A contratação de Leandro Damião por 42 milhões de reais, emprestados da Doyen Sports, foi um dos negócios mais desastrosos já feitos por um clube brasileiro. Os responsáveis por ela foram o presidente Odílio Rodrigues e os membros de seu comitê gestor. Porém, o mal ainda poderia ser remediado se Modesto Roma, eleito presidente do Santos em meados de dezembro do ano passado, tivesse se mexido rapidamente para pagar os salários do jogador, o que impediria Damião de processar o Santos, requerendo passe livre. Agora, caso perca a causa, o Santos perderá também tudo o que já pagou pelo atacante, deixará de ter qualquer direito sobre seu passe e ainda ficará devendo os 42 milhões à Doyen, com juros e correção.

A opção, cômoda, de jogar a responsabilidade pelo mau negócio em seu antecessor e não fazer nada para corrigir o erro, faz de Modesto Roma e sua equipe tão culpados pelo mico Damião como Odílio & Cia. Pela negligência da administração atual o Santos acaba de perder a oportunidade de recuperar a fortuna investida em Damião e ainda ficar com 20% do lucro de sua ida para o Olympique de Marselha, da França, que fez uma oferta de 15 milhões de euros (R$ 60 milhões) pelo atacante hoje emprestado ao Cruzeiro. O negócio só não pôde ser concretizado porque o jogador está em litígio com o Santos.

Quando o novo presidente assumiu o clube, o caixa do Santos estava a zero, mas Roma poderia ter pedido um empréstimo para empresários que bancaram sua campanha, entre eles o ex-presidente Marcelo Teixeira. Agora, com o dinheiro do Olympique, todos seriam pagos e, mesmo que não sobrasse nada para o clube, ao menos o Santos não correria o sério risco de perder todo o investimento em Damião e ainda ficar com uma dívida astronômica a ser quitada com a Doyen.

A responsabilidade de cada um

Presidentes de clubes de futebol, muitos deles sem a mínima noção de administrar alguma coisa, com um aterrador histórico de fracassos em seus empreendimentos particulares, costumam ter a mania de culpar o presidente anterior pela situação geralmente calamitosa em que encontram as finanças da agremiação que assumem. Luis Álvaro Ribeiro fez isso, Modesto Roma repetiu a ladainha. Porém, ao ser eleito para um cargo para o qual se candidatou por livre e espontânea vontade, o sujeito deveria estar melhor preparado para os desafios que certamente o esperariam.

Que o caso de Leandro Damião exigiria agilidade e perspicácia, todos já sabiam; assim como todos os cinco candidatos à presidência do Santos tinham plena consciência da penúria financeira que iriam encontrar. Mais de oito meses da nova gestão já se passaram e algumas perguntas ainda estão no ar, tais como: 1 – Quando será lançada uma campanha abrangente para se captar mais associados para o Santos? 2 – Quando o clube usará seus mandos de campo para jogar para públicos maiores e deixar de ser o que menos fatura com arrecadações entre os 20 participantes da Série A do Campeonato Brasileiro?

Essas urgências, que já afligiam a administração Laor/Odílio, continuam ignoradas, ou indefinidamente adiadas pela gestão atual. É um grande erro protelar essas iniciativas, pois o déficit crescente do Santos é uma bomba-relógio que está para explodir a qualquer momento. Depois, só restará ao próximo presidente eleito reclamar da “terra arrasada” que encontrou.

A real dimensão do mercado de Santos

santos em 1952
Em 1952 Santos tinha 203 mil habitantes e era a décima cidade brasileira mais populosa (Foto: José Dias Herrera). Hoje tem 433 mil habitantes e é a 53ª.

Hoje, como se sabe, o Santos vem sendo dirigido por uma administração que acha que o time é só da cidade de Santos, deve mandar todos os seus jogos na velha Vila Belmiro e que, quem quiser vê-lo, que vá até lá. Isso é apequenar o clube, pois se a Vila comporta, no máximo, 14 mil pessoas, uma política assim mostra que seus próprios dirigentes não acreditam que o Santos possa ter mais público do que isso, ao mesmo tempo em que põe em dúvida o tamanho de sua torcida e a fidelidade de seu torcedor em todo o Brasil.

