Antes que digam que sou anti-Globo, devo dizer que considero esta tevê brasileira uma das melhores do mundo. Do ponto de vista técnico. Sua qualidade de imagem é superior. Os cenários de suas novelas, magnífico. As inovações que introduziu nas transmissões do futebol – como o tira-teima e diversos ângulos de visão da mesma jogada – merecem aplausos. Mas, como aquele personagem da Escolinha do Professor Raymundo, “se sei, digo que sei”. E tenho um cérebro e um senso de ética que não param de funcionar e não são freados por interesses passageiros, como a fama e um bom salário. Por isso, cobro ética e coerência da Rede Globo.

Por que não cobro de outras emissoras? Porque, com relação a algumas delas, já perdi totalmente a esperança. Se uma poderosa rede de tevê se enriquece vendendo lotezinhos no céu, não pode ser levada a sério, não é mesmo? Se outra, mesmo com o nome “Bandeirantes” desta nossa terra tão poderosa, que congrega os dois mais poderosos mercados do País (a capital e o Interior de São Paulo), se submete aos interesses da carioquíssima Globo, o que podemos esperar dela?

Então, por mais que critique, por mais que pareça um inimigo da Globo, na verdade sou um otimista e acho que a solução para boa parte dos problemas brasileiros, incluindo o futebol, está na Deusa Platinada. Há muita gente boa lá dentro, eu sei. Minha expectativa é de que essas assumam o controle da emissora e a façam trilhar o caminho da ética.

É possível conciliar ética e ibope? Sei lá, este é um tema para um TCC (estudantes de Jornalismo, pensem nisso). Para mim, é. Com relação ao nosso futebol, quem disse que o torcedor gosta de mutretas, privilégios e favorecimentos?  Mesmo os torcedores mais fanáticos estão recebendo o quanto é desagradável comemorar um título sob suspeita, que os torcedores rivais jamais respeitarão.

Não são apenas ministérios que privilegiam

O jornalismo da Globo tem se destacado nas denúncias de corrupção e favorecimento em alguns ministérios do governo brasileiro. Isso é jornalismo elogiável. Agora, quando vemos o mapa do Brasil e percebemos que a maior parte do território nacional, ou seja, 15 Estados, receberão, pela tevê aberta, apenas imagens do Campeonato Carioca, temos o direito de perguntar: isso também não é favorecimento ilícito, anti-ético e odioso, da mesma laia que o praticado em alguns ministérios de Brasília?

Ora, todos os grandes clubes brasileiros lutam por espaço na mídia, por conquistar novos mercados e novos torcedores. Por que apenas o Campeonato Carioca, que nem é o mais forte ou vitorioso do Brasil, deve ser beneficiado com esse privilégio da divulgação nacional?

Assim, muito mais do que crítico, sou um torcedor da Globo. Torço para que a direção do seu jornalismo esportivo siga os mesmos preceitos que o seu manual de jornalismo apregoa. Se é para impingir a alguns Estados um futebol alienígena, que se faça uma pesquisa antes para se saber o que o povo quer ver.

Será que, com a opção de assistir ao forte futebol paulista, que soma seis títulos mundiais, sete Copas Liberadores e 29 Brasileiros, que tem o Santos de Neymar, o campeão brasileiro Corinthians, São Paulo, Palmeiras, Portuguesa, Ponte Preta, Botafogo e tantos outros times de tradição, a maioria do Brasil ainda preferiria ver os jogos do Rio?

Será que, se há algum bairrista na história, este(a) não é a Rede Globo? Que, além do futebol, tenta impregnar o seu carioquês, os seus “feisssta, meissssmo e estreissssi” aos quatro cantos de um País cuja riqueza é, justamente, a diversidade cultural que inclui e respeita os seus vários sotaques, igualmente valiosos?

Enfim, ao contrário do que alguns dizem, sou um amante da deusa. Mas quero que ela entre na linha e comece a praticar o que prega. Nada de favorecimentos, nem de privilégios. Que os grandes clubes, verdadeiras instituições do nosso futebol, possam crescer sob regras justas e democráticas, obrigatoriamente idênticas para todos.

E você, acha que a Globo pratica a ética que cobra dos políticos brasileiros?