Blog do Odir Cunha

O ombudsman do Santos FC

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O futebol, como a vida, é sonho

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Personagens vivos dos nossos melhores sonhos

Hoje assisti a um documentário sobre o poeta baiano Waly Salomão, guru da contracultura e do tropicalismo, falecido em maio de 2003, aos 59 anos. Chamou-me atenção um verso seu – curto, direto, mas incisivo – que exprime muito do sentimento do torcedor santista. Reproduzo-o no vídeo abaixo.

Torcer pelo Santos, reconheço, não é simples. Nosso time já foi o melhor do planeta, já ostentou os melhores jogadores e, entre eles, o Rei Pelé. Sentimo-nos, às vezes, como se tivéssemos perdido um grande amor – que se foi para longe, ou morreu, o que dá no mesmo.

Sentimo-nos viúvas não só de Pelé, mas do Santos que aprendemos a amar. O Santos com o líder dos líderes Zito, o guerreiro dos guerreiros Clodoaldo, o lateral dos laterais Carlos Alberto Torres, o centroavante dos centroavantes Coutinho, o zagueiro dos zagueiros Mauro Ramos de Oliveira, o goleiro dos goleiros Gylmar, o ponta artilheiro dos pontas artilheiros Pepe…

Sim, entendo a dor e a revolta de alguns santistas – que, na sua raiva, voltam-se até contra mim. E por que contra mim? Porque, malgrado toda a dificuldade do momento, toda a incerteza que cerca o futuro do Alvinegro Praiano, eu continuo sonhando. Continuo e sonharei até o último segundo de minha vida.

Pois, meus amigos, como exprimiu, e exprime o admirável Waly Salomão, o sonho jamais poderá morrer enquanto houver vida. Uma coisa está umbilicalmente ligada à outra.

Mas, este é o grande detalhe, não sonho o sonho estático, contemplativo, estritamente onírico. Sonho o sonho que se busca, que se constrói, que nos move pela vida afora. Este é o sonho vital que nos tira da cama todos os dias, o oxigênio que respiramos.

Neste sábado, o humílimo Chapecoense enfrentou aquele que o locutor Luiz Roberto chama de “time das estrelas” e, diante de 40 mil pessoas, no Morumbi, enfiou-lhe um estrondoso 1 a 0. Enquanto isso, em Minas Gerais, o não menos limitado Bahia arrancou um empate diante do Atlético Mineiro. O que isso significa?

Que o futebol vive tempos áridos, em que nomes famosos e jogadas vistosas pouco ou nada valem diante de equipes determinadas a usar seus músculos e fôlegos em busca de um melhor resultado. Assim como Costa Rica e Argélia mostraram na Copa, a aplicação tática e o espírito de luta podem produzir milagres.

É evidente que nossos sonhos de santistas são mais exigentes do que isso. Queremos ver essa mesma entrega que costarriquenhos e argelinos mostraram no Mundial, mas também queremos arte, beleza, refinamento. Por enquanto, assim como os outros torcedores brasileiros, não temos. Mas nada impede que continuemos a sonhar. Ao menos enquanto estamos vivos…

Feche os olhos e me diga qual é o Santos dos seus sonhos


O mau marketing está matando o futebol brasileiro

Teoricamente, marketing é uma coisa boa. Divulga, gera interesse por assuntos ou pessoas. Mas o marketing utilizado no futebol brasileiro tem mais atrapalhado do que ajudado. Tornou os melhores jogadores individualistas, narcisistas, e resolveu que apenas um ou dois clubes merecem atenção especial da mídia.

Recebo reclamações dos amigos santistas de que Santos e Palmeiras era um jogão para ser valorizado e transmitido no horário nobre desta quarta-feira. Realmente. Não seria favor algum. Em campo, teremos 16 títulos brasileiros e quatro Libertadores; o clube que recentemente revelou Neymar e aquele que está construindo, com dinheiro e risco próprios, a melhor arena do futebol brasileiro.

