Blog do Odir Cunha

O ombudsman do Santos FC

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O Povo do Pará contra a lavagem cerebral que vem de Galvão & Cia


Este é o lance. Ficará gravado entre os muitos de alta categoria que Neymar já fez, apesar de ter apenas 19 anos. Será comparado àquele em que Garrincha fingia ir para a direita duas vezes, e voltava sempre para o mesmo lugar, para delírio da platéia. Ontem, o Brasil estava ganhando por 1 a 0, era preciso segurar a bola. Neymar está só. Não aparece nenhum companheiro para ajudá-lo. Cortês, o mais próximo, está impedido, por isso Neymar, inteligente, não lhe passa a bola. Ameaça chutar para confundir o marcador, que, temeroso, se mantém estático. A torcida vibra. E o locutor, do contra, sem sensibilidade para perceber o momento que exprime a alma do futebol brasileiro, reclama: “A torcida vibra, mas ele não saiu do lugar”. Em seguida, Neymar sai do lugar de maneira genial, limpa, deixando dois marcadores para trás. Para não dar o braço a torcer, Galvão Bueno não fala mais do lance. Imagine se a jogada tivesse sido feita por um dos seus protegidos…

Neymar, espremido entre a linha lateral e a de fundo, parou a bola de frente para o marcador argentino. O estádio prendeu a respiração. Era o duelo esperado. Tranqüilo, mas com os músculos retesados, prontos para o arranque, o jovem craque brasileiro esperou que o adversário fizesse o primeiro movimento. Mas o outro, que não era bobo, esperou. Nisso, mais um argentino veio ajudar na marcação. Era a deixa esperada por Neymar. Por milésimos de segundo o marcador anterior tirou os olhos da bola. O suficiente para que o atacante brasileiro fingisse uma arrancada pela esquerda e logo, com o pé trocado, cortasse para o meio, passando limpamente entre os dois. Uma jogada linda, de difícil execução e que exige grande personalidade – assim foi o lance de Neymar que empolgou o estádio e fez com que o coro “Neymar! Neymar! Neymar!” ecoasse até pelos microfones que parecem ter sido ligados apenas para ver defeitos no melhor jogador brasileiro do momento.

A cena de Neymar me fez lembrar uma de Nilton Santos, lateral-esquerdo do Botafogo de tanta categoria que era chamado de “A Enciclopédia”. Pressionado na bandeirinha de escanteio, Nilton estava de costas para o atacante que o marcava. O Maracanã parou para ver o desfecho do lance, assim como eu, pela tevê, lá da minha Cidade Dutra. Pois a Enciclopédia tocou de calcanhar, fez a bola passar por entre as pernas do marcador e saiu do outro lado, triunfante. Nem me lembro quando foi o jogo ou qual era o adversário do Botafogo. Só sei que aquele lance ficou na minha memória como a comprovação de que Nilton Santos era mesmo uma Enciclopédia de futebol.

Ontem, os brasileiros que viam o jogo pela tevê perderam a chance de ter esse lance de Neymar devidamente valorizado, pois quem transmitia a partida – pela Globo, pois pelo Sportv ao menos o narrador Luiz Carlos Junior não perseguiu o garoto – parecia mais interessado em achar mais defeitos do que virtudes no jovem craque. Ainda bem que os paraenses, um povo de peito aberto e cheio de amor pra dar, estava lá para demonstrar sua gratidão por uma jogada que lembrou os bons tempos do nosso futebol.

Uma explicação para a perseguição de Galvão a Neymar

Quando era locutor da TV Gazeta, subordinado ao santista Peirão de Castro, Galvão Bueno se dizia santista (tenho testemunhas para comprovar isso). Quando foi para a Globo, presidida pelo flamenguista roxo Roberto Marinho – que não escondia de ninguém o desejo de usar a televisão para divulgar o Flamengo –, Galvão Bueno se tornou flamenguista (também tenho testemunhas).

Quando a Globo se incomodava com o técnico Dunga e queria derruba-lo para voltar a ter os privilégios de antes, a não convocação de Neymar e Paulo Henrique Ganso foi um dos motivos usados para tirar Dunga do caminho – que, por sinal, era um técnico bem melhor do que Mano Menezes.

