Blog do Odir Cunha

O ombudsman do Santos FC

Tag: Dalmo

Veja como foi a Festa do Octa, pela SantosTV

Como é bom ver nossos ídolos felizes com a justiça da Unificação, tranquilos de saber que são, oficialmente, campeões brasileiros. Repare o que diz Dalmo, Lalá… Imagine como era aquele time. Mais um belo trabalho do Cássio Barco e dos craques da SantosTV.


Há 47 anos o Santos se tornava o primeiro bicampeão mundial do futebol


O Santos para a final, sem Pelé, Calvet e Zito. O pênalti de Maldini em Almir.


Dalmo cobra o pênalti do título, o time dá a volta olímpica e, no vestiário, Pelé agradece a Almir.

Há 47 anos, em um sábado à noite, no Maracanã, o Santos se tornou o primeiro bicampeão mundial da história do futebol ao bater o Milan, campeão europeu, por 1 a 0. Dois dias antes, na virada mais importante e espetacular do futebol brasileiro, os santistas transformaram em 4 a 2 uma derrota parcial de 2 a 0 no primeiro tempo, devolvendo o mesmo marcador com que haviam perdido em Milão.

Ainda sem os titulares Pelé, Calvet e Zito, que, machucados, já não tinham podido jogar na segunda partida, o Santos entrou em campo com Gylmar, Ismael, Mauro, Haroldo e Damo; Lima e Mengálvio; Dorval, Almir, Coutinho e Pepe.

Como dois dias antes, o Maracanã estava superlotado. Oficialmente, pagaram ingressos 120.421 pessoas, mas testemunhas afirmam que o estádio tinha cerca de 200 mil pessoas. Depois de perder a final da Copa de 1950, 13 anos antes, o maior estádio do mundo poderia ver o futebol brasileiro reinar naquela noite em que a classe santista seria substituída pela raça de onze guerreiros comandados por Almir Albuquerque.

Volte no tempo e acompanhe a decisão do Mundial Interclubes de 1963. Para contar como foi a partida, recorro a um capítulo do livro Na Raça!, que escrevi para a Editora Realejo e foi lançado em 2008.

Primeiro Tempo

A expectativa pela decisão do título Mundial Interclubes é enorme. Até o presidente do Brasil, João Goulart, não se nega a dar seu palpite para o jogo: 3 a 1 para o Santos é o seu prognóstico.

Um estrondo digno da era atômica – assim o jornal A Gazeta Esportiva descreve o barulho provocado pelos fogos de artifício e pelos gritos da torcida quando o Santos entra em campo.

Exatamente às 21 horas (de Brasília) Lodetti, o camisa oito do Milan, inicia a partida decisiva do Mundial Interclubes de 1963 tocando para Mazzola. O primeiro ataque do campeão europeu é perigoso. Mora penetra pela direita, passa por Dalmo e é combatido por Mengálvio, que joga para escanteio.

Aos cinco minutos, Dorval toca para Coutinho, que é cercado por Trapattoni. Ao tentar recuar para Ismael, o centroavante santista faz um passe curto que é interceptado por Amarildo. Este avança e ao tentar chutar a gol é prensado por Dalmo, que alivia o perigo.

Um minuto depois, Pepe cobra uma falta e a bola, rebatida por Balzarini, sobra para Almir. Ao tentar o chute, o atacante brasileiro acerta a cabeça do goleiro, que começa a sangrar (a partir daí Balzarini jogaria com a cabeça enfaixada, e seria substituído ao final do primeiro tempo). Maldini se revolta e vai pra cima de Almir, que ergue os braços, alegando inocência. Os italianos partem para a briga. Junto à linha de fundo, Pellagalli agride Coutinho. Mauro vem correndo e entra no bolo. Pela TV Record, o locutor Raul Tabajara diz: Vejam o clássico zagueiro santista, que dizem jogar com luvas de pelica, sair em defesa de seus companheiros. Repórteres e policiais invadem o campo e a área do Milan se transforma em um pandemônio. O ponta Mora vai ao chão, agredido não se sabe por quem.

Aos sete minutos, Maldini comete falta em Almir, mas, descontrolado, não gosta quando Juan Brozzi marca a inflação e o encara, dando-lhe uma peitada.

