No final de 1980 cheguei a fazer algumas reuniões – geralmente no café no térreo do edifício do Terraço Itália – com um cartunista que estava começando a carreira para que, juntos, produzíssemos um livro infanto-juvenil. Eu era sub-editor da revista TênisEsporte e ele e seu colega Laerte eram nossos colaboradores, desenhando tiras sobre as peculiaridades do tênis. A revista teve só mais alguns meses de vida e o projeto do livro foi indefinidamente adiado. Mas o vivo interesse pelo trabalho e a criatividade daquele cartunista, que assinava Glauco, me impressionaram.

Fomos por caminhos diversos e paralelos da profissão. As tiras de Glauco ficaram famosas na Folha de São Paulo. Criou mais de uma dezena de personagens, entre eles Geraldão, Casal Neuras e Zé do Apocalipse. Tornou-se uma referência entre os profissionais brasileiros do cartum.

Hoje, lemos esta notícia trágica de que Glauco Vilas Boas, 53 anos, e seu filho Raoni, de 25, foram mortos ontem à noite por dois homens que invadiram sua casa, na Estrada Alpina, bairro Santa Fé, em Osasco. A primeira informação era de que além de roubar a casa, os invasores queriam seqüestrar Glauco. Ele, um cara do bem, padrinho fundador da igreja Céu de Maria, teria tentado conversar com os bandidos, mas estes, drogados, o alvejaram, assim como ao seu filho, que chegava da faculdade. Sua mulher, Beatriz Galvão, e uma filha, presenciaram os crimes (nesta manhã surgiu a informação de que os assassinos eram conhecidos da família).

Um cara fantástico se foi e deixa mulher e duas filhas. É só isso que posso dizer. E o mínimo que posso fazer neste momento – eu que tenho um respeito enorme por estes artistas populares que são os ilustradores, cartunistas, desenhistas em geral –, é publicar uma tira antiga que encontrei na minha coleção da TênisEsporte. Ela foi publicada em dezembro de 1980, justamente no período em que tratávamos do lançamento do livro para crianças. Nesta tira, Glauco brinca com o fato de, no tênis, os jogadores serem tradicionamente obrigados a se cumprimentar depois do jogo, mesmo depois de tomarem uma surra de um estranho adversário.