Agora que o Santos teima em não vender os dois craques e Neymar se torna o maior ídolo do futebol brasileiro, ofuscando o flamenguista Ronaldo Gaúcho e até os que atuam na Europa, Galvão usa as transmissões para tentar jogar a torcida contra Neymar e diz, no seu programa que, “para o bem de Neymar”, o garoto deve ir para a Europa.

Ora, que admirador do futebol brasileiro pode achar melhor que um jogador como Neymar vá embora para além do Atlântico? Dá para imaginar os grandes cronistas esportivos deste País – Armando Nogueira, Nelson Rodrigues, Mário Filho, Ary Barroso, Thomaz Mazzoni –, infelizmente todos falecidos, dizendo que o melhor para o nosso futebol é que Neymar vá embora?

O jogo de ontem deixou claro que é bem melhor ter Neyamr entre nós e que há uma evidente oposição entre a forma como Galvão Bueno e o público brasileiro vêem a Seleção Brasileira. Já estava evidente para muitos que o locutor está de perseguição com o jovem ídolo do Brasil. Jogadas de Neymar que seriam elogiadas até ao exagero se fossem feitas por outros jogadores, são recebidas friamente ou até criticadas por Galvão e seu fiel escudeiro Casagrande.

Não são apenas santistas que estão percebendo a manobra e se irritando com a dupla global. Até mesmo jornalistas, como Chico Lang, conhecido pelo fanatismo ao Corinthians, está criticando esse estranho comportamento em sua última coluna.

Para alguns, o fato de manter um ídolo que poderá, a média prazo, transformar o Santos em um dos times de maior torcida do País, é o motivo real de alguns jornalistas-torcedores defenderem a ida de Neymar para a Europa, ou critica-lo quanto atua pela Seleção. Não acho que Galvão Bueno, ou qualquer outro que honre a profissão de jornalista, seria tão baixo, vil, desprezível, crápula, indecente, amoral, cafajeste e mesquinho de agir assim. Acho que todos amam o Neymar e só querem o bem do garoto. As críticas, quando ocorrem, são construtivas. Você não acha?

Clique aqui para ler Chico Lang criticando a perseguição de Galvão Bueno a Neymar

Ronário diz, no twitter, que jogadores que atuam no Brasil tem de ser a base da Seleção


Lica, um craque invendável do Santos

O futebol tem personagens que não aparecem na mídia, mas são essenciais. Um deles é o observador técnico, popularmente conhecido como olheiro. Em uma simples opinião ele pode fazer o clube ganhar, ou perder, milhões de reais. Como descobrir craques por este Brasil afora é o grande objetivo de muitos clubes, quem tem bons olheiros leva grande vantagem. E o Santos tem a sorte de ter um craque nesta posição. Ele se chama Ricardo Crivelli, mas todos o tratam por Lica.

Sua sala, no Centro de Treinamento Rei Pelé, tem fitas de vídeo até o teto e ele – 48 anos, viúvo prematuro, que mora sozinho – está sempre disposto a ir para qualquer lugar atrás de uma dica quente de bom jogador. Recentemente esteve no Norte e Nordeste do país e voltou empolgado. Em Belém a peneira do Santos atraiu mais garotos do que as de Flamengo e Internacional.

“Todo mundo quer jogar no Santos, é impressionante”, diz ele. “Um garoto já estava certo com o Flamengo, mas preferiu o Santos. Todos querem  ser o novo Menino da Vila”.

Mesmo apaixonado pelo futebol, Lica sabe que não pode se deixar levar pelo coração. Sua análise é fria. Anos de prática fazem com que perceba logo o potencial de cada jogador. Na peneira realizada em Belém, observou mais de mil garotos e só escolheu cinco. “Alguns podem ser bonzinhos, mas para o Santos tem de ser muito bom”, diz ele.

Sentindo-se valorizado pela nova diretoria, Lica é ouvido pelo gerente de base, Luiz Fernando Moraes, e também recebido pelo técnico Dorival Junior, do profissional. Isso evita as chances de que o clube venha a cometer graves erros de julgamento, como acontecia antes.

No ano passado ele foi atrás, observou jogos do atleta e deu opinião favorável para a contratação de Jucilei, que viria sem custo algum para o Santos. Lembro-me bem, porque falamos sobre o jogador em uma viagem para Santos que fizemos no carro de José Carlos Peres, ex-superintendente do Santos na Capital, que indicou Lica para o clube.