Como não há nenhuma pesquisa à mão, dou uma olhada na Timemania de quatro dias atrás e constato que as 988.000 apostas, em todo o Brasil, deixaram o Santos em terceiro lugar na preferência do torcedor, e o Palmeiras em sexto. Inegavelmente trata-se de um clássico nacional, de dois times que têm torcedores em todo o País.

Em vez de promover o espetáculo futebol, fortalecer os grandes clubes igualmente e incrementar a competivididade, a televisão adota o marketing direcionado, político, com o fim específico de dar mais visibilidade aos seus times preferidos e alterar o equilíbrio do futebol brasileiro. A lição da Alemanha terá muita dificuldade de vingar no Brasil, de superar a reserva de mercado que se pratica por aqui.

O individualismo como resultado da necessidade de aparecer

Um pouco antes de sofrer a joelhada, Neymar tinha perdido a bola duas vezes no meio de campo tentando fazer jogadas sem nenhum sentido prático para o time. Em uma delas arriscou um chapéu no meio de campo, atrasando o ataque. Da mesma forma, um pouco antes da avanlanche de gols da Alemanha, o zagueiro David Luiz foi visto parado na área adversária, como se fosse um atacante, deixando um buraco na defesa brasileira.

O lateral-esquerdo Marcelo liberou uma free way pela direita do ataque alemão; Hulk tentou chutar a gol de qualquer ângulo e Oscar só faltou levar a bola para casa. Muitos jogadores brasileiros jogaram apenas para si mesmos. É verdade que a Seleção Brasileira precisa de uma reformulação tática e, por que não, de um técnico estrangeiro que sacuda esse marasmo de Felipões, Parreiras, Manos, Tites e quetais, mas também não se pode negar que a vaidade e a falta de espírito de equipe do jogador brasileiro têm grande parcela de culpa no vexame sofrido nesta Copa.

E por que o jogador do Brasil não fez o jogo de marcação que deveria ser feito, e que tornou mesmo as modestas Costa Rica e Argélia adversários dificílimos para os grandes favoritos? Ora, porque o brilho individual, que vem com o gol ou uma jogada de efeito, é o que dá mais visibilidade e ganha mais espaço na mídia.

Nem digo apenas imprensa, pois o Youtube é, hoje, a mídia eletrônica mais assistida no mundo – e nela os jovens fãs do futebol só querem ver gols, dribles e jogadas vistosas. A eficiência dos zagueiros não interessa à nova geração do futebol, nem aos homens do marketing. Para se destacar e, com isso, atrair patrocinadores e aumentar o faturamento, o jogador precisa ousar, aparecer. A sóbria eficiência dos grandes defensores está em baixa.

A generosidade dos verdadeiros craques

Os gênios do futebol, por enxergarem além, também foram generosos, souberam associar o seu sucesso pessoal ao sucesso do time em que jogavam. Veja Garrincha, indo sempre à linha de fundo para dar gols e glória a companheiros que só tinham de empurrar a bola para as redes. Veja Maradona, driblando vários adversários para servir a Caniggia o gol que eliminou o Brasil na Copa de 1990. E, acima de tudo, veja Pelé.

Os filmes que se fizeram sobre o Rei do Futebol e a admiração que seus 1.282 gols provocam, podem ter deixado em muitos a ideia de que Pelé também era individualista, que a todo momento estava tentando driblar dois, três, quatro jogadores para fazer gols de placa. Não é verdade e, para provar isso, consegui encontrar um vídeo muito interessante que mostra bem o lado solidário e, repito, generoso do Rei.

Como veremos a partir da metade do vídeo abaixo, Pelé era tão preciso no passe como nos outros fundamentos. Ocorre que nem sempre seus companheiros concluiam bem as jogadas, que acabaram esquecidas, já que não terminaram em gols. Mas repare que até no passe Pelé coloca a força e o efeito exatos. Já não se vê mais passes assim no futebol.

