Sorte existe. Mas azar também…

Meu amigo, sorte existe. E se existe sorte, existe também o azar. Como torcedores apaixonados, usamos as derrotas para criticar deus e todo mundo, da mesma forma que as vitórias deixam nossa alma mais leve e compreensiva.

Mas se analisarmos bem, o mesmo caminhão da fortuna que chegou carregado na Vila Belmiro no primeiro semestre, passou batido no segundo. Quase tudo que estava dando certo, de uma hora para outra começou a dar errado.

Wesley, que eu um dia escrevi que não sabia nem andar em campo, voltou do Paraná jogando o fino; Paulo Henrique Ganso, Neymar e André explodiram; Arouca chegou, trocado por Rodrigo Souto, e já começou a jogar um futebol que não havia mostrado nem no Fluminense; Robinho veio do Manchester City e voltou a driblar e marcar gols como nos velhos tempos; Marquinhos parecia um craque; Dorival Junior punha o time no ataque mesmo quando já estava ganhando de goleada…

Era a velha vocação ofensiva ressurgindo com força total. Ah, meu amigo, parecia um sonho… Goleadas e mais goleadas. Até o Juca Kfouri escreveu que os adversários tinham inveja do Santos. Luis Álvaro comparou o time com o Cirque du Soleil e o Santos vira o Circo do Laor… E dá-lhe dancinha…

Mas, como já dizia minha avó, não há bem que sempre dure, nem mal que nunca se acabe. Já se sabia que Robinho ia embora, mas tudo bem, ele nem era o melhor do time mesmo. Era um coadjuvante de luxo de Ganso e Neymar.

Mas além do Robinho foram o André e o Wesley. Aí o bicho começou a pegar. Mas o Santos contratou o Keirrison e eu imaginei que ele voltaria a jogar o futebol que mostrou no Coritiba, o que anularia a perda do André.

A diretoria trouxe ainda o tal de Rodrigo Possebon do Manchester United. Fizeram um contrato de quatro anos com o rapaz. Pensei: talvez seja um Wesley melhorado. Manchester United! O cara não é fraco, não!

E ainda vieram o Danilo, o Zezinho, o Alex Sandro… Juro que em determinado momento imaginei que o Santos estava fazendo a coisa certa. Trazendo gente nova e, aparentemente, com talento, que cresceria e se valorizaria no clube, como estava acontecendo com outros jogadores.

Mas aí Ganso se machuca gravemente; Keirrison não entra em forma; Zezinho e Possebon mostram que só tem futebol para o sub-23; Danilo e Alex Sandro não se firmam; Marquinhos, sem o Ganso, vira um pato fora d’água; Neymar se sente perdido; Dorival vira retranqueiro e chato; Zé Eduardo e Madson vão pra reserva; Luis Álvaro dá uma sumida; Dorival cisma de punir Neymar e o time sai do prumo…

Tudo bem, a diretoria deu algumas pisadas de bola. A montagem do elenco para o segundo semestre não foi boa. Mas o Santos também não deu sorte e sem ela não se monta um time campeão. Danilo e Pará não podiam acertar ao menos alguns cruzamentos? Marquinhos não podia enfiar os mesmos passes que enfiou no primeiro semestre? Marcel não podia fazer um gol em uma jogada pessoal? Alex Sandro e Rodriguinho não podiam fazer dois jogos bons seguidos? Zezinho, Possebon, Breitner, não podiam ser mais profissionais do que amadores? Marcelo Martelotte não podia ser um interino um pouco mais ousado?

Não sei se sou fatalista, mas sempre que tenho muita sorte em um momento, fico esperando uma maré de azar depois. A vida não pende só para um lado. Você também pensa assim, ou estou meio amargo?