O briguento futebol italiano, um dos preferidos das tevês brasileiras.

No começo, confesso, eu achava legal. Aqueles estádios bonitos, com aqueles gramados perfeitos e aqueles jogadores que corriam o tempo todo. Percebiam-se qualidades que não vemos por aqui, como a religiosa aplicação tática e uma disposição física invejável. Tecnicamente, chutavam bem de longe e eram bons nas bolas altas. É, acho que só isso… De qualquer forma, minhas impressões iniciais foram boas. Hoje, porém, quando os canais por assinatura dedicam um tempo enorme a ele, eu pergunto: quem agüenta essa overdose de futebol europeu?

Dia desses, tanto o Sportv como a Espn passavam o mesmo jogo, ao vivo. Não me lembro bem dos times, mas eram italianos de segunda categoria, tipo Bologna e Parma. Fiquei me perguntando se um clássico do ABC, entre Santo André e São Caetano, não teria mais técnica e currículo em campo, além de uma familiaridade maior para os telespectadores.

Os três canais por assinatura dedicados ao esporte – Sportv, Espn e BandSports – exageram na carga horária dedicada ao futebol da Europa. A Espn terá nada menos do que oito programas sobre o tema do momento em que escrevo esta matéria até as 4h30m da quarta-feira, incluindo jogos dos campeonatos inglês, alemão, italiano e a Champions League.

Percebe-se que comprar ou engolir os pacotes de eventos internacionais é uma alternativa barata para as emissoras que não detêm os direitos de transmissão das competições realizadas no Brasil, aquelas que efetivamente atraem mais a atenção do torcedor. O Sportv, por exemplo, empresa das organizações Globo, pode se dar ao luxo de dedicar maior espaço aos campeonatos regionais, que ela transmite.

Espn e BandSports se resumem a colocar jogos estrangeiros no ar e manter um narrador e um comentarista no estúdio, fazendo acrobacias verbais para assegurar um mínimo de audiência. Em vão. Só quem nunca chutou uma bola na vida pode achar graça no futebol autômato dos alemães, ou sem graça dos franceses.

Não precisam me dizer que vivemos o processo da globalização. A estes eu lembraria as conclusões de John Naisbitt, respeitado escritor e conferencista norte-americano, autor de Megatrends. Para ele, ao mesmo tempo que cada vez mais globalizado, o mundo valoriza as particularidades, as culturas e tradições de cada lugar. Entre o Campeonato Acreano e o Alemão, não há dúvida de qual o torcedor do Acre preferirá. Elementar, meu caro.

Só 15% valem a pena

Coloquei tudo no papel, times e jogadores, e cheguei à conclusão, generosa, de que só 15% do futebol europeu vale a pena ser visto. O resto tem o mesmo nível médio do futebol brasileiro, com a agravante de apresentar muito pouca variedade técnica e quase nada em paixão e carisma para o nosso torcedor. O cenário é lindo, mas o enredo é fraco.

Já disseram que o torcedor brasileiro não gosta de futebol, ele gosta do seu time. Imaginar que ele vai se tornar um assíduo espectador de um Panathinaykos da vida é bobagem. A não ser que esse time grego se tornasse a sensação do futebol mundial, o que parece bastante improvável.

Enriquecendo o mercado alheio

O problema maior desse exagero de futebol europeu na tevê é que a imprensa brasileira acaba dando um retorno publicitário maior aos times e competições da Europa, mostrando, obviamente, os patrocínios de camisa e as placas de estádio de competições que nada acrescentam ao mercado brasileiro de futebol. Ao contrário.

Se os clubes europeus são mais ricos, se podem pedir mais por um patrocínio de camisa, devem esta superioridade à maior visibilidade de seus campeonatos – visibilidade que é dada de mãos beijadas pela imprensa de um país que deveria estar mais concentrado em fortalecer seu mercado interno.

Ao invés de transmitir tanto futebol europeu, sugiro que as tevês brasileiras por assinatura voltem suas câmeras para as competições nacionais. Isto fortaleceria nossos clubes, lhes daria maiores condições de sobrevivência e prepararia o País para assumir-se como o centro do mundo do futebol, o que efetivamente ocorrerá a partir dos preparativos para a Copa de 2014.

E você, não acha que a tevê por assinatura do Brasil exagera na transmissão do futebol europeu? Qual é sua opinião a respeito?