Destaco os lances da partida contra Portugal, pela Copa de 1966, em que mesmo com a perna enfaixada e mancando – estava machucado, mas as substituições eram proibidas –, Pelé acerta passes precisos. Esse espírito de equipe, tão comum nos craques brasileiros de outras épocas, faltou a muitos jogadores que representaram o Brasil nesta malfadada Copa.

E você, não acha que o mau uso do marketing está matando nosso futebol?


Germanização já!


Robben, da Holanda, o melhor jogador da Copa de 2014

Quando o Santos, com um time em formação e um técnico interino, perdeu para o Barcelona por 8 a 0, no Camp Nou, Carlos Alberto Parreira se apressou em dizer que o Alvinegro Praiano não representava o futebol brasileiro – como se o time campeão e semifinalista da Copa Libertadores em 2011 e 2012 fosse uma equipe chinfrim, sem passado, nem presente.

Como se aquela derrota constrangedora não fosse um sinal de que mesmo um clube grande no Brasil estava tão atrasado com relação aos melhores europeus. Na visão equivocada de Parreira, o futebol de um país é expressado por sua seleção, quando a verdade é exatamente o contrário.

Agora, vejam vocês, quis o destino que este mesmo Parreira, em parceria com Luiz Felipe Scolari e seu indefectível Murtosa, levassem a Seleção ao maior vexame de sua secular existência, isso depois de tempo suficiente para escolher os melhores jogadores brasileiros do planeta e formar com eles um time para jogar a Copa em casa. Será que agora Parreira se convenceu da decadência do futebol brasileiro?

Hoje o futebol alemão é o mais organizado e rico da Terra. E o detalhe é que está inserido em um mercado que pratica a meritocracia. A verba de tevê destinada aos clubes leva em conta a posição de cada um na tabela, o que estimula a busca constante pela competência. Ao contrário do Brasil, em que a tevê estabeleceu uma reserva de mercado para certos times, quaisquer que sejam seus desempenhos. Ou seja: o sistema deles premia a eficiência, o nosso incentiva a preguiça e a inércia.

Os sinais da fragilidade do futebol brasileiro podem ser notados há anos. Nossos técnicos estão defasados, nossos jogadores apanham da bola, a preparação física é precária, e mesmo assim os salários crescem a cada dia, em uma bolha que levará os clubes à falência.

E não venham me dizer, por favor, que se a Argentina fosse campeã isso significaria a redenção do futebol sul-americano. Esses jogadores argentinos também representam times europeus e não os clubes empobrecidos e endividados de seu país.

A Alemanha mereceu ser campeã desta Copa pela organização, planejamento, fair play, sociabilidade, técnica e tática. Para não ficar chato, a Fifa deu a bola de ouro ao Messi, que passou em branco na maioria dos jogos. Espero que agora os do contra parem com essa mania de compará-lo a Pelé. Só o Rei tem três Copas do Mundo no currículo, além de 12 gols. Mas não gols quaisquer – gols de Pelé!

Você não acha que está na hora de seguir o exemplo do futebol alemão?


Vexame histórico dos sete erros

Antes, veja e ouça isso:
Entrevista de Paul Breitner prevendo o favoritismo da Seleção Alemã

A goleada eterna que a Alemanha impôs ao Brasil não pode ser explicada apenas pela natural superioridade da equipe germânica. Formada há seis anos, com ótimos jogadores, um sistema tático bem definido e dirigida pelo ótimo técnico Joachim Low, os alemães eram favoritos e provavelmente ganhassem mesmo que a Seleção Brasileira fizesse tudo certo e contasse com Neymar e Thiago Silva.

Porém, não só a maneira vexaminosa como o time de Luiz Felipe Scolari se comportou na semifinal, mas tudo o que envolveu a participação do Brasil nessa Copa – dentro ou fora dos estádios – revela, sintomaticamente, sete erros graves que não podem passar em branco. Vamos a eles:

1 – Estratégia Inadequada

A Alemanha já tinha tido sérios problemas com times que jogaram recuados, marcaram forte e souberam atacar sem deixar grandes buracos na defesa. Empatou com Gana (2 a 2) e venceu Argélia, Estados Unidos e França por apenas um gol de diferença. Como tem, teoricamente, melhores jogadores do que os adversários enfrentados pela Alemanha, o Brasil deveria ter optado por um jogo mais amarrado no meio de campo e a possibilidade de decidi-lo em jogadas individuais ou nas decantadas bolas paradas.

