Nesta quinta-feira, na loja da Nike na Vila Belmiro, haverá um totem do Montillo em tamanho real e o novo contratado do Santos irá autografá-lo. Na oportunidade ele receberá um exemplar do livro 100 ANOS DE FUTEBOL ARTE para entender melhor a história do Alvinegro Praiano. A Nike promete encher a loja de camisas do craque.


De 1913 ao Time dos Sonhos, o Santos sempre contou com o talento de jogadores negros.

Há uma semana o jogador Boateng, do Milan, chutou uma bola em direção à torcida e saiu de campo depois de ser insistentemente ofendido com gritos racistas por um punhado de jovens da torcida do Aurora Pro Pátria, time da quarta divisão italiana que recebia o Milan em uma partida amistosa.

Em solidariedade ao companheiro, os outros jogadores do Milan resolveram abandonar a partida, disputada em Busto Arsizio, norte da Itália, que aos 26 minutos do primeiro tempo estava empatada em 0 a 0.

Nesta temporada o Aurora Pro Pátria já teve de pagar uma multa de cinco mil euros por episódio semelhante. Desta vez, o clube será obrigado a fazer um jogo com portões fechados. A direção do Milan já avisou que retirará o time de campo sempre que seus jogadores forem vítimas de racismo.

Acho que esse mal tem de ser cortado pela raiz, mesmo, pois por trás de todos os grandes conflitos está a intolerância, de qualquer origem. O que há por trás das Cruzadas, do Holocausto, da matança dos indígenas americanos e do eterno conflito entre árabes e judeus? A dificuldade de entender, aceitar e conviver com aquele que é ou pensa diferente.

Felizmente, salvo raras manifestações profundamente infelizes, como aquela de torcedores orquestrados para vaiar Neymar no jogo da Seleção Brasileira no Morumbi, não se vê mais no Brasil tanto ódio pela cor de pele ou pelo jeito de ser do adversário…

De um esporte de estudantes brancos de origem inglesa, o futebol ganhou todas as classes e acelerou a integração social que, entretanto, ainda tem várias etapas a serem vencidas em nosso País.

Esta tolerância, aliás, é um dos motivos pelos quais admiro o Santos, um clube aberto a todos, que se orgulha de seus negros e mulatos que formam, provavelmente, o maior contingente de seus ídolos: Hélvio, Manga, Jair Rosa Pinto, Pelé, Coutinho, Mengálvio, Lima, Durval, Serginho, Joel Camargo, Carlos Alberto Torres, Edu, Juary, Robinho, Alex, Neymar… E até Ramos Delgado, o argentino que fez mais sucesso na Vila Belmiro, era tão moreno que em seu país o apelidaram “El Negro”.

Com seu Time dos Sonhos da década de 1960 0 Santos fez o mundo reverenciar, pela primeira vez, um time estrelado por negros. Sim, havia Gylmar, Mauro, Zito, Pepe, mas os virtuoses, os artistas, os malabaristas que fizeram muito mais pela integração racial do que mil decretos de lei, chamavam-se Dorval, Mengálvio, Coutinho e Pelé.

Mas alguém poderá dizer: “Mas nos anos 60 quase todos os grandes times brasileiros e sul-americanos tinham negros”. Sim, responderei, mas nenhum teve uma pequena parte da projeção do Santos. Porém, o mesmo crítico insistente poderá retrucar: “Mas o Santos deve ter tido o seu período racista, como qualquer outro clube brasileiro”. E aí eu responderei: Não consta que o Santos tivesse sido racista em nenhum período de sua história,nem mesmo nos primórdios.

Uma foto que me emocionou e que eu e Guilherme Guarche e Guilherme Nascimento pelejamos para descobrir os nomes dos jogadores, em vão, mostra o time do Santos em 1913, apenas um ano depois de fundado, com três negros na sua formação. Emocionou-me porque no início do século XX vivia-se uma época de grande preconceito, em que negros não eram admitidos no futebol. Mas o Santos, que tinha abolicionistas entre seus fundadores, mais uma vez fugia à regra.

Dos muitos motivos que o Santos nos dá para termos orgulho de sermos seus torcedores, há os incontáveis títulos e recordes, a revelação de grandes jogadores, a vocação para ser o maior time artilheiro do mundo e de ter tido, por 19 anos, o Rei do Futebol. Tudo isso é relevante. Mas o fato de ter sido um clube sem preconceitos, bem à frente do seu tempo, não tem preço.

Reveja agora a cena em que Boateng chuta a bola em direção à torcida do Aurora Pro Pátria e sai de campo, seguido pelos outros jogadores do Milan. Perceba como alguns torcedores do time local ficam desconsolados com a atitude dos jovens racistas que provocaram o incidente. No fim do vídeo ve-se o grupo racista, que é do jeito que a gente imagina: bombados, agressivos, pele muito clara, com ar de superioridade e desrespeito. Poderiam fazer parte dos camisas pretas de Mussolini ou da juventude nazista de Hitler. Vários jogadores brasileiros já foram vítimas de bandos assim na Europa – mas isso os agentes dos jogadores não dizem quando querem tirá-los do Brasil:

Por que os adoradores do futebol europeu falam tão pouco do racismo que existe por lá?