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Crise na Espanha: veja só a roubada em que queriam meter o Neymar

Há pouco era possível ouvir os conselhos de Wagner Ribeiro, Ronaldo Macário e um coro de “jornalistas” brasileiros sugerindo a Neymar que fosse jogar na Espanha. Ora, ou estavam mal informados ou mal intencionados. É impossível que não soubessem da crise que abala as estruturas do futebol espanhol e que explode agora com a ameaça de greve dos jogadores por falta de pagamento de salários.

O movimento da AFE (Associação de Futebolistas Espanhóis), que tem tido o apoio de jogadores de todos os clubes, até mesmo dos decantados Real Madrid e Barcelona, hoje recebeu também a solidariedade da importante ANEF (Asssociação Nacional de Entrenadores (Treinadores, Técnicos) de Futebol). Em carta assinada por seu presidente, Xavier Juliá, a ANEF diz que “a medida é justa, razoável e de uma necessidade imperiosa”.

Na carta, a Associação Nacional de Técnicos destaca que “é cada vez mais natural que futebolistas, técnicos e preparadores físicos deixem de receber seus salários ao fim da temporada”. E diz que a greve é uma atitude justificada “para que cessem os contínuos descumprimentos por parte de alguns clubes na hora de pagar os salários”.

Por fora bela viola, por dentro pão bolorento…

Este movimento escancara uma realidade que já era conhecida por muitos – e que foi alertada aqui, neste blog. A estrutura do futebol espanhol, que se baseia em privilegiar Real Madrid e Barcelona, gerou uma situação desigual e deficitária. Os outros estão definhando há algum tempo, e agora a crise bateu na porta também dos dois poderosos.

Sem competitividade, já que o único clássico do Campeonato Espanhol reúne os queridinhos, até mesmo estes dois estão sofrendo com a queda das arrecadações e dos ganhos com a tevê. O resultado é que tanto Real como Barcelona estão endividados – principalmente o primeiro – e se vêm em uma situação de ter de investir mais e mais para manter o status, ou cair na vala comum dos demais.

Enfim, apesar dos lindos estádios, dos gramados impecáveis e das deslumbrantes transmissões de tevê, o futebol espanhol tem menos atrativos e competitividade do que o brasileiro, por exemplo, em que há muito mais clubes de tradição disputando os títulos.

Por isso o desespero de Real Madrid e Barcelona para levar Neymar para lá (em suaves prestações). Precisam manter as aparências, precisam que o mundo continue acreditando que são os melhores e mais ricos do planeta.

“Eles pagam mais. Só que não pagam”

Em 1995 perguntei ao presidente do Santos, Samir Abdul Hack, por que o Alvinegro pagava bem menos do que alguns clubes, como o Flamengo, por exemplo. Ele me olhou bem e respondeu: “Eles pagam mais. Só que não pagam”.

A frase, sábia, de Samir, ainda continua servindo para o mesmo Flamengo – que mesmo com uma dívida de mais de um bilhão de reais, continua contratando Deus e todo mundo, prometendo pagamentos que nem sempre cumpre – e, certamente, se encaixa como uma luva nos clubes da Espanha.

Que jogador pode acreditar que ao assinar contato com um grande clube espanhol, ficará sem receber? E quando isso acontece, com quem reclamar? Como agir para reaver o pagamento ajustado?

No caso de um jogador estrangeiro, as dificuldades são imensas. Como cobrar a dívida? Quanto deve ser pago a um advogado e quanto tempo será preciso esperar para que o caso se resolva? Uma pendenga judicial com um clube espanhol não pode fechar a porta do futebol europeu?

E ainda há a questão dos impostos sobre a renda, lá muito maiores do que aqui. Por fim, para não dar o braço a torcer, muitos jogadores engolem o prejuízo e seguem sua vida.

Neymar não precisa passar por isso

O paraíso europeu pintado aqui por “jornalistas” – que, para serem coerentes, deveriam defender o futebol brasileiro – na verdade nunca existiu. Para a maioria dos jovens estrangeiros que vão tentar a sorte por lá, as histórias de tristeza, decepção e penúria são muito mais freqüentes do que as de sucesso.

E ainda há as questões sociais e o crônico preconceito racial. A Europa, cuja economia perde a concorrência para o mercado asiático, vive um período de baixos salários e desemprego crescente. Isso tem gerado, principalmente nos jovens, uma perigosa aversão aos imigrantes, que é mais acentuada quando se trata de estrangeiros que não pertencem à “raça branca”.