Não se sabe o teor dos “conselhos” que Scolari ouviu dos seis jornalistas com quem decidiu conversar separadamente, mas a verdade é que ele surpreendeu ao escalar um time ofensivo contra a Alemanha, e isso se revelou um equívoco fatal. Nada justificaria colocar em campo, ao mesmo tempo, Oscar, Bernard, Hulk e Fred.

O mais aconselhável era optar pelo 4-4-2, ou mesmo 4-5-1, com a possibilidade de o time avançar quando tivesse a bola. Assim, Willian, Paulinho e Ramirez poderiam entrar. Fica ainda a dúvida se valeu a pena manter Fred isolado no meio dos beques alemães o tempo todo.

Mas os enganos começaram na convocação. Com esses jogadores o Brasil ficou sem a opção de atuar sem controavante e acabou, na prática, jogando sem ele, pois Fred não teve com quem tabelar. Seria preciso, no mínimo, mais um meia atacante. Por isso falei em Robinho. Mas poderia ser outro.

2 – Tática precipitada

Mal a saída foi dada e o Brasil foi pra cima da Alemanha, em um misto de nervosismo e coragem descontrolada, angustiado por fazer o primeiro gol. Algumas chances foram criadas, mas o gol não saiu e a Alemanha é que encontrou o seu, aos 10 minutos, após um escanteio em que Muller apareceu livre.

Parece que o plano do Brasil era justamente inaugurar o marcador, para depois especular nos contra-ataques. Quando o adversário é que conseguiu isso, o time se descontrolou. Faltou um líder para por a bola embaixo do braço depois do gol alemão e, apesar do alarido da torcida, recolocar a equipe na busca do equilíbrio que poderia levar à vitória.

Um sintoma do descontrole foi ver David Luiz na área da Alemanha em busca do empate, e continuar por lá mesmo após o adversário retomar a bola. A pressão por ter sido considerado o salvador da pátria, com a ausência de Neymar, fez mal ao grande zagueiro. Deixou o estreante Dante sozinho, sem um esquema eficiente de cobertura. Ficou claro que a Alemanha só precisaria acertar alguns passes para chegar ao segundo gol.

Nesse momento de frenesi pelo empate, não se viu o dedo ou a voz do técnico. Contestado por muitos, o mesmo Scolari que montou seu grupo de jogadores com a intenção de formar nova família, acabou justificando as críticas de quem não entendeu como um técnico que não impediu o rebaixamento do Palmeiras, poderia levar o Brasil a um novo título mundial.

O Brasil agiu como o pugilista inexperiente, que leva um golpe e, ao invés de provocar o clinche e amarrar a luta para poder respirar e recuperar o raciocínio, parte tresloucadamente para cima do adversário, soltando os braços a esmo. Madura e mais técnica, a Alemanha só precisou se esquivar de alguns golpes e depois soltar os seus, certeiros, e jogar o Brasil na lona.

Provavelmente tão zonzo como seus jogadores, Scolari passou o primeiro tempo inteiro assistindo ao massacre e só foi mexer na equipe na segunda etapa, colocando, tardiamente, Paulinho, Ramirez e Willian no time.

3 – Falta de controle emocional

Em nenhum momento os jogadores brasileiros se mostraram devidamente preparados para disputar uma Copa do Mundo em casa. A choradeira depois da disputa de pênaltis contra o Chile escancarou esse problema.

Scolari tinha dito que ele era o psicólogo da Seleção, mas depois parece ter mudado de idéia e chamado os serviços da profissional Regina Brandão. Todos sabem, porém, que não há preparação psicológica instantânea. Esse é um processo demorado, que exige no mínimo alguns meses.

