Nesta segunda-feira, em Jaguariúna, pela Copa São Paulo de Futebol Júnior, este ano aberta a jogadores Sub-20, o Santos venceu o São Mateus/ES por 1 a 0, gol de Stefano Yuri no primeiro tempo. Com este resultado o Alvinegro Praiano joga pelo empate com o Corinthians de Alagoas, na quinta-feira, às 16 horas (Sportv), para garantir o primeiro lugar do grupo e a consequente classificação para a próxima fase. Mesmo dominando a partida, o Santos se mostrou dispersivo no ataque e perdeu várias oportunidades. Nenhum jogador se destacou, apesar do empenho de Lucas Otávio e Leandrinho.

Disposto a chegar perto do impossível para trazer ao menos mais um jogador de peso para o seu elenco, o Santos deve continuar especulando esta semana. Não me surpreenderia se Marcos Assunção e Riquelme fossem sondados, e torço para que sejam. Entretanto, e vários leitores do blog também estão percebendo isso, a busca pelo astro não deve ser o caminho prioritário do Santos e nem de qualquer clube grande brasileiro.

A distância tem diminuído, mas o que os grandes estrangeiros pagam aos seus principais jogadores ainda está bem acima do que seria razoável para o mercado nacional. Mesmo atletas na casa dos 30 anos, como Robinho e Nenê, custam bem mais do que um jogador brasileiro de nível técnico similar.

Um clube como o Santos, eternamente interessado em títulos e prestígio, precisa contar com alguns nomes consagrados em seu elenco, mas, pela realidade econômica de nosso futebol, não deve e não pode jogar todas as suas fichas nas grandes contratações – receita que mais tem provocado dívidas profundas do que trazido conquistas duradouras aos nosso clubes.

De nada adianta ter uma receita maior – de tevê, marketing, publicidade – se os clubes usam esse dinheiro para pagar maiores salários aos mesmos técnicos e jogadores de sempre. Haveria superávit se os salários pudessem ser achatados, ou ao menos crescessem em uma proporção menor do que o faturamento. Do jeito que está, assistimos a uma inflação financeira que não tem correspondido à melhoria da qualidade do jogo, ou à consolidação do mercado futebolístico brasileiro.

Uma ideia para mudar o jogo

Quando o amigo Luciano, de Arujá/SP, lançou a novidade de que eu poderia ser candidato à presidência do Santos – hipótese já descartada, visto que ainda não tenho dez anos como sócio do clube – e me pediu algumas ideias para divulgar em um fórum de debates de santistas, falei da criação de uma área de pesquisa ligada ao departamento de futebol que não exigiria muita despesa e certamente traria ótimos resultados.

Lembro de ter escrito que com alguns estagiários e seus respectivos computadores o clube poderia iniciar um trabalho de levantamento dos jogadores em atividade no Brasil, com informações e estatísticas essenciais para aumentar ao máximo a relação custo-benefício de uma contratação.

Só um participante desse fórum comentou essa sugestão, mas não lhe deu o menor crédito. Escreveu que era uma bobagem, pois o futebol deve ficar na mão de quem o conhece a fundo e não de estagiários. Ou seja, ele não entendeu nada. É óbvio que a decisão final por uma contratação continuará sendo do diretor da área, ou até do presidente do clube, mas passará a se basear em dados concretos e não no feeling de um ou outro.

O que se vê hoje é o técnico, ou o diretor de futebol, sugerindo contratações, de jogadores que eles já conhecem de outros clubes nos quais trabalharam. Ou, o que tem sido mais comum, aceitando as indicações dos próprios agentes desses jogadores. Isso é muito pouco, levando-se em conta que o Brasil tem 6.632 times profissionais de futebol, sem contar as milhares de equipes das divisões de base.

Apenas um mês de salário de um jogador comum pode pagar um ano dessa área de pesquisa, que entre outras informações importantes – como condições clínicas e físicas e detalhes do contrato de trabalho do atleta – trará as estatísticas dos jogadores. Não só quantos jogos fizeram, ou gols marcaram, mas sua porcentagem de passes, desarmes, assistências, cruzamentos certos…

Houve tempo em que apenas a dica de um olheiro ou a visão de um técnico tarimbado poderia trazer ao time uma jóia rara, perdida pela infinidade de times do Interior. Isso aconteceu em 1976, quando o técnico Zé Duarte foi à Caldense buscar o meia-esquerda Ailton Lira, que aos 25 anos já pensava em abandonar o futebol e montar uma oficina mecânica com o irmão, em Araras.