O Santos é mais ofensivo. Aos 18 minutos Coutinho tabela com Almir, a bola desvia em Trapattoni e sobra para Lima, na meia-direita, próximo à entrada da grande área. O santista atira rasteiro, Balzarini não pega e a bola passa raspando a trave.

O bicampeão sul-americano prossegue tentando o gol. Aos 27 minutos Coutinho recebe de Lima e passa na esquerda para Almir. Mesmo pressionado por Pellagalli, o atacante santista corre em direção à linha de fundo e chuta cruzado, obrigando Balzarini a uma defesa acrobática.

A defesa do Santos só assiste a partida, que se desenrola no campo do adversário. O Santos toca de pé em pé e o Milan se encolhe na defesa.

Aos 30 minutos, Lima centra para a área. A bola vai em direção de Almir. Trebbi escorrega ao tentar cortar o passe e o desesperado Maldini, quando busca chutar para a frente, acerta a cabeça de Almir, que cai rolando no gramado. Juan Brozzi marca pênalti, para revolta geral dos italianos, que o cercam, enfurecidos. Sobre o lance, Almir escreveu assim em seu livro “Eu e o futebol”: Lima fez um cruzamento alto. Eu estava mais ou menos ali pela marca do pênalti. Ia chegar um pouco atrasado na bola, mas tinha de tentar, tinha de acreditar em mim. Vi quando Maldini, desesperado, levantou o pé, tentando cortar o lançamento. Eu tinha de dar tudo ali naquele lance: meter a cabeça para levar um pontapé de Maldini, correr o risco de uma contusão grave, ficar cego, até mesmo morrer, porque o italiano vinha com vontade. Agora era ele ou eu. Meti a cabeça, Maldini enfiou o pé, eu rolei de dor pelo chão. O argentino não conversou: pênalti.

O jogo fica interrompido por cerca de quatro minutos. Os italianos protestam, tiram a bola da marca do pênalti. Maldini, que segundo Almir, parecia “enlouquecido”, ofende o árbitro e tenta agredi-lo, sendo expulso. Revoltado, o capitão do Milan só abandona o gramado com a intervenção dos policiais, com os quais discute também. Outros jogadores do Milan ameaçam abandonar o campo. A torcida vaia os italianos.

O campo é invadido por repórteres, fotógrafos e policiais. Os italianos tinham tentado impedir que repórteres e fotógrafos acompanhassem o jogo de dentro do campo, mas o vice-presidente do Santos, Modesto Roma, disse que no Brasil mandavam os brasileiros. Nossa imprensa sempre teve toda a liberdade para trabalhar e não vamos tirá-la agora, disse o dirigente santista em uma reunião anterior com dirigentes do Milan e representantes da Confederação Sul-americana, realizada no Hotel Glória.

Em meio ao tumulto, Dalmo se aproxima de Pepe, diz que está confiante e pede para cobrar o pênalti. Pepe, que seria o cobrador natural, percebe que o companheiro realmente está decidido e cede ao lateral aquele que seria o seu maior momento na história do futebol.

Gol do Santos. 1 a 0. Dalmo

Aos 34 minutos, o lateral-esquerdo Dalmo aproxima-se da bola para cobrar a penalidade, mas interrompe o movimento do chute ao perceber que Balzarini adiantou-se tanto a ponto de pisar quase na risca da pequena área. O árbitro admoesta o arqueiro italiano e pede que ele volte à sua posição inicial. Novo apito e desta vez Dalmo bate de pé direito, rasteiro, no canto esquerdo. O goleiro pula no canto certo e quase chega a tocar na bola, mas esta morre no fundo do gol.

Depois, Dalmo descreveria os momentos que antecederam o gol: Era um barulho ensurdecedor, aquele povo todo gritando. Houve um desentendimento. Quando eu ia bater, dava a paradinha, (sou o inventor da paradinha), e o goleiro se adiantava. O árbitro mandou que eu não fizesse a paradinha e que o goleiro não se adiantasse. Fui frio e calculista, pois estava acostumado a cobrar pênaltis nos outros clubes em que joguei. Quando corri para a bola, o estádio silenciou. Mas já estava decidido. Bati no canto esquerdo do goleiro, rasteiro e fiz o gol.

