Se Nelson Rodrigues estivesse vivo, diria: “Vai pra cima desses gringos, Neymar!”

Neste blog tem-se falado muito do “complexo de vira-latas”. Mas o que é isso e quando a expressão começou a ser utilizada? Bem, este é um termo que se refere ao complexo de inferioridade do brasileiro diante do estrangeiro e foi cunhado e imortalizado pelo jornalista e dramaturgo Nelson Rodrigues em uma crônica publicada na revista Manchete Esportiva em 31 de maio de 1958, pouco antes da estréia do Brasil na Copa da Suécia.

Nelson defendia que o brasileiro gostaria de acreditar na vitória de sua Seleção, mas lhe faltava autoconfiança, coragem. Engraçado que hoje vivemos época parecida. Não se acredita na Seleção, assim como não se tem fé – salvo honrosas exceções, como a de Xico Sá, que escreveu crônica parecida – em uma vitória do Santos sobre o Barcelona, como se os espanhóis tivessem quatro pernas e oito braços, como se mesmo os brasileiros que jogam lá tivessem adquirido quatro pernas e oito braços.

Assim, o futebol brasileiro, que o Santos representa, passou a ser um lixo diante da extrema superioridade catalã. Ora, este Brasil não é mais aquele de Nelson Rodrigues, que jamais havia vencido uma Copa. Este País tem cinco Mundiais no currículo. Será que nem isso serve para fazer as pessoas de pouca fé acreditarem no nosso futebol?

Como, apesar de escrita há mais de 53 anos, continua bem atual, este blog presta um serviço à cultura futebolística e posta a coluna emblemática de Nelson Rodrigues. O título da coluna era “Personagem da Semana”, o que explica o começo do texto. Repare a similaridade com os tempos de hoje:

COMPLEXO DE VIRA-LATAS

Nelson Rodrigues, 31 de maio de 1958

Hoje vou fazer do escrete o meu numeroso personagem da semana. Os jogadores já partiram e o Brasil vacila entre o pessimismo mais obtuso e a esperança mais frenética. Nas esquinas, nos botecos, por toda parte, há quem esbraveje: – “O Brasil não vai nem se classificar!”. E, aqui, eu pergunto: – Não será esta atitude negativa o disfarce de um otimismo inconfesso e envergonhado?

Eis a verdade, amigos: – desde 50 que o nosso futebol tem pudor de acreditar em si mesmo. A derrota frente aos uruguaios, na última batalha, ainda faz sofrer, na cara e na alma, qualquer brasileiro. Foi uma humilhação nacional que nada, absolutamente nada, pode curar.

Dizem que tudo passa, mas eu vos digo: menos a dor-de-cotovelo que nos ficou dos 2 x 1. E custa crer que um escore tão pequeno possa causar uma dor tão grande. O tempo em vão sobre a derrota. Dir-se-ia que foi ontem, e não há oito anos, que, aos berros, Obdulio arrancou, de nós, o título. Eu disse “arrancou” como poderia dizer: – “extraiu” de nós o título como se fosse um dente.

E, hoje, se negamos o escrete de 58, não tenhamos dúvidas: – É ainda a frustração de 50 que funciona. Gostaríamos talvez de acreditar na seleção. Mas o que nos trava é o seguinte: – O pânico de uma nova e irremediável desilusão. E guardamos, para nós mesmos, qualquer esperança. Só imagino uma coisa: – Se o Brasil vence na Suécia, e volta campeão do mundo! Ah, a fé que escondemos, a fé que negamos, rebentaria todas as comportas e 60 milhões de brasileiros iam acabar no hospício.

Mas vejamos: – O escrete brasileiro tem, realmente, possibilidades concretas? Eu poderia responder, simplesmente, “não”. Mas eis a verdade: – Eu acredito no brasileiro, e pior do que isso: – Sou de um patriotismo inatual e agressivo, digno de um granadeiro bigodudo. Tenho visto jogadores de outros países, inclusive os ex-fabulosos húngaros, que apanharam, aqui, do aspirante-enxertado Flamengo. Pois bem: – Não vi ninguém que se comparasse aos nossos. Fala-se num Puskas. Eu contra-argumento com um Ademir, um Didi, um Leônidas, um Jair, um Zizinho.

A pura, a santa verdade é a seguinte: – qualquer jogador brasileiro, quando se desamarra de suas inibições e se põe em estado de graça, é algo de único em matéria de fantasia, de improvisação, de invenção. Em suma: – Temos dons em excesso. E só uma coisa nos atrapalha e, por vezes, invalida as nossas qualidades. Quero aludir ao que eu poderia chamar de “complexo de vira-latas”. Estou a imaginar o espanto do leitor: – “O que vem a ser isso?”. Eu explico.

Por “complexo de vira-latas” entendo eu a inferioridade em que o brasileiro se coloca, voluntariamente, em face do resto do mundo. Isto em todos os setores e, sobretudo, no futebol. Dizer que nós nos julgamos “os maiores” é uma cínica inverdade. Em Wembley, por que perdemos? Porque, diante do quadro inglês, louro e sardento, a equipe brasileira ganiu de humildade. Jamais foi tão evidente e, eu diria mesmo, espetacular o nosso vira-latismo.

Na já citada vergonha de 50, éramos superiores aos adversários. Além disso, levávamos a vantagem do empate. Pois bem: – E perdemos da maneira mais abjeta. Por um motivo muito simples: – Porque Obdulio nos tratou a pontapés, como se vira-latas fôssemos.

Eu vos digo: – O problema do escrete não é mais de futebol, nem de técnica, nem de tática. Absolutamente. É um problema de fé em si mesmo. O brasileiro precisa se convencer de que não é um vira-latas e que tem futebol para dar e vender, lá na Suécia. Uma vez que se convença disso, ponham-no para correr em campo e ele precisará de dez para segurar, como o chinês da anedota. Insisto: – Para o escrete, ser ou não ser vira-latas, eis a questão.

A SOLUÇÃO É DESRESPEITAR O BARCELONA

Todos dizem que o Santos tem de respeitar o Barcelona. Pois eu digo o contrário. Quanto mais desrespeitado for, quanto mais atrevimento demonstrar o Santos, mais a estrutura do futebol catalão se verá estremecida. O Barcelona depende do medo do adversário para não ser atacado, para ter o campo de que precisa para manobrar.

Por que, no Campeonato Brasileiro, times que jogam em seu campo geralmente vencem? Por que é tão difícil ganhar partidas diante da torcida adversária, mesmo quando o time da casa está nas últimas posições na tabela? Por que, no Brasil, a equipe que joga em seu estádio atua no ataque, qualquer que seja o oponente. Por isso o rebaixado América Mineiro ganhou do Corinthians, do São Paulo e de outros grandes clubes quando jogou em seu campo. Portanto, na maior parte das vezes, é o fator psicológico, mais do que técnico ou tático, que define os jogos e faz os campeões.

Amanhã o Santos tem de jogar como se Yokohama fosse o Pacaembu, ou a Vila Belmiro, e o Barcelona um time que, felizmente, não ficará todo recuado em sua defesa, como os últimos adversários do Alvinegro Praiano. A empáfia catalã pode ser o caminho para sua derrota. Chegou a hora de o futebol brasileiro sacudir, de novo, o seu persistente completo de vira-latas.

Você acha que amanhã o Santos acaba com o complexo de vira-latas?