Por que Neymar seria obrigado a sofrer demonstrações de racismo, ou correr o risco de não receber pelo seu trabalho, se aqui ele é o Príncipe do Futebol Brasileiro, e, como tal, vive cercado de carinho, compreensão e amor?

Isso de que o jogador precisa ir para a Europa para provar alguma coisa é uma das maiores babaquices que já ouvi na vida. Além de demonstrar um complexo de inferioridade tremendo do brasileiro que diz algo assim, mostra uma total ignorância da história do futebol. A grandeza não é ir para a Europa. Mas dizer “NÃO!” à Europa. E isso, pouquíssimos, como Neymar, podem.

É claro que aqui, como lá, há também “jornalistas” esportivos chatos e mal intencionados, mas são uma minoria e ninguém os leva muito a sério. São os cães sarnentos que ladram, enquanto a alva e lustrosa caravana passa.

O que você acha dessa crise no futebol espanhol? Será que alguns “conselheiros” de Neymar já não a conheciam e ficaram quietos?


Manter Neymar no Brasil pode começar a mudar o eixo do futebol

Ao vencer a Liga dos Campeões da Europa, entre o prêmio em dinheiro pelo título e o que passaria a receber pelas cotas de televisão, o Barcelona garantiu um total avaliado em 126 milhões de euros, ou 179 milhões de dólares. Enquanto isso, o Santos, campeão da Libertadores, a versão sul-americana da Champions League, recebeu menos pelo título continental do que havia angariado pela taça do Campeonato Paulista, ou seja, o equivalente a 5% do campeão europeu.

O que isso significa? Que assim como os grandes supermercados engoliram os mercadinhos de esquina, o futebol europeu engoliu os futebóis pelo mundo afora. A competitividade é uma nuvem passageira que paira, de quatro em quatro anos, sobre as Copas do Mundo – quando muitos dos astros europeus defendem seus países de origem –, mas se dilui no dia a dia dos clubes.

Não é só uma questão econômica. É, também, um fenômeno cultural. Criou-se e se propaga, com pleno sucesso, o conceito de que só pode haver futebol na Europa e, portanto, os jogadores, por melhores que sejam, só passam a existir quando jogam lá. Essa crença tira dos países emergentes a vontade de alterar esta situação, mesmo quando têm plenas possibilidades para isso.

Se for levado em conta o PIB (Produto Interno Bruto) de cada país, o Brasil é mais rico do que Espanha e muito mais rico do que a Turquia, por exemplo, mas o campeonato brasileiro recebe apenas 40% dos direitos de transmissão do monótono campeonato espanhol (todo mundo sabe quem serão campeão e vice) e 70% do campeonato turco.

Você assiste ao insosso campeonato francês? Pois fique sabendo que ele arrecada 300% a mais com a tevê do que o brasileiro. A comparação com o italiano é ainda mais vexatória, pois eles faturam 500% mais. E com o inglês, então, dá até vergonha: pois aqueles times, que têm no chuveirinho sua tática principal, participam de uma competição nacional que fatura 6,5 vezes mais do que o campeonato brasileiro.

E como todos esses campeonatos europeus faturam tanto? Ora, vendendo suas transmissões de tevê para o mundo todo, o que gera milionários benefícios diretos e indiretos. Além do dinheiro obtido diretamente com a venda dos direitos, há o que se ganha com a maior popularidade dos times europeus no mundo, materializada na venda dos mais variados produtos, dos quais a camisa oficial é o pãozinho quente.

O próprio prêmio de melhor do mundo, chancelado pela Fifa, está plenamente ajustado neste esquema. No dia em que houver alguma dúvida de que os principais jogadores não estão na Europa, o castelo poderá começar a ruir.

A Europa precisa de ídolos para se manter no topo

Por mais que haja uma estrutura resplandecente, com estádios novinhos em folha e uma grama tão macia e apetitosa que alguns jornalistas esportivos teriam vontade de comer, a verdade é que o esporte ainda não pode prescindir do ídolo. É ele que incendeia as multidões, é ele que torna o sonho completo. Por isso esta ansiedade para tirar Neymar do Brasil.

Um ídolo do futebol que se mantenha fora da Europa pode colocar em risco o predomínio do futebol do velho continente. Tudo bem, isso pode representar apenas uma pequena fissura no dique, mas que as mudanças na economia mundial e, repito, a irrefreável paixão das massas, tratarão de alargar.

Com melhores atrações, o campeonato brasileiro se tornará um espetáculo mais requisitado, gerando ganhos maiores aos clubes e contribuindo para se iniciar um círculo virtuoso que levará ao aprimoramento de toda a estrutura.