O Alvinegro Praiano se anima com a vantagem e continua melhor do que o Milan, que parece atordoado. Aos 40 minutos o Santos tem um gol anulado. Em casa, assistindo pela TV Record, percebo que ao saltarem para tentar aproveitar um cruzamento na área italiana, Mengálvio e Coutinho fazem falta no goleiro. A bola sobra para Coutinho, que chuta para as redes, mas o gol é invalidado e os santistas não reclamam.

Aos 43 minutos, Balzarini cai no gramado e pede atendimento médico. O sangue escorre por seu rosto. Sem condição para continuar, o goleiro é substituído pelo reserva Barlucci.

Um gesto de elegância em meio ao clima hostil da partida: aos 46 minutos Dalmo joga a bola pela lateral para que Fortunato, caído, seja atendido.

Oito minutos além do tempo regulamentar, Amarildo dá uma entrada forte em Ismael, que parte para cima do atacante do Milan e lhe desfere uma cabeçada. Amarildo cai, exagerando, e Juan Brozzi expulsa o jogador do Santos. Profundamente arrependido, Ismael sai de campo acompanhado por Coutinho e, aos prantos, é recebido pelo massagista Macedo, que o acompanha até o túnel.

Juan Brozzi dá onze minutos de descontos. Ao final do primeiro tempo, os milaneses saem de campo vaiados, enquanto os santistas são aplaudidos.

Segundo Tempo

Às 22h45m Coutinho dá a saída.

O clima é tenso os jogadores pegam pesado. Almir é o primeiro a ir ao chão. Antes de se completar três minutos de jogo, Haroldo dá uma entrada violenta em Amarildo.

Aos sete minutos, Almir dá um belo drible em Trapattoni e segue em direção à área italiana. Já batido, o zagueiro italiano apela e derruba acintosamente o brasileiro, merecendo apenas uma bronca do árbitro.

Aos 10 minutos percebe-se que o Milan, mesmo sem criar lances de perigo, está jogando melhor. Dalmo e Haroldo erram passes e quebram a evolução do time, que não consegue atacar.

Mas o Santos se reapruma e aos 14 minutos Almir tenta escapar pela direita e sofre falta de Trapatoni. Pepe cobra, a bola passa pela barreira, mas Barlucci agarra firme, quando Haroldo já estava pronto para aproveitar um possível rebote.

Aos 20 minutos o Santos tem uma chance de ouro de ampliar o marcador. Após receber excelente passe de Haroldo, Lima surge livre na frente de Barlucci. Mas o meia santista demora muito para atirar e, quando o faz, o goleiro, que já fechou o ângulo, salta para espalmar para escanteio, numa grande defesa.

Na seqüência da jogada, Pepe cobra o escanteio e Coutinho cabeceia, encobrindo Barlucci. A bola vai entrando, mas Benitez consegue salvar.

Aos 24 minutos Almir corre e evita a saída de bola pela linha de fundo. Trapattoni vem marcá-lo e o atacante brasileiro usa o corpo para proteger a bola. Sem ter como desarmar o santista, Trapattoni o derruba, cometendo falta.

A 15 minutos para terminar a partida, o Santos segue sem dar oportunidades ao campeão europeu. Com a expulsão de Ismael, o ponta Dorval recuou para a lateral-direita e conseguiu anular Fortunato, o bom atacante do Milan.

A primeira grande oportunidade do Milan surge aos 32 minutos, quando Fortunato passa por Haroldo e cruza para a direita. Mora vem na corrida, domina a bola e penetra livre. Na hora de concluir, entretanto, entorta o chute e a bola sai à esquerda da meta de Gilmar.

As coisas começam a se complicar para o Santos com as contusões de Almir e Pepe (à época só eram permitidas substituições de goleiros). O substituto de Pelé, de tanto correr e levar pancadas, sente uma contusão na coxa direita e passa a jogar com uma cinta elástica, deslocando-se para a extrema direita. Minutos depois, Almir cai e em seguida aparece com duas cintas, uma em cada coxa. Pepe também manquitola e é atendido pelo massagista Macedo. O Santos está em frangalhos e o Milan vem para cima.

Aos 37 minutos Mazzola perde ótima oportunidade para empatar. Após receber de Amarildo, na posição de meia-esquerda, ele avança livre e chuta, mas a bola sai.

