Walter Schalka e Marcelo Teixeira: quem está com a razão?

A penhora da Vila Belmiro pelo ex-presidente Marcelo Teixeira não é surpresa para mim. Há mais de um mês conversei com ele sobre a penhora do CT Meninos da Vila e ouvi sua versão para o caso.

Conversamos por e-mail. Fiquei sabendo de uma entrevista sua em que falava da dívida que o clube tem com ele e quis confirmar. Perguntei-lhe se esta dívida era mesmo de R$ 15 milhões (isto, em 15 de setembro). Ele me respondeu:

Prezado Odir: De fato, devem. São $15 milhões por transferências feitas de nossa conta e $14 milhões que o Safra executou de nossa conta como avalistas. A pedido do presidente Luis Álvaro) fomos a uma reunião reunião em São Paulo com o grupo de apoio à administração, ouvimos a proposta de pagamento em cinco anos, sem cobrança de juros e aceitamos, para benefício do clube.

Para nossa surpresa, cinco dias após recebi telefonema do Shalcka muito contrariado informando que infelizmente parte do grupo político de Santos não aceitava o acordo feito pelos responsáveis da administração. Senti um racha forte e até os dias de hoje não recebi mais nenhum telefonema, nenhuma atenção e satisfação para que o acordo seja concluído.

Não estou cobrando, não quero juros, nem prejuízos ao clube que amamos. Poderia agir de forma a prejudicar o planejamento da diretoria, mas apesar de ser um direito, não consigo atrapalhar os planos do SFC. Espero uma solução amigável para o bem da instituição. Abs.

A notícia de ontem dá conta de que o estádio Urbano Caldeira foi dado como garantia no processo movido por Marcelo Teixeira, que agora estaria cobrando R$ 17 milhões do Santos Futebol Clube.

Resumo do caso

Como se sabe, Marcelo Teixeira, quando presidente do Santos, colocou dinheiro do próprio bolso no clube e também usou seu nome e seu prestígio na cidade para ser avalista de empréstimos bancários para pagar dívidas emergenciais do Santos. Uma delas, de R$ 15 milhões, ficou pendente com o Banco Safra.

Quando deixou de dirigir o clube, derrotado nas urnas pela chapa “O Santos pode mais”, Teixeira esperava que o Santos pagasse as dívidas feitas em nome do clube, mas, como isso não foi feito, o banco teria descontado o valor da conta pessoal do ex-presidente. Agora, ele quer seu dinheiro de volta.

Para que o leitor compreenda melhor a história, explico que a pessoa que ligou para Teixeira contrariado, dizendo que o grupo de Santos não aceitava o acordo para pagar a dívida em cinco anos, foi Walter Schalka, presidente da Votorantim Cimentos, que tem sido o mentor da gestão de Luis Álvaro Ribeiro.

Era Schalka que estava negociando a vinda do técnico Abel Braga. O empresário é amigo de Fernando Silva, assessor da presidência do Santos que tem sido cotado para ser consultor de futebol logo que o novo estatuto seja aprovado. Quanto foi candidato à presidência do clube, em 2001, Silva defendeu a tese de que o clube não deveria pagar nada a Marcelo Teixeira, pois o presidente tinha colocado dinheiro no clube por sua vontade.

Desta forma, como já percebeu que amigavelmente ficará a ver navios, Marcelo Teixeira entrou com a ação de penhora, ao mesmo tempo que lançou o movimento Santos Sempre Santos, certamente preparando uma chapa para tentar seu retorno à presidência do clube no final de 2011. Provavelmente deve imaginar, com algum fundamento, que só conseguirá recuperar seu dinheiro se voltar a dirigir o clube.

Os dois lados erraram

Minha opinião é que os dois lados erraram nesta história. O dinheiro que Marcelo Teixeira colocou no clube em 2000 ainda se justifica, pois o Santos estava ao Deus dará e ninguém queria investir um centavo furado nele. Só um santista apaixonado faria o que ele fez.

Porém, com a fortuna conseguida com as vendas dos Meninos campeões brasileiros de 2002 e 2004, o Santos poderia ter sanado suas dívidas e partido para um modelo de administração auto-sustentável, que não dependesse mais de um mecenas.

Sei que na prática não é tão fácil, já que nenhum clube de ponta do Brasil está no azul, mas terceirizar o futebol para Vanderlei Luxemburgo – um técnico personalista e perdulário –, acabou sendo a raiz de todos os males que o Santos passou a padecer.

Comissão técnica caríssima e acomodada; jogadores negligentes e sem motivação ganhando salários irreais para o futebol brasileiro; contratos mal feitos gerando altas pendengas trabalhistas; despesas sempre muito superiores às receitas, gerando um quadro deficitário perpétuo.

Enquanto isso, o conselho aprovava todas as contas, e quem se levantasse para criticar ou exigir explicações, só faltava ser agredido. Criou-se um círculo vicioso que levaria à ruína não fosse estancado pelas últimas eleições, esta é a verdade.

Porém, qualquer que tenha sido o motivo que fez com que o conselho aprovasse os empréstimos de Marcelo Teixeira ao clube, o fato é que eles foram feitos. Com o dinheiro, salários e contas vitais foram pagas e o clube se manteve vivo. Isso não pode ser ignorado.

Acho que a direção de uma empresa não pode se recusar a pagar as dívidas feitas pela administração anterior, mesmo não concordando com elas. Entretanto, sei que entre os leitores deste blog há juristas, advogados, pessoas que conhecem o Direito muito mais profundamente do que eu. O espaço está aberto para seus comentários.

Você acha que o Santos deve pagar a divida a Marcelo Teixeira, ou a nova diretoria não tem nada a ver com os atos da anterior?