Com um pouco de esforço de toda a comunidade futebolística brasileira – jornalistas esportivos, inclusive –, em poucos anos o campeonato brasileiro poderá dobrar o seu faturamento, que hoje é calculado em 247 milhões de dólares anuais. Estes três anos até a Copa do Mundo são a grande oportunidade de se buscar uma valorização que poderá elevar a competição nacional no mínimo ao nível da espanhola (683 milhões de dólares) ou até mesmo da francesa (912 milhões).

Desdenhar Neymar e Ganso faz parte do jogo…

Não me surpreenderam as frases do presidente do Real Madrid, Florentino Pérez, e de um jornalista italiano, duvidando do talento e da capacidade de Neymar e Paulo Henrique Ganso. Primeiro porque, como diz a sabedoria popular, quem desdenha quer comprar. E depois porque a Europa não pode correr o risco de dar ao mundo a impressão de que o Brasil tem dois dos melhores jogadores do planeta. Se não puderem levar, tratarão de minimizar a perda, de tentar desvalorizar os jogadores no mercado internacional.

Quando Pérez disse que Neymar não vale mais do que 15 milhões de euros, ele quis dizer que na Europa, e mesmo no Real Madrid, há muitos jogadores mais valiosos do que o brasileiro, o que é uma deslavada mentira.

E quando o jornalista italiano afirmou que Ganso não é um jogador vencedor, mostrou desconhecimento e arrogância, pois Ganso ganhou o Paulista de 2010 com sua personalidade e talento de segurar a bola em um momento crucial da partida, e foi essencial na conquista da Libertadores ao dominar o meio-campo do jogo decisivo contra o Cerro Porteño, em Assunção, quando o Santos estava desfalcado de Neymar e Elano e precisava desesperadamente da vitória. Ganso é tão vitorioso quanto Neymar, esta é a verdade.

A atitude correta – e corajosa – é manter os craques aqui

Perceba, leitor, que o Campeonato Brasileiro está esvaziado. Estádios pela metade, pouco interesse, atenções voltadas para a Copa América. Imagine o quanto não seria pior se os principais clubes estivessem sem seus melhores jogadores… Correríamos o sério risco de ver, abruptamente, o futebol brasileiro seguir os passos em direção ao abismo que se vê na vizinha Argentina.

Iniciar um movimento – ao menos no campo das ideias – para se manter nossos craques por aqui, é um primeiro passo para começar a mudar o quadro atual e impedir a falência do nosso futebol – que, repito, internacionalmente é menos valorizado do que o turco.

Assim como as equipes esportivas precisam de mais repórteres e menos comentaristas, o futebol brasileiro e sul-americano precisa de mais ação e menos blá-blá-blá. Que se estudem ações conjuntas de valorização do esporte no continente, que se crie, por exemplo, um prêmio ao melhor jogador do mundo que, realmente, contemple atletas de todos os continentes.

Enfim, é possível contra-atacar, apesar de a Conmebol e as federações nacionais serem dominadas por políticos e não por administradores, e a imprensa esportiva estar coalhada de pensadores modernos seduzidos pela grama verdinha e macia do futebol europeu, que não tiram a bunda da cadeira para checar as informações que dão.

Como já escrevi antes, até entendo que profissionais da ESPN defendam a ida dos melhores jogadores brasileiros para a Europa. Sem recursos para comprar os direitos de transmissão do campeonato brasileiro, a emissora vive de nos empurrar goela abaixo competições das mais variadas nações europeias. Cabe ao telespectador o discernimento de não perder tempo com tanta porcaria.

A BandSports, o Sportv e a RedeTV também transmitem jogos da Europa. Tudo bem, uma ou outra partida vale a pena. Mas aquilo que começou com o Silvio Lancelotti e o Antero Greco comentando jogos do campeonato italiano na hora do almoço de domingo, virou uma febre que não poupa nem o dantesco campeonato russo (urgh!).

O caso Neymar pode ser o precedente que o futebol brasileiro precisava para se auto-analisar, rever seu caminho. Do jeito que está, para onde vamos? Quando teremos novamente os melhores jogadores do mundo atuando aqui, como aconteceu até o final dos anos 70? Seremos eternos mercadores de talentos jovens para a Europa?

Bem, estas são respostas que cada um de nós tem de buscar dentro de si mesmo. Estádios modernos e gramas verdinhas não são a maior carência. A grande questão é abdicar do sonho, a única coisa que vale a pena no futebol. E é isso que muita gente, sem perceber, já fez no Brasil.

