pelé ou Coutinho há de ser um deles. Com o doce nome de Coutinho, o meu personagem fez, ontem, contra o Vasco, barbaridades sem conta. A um confrade que veio de avião do Pacaembu, eu perguntei: “Que tal o Coutinho?” O colega baixa a voz: “Bárbaro!” Insisti: “E o Pelé?” Resposta: “Bárbaro!” Fui adiante: “E Dorval? Pepe?” A tudo, o sujeito respondia, de olho rútilo: “Bárbaro!” Então, eu me convenci, de vez, que o ataque do Santos se constitui, realmente, de sujeitos que não respeitam e, pelo contrário, brutalizam a bola e cravam, nela, os seus caninos de vampiro.

Na verdade, todos os estudiosos do futebol reconhecem que o Santos sempre teve essa afinidade para o gol e sempre contou com grandes atacantes. Mas, para muitos corintianos, ele só era “um time pequeno que tinha Pelé”. E, quando Pelé parou, “o Santos acabou”. A mesma mensagem foi repetida na era Robinho e ocorre agora com Neymar. Para tirar o mérito do clube, do time, da instituição, isolam um jogador e imputam a ele o motivo de toda a desigualdade entre as equipes.

Por outro lado, esses mesmos torcedores comemoram todos os anos um título paulista conquistado sobre um time pequeno, com um jogador a mais, favorecido por uma arbitragem tendenciosa, em um Morumbi tomado pela sua torcida, em uma vitória magérrima de 1 a 0, com um gol chorado feito por um reserva…

Esse hábito de seus torcedores de supervalorizar os seus feitos e diminuir os dos adversários não será um dos motivos que faz o Corinthians liderar o ranking dos mais rejeitados do País? Veja bem, não estou afirmando, estou apenas colocando uma questão no ar que merece reflexão. O ideal seria que os méritos alheios fossem reconhecidos, pois isso iniciaria um círculo virtuoso que faria com que a atitude de todos os torcedores mudasse.

A visão de torcedores brasileiros e argentinos sentados lado a lado para ver o jogo entre as suas seleções, em New Jersey, mostrou uma realidade que vivemos no Brasil até a década de 1970, mas hoje parece cada vez mais distante. Creio que o primeiro passo para se voltar a usufruir dessa harmonia começa na cabeça e na atitude de cada torcedor. Reconhecer o mérito do rival, a ponto de ao final do jogo apertar-lhe a mão, como se faz no tênis e em tantos esportes civilizados, é o primeiro passo.

Se eu não acreditasse que pode haver paz entre santistas e corintianos, apesar da aversão que podem sentir um pelo outro, não teria convidado o amigo Celso Unzelte para fazermos, juntos, o livro “o Grande Jogo”, falando do “maior duelo alvinegro do futebol”. Livro que termina com a seguinte frase, minha:

“De qualquer forma, esta é uma boa rivalidade, por ser apaixonante, por motivar os dois clubes, mexer com o mundo do futebol e produzir espetáculos de muita emoção. Uma rivalidade que, como todas, se alimenta da paixão e do ódio, mas que admite o respeito e a admiração pelo inimigo. Há um quê de dramático nestes times, nestas torcidas e no universo que gravita ao redor quando eles se encontram. Provavelmente por isso Pelé tenha dito que o maior jogo do mundo é um Santos e Corinthians. E é mesmo!”

E para você, o que faz um time ser amado?