Meus muitos anos como tenista amador e jornalista especializado no esporte me ensinaram variadas técnicas mentais para superar momentos difíceis. Jogar ponto a ponto é a melhor delas e a que recomendo ao Santos para chegar ao título.

O Santos provou ontem que ainda pode, sim, ser campeão brasileiro. Para isso, porém, terá de mudar a forma de enxergar o campeonato. Não adiantar olhar lá pro final e imaginar o exaustivo caminho pela frente. Tem de focalizar cada jogo, como o maratonista que corre 42 quilômetros concentrando-se em cada passo. Tem, enfim, como se diz no tênis, de “jogar ponto a ponto”.

Jogar cada ponto com concentração, determinação e coragem é a atitude responsável por grandes viradas no tênis, um esporte que não termina pelo tempo e, portanto, dá sempre ao jogador inferiorizado no placar a possibilidade de passar à frente.

Às vezes parece que o jogo já está perdido e então é preciso recorrer a artifícios mentais para ganhar motivação e tentar o quase impossível. Já fiz isso algumas vezes e tenho uma história pra contar. Está com tempo? Senta que lá vem a história…

Uma história verídica

Era o ano de 1982 e a Koch Tavares realizava o I Torneio Imprensa de Tênis, em São Paulo. Jogador de futebol frustrado, eu jogava tênis desde 1973 e já tinha um jogo mais consistente do que a maioria de meus colegas jornalistas. Cheguei à final contra José Nilton Dalcin, repórter de A Gazeta Esportiva, hoje editor do site Tênisbrasil.

Personalidades compareceram à final, que tinha até a cobertura da imprensa. Meus amigos do jornal O Globo, meu irmão e minha mulher foram torcer pra mim. Estava confiante e abri 4 a 1, mas arrisquei muito e acabei perdendo o primeiro set por 6 a 4.

No segundo, joguei com medo de errar, só coloquei a bola na quadra, e a tática deu certo. O Zé Nilton é quem forçou mais o jogo, errou muito, e eu venci por 6 a 1. Fui para o terceiro e último set com a convicção de que ganharia a partida e o título sem correr riscos, mas a bola do Zé Nilton começou a entrar e ele chegou a 5 a 1.

Nesta hora, lembro-me perfeitamente que pensei: “Odir, que vergonha! Seus amigos, seu irmão e sua mulher vieram ver seu jogo, torcer para você, e você está dando vexame, jogando com medo, só empurrando a bola. Você já perdeu, mas ao menos termine com a cabeça erguida. Faça o óbvio: fuja de sua esquerda e bata com a direita na esquerda dele. Mexa essas pernas e faça isso até o fim. Perca como homem!”.

Comecei a melhorar, mas ainda 5 a 1 o Zé Nilton chegou a ter dois match points. O fotógrafo já saiu da cabine e ficou ao lado da quadra, para pegar o ponto final e a comemoração do Zé. Mas, não sei como, defendi os dois match points, mantive o serviço e diminui para 5 a 2.

Mais animado, consegui quebrar-lhe o serviço em seguida, depois mantive o meu, mas com 5 a 4 e saque ele teve outro match point. Imaginei-me como um goleiro em um pênalti. Pensei: “Não vou deixar essa bola passar, nem que eu tenha de me atirar nela”. Ele sacou bem, no meio, e eu só tive tempo de esticar a raquete em direção à bola, que bateu no aro e subiu, subiu…

O jogo foi em uma quadra fechada, na antiga academia Back Spin, próxima à Rua Vergueiro, e se a bola batesse no teto a partida terminaria, com a vitória do Zé Nilton. Pois a bola chegou perto, mas não bateu e começou a descer. Fiquei torcendo então para ela cair do outro lado da rede. Caiu. Mas caiu à mercê para o smash do Zé. Se ele desse uma enterrada, o jogo estaria decidido. E foi o que tentou fazer, mas acabou jogando a bola na rede.

Só naquele momento é que comecei a me animar. Pensei: “Ele está nervoso. Não posso mais perder esse jogo”. E segui minha estratégia de mexer as pernas, fugir da esquerda e bater na esquerda dele, até que, naturalmente, eu é que cheguei a 6 a 5 e tive o match point. Joguei com tranqüilidade, chamei-o à rede e joguei a bola no seu pé, provocando o erro no seu voleio.

O fotógrafo, que já estava ali a um tempão, fez a foto de minha mulher me beijando. Ganhei uma infinidade de prêmios e sai em todos os jornais. Fiquei mais conhecido no meio jornalístico por jogar tênis do que pelos dois Prêmios Esso que havia ganho.

No outro dia, só para mostrar como a imprensa vê o fato do ângulo que quiser, enquanto todos os jornais valorizavam minha conquista, o jornal A Gazeta Esportiva, no qual trabalhava meu adversário, dava uma matéria de meia página com o título: “José Nilton vice-campeão!”.

Lições dos mestres para o Santos

Nesses meus quase 34 anos de jornalista convivi com grandes atletas, notáveis desportistas, seres humanos com uma força interior assustadora, que construiram carreiras de muito sucesso. Aprendi muito com eles. Uma frase que ouvi do cestinha Oscar Schmidt, de quem tive a honra de ser o biógrafo, serve agora para o Santos.

Oscar dizia: “Há times (no basquete) que estão muito atrás no marcador e ficam ansiosos para tirar logo a diferença, como se em um ataque pudessem fazer 10, 15 pontos. Mas não é possível. Você só pode fazer três pontos em um ataque”.

É o caso do Santos agora. É impossível, em apenas uma rodada, tirar a diferença de 10 pontos que o separa do Fluminense, mas diminui-la jogo a jogo é mais do que provável. Até porque a tabela entra em uma fase teoricamente propícia para o Alvinegro Praiano.

Cinco jogos decisivos

As duas próximas partidas do Santos serão contra adversários que estão à sua frente, mas serão ultrapassados caso o Santos vença – Atlético Paranaense e Internacional. Depois vem um clássico contra o São Paulo, no Morumbi, em que tudo pode acontecer. Em seguida, mais dois jogos do Santos em casa, contra o praticamente rebaixado Grêmio Prudente e o decadente Vitória.

Com exceção do confronto com o São Paulo, em que a lógica parece ser o empate, em todas as outras quatro partidas o Santos é favorito. No caso do Internacional, um ótimo time, o favoritismo santista se explica pela atenção maior que o time gaúcho está dando aos preparativos para o Mundial Interclubes, seu maior objetivo neste semestre.

Se jogar ponto a ponto, se respirar fundo nas dificuldades e seguir fazendo o que é certo para buscar cada vitória, o Santos saberá defender seus match points e estará preparado para fechar os jogos e alcançar o título quando a oportunidade finalmente estiver ao alcance de suas mãos.

Que tal fazermos um pacto, nós que somos santistas de São Paulo, Santos ou cidades próximas: vamos nos comprometer a ir ao menos a um dos cinco próximos jogos do Santos? Estou certo de que o calor e o amor da torcida, nesta fase crucial, podem criar uma energia irresistível, como aconteceu em 2004. Não custa nada tentar. Topa?