E você, tem alguma idéia de como transformar o futebol brasileiro em um dos mais atraentes e rentáveis do mundo? A bola é sua.


Quem aguenta essa overdose de futebol europeu?

O briguento futebol italiano, um dos preferidos das tevês brasileiras.

No começo, confesso, eu achava legal. Aqueles estádios bonitos, com aqueles gramados perfeitos e aqueles jogadores que corriam o tempo todo. Percebiam-se qualidades que não vemos por aqui, como a religiosa aplicação tática e uma disposição física invejável. Tecnicamente, chutavam bem de longe e eram bons nas bolas altas. É, acho que só isso… De qualquer forma, minhas impressões iniciais foram boas. Hoje, porém, quando os canais por assinatura dedicam um tempo enorme a ele, eu pergunto: quem agüenta essa overdose de futebol europeu?

Dia desses, tanto o Sportv como a Espn passavam o mesmo jogo, ao vivo. Não me lembro bem dos times, mas eram italianos de segunda categoria, tipo Bologna e Parma. Fiquei me perguntando se um clássico do ABC, entre Santo André e São Caetano, não teria mais técnica e currículo em campo, além de uma familiaridade maior para os telespectadores.

Os três canais por assinatura dedicados ao esporte – Sportv, Espn e BandSports – exageram na carga horária dedicada ao futebol da Europa. A Espn terá nada menos do que oito programas sobre o tema do momento em que escrevo esta matéria até as 4h30m da quarta-feira, incluindo jogos dos campeonatos inglês, alemão, italiano e a Champions League.

Percebe-se que comprar ou engolir os pacotes de eventos internacionais é uma alternativa barata para as emissoras que não detêm os direitos de transmissão das competições realizadas no Brasil, aquelas que efetivamente atraem mais a atenção do torcedor. O Sportv, por exemplo, empresa das organizações Globo, pode se dar ao luxo de dedicar maior espaço aos campeonatos regionais, que ela transmite.

Espn e BandSports se resumem a colocar jogos estrangeiros no ar e manter um narrador e um comentarista no estúdio, fazendo acrobacias verbais para assegurar um mínimo de audiência. Em vão. Só quem nunca chutou uma bola na vida pode achar graça no futebol autômato dos alemães, ou sem graça dos franceses.

Não precisam me dizer que vivemos o processo da globalização. A estes eu lembraria as conclusões de John Naisbitt, respeitado escritor e conferencista norte-americano, autor de Megatrends. Para ele, ao mesmo tempo que cada vez mais globalizado, o mundo valoriza as particularidades, as culturas e tradições de cada lugar. Entre o Campeonato Acreano e o Alemão, não há dúvida de qual o torcedor do Acre preferirá. Elementar, meu caro.

Só 15% valem a pena

Coloquei tudo no papel, times e jogadores, e cheguei à conclusão, generosa, de que só 15% do futebol europeu vale a pena ser visto. O resto tem o mesmo nível médio do futebol brasileiro, com a agravante de apresentar muito pouca variedade técnica e quase nada em paixão e carisma para o nosso torcedor. O cenário é lindo, mas o enredo é fraco.

Já disseram que o torcedor brasileiro não gosta de futebol, ele gosta do seu time. Imaginar que ele vai se tornar um assíduo espectador de um Panathinaykos da vida é bobagem. A não ser que esse time grego se tornasse a sensação do futebol mundial, o que parece bastante improvável.

Enriquecendo o mercado alheio

O problema maior desse exagero de futebol europeu na tevê é que a imprensa brasileira acaba dando um retorno publicitário maior aos times e competições da Europa, mostrando, obviamente, os patrocínios de camisa e as placas de estádio de competições que nada acrescentam ao mercado brasileiro de futebol. Ao contrário.

Se os clubes europeus são mais ricos, se podem pedir mais por um patrocínio de camisa, devem esta superioridade à maior visibilidade de seus campeonatos – visibilidade que é dada de mãos beijadas pela imprensa de um país que deveria estar mais concentrado em fortalecer seu mercado interno.

Ao invés de transmitir tanto futebol europeu, sugiro que as tevês brasileiras por assinatura voltem suas câmeras para as competições nacionais. Isto fortaleceria nossos clubes, lhes daria maiores condições de sobrevivência e prepararia o País para assumir-se como o centro do mundo do futebol, o que efetivamente ocorrerá a partir dos preparativos para a Copa de 2014.

E você, não acha que a tevê por assinatura do Brasil exagera na transmissão do futebol europeu? Qual é sua opinião a respeito?


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