Mesmo sem poder andar direito, Almir continua lutando como um leão. Aos 43 minutos ele acerta bom passe em profundidade para Pepe, que sofre falta de Pellagali na entrada da área. O mesmo Pepe cobra a falta e obriga Barlucci a grande defesa, jogando a bola para escanteio.

O final da partida é de pressão total do Milan. Aos 44 minutos Mora avança pela direita, passa por Dalmo e cruza rasteiro para Amarildo. Mas Gilmar se antecipa e agarra firme.

A impressão que se tem é que se o Milan empatar, o estropiado Santos não terá forças para buscar a vitória e o título na prorrogação. Os italianos ainda estão inteiros, enquanto os santistas capengam pelo campo, tentando suportar de todas as formas a pressão do adversário.

Quando Juan Brozzi apita, assinalando o final da partida, os jogadores do Milan saem correndo do campo em direção aos vestiários, sem cumprimentar os santistas ou dar entrevistas aos repórteres, o que era usual à época. Percebia-se, entretanto, que protestavam contra a atuação do árbitro. Na verdade, durante todo o jogo tinham sido insuflados contra a arbitragem pelo seu técnico, o argentino Luiz Carniglia. Dos vestiários, foram direto para o Aeroporto Internacional do Galeão.

Os jogadores do Santos, por sua vez, recebem o apito final do árbitro com alívio e alegria. Pulam, carregam Almir nos braços, enquanto Ismael, que voltou a campo ainda de calção, mas sem meias, chora copiosamente. Lima, Coutinho e Haroldo caminham aos saltos. Organiza-se uma volta olímpica. O Santos parece um exército Brancaleone. Alguns jogadores mancam, outros estão semchuteiras. Todos erguem as mãos para o público, agradecendo o comovente apoio nos dois jogos.

O capitão Mauro Ramos de Oliveira é convocado para subir à tribuna de honra e receber a taça de campeão mundial interclubes das mãos de Raul Colombo, presidente da Confederação Sul-americana de Futebol. O estádio rompe em aplausos. Em menos de um ano e meio o elegante zagueiro santista erguia duas taças de campeão do mundo (a primeira pela Seleção Brasileira, no Chile, em 17 de junho de 1962).

Almir Albuquerque, o Almir Pernambuquinho, descreveu esse momento em seu livro: Eu ouvia o público gritar meu nome num coro que tomava o Maracanã de ponta a ponta: – Al-mir! Al-mir! Àquela altura eu não tinha condições de fazer a volta olímpica, com os demais jogadores. Estava no bagaço, de tão massacrado. Dei muita pancada, mas também apanhei demais. Saí do campo capengando, me arrastando, não agüentava de tanto cansaço. Fiquei um tempão na banheira térmica do vestiário… Nós estávamos hospedados na concentração do próprio Maracanã. Várias vezes os jogadores tiveram de chegar à janela para acenar à multidão, ali em frente à rampa das arquibancadas. O povo dançava acompanhando a marcação do surdo com um coco que alternava duas palavaras: – Al-mir! Bicampeão! Al-mir! Bicampeão! Quase arrastado por seu Moran, cheguei á janela: houve um delírio ali diante do lugar onde o Santos mandou colocar uma placa à homenagem à torcida carioca. Eu tinha me comportado como um marginal? Para o povo, ali, e para a imprensa, no dia seguinte, eu era um herói. Eu, Almir Morais Albuquerque, apenas havia aplicado o que o futebol me ensinou.

A placa foi mesmo encomendada pela diretoria santista e colocada na entrada das arquibancadas do Maracanã. Ela dizia: Às palmas dos cariocas, o coração do Santos Football Club. Os cariocas elegaram o triunfo santista como uma vitória deles também, uma vitória do Brasil. Há três anos a capital da nação havia se mudado para Brasília, mas a verdade é que o Rio de Janeiro ainda se sentia o coração do País. A vitória do Santos era a vitória da raça brasileira. A imprensa nacional se colocou ao Santos do Santos cem por cento. O time se sentiu amparado por ela nas 72 horas martirizantes que decidiram o Mundial de 1963.

O mais inflamado de todos era o locutor da Rádio Globo Valdir Amaral. Ele, que dramatizou ainda mais os últimos minutos de jogo com seu bordão “o relóóógio maarcaaa” agora discursava apoteoticamente, num som metálico que reverberava entre a multidão que abandonava o Maracanã com a alma lavada: Esse maravilhoso Santos deu ao Brasil, a mim, a você, senhor, ao País, a glória imensa de ser bicampeão do mundo! Transcendemos como nação!.