Os números têm mostrado que o mercado da cidade de Santos, olhado estritamente do ponto de vista do futebol, deve ser comparado, entre os clubes da Série A, aos de Joinville e Chapecó, outras cidades que não são capitais e que têm times na Série A do Brasileiro. Sei que muito santista morador em Santos fica indignado com esse tipo de comparação, pois para ele a cidade continua sendo uma mais das ricas e importantes do País, mas essa realidade tem mudado a cada ano. E faz tempo…

Sem espaço para crescer e sem empresas geradoras de emprego, Santos ganhou apenas 17 mil habitantes nos últimos 35 anos, passando de 23ª cidade brasileira em população, com 416 mil habitantes, em 1980, para a 53ª hoje, com 433 mil.

Com o seu porto em grande atividade e o comércio do café em alta, Santos foi a décima cidade brasileira em população de meados da década de 1930 até o final da década de 1950. Na época, era a segunda cidade paulista, atrás apenas de São Paulo, importante não só pela economia, mas também ativo centro de movimentos artísticos, políticos e intelectuais.

A Ditadura Militar, implantada em 1964, perseguiu e dispersou as lideranças e as cabeças pensantes santistas. Cidade estratégica, maior porto da América Latina, Santos precisava ser totalmente controlada pelos militares. Dizem que depois da diáspora de suas figuras proeminentes, Santos nunca mais respirou tanta rebeldia e vanguardismo. Ao contrário: os tradicionalistas assumiram o controle da cidade, que parou de crescer, em todos os sentidos.

Em 1960, Santos era a 12ª cidade do País, com 265.753 habitantes; em 1970 caiu para 17ª, com 345 mil habitantes; em 1980 era a 23ª, com 416 mil; em 1991 era a 32ª, com 428 mil; em 1996, a 40ª, com 412 mil; em 2000, 42ª, com 417 mil, e hoje, 53ª, com 433 mil.

Perceba que não foi apenas Santos que encolheu, mas as outras cidades é que cresceram, e muito. Em 1910, por exemplo, Santos tinha 81 mil habitantes, pouco menos do que um quarto de São Paulo, que chegava a 346 mil. Hoje, São Paulo tem 11.895.000 moradores, 27 vezes mais do que Santos. Limitada geograficamente pelo mar de um lado e pela serra do outro, Santos deixou de se expandir, enquanto outros municípios brasileiros explodiram.

Até 1920 Santos era mais populosa do que muitas capitais, entre elas Curitiba, Fortaleza, Manaus, São Luis, Teresina, Aracaju, Maceió, Cuiabá… Só na década de 1960 é que foi ultrapassada por Curitiba. Nos anos 1970 perdeu a condição de segunda cidade paulista com mais habitantes, ao ser superada por Campinas, e na década de 1980 já estava atrás, também, de Santo André, Guarulhos, Osasco e São Bernardo do Campo.

Hoje, que Fortaleza tem 2,5 milhões de habitantes, Manaus chegou aos dois milhões e Curitiba alcançou 1,8 milhão, Santos é a 53ª cidade do Brasil e a 11ª de São Paulo, superada, no Estado, por Guarulhos (1,3 milhão de habitantes), Campinas (1,1 milhão), São Bernardo do Campo (811 mil), Santo André (707 mil), Osasco (693 mil), São José dos Campos (681 mil), Ribeirão Preto (658 mil), Sorocaba (637 mil), Mauá (448 mil) e São José do Rio Preto (438 mil).

A nova realidade geoeconômica da cidade de Santos, obviamente, requer uma nova visão na administração de seu famoso clube de futebol, já que os mercados mais ricos e mais promissores que podem receber os jogos do Alvinegro Praiano não estão mais nos limites de seu município. Perceba, por exemplo, que aquele grande público que assistiu ao jogo contra o Londrina, no Norte do Paraná, tem uma explicação geográfica: a pujante cidade paranaense possui 543 mil habitantes, 20% a mais do que Santos, tem ainda uma economia mais dinâmica e conta com um número maior de torcedores do clube dispostos a pagar para assisti-lo.

Enfim, a administração moderna de um clube de futebol, hoje, não combina mais com uma visão limitada pelo bairrismo e pela política. O Santos precisa ser pensado de maneira ousada e abrangente. Não adianta nada colocar a culpa nos antecessores e continuar cometendo erros tão ou mais graves. Não ajuda nada continuar acreditando que estamos vivendo na década de 1960. O Santos precisa jogar mais nas cidades mais populosas do Brasil, aquelas que têm mais santistas dispostos a ir ao estádio para vê-lo. Ou, ao menos, jogar mais na maior cidade do Brasil, que fica a uma hora de Santos e conta com 1,6 milhão de torcedores do eterno Alvinegro Praiano.

Agora, uma amostra de como é bom ter um Santos nacional:

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