Aconteceu novamente em 1994, quando um jogador alto, magro e bastante tímido, de 22 anos, foi trazido da Sãocarlense, num período em que o Santos estava com a caixa a zero. Um ano depois esse rapaz, que se revelou um meia genial, foi escolhido o melhor jogador do Campeonato Brasileiro. Seu nome: Giovanni Silva de Oliveira, ou G10, ou O Messias, maior ídolo do Santos nos anos 90.

Hoje, porém, é quase impossível que um craque como Ailton Lira ou Giovanni alcance 22, 25 anos, sem que não tenha sido descoberto e adotado por algum empresário, que, por sua vez, tratará de negociar seu passe com o máximo de lucro. Mesmo assim, há muitas situações em que contratar um jogador desconhecido ou pouco valorizado pode ser um grande negócio. É preciso, porém, estar ligado ás oportunidades 24 horas por dia.

Moneyball, o filme que explica o que quero dizer

Há um filme nas locadoras, baseado em uma história real, que exemplifica bem o que quero dizer com este post. No Brasil seu título é “O homem que virou o jogo” (Moneyball, nos Estados Unidos). Ele conta a história de Billy Beane, gerente geral do time de basebol do Oakland Athletics, que, apesar da difícil situação financeira do time, conseguiu montar uma equipe competitiva para a temporada de 2002 adotando uma detalhada análise estatística dos jogadores criada pelo jovem Peter Brand, recém formado em Economia pela Universidade de Yale.

Os conselheiros técnicos da equipe rejeitaram e se tornaram agressivos com a teoria de Brand, que consideraram ridícula, mas o gerente Billy Beane deu crédito ao jovem, acabou demitindo todos os medalhões e montou um time bem menos caro, com jogadores sub-valorizados, que depois de um início ruim conseguiu vencer 20 jogos consecutivos, um recorde na Liga Americana.

O Athletics não conquistou o título, mas fez furor. Dois anos depois o Boston foi campeão da Liga adotando as teorias de Beane e Brand. Antes, o mesmo Boston tinha feito uma proposta para Beane de US$ 12,5 milhões por ano, que o tornaria o mais bem pago gerente da história do beisebol, mas Beane recusou.

Veja o trailer e tire suas conclusões:

Por que não Pinga?

Assim como há jogadores que estão recebendo bem mais do que merecem, há outros que, por um motivo ou outro, valem e recebem menos do que poderiam. Pinga pode ser um desses casos. Pelo seu currículo e a edição de seus melhores lances, parece um canhoto de personalidade e chute poderoso.

O que teria atrapalhado sua carreira, a ponto de seu passe valer tão pouco? Incidentes fora do campo? Gênio difícil? Indisciplina? O próprio apelido serviu para desvalorizá-lo? Como saber? O certo é que analisado apenas tecnicamente dá a impressão de ser um jogador bem mais preparado do que João Pedro, Gérson Magrão, Bernardo e outros que recentemente passaram pela Vila Belmiro.

Por que será também que Jucilei e Paulinho foram oferecidos quase de graça ao Santos e mesmo assim recusados? Quanto prejuízo não gerou ao clube essa imperdoável negligência? O que faltou, além de competência, para se avaliar devidamente o potencial desses dois ótimos meio-campistas, que depois foram reforçar o Corinthians?

Pois faltou um departamento moderno e profissional de futebol, que não se valha apenas dos instintos e contatos de uma pessoa, mas de uma pesquisa de mercado minuciosa. A falta desse departamento torna a formação de um elenco no Brasil uma aventura passional, amadora e perdulária.

A solução para o Santos, ou para qualquer clube de prestígio no País, é investir não só na formação de jovens atletas vindos da base, mas em um sistema científico de garimpagem de talentos que por qualquer razão não são valorizados e por isso podem ser contratados por valores compatíveis com o mercado brasileiro de futebol.

A garimpagem científica pode ser a saída para a falta de dinheiro?