Em sua entrevista após a acachapante vitória, Joakim Low citou o descontrole dos brasileiros por jogar em casa. Ou seja, aquilo que era para ser uma vantagem, se tornou um problema. E na ânsia de se ver livre do “problema Alemanha” o mais rápido possível, o Brasil não teve calma e inteligência para fazer o único jogo que lhe daria a vitória: um jogo de espera, que seria decidido, aí sim, pela individualidade do jogador brasileiro.

4 – Falta de espírito de equipe

Meu cunhado acaba de me ligar dos Estados Unidos e disse que os brasileiros que assistiram ao jogo lá, disseram que em um nenhum momento esse Brasil jogou como uma equipe. Concordo. Os objetivos pessoais sobrepujaram os coletivos, como já havia acontecido em outras seleções brasileiras fracassadas.

A supervalorização de Neymar foi ruim para a equipe, assim como a vontade de jogadores como Oscar e Hulk de aparecerem mais do que o ex-santista. Lembro-me de que Zito dizia que no Santos não havia inveja de Pelé e que todos compreendiam e aceitavam que o Rei fosse o astro da companhia. Faltou isso nesse Brasil.

As entrevistas lacrimejantes de Júlio César, expondo seus dramas e objetivos pessoais, não ajudaram a fortalecer o sentido de grupo ou ao menos passar uma imagem de tranqüilidade e confiança. Ele repetiu que sua história ainda não estava terminada e, infelizmente, não estava mesmo. Nesta semifinal ele se tornou o goleiro brasileiro que mais sofreu gols em uma Copa do Mundo: 11 (em 1938 o Brasil também sofreu 11 gols, mas foram divididos entre os goleiros Batatais e Valter).

Enquanto isso, o alemão Klose, que com o seu gol se tornou o maior artilheiro em Copas, com 16, nem falou sobre isso em sua entrevista, preferindo ressaltar a unidade do seu time. Por aí se vê a diferença de enfoque: aqui endeusamos pessoas, lá eles valorizam o trabalho de equipe.

5 – Uso político

Fala-se tanto do pernicioso uso do futebol pelos políticos, hábito que tantas vezes impediu o Brasil de ser campeão do mundo – principalmente em 1950, na primeira Copa disputada no País –, mas parece que a lição não foi aprendida. Desta vez a situação foi ainda mais grave, pois o desvio de verba pública para estádios inúteis, reluzentes elefantes brancos, revelou-se escandalosa.

O que fazer agora com as arenas de Brasília, Natal, Pantanal e Manaus? Não há mais como convertê-las em hospitais, escolas, casas populares e outras prioridades que um governo realmente preocupado com seu povo deveria ter. O jeito é engolir o prejuízo e virar o rosto de lado para não ver a gradual deterioração destes templos do populismo autoritário.

6 – Ufanismo da mídia

Só houve tanto descaso com a verba pública porque não houve a necessária reação da mídia. Talvez as milionárias verbas de empresas estatais destinadas aos veículos de comunicação tenham arrefecido a imprescindível veia crítica que se espera dos jornalistas, talvez um chá da tarde com a presidente Dilma Roussef tenha influído também, ou até mesmo o papinho com Felipão, mas o certo é que a partir de determinado momento a imprensa vestiu os óculos cor-de-rosa e passou a chamar a Copa de a “a melhor de todos os tempos” e a difundir a falsa idéia de que chegar ao hexa era algo natural.

Aliás, se você teclar “hexa” no Google agora, constatará que o termo aparece 140 milhões de vezes, quase sempre em referência ao título que o Brasil deveria ganhar. Nenhuma voz se ergueu para alertar sobre o provável fracasso. Ninguém queria ser olhado como do contra, ou pé frio, e assim a crônica esportiva mais pareceu um grande departamento de assessoria de imprensa da CBF que em dias normais ela tanto critica.

