Cerca de 200 mil cariocas empurraram o Santos para o bi mundial em 1963. E o Maracanã, que recebia o Santos com amor, ainda viu Pelé fazer o gol de placa, o milésimo…

Era para anunciar só no dia 28 deste mês, quando a escola comemora 83 anos, mas a Mangueira já decidiu que seu enredo para 2012 falará do bloco Cacique de Ramos, um dos mais tradicionais do Rio, que completa 50 anos e tem como madrinha Beth Carvalho, mangueirense histórica. Uma pena, pois se escolhesse o Centenário do Santos teria um tema de repercussão mundial, que traria para o sambódromo a união mágica do melhor do samba e do futebol e ainda um belo patrocínio que ajudaria a pagar suas dívidas que chegam a sete milhões de reais.

O presidente da escola, o músico Ivo Meirelles, vivia o drama da escolha entre os dois enredos e expressou esta inquietação no seu blog: “Na sexta-feira, 18, fomos a Santos, conversar com empresários… No sábado, 19, lá estávamos na grande São Paulo, pra nos certificar de que ali pode, sim, sair alguma coisa boa… No domingo, 20, fomos ao Cacique de Ramos, ouvir o Bira Presidente… E continuamos nossa trajetória, em busca do enredo perfeito… Mas será que ele existe? Tenho percebido, pelos e-mails que recebo, que qualquer que seja o próximo enredo haverá insatisfação de algumas pessoas… Todo mundo tem uma opinião formada à respeito do assunto. E agradar todo mundo não será tarefa fácil”.

Pelo jeito, Meirelles preferiu agradar aos sambistas da Mangueira que tem raízes também no Cacique de Ramos. Decidiu-se por um tema regional, que só pode sensibilizar aos cariocas, a um universal, que colocaria no mesmo altar personagens riquíssimos como Pelé e Cartola, deuses da cultura popular.

Relação entre Santos e o Rio vai além do clubismo

Sabemos que havia alguma resistência interna na Mangueira contra a escolha de um time “paulista” para o enredo. Ora, essa resistência só pode ter vindo de quem não conhece a história do futebol. Houve um momento, nos anos 60, em que o Santos era tão ou mais carioca do que os times do Rio. Várias crônicas de Nelson Rodrigues – uma delas reproduzida abaixo – falam dessa relação apaixonante que lotou o Maracanã nos jogos contra o Milan, na decisão do Mundial de 1963; que fez o estádio aplaudir Pelé no gol de placa contra o Fluminense e no milésimo, contra o Vasco.

Mais do que “o mais carioca dos paulistas”, o Santos era o símbolo do futebol artístico e ofensivo que brota no anárquico futebol das praias cariocas e santistas. E ainda há a história de heróis como Pelé, Zito, Gylmar, Coutinho, Edu, Robinho, Neymar – todos vivos, todos dispostos a desfilar na Verde e Rosa.

Enxergar o Santos apenas como um “clube paulista” e, portanto, rival dos cariocas, é enxergar muito pequeno, é ter uma visão superficial do futebol e da história da cultura popular.

Onde o samba atravessou

Não se sabe ao certo por que o enredo do Centenário do Santos foi preterido, já que além da riqueza do tema, traria um bom patrocínio para a Mangueira. Tenho minhas conjecturas. Uma delas é de que a Tim, com quem a Mangueira já estava negociando há mais de um mês, tratou de forçar a barra para que se fechasse com o Cacique de Ramos, pois o Santos é o único dos clubes grandes de São Paulo que não é patrocinado por esta empresa de telefonia.

No blog de Ivo Meirelles percebe-se que quase todos os comentários são favoráveis à escolha do Centenário do Santos. A resistência era apenas de algumas pessoas influentes na escola, que também são ligadas ao Cacique de Ramos, ou de meros torcedores que desconhecem a história do futebol brasileiro.

Leia os comentários no Blog de Ivo Meirelles, presidente da Mangueira

Mesmo com apenas uma semana para buscar patrocinadores, o Santos tinha possibilidades de conseguir mais verba e mais elementos para um desfile vencedor. A idéia era aproveitar e homenagear o futebol. Um carro alegórico seria destinado aos clubes do Rio, com presença de ídolos como Zico, Roberto Dinamite, Rivelino, Paulo César Caju e Jairzinho, entre outros.

De qualquer forma, o Santos gostou da idéia de ter o seu Centenário cantado pro uma grande escola de samba e está fazendo contatos no Rio de Janeiro e em São Paulo para definir aquela que terá a honra de cantar a história do time do Rei do futebol, aquele que encantou o mundo.

REVEJA UMA CRÔNICA DE NELSON RODRIGUES EM QUE ELE DIZ QUE O SANTOS DEVERIA TER NASCIDO CARIOCA:

Você acha que a Mangueira é a escola de samba ideal para apresentar o Centenário do Santos, ou tem outra preferência?