No twitter um colega definiu como “hipocrisia” a queixa de racismo (na verdade, de “de injúria qualificada com emprego de racismo”) do zagueiro Manoel, do Atlético Paranaense, contra Danilo, do Palmeiras, após entrevero em jogo pela Copa do Brasil realizado quarta-feira, no Parque Antártica, que o time de São Paulo venceu por 1 a 0. Segundo a queixa, após disputa de um lance de área, Danilo chamou o jogador adversário, que é negro, de “macaco”.

Não só este colega do twitter, mas muita gente ainda vê com naturalidade essa forma de tratar os negros. No Sul, a torcida do Grêmio se refere aos torcedores do Internacional, em cânticos que reverberam pelo estádio, como “macacos”. Como sabemos, o Sul é a região do País com menos negros e, como tudo que é diferente, incomoda, o racismo lá também é maior.

Povo que foi trazido à força para a América do Sul, como escravo, é compreensível que os negros ainda sejam vistos com preconceito, principalmente pela faixa menos culta da sociedade. Como as pessoas levam muito tempo e às vezes nunca conseguem se livrar dos preceitos que herdam de seus pais, não me admira que Danilo ou outros jogadores, de origem humilde e pouco letrada, considerem normal desmerecer alguém pela raça ou origem. Mas não se pode mais aceitar isso.

Não é o caso de se demonizar o jogador do Palmeiras, ele também vítima da ignorância coletiva. Mas não deixa de ser mais uma oportunidade de se escancarar o problema que ainda cerceia o desenvolvimento social do País. Sim, porque sem harmonia entre os seus vários segmentos, uma sociedade não evolui.

Vira-latas criativos e resistentes

É uma pena que muitos ainda não percebam que é na mistura de raças que vem a criatividade, a força de um povo. Não fossem os negros e o Brasil seria uma insossa mistura entre europeus e índios. O que seria da nossa música, da nossa dança, da nossa culinária, das nossas crenças, nosso folclore e, mais do que tudo, do nosso futebol?

Os negros romperam a barreira do elitismo que se queria para o esporte bretão e foram os principais responsáveis por torná-lo este espetáculo que é hoje. Robinho, André e Neymar, assim como o “império do amor” Adriano e Wagner Love têm a mesma ginga, a mesma raiz na doce e romântica África.

A mistura torna o povo criativo e resistente. Não somos europeus, orientais, negros, somos um povo vira-lata que está aprendendo a se situar no mundo. Nossa força está na mistura. A monocultura, como está provado em outros países, leva à decadência. Como diz a letra de um samba, “negro é festa, negro é vida”. A alegria do brasileiro, que ri da própria desgraça, certamente não veio dos taciturnos europeus.

Não sei se meus leitores sabem, mas mesmo representando a maioria da população de baixa renda, há menos negros do que brancos nas penitenciárias do País. Não há nada que comprove uma tendência maior do negro para a violência. Ao contrário. A maioria dos assassinos em série são brancos. No entanto, o estigma de que o negro é mais propenso à criminalidade continua responsável por muitas prisões arbitrárias. Todos sabemos que os grandes criminosos deste país são os de pele e colarinho brancos.

Assim como eram brancos os primeiros escravos conhecidos na história do homem. E enquanto os egípcios, que eram negróides, já conheciam a Astronomia, os germanos, que originaram os alemães, ainda comiam carne crua. Não há nenhuma comprovação científica da superioridade uma raça sobre a outra. Portanto, qualquer manifestação racista é absurda e deve ser repelida com veemência antes que se alastre, como já aconteceu antes em eras obscuras da existência humana.

Se é pelo futebol, que foi uma das primeiras formas de democratização racial no País, que teremos de nos conscientizar do universalismo do povo brasileiro, que assim seja. Danilo deve ser perdoado, pois falou o que sempre ouviu e considerou normal. Mas que casos assim sejam cada vez mais raros, até que se extinguam de vez.

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