Naquela noite o Santos e a imprensa carioca fizeram o brasileiro acreditar que vivia no maior país do mundo: o maior estádio, o maior futebol, Pelé, o Carnaval, Copacabana… O milagre do futebol se espalhou pelas pessoas. O Santos não pertencia mais a ele mesmo.

Veja agora um vídeo sobre as finais do Mundial de 1963. Há mais cenas do jogo na Itália, em Milão, em que o Milan venceu por 4 a 2 e Amarildo disse que era melhor do que Pelé. No final do filme vê-se o pênalti cobrado por Dalmo. Repare que é como o milésimo de Pelé: de chapa, rasteiro e no canto esquerdo do goleiro.

O que você sabia deste Mundial de 1963? Tem alguma lembrança?


Pênalti se treina, sim, Martelotte


Treinar diminui o stress na hora da cobrança

Após o frustrante empate em 0 a 0 com o Grêmio, em que o time jogou com um jogador a mais por 70 minutos e Zé Eduardo perdeu o pênalti que poderia dar a vitória ao Santos, o técnico Marcelo Martelotte disse que não adianta treinar cobrança de pênaltis, porque no treino não há o componente emocional da partida. Engano dele…

Meu filho, com quem tive o prazer de almoçar neste domingo, resumiu em uma frase a importância de se treinar cobranças de pênalti. Não me recordo exatamente das palavras, mas Thiago disse que o treino dá mais confiança e a confiança aumenta a margem de acerto.

Ora, isso é óbvio. Se não adianta treinar cobranças de pênaltis, será que adiantaria treinar faltas, escanteios ou qualquer outra bola parada? Ora, ora, ora, os jogadores já treinam pouco pelo que ganham. Vamos tirar mais uma responsabilidade deles?

Ser o cobrador oficial de pênaltis de um time é uma honra e um privilégio. Fazer gol dá prestígio e status e não há maneira mais fácil, ou melhor, menos difícil, de subir no ranking dos artilheiros do que cobrando pênaltis. Sou do tempo em que ser cobrador oficial de pênaltis de um time era uma honra.

Pênalti é sensibilidade, sintonia fina

Pênalti não é só força e nem é só jeito. Exige um pouco de ambos. Como se está bem perto do gol, não é preciso encher o pé, nem fechar os olhos e chutar de bico. Uma bola colocada, mas forte, de peito de pé, geralmente resolve a questão.

Cada cobrador tem uma particularidade, uma preferência. Como cobrador que jamais perdeu um pênalti no campo do Diamante de Cidade Dutra, eu tinha a minha. Como joguei um pouco no gol, escolhi o ângulo que julgava mais difícil para um goleiro destro: o canto esquerdo rasteiro.

Achava extremamente difícil defender uma bola rasteira no meu canto esquerdo, e por isso era ali mesmo que eu cobrava. Jamais perdi um pênalti. Nem mesmo contra o grande Valdir de Moraes, quando joguei pelos jornalistas contra a comissão técnica da Seleção Brasileira de Telê Santana, na Toca da Raposa: caprichei tanto e a bola saiu rasteirinha e tão rente à trave, que Valdir nem se mexeu.

Como Pelé e Dalmo

Perceba, meu amigo e minha amiga, que Pelé e Dalmo, dois dos cobradores de pênaltis no grande Santos, optavam pela mesma cobrança rasteira, no canto esquerdo do goleiro.

Rememore o gol 1.000 de Pelé e o gol de Dalmo contra o Milan, na vitória sobre o Milan por 1 a 0 que deu ao Santos o bicampeonato mundial, e perceba que ambos foram cobrados rigorosamente iguais. Houve até a coincidência dos dois goleiros adivinharem o canto e triscarem na bola, mas mesmo assim ela entrou.

O chute não é tão forte, é seco, chapado, sem efeito. O pé pega quase no centro da bola, para evitar que ela suba. Não é preciso enfeitar muito, pois a vantagem é de quem cobra.

Já está provado que se o goleiro ficar parado, terá pouquíssimas chances de defender um pênalti. Por isso ele escolhe um canto. E por isso Pelé e Dalmo usavam a paradinha.

