Time do Santos que enfrentou o Bella Vista, do Uruguai, em abril de 1931.

Meus amigos, houve uma época em que o Santos não era campeão de nada, a não ser de sua cidade, mas tinha um time forte e valente, que não rejeitava desafios, mesmo que o adversário tivesse a fama de ser um dos melhores do mundo.

Estou falando de 1931, quinto ano consecutivo em que o Alvinegro Praiano se firmava como um dos melhores quadros de São Paulo e, por extensão, do Brasil. Acha exagero? Resumirei, então, a participação santista nos Campeonatos Paulistas de 1927 a 1931:

1927 – Vice-campeão, um ponto atrás do Palestra Itália. Fez o jogo decisivo contra o mesmo Palestra, na Vila Belmiro, e mesmo precisando apenas do empate para ficar com o título, perdeu por 3 a 2, após atuação criminosa do árbitro palestrino Antero Mollinaro.

1928 – Vice-campeão, dois pontos atrás do alvinegro da capital.

1929 – Vice-campeão, novamente só atrás do outro alvinegro.

1930 – Se ganhasse a última partida, diante do alvinegro paulistano, provocaria outro jogo pelo título. Detalhe: ainda perdeu dois pontos por se recusar a jogar no campo do Atlético Santista. Acabou na terceira posição.

1931 – Vice-campeão, dois pontos atrás do São Paulo da Floresta. Detalhe: novamente perdeu dois pontos por se recusar a jogar no campo do Atlético Santista.

Para Araken Patusca, nesse período o Santos “tinha um dos mais harmoniosos conjuntos” do País, mas acabava perdendo o título por armações extra-campo.

Bem, mesmo parcialmente ignorado pela mídia paulistana – exatamente como ocorre hoje –, o Santos tinha uma equipe de valor e, por isso, criou coragem para convidar o poderoso Club Atlético Bella Vista, do Uruguai, para um amistoso na Vila Belmiro, na noite de 23 de abril de 1931, quarta-feira.

O clube uruguaio, fundado em 4 de outubro de 1920, em Montevideo, ostentava aquela que era considerada a melhor equipe de futebol do planeta.

A Seleção Uruguaia tinha vencido as Olimpíadas de Paris, em 1924, e Amsterdam, em 1924, além da primeira Copa do Mundo, realizada em Montevideo, em 1930, conquistas que a faziam considerar-se tricampeã do mundo. E o Bella Vista veio ao Brasil com a maioria dos titulares da Seleção de seu país, a temida Celeste Olímpica.

Com três titulares da Seleção Uruguaia que venceu a Copa de 30 – o premiado e forte zagueiro Nasazzi; o meio-campo Andrade, primeiro negro a se destacar no futebol internacional, e o habilidoso ponta-esquerda Dorado –, o Bella Vista se reforçou com mais sete campeões do mundo para uma excursão pelas três Américas de dezembro de 1930 a maio de 1931.

Nessa excursão vitoriosa, o Bella Vista venceu a Seleção do México por 3 a 1, mesmo jogando ao meio-dia, como já era costume por lá; derrotou a Seleção do Peru por 2 a 1 e, após outros triunfos, chegou ao Brasil, onde na tarde de domingo, 19 de abril, no Parque Antártica, venceu a até então invicta Seleção Paulista por 3 a 1.

Formada por jogadores da Capital, com exceção de Feitiço, do Santos, a Seleção Paulista enfrentou os uruguaios – e tomou um baile – com Nestor, Grané e Bartô; Pepe, Gogliardo e Serafim; Filó, Heitor, Friedenreich, Feitiço e Osses.

Para o jogo na Vila Belmiro, o Bella Vista entrou em campo com Ballesteros, Nasazzi e Mascheroni; Andrade, Romero e Riolfo; Dorado, Castro, Borja, Lago e Iriarte. Destes, nada menos do que sete jogadores – Ballesteros, Nasazzi, Mascheroni, Andrade, Dorado, Castro e Iriarte – tinham participado da vitória consagradora, por 4 a 2, diante da Argentina, na final da Copa de 1930.

Para enfrentar o melhor elenco que um clube já tinha reunido, o Santos jogou com Athié, Silvio Hoffmann e Pinheiro; Osvaldo, Floriano e Alfredo; Vitor, Camarão, Feitiço, Mário Seixas e Evangelista. Além do goleiro e dos atacantes, o Santos não tinha craques. Mas naquela tarde todos os santistas foram leões.

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Quando se perdia na técnica, o coração entrava em campo, e assim o Alvinegro Praiano foi equilibrando o jogo até que antes dos 30 minutos de jogo Camarão penetrou pelo meio da defesa uruguaia e, na saída do grande Ballesteros, tocou no canto direito, rente à trave.

A explosão da torcida, porém, foi silenciada cinco minutos depois, quando Castro – apelidado de “Manco” por não ter a mão direita – aplicou uma sucessão de dribles da defesa santista e, da pequena área, acertou uma bomba que estufou as redes de Athié. 1 a 1. Assim terminou o primeiro tempo.

Na segunda etapa, Platero, técnico do Santos, fez entrar o rápido Natinho no lugar do ponta-direita Vitor. Após suportar a pressão do Bella Vista nos 10 minutos iniciais, o Alvinegro começou a equilibrar a partida. Aos 23 minutos Camarão deu a Natinho, que driblou Dorado e correu para a área uruguaia. Feitiço vinha pelo meio e pediu o passe. Natinho parecia preparar o centro, mas resolveu bater a gol, surpreendendo Ballesteros.

O árbitro Vitor Silvestre esperou alguns minutos com o apito na boca até que a algazarra da torcida se acalmasse e o jogo pudesse ser reiniciado. Ainda faltavam 22 minutos para o fim do confronto, e o Santos teve de lutar até o último instante para garantir a vitória histórica.

Sorte? Acaso? De maneira nenhuma. Com aquele triunfo inesquecível, o Glorioso Alvinegro Praiano completava oito jogos internacionais invictos em dois anos. Desde 24 de abril de 1929 tinha vencido quatro respeitáveis equipes argentinas, duas uruguaias, empatado com a Seleção dos Estados Unidos (3 a 3) e goleado a Seleção da França por 6 a 1. Sempre na energizante Vila Belmiro.

É esse espírito santista, corajoso e atrevido, que emerge do passado para inspirar o Santos nesse embate obrigatório e dramático contra o Barcelona, hoje considerado por muitos o melhor time do mundo. O receio tem de ceder lugar à coragem e à predestinação que acompanha o Alvinegro Praiano desde o seu nascedouro. A história dos times, das Seleções, enfim, a história do futebol é cíclica, meus amigos. Por isso insisto que não se pode prever o futuro sem conhecer o passado, e ele está dizendo para o Santos calçar as chuteiras e ir à luta. Que venha o Barcelona!


Raridade: Filme colorizado da final da primeira Copa do Mundo, em 1930. O Bella Vista enfrentou o Santos com sete campeões mundiais.

E você, o que acha disso?