No caminho, Lica insistiu que o jogador deveria ser contratado, pois seria titular do Santos e a custo zero. Na época o meio-campo do time era formado por Roberto Brum, Germano… Confiei piamente no que ele falou e hoje confirmo que estava certo. Outra vantagem, segundo Lica, é que Jucilei tem tipo físico e estilo de jogo para se dar bem no futebol europeu, o que o torna um bom “produto” de exportação.

“Um jogador bom, que venha por um valor baixo, nunca dá prejuízo ao clube. Mesmo que não se adapte, pode ser negociado com lucro”, ensina.

Inter lidera o campeonato dos olheiros

Por mais que o Santos tenha aberto o olho para este trabalho de descobrir jogadores jovens e promissores, ele ainda está bem atrás do Internacional de Porto Alegre, que gasta R$ 1,3 milhão com suas divisões de base e mantém 10 olheiros profissionais espalhados pelo Brasil.

Enquanto o Santos consegue analisar, no máximo, quatro mil jogadores por ano, o Internacional analisa mais de 40 mil. Mas isso, segundo Lica, deverá ser corrigido. Logo o seu time deverá ganhar mais reforços e o Santos poderá competir de forma mais equilibrada com o grande time do Sul.

Quem sabe, neste mesmo blog, possamos anunciar brevemente a abertura de vagas para olheiros, ou observadores técnicos, do Santos. E deve ser uma atividade bastante prazerosa contribuir para reforçar a mística de um clube que revela craques como nenhum outro.

Eu mesmo já ajudei o amigo Lica no ano passado, em uma manhã de sábado em que ele deveria observar dois jogadores. Como não poderia estar nos dois lugares ao mesmo tempo, fui à Rua Javari ver um atleta do Pão de Açúcar e depois passar o relatório para o Lica.

O rapaz que fui ver começou muito bem, mas cansou no segundo tempo. Entretanto, um outro entrou na segunda etapa e acabou com o jogo, marcando até gol. Este segundo tinha apenas 20 anos. Falei com ele após o jogo, peguei seu e-mail e dei ao Lica, mas o garoto, considerado problemático, nem foi cogitado pelo Santos. Agora fiquei sabendo que o Corinthians o contratou.

Por conviver com o Lica há mais de um ano – já que ambos fomos trazidos ao clube pelo José Carlos Peres –, sei de muitas histórias de bons jogadores que poderiam ter vindo para o Santos de graça, só pelo prestígio de vestir a sagrada camisa alvinegra. Sei também de outros que vieram mesmo quando já se sabia que não dariam certo, impostos por negociações nebulosas.

Os dois últimos anos do clube foram realmente péssimos nesse quesito. Jogadores acomodados – e medíocres, em sua maioria – ganhavam fortunas, enquanto se fechavam as portas a jovens talentos que hoje brilham em outras equipes. A direção de futebol estava em mãos incompetentes, esta é a dura verdade.

Hoje a coisa mudou. As contratações de jogadores são bem mais transparentes, não há segundos interesses em jogo. Não se ganha nada por fora, como, infelizmente, é comum no futebol. O objetivo é reforçar o elenco do Santos, desde as categorias de base, com o que pode haver de melhor e, se possível, mais barato. Para isso, o trabalho do Lica é essencial. Mas ainda precisa receber mais apoio. Como já dizia minha boa avó, “uma andorinha só não faz verão”.

Receio que este post desperte o interesse de outros clubes pelo passe do Lica, porque é mesmo difícil encontrar alguém que enxergue tanto futebol e seja tão honesto como ele. Pensei muito antes de escrever. Porém, é preciso fazer justiça a este profissional tão relevante e às vezes tão esquecido, que é o olheiro.

E, pelo que sei, Lica nem pensa em sair do Santos. Se quisesse, já teria aceitado a oferta de outros dois clubes que também investem muito em categorias de base e lhe ofereceram um salário maior.

“Gosto do Santos, estou me sentido valorizado por esta diretoria. A coisa melhorou muito no futebol depois que eles assumiram e sei que melhorará ainda mais. Descobrir um garoto para o Santos é diferente. Tem um valor maior”, conclui.


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