Mas contar que o goleiro sempre escolherá um canto e por isso apelar para a cavadinha, ou o chute no meio do gol, é muito arriscado. As notícias correm rápido. Um jogador que nunca usou, talvez possa usar a cavadinha contra um goleiro que sempre escolhe um canto, mas, tirando o fator surpresa, essa é uma decisão que pode ser catastrófica, como Neymar percebeu no primeiro jogo da final da Copa do Brasil, contra o Vitória.

Nunca vi Pelé chutar um pênalti no meio do gol. Ele já buscou tão o canto que chutou para fora, como contra a ferroviária, em 1967, ou o goleiro defendeu, como corintiano Heitor, em 1964, mas sempre tentou fazer a coisa certa.

Ajuda da ciência

Pênalti bem cobrado, entra, por mais que o goleiro seja bom. O gol mede 7,32m e tem 2,44m de altura. A física prova que mesmo um goleiro grande e elástico tem pouquíssima chance de defender caso a bola vá com alguma força e bem no canto.

Em um livro sobre fundamentos o autor recomenda ao destro bater no canto esquerdo do goleiro e, ao canhoto, bater no direito, invertendo o que seria o natural do chute. Mas isso não pode ser uma regra.

Zé Eduardo, destro, bateu no canto direito de Victor e não conseguiu marcar, mas Robinho escolheu o mesmo canto direito, de Doni, e fez 1 a 0 na grande final do brasileiro de 2002.

Um programa especial que vi em um canal por assinatura mostrou as pesquisas de um estudioso que provou ser o pênalti batido no canto, na altura da metade da trave, o mais difícil de ser defendido. Atacantes foram orientados a treinar esse tipo de cobrança e a margem de acerto foi de 100%.

Fiquei surpreso com essa descoberta. Sempre imaginei que o pênalti indefensável fosse aquele que entra no ângulo superior. Porém, é tão difícil pegar na bola da maneira correta para jogá-la sempre lá, que no meu caso, optei pelo chute rasteiro.

Depender de uma cobrança que a bola tem de sair alta é bastante temerário, pois é só pegar um pouco abaixo do ponto certo e ela encontre o travessão.

Até craques já perderam. Por isso é preciso treinar

Não se pode crucificar um jogador que perde pênalti. Todos os grandes craques que conheço já perderam. Pelé, Zico, Sócrates, Falcão, Platini, Roberto Baggio…

Mas a diferença do grande craque para o jogador que eventualmente cobra pênaltis, é que o craque sabe que o treino vai lhe dar mais sensibilidade para o chute, como se colocasse a bola “com a mão”.

O cestinha do basquete Oscar Schmidt treinava, no mínimo, mil arremessos por dia. Sua “mão santa” não foi uma dádiva dos céus, mas sim resultado de muita dedicação e persistência. Zico também treinava muito, principalmente cobrança de faltas, o mesmo ocorre com Rogério Ceni.

Aliás, sabem por que de repente surgiram tantos goleiros cobradores de faltas e pênaltis? Por que quando todo o resto do time já está no chuveiro, eles continuam treinando e, para motivar mais o trabalho, fazem disputas de cobranças com os jogadores de linha. Resultado: passam a bater na bola tão bem, ou melhor, do que os atacantes.

Recapitulando a lição…

Pênalti é sintonia fina. A melhor cobrança é uma mistura de força e jeito. O bom cobrador deve buscar, obrigatoriamente, os cantos.

Quanto mais se treina, mais se sente a bola e se adquire confiança de jogá-la onde se quer e com a força que se quer.

Se Pelé, o Rei do Futebol, treinava, por que um outro jogador pode se achar no direito de não faze-lo? É preciso treinar cobrança de pênaltis, sim, senhor Marcelo Martelotte. Isso não impedirá que outros ainda venham a ser perdidos, mas não com a constância com que isso vem acontecendo no Santos.

Veja o gol 1.000 de Pelé. Perceba onde a bola entrou: rasteirinha, no canto esquerdo do goleiro argentino Andrada, que ainda toca nela, mas não pode impedir o rumo da história.

Não precisa concordar comigo, claro. Mas diga se você acha que jogador profissional precisa treinar cobrança de pênaltis, ou eu é que sou muito exigente.


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