Engraçado que exatamente isso ocorreu em 1950, quando a primeira Copa foi disputada no Brasil. Muito já se criticou e até se ironizou o otimismo exagerado de nossos companheiros de imprensa há 64 anos, mas agora o mesmíssimo erro foi cometido, e sem as ressalvas de outrora. Em 1950 o Brasil tinha goleado a Espanha por 6 a 1, a Suécia por 7 a 1, e jogava pelo empate com o Uruguai. Era normal que todos já julgassem o time campeão.

Agora a Seleção penou diante de México, Chile e Colômbia, e mesmo assim a palavra “hexa” não saía das manchetes e das bocas dos repórteres e comentaristas. Enfim, a imprensa esportiva brasileira, contaminada pelo corporativismo praticado por um número excessivo de ex-jogadores, perdeu uma boa oportunidade de fazer um trabalho digno.

7 – Falta de planejamento e profissionalismo

Uma coisa está ligada à outra. Refiro-me ao planejamento global do futebol brasileiro, que começa na base, passa pelos clubes profissionais, pelas federações, confederação e, logicamente, desemboca na Seleção.

Há uma filosofia globalizada para o treinamento de infanto-juvenis? Há um trabalho nacional neste sentido, que envolve preparo técnico, físico e tático? Obviamente não. Enquanto isso, os europeus desenvolvem novos métodos, se aperfeiçoam.

Dá para esperar uma mudança substancial no futebol brasileiro com essa CBF? Com essa lei que escraviza o clube a empresários?

Não sei se foi a ausência das Eliminatórias, ou se isso se deve aos amistosos sem sentido, mas o certo é que nesta Copa o Brasil se mostrou menos preparado para o futebol moderno do que equipes como Costa Rica e Estados Unidos, por exemplo.

Quanto ao profissionalismo, ele precisa ser aprimorado não só no trato dos clubes com os jogadores, mas dos clubes com suas fontes de faturamento – publicidade e tevê, principalmente.

Mais uma vez devemos ressaltar a forma como a Bundesliga negocia os direitos de tevê dos clubes: de forma coletiva e levando em conta a meritocracia. Isso mantém a competitividade e dá aos clubes a motivação necessária para se tornarem cada vez mais eficientes.

Enquanto isso, no Brasil, os clubes mais populares, dirigidos com competência ou não, estão garantidos por uma sórdida reversa de mercado que, mais uma vez, obedece ao interesse político-populista.

A Alemanha mudou a estrutura de seu futebol antes de torná-lo o mais rico, competitivo e vitorioso do planeta. Isso não exige só milhões de reais de investimento em estádios. Exige planejamento, criatividade, competência e muiiito trabalho. Será que no futebol brasileiro há gente futebol disposta a pagar este preço, ou tudo continuará como antes desse vexame?

E pra você, por que o Brasil tomou esse chocolate da Alemanha?


Respeito a posição de todos, mas torcerei pelo Brasil

garotinho torcedor brasil  

Eu sei que se a Seleção Brasileira ganhar a Copa, o que será difícil, os políticos incompetentes que dirigem o País tirarão proveito disso. Porém, torcer pelo Brasil em uma Copa é algo religioso para mim. Torço pelos jogadores, que não têm nada a ver com a corrupção que assola a pátria, e pelos torcedores, pois quanto mais humilde, mais patriota se é.

Sim, o conceito verdadeiro de pátria é melhor sentido pelo povo que nada tem, a não ser o amor por um fantasma que ele mal conhece chamado Brasil. Um amor de verdade, pois apenas dá, sem receber nada em troca. Por aquele que tem no futebol o seu sonho de felicidade, torcerei pelo Brasil.

E torcerei também para que, apesar de uma pouco provável vitória do Brasil, o povo tenha sapiência para perceber que a vitória no futebol nunca poderá ser mais importante do que a dignidade, o respeito, a justiça, enfim, os direitos que todo cidadão brasileiro deve ter, com ou sem Copa do Mundo.

E você, vai torcer pra quem?

 


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