Blog do Odir Cunha

O ombudsman do Santos FC

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Athié Jorge Cury ensina Luis Álvaro a sair da crise


Athié como soldado de São Paulo na Revolução Constitucionalista de 1932

Ontem tomei uma decisão drástica. Fui a um centro espírita perto de casa e cismei que queria falar com Athié Jorge Cury. A moça quis saber se eu tinha hora marcada e eu, irreverente, perguntei se as almas tinham tanto compromisso assim. Um pouco contrariada ela falou com a médium e esta, diante de minha decisão de pagar à vista, no cartão, foi convencida de me trazer a palavra do grande presidente do Santos Futebol Clube.

Como vocês devem saber, Athié foi um notável goleiro, dirigente esportivo, comerciante da bolsa de café de Santos e político que chegou a deputado federal pelo PSP. Presidiu o Santos de 27 de fevereiro de 1945 a 28 de fevereiro de 1971, sucedendo Antônio Ezequiel Feliciano da Silva. Nascido em Itu, São Paulo, em 1º de agosto de 1904, faleceu em Santos em 1º de dezembro de 1992, aos 88 anos.

Com Athié na presidência o Santos reinou na Terra, pintou e bordou contra os grandes times da época, manteve Pelé e todos os seus luminosos craques, tornou-se o primeiro bicampeão mundial, fez da Seleção Brasileira a mais poderosa do mundo, deslumbrou plateias de todas as cores, chegou, enfim, a um ponto até hoje inatingível para as outras equipes.

A médium, uma senhorinha de não mais de 1,50m, clarinha, como se nunca tomasse sol, ajustou os óculos à minha frente, pegou na minha mão, pediu que eu lhe passasse informações sobre o falecido e, depois de muita concentração, dispôs-se a falar.

Antes, uma explicação: nesse tipo de consulta os espíritos se manifestam através do médium.

Fiquei com receio de estar perturbando a paz celestial do querido Athié e quando a médium determinou que eu iniciasse o diálogo, primeiro pedi desculpa por estar incomodando e, como a gente faz antes de falar ao celular, perguntei se ele tinha um minutinho… A mulher fez uma careta, fechou os olhos e respondeu com uma voz que eu jurei ser a mesma do saudoso dirigente:

– Desembucha, meu filho…

– Sabe, senhor presidente, não sei se o senhor tem acompanhado as notícias, mas o nosso Santos tem passado uma fase difícil e achei que o senhor poderia dar uns conselhos para o Luis Álvaro Ribeiro, o atual presidente do Alvinegro Praiano… Tentei falar com ele, mas me disseram que estava de férias…

– Claro que tenho acompanhado, meu filho. Não estou de corpo presente, mas de espírito sempre estarei ao lado do nosso amado Santos. Esse menino, que vocês chamam de Laor, poderia ser um político, pois solta umas frases boas, mas para dirigir o meu Santos tem de ter mais coragem e visão. Esse negócio de entrar de férias em um momento crítico positivamente não dá.

– Mas o conselho gestor ficou tomando conta…

– Sei… Isso não vai dar certo. Se às vezes uma pessoa sozinha demora para tomar uma decisão, imagine sete…

Antes que eu fizesse uma nova pergunta, a médium consultou o relógio e avisou, com uma voz cavernosa, que o “ser de luz” avisou que em breve teria de se juntar aos outros no reino celeste e não poderia permanecer muito tempo. Tratei de ser mais rápido…

– Parece que o senhor tem um compromisso…

– É, vamos bater a nossa bolinha das quartas-feiras. Velho hábito, sabe…

E antes que eu duvidasse que ele pudesse jogar futebol aos 88 anos, corrigiu-me, impaciente:

– Aqui temos a idade que queremos, jovem. Sou um garoto defendendo o gol do meu Santos, o melhor time dos céus. E também o de maior torcida. Aliás, temos mais de 98% das preferências entre os anjos e santos…

– 98%? Espantei-me. Mas e os daqueles outros dois times?

– Aqueles não estão entre nós. Estão em outro lugar, mais embaixo…

Compreendi, acabrunhado e feliz, e lasquei a pergunta principal:

– No seu tempo o Santos também passou por algumas crises, como em 1966, quando perdeu o Paulista, a Taça Brasil, e por isso o técnico Lula acabou sendo demitido. O que o senhor faria para superar a crise atual?

– Sessenta e seis foi um ano difícil… Vários jogadores estavam parando, por idade. O Pelé se machucou na Copa de 1966, servindo a Seleção Brasileira, e só jogou em metade dos jogos do Paulista, no qual terminamos em terceiro lugar, a cinco pontos do Palmeiras. Na Taça Brasil fomos surpreendidos na final por aquele esquadrão do Cruzeiro, que tinha os meninos Tostão, Piazza, Dirceu Lopes, Natal… Mas, mesmo com um time renovado, ganhamos o Rio-São Paulo.

– O senhor não explicou como superou a crise – insisti, educadamente.

– A mesma fórmula de sempre, meu jovem: jogadores formados no próprio clube e contratações dos melhores apenas para as posições carentes. Em 1966 revelamos Clodoaldo, Joel Camargo e Edu, todos convocados para a Copa do México, quatro anos depois. Para a zaga trouxemos o Ramos Delgado, para o gol o Cláudio e assim continuamos a ter o melhor time.

– O senhor acha que o Santos está contratando bem agora?

– A médium deu um sorrisinho e fiquei com a nítida impressão de que Athié sorria, ironicamente, através dela.

– Muita quantidade e pouca qualidade. Falta olho clínico, meu filho. Para quem teve Del Vecchio, Pagão, Coutinho e Toninho Guerreiro, colocar as esperanças em Bill… Mas se vai vestir a camisa do Glorioso Alvinegro Praiano, que Deus o proteja. Faremos a nossa parte daqui de cima…

Quando eu iniciava outra pergunta com “mas o senhor…”, a médium colocou o indicador na boca, pedindo silêncio. Após alguns segundos saiu do transe e avisou que a entidade tinha ido jogar bola com os amigos e mandara um “afetuoso abraço”.

Perguntei a ela se seria possível incorporar o espírito do Athié definitivamente em outro corpo. Digamos… o do Laor. Ela ficou séria e disse que não, que isso seria quebrar as regras da natureza. O espírito só poderia se pronunciar por períodos curtos e por meio de sessões como aquela. Se eu quisesse, poderia fazer um plano mensal, com desconto, desde que a entidade não se importasse de ser chamada tantas vezes. Pensei melhor e achei que não deveria ficar importunando o garoto Athié Jorge Cury, que naquele momento já deveria estar se esticando em pontes acrobáticas para evitar que a meta do Santos celestial fosse vazada.

Agora veja e ouça Athié dizendo que Pelé jamais seria vendido:

http://youtu.be/c4bVSD4XFvo

E você, se pudesse, o que perguntaria a Athié Jorge Cury?


QUESTÃO DE CULTURA: No Santos, técnico tem de colocar o time no ataque. No Corinthians, isso pode dar demissão.


Jogar pra frente só dá certo no Santos. Uma lição para Dorival Junior e Adilson Batista.

Cada time tem uma cultura. Enquanto os santistas não admitem que a equipe jogue recuada, com muitos volantes e poucos jogadores habilidosos; no Corinthians Adilson Batista continua sendo criticado por ter mudado o esquema defensivo de Mano Menezes e tornado a equipe mais ofensiva.

Integrantes da diretoria do alvinegro paulistano já culpam o ex-técnico pela provável perda do título brasileiro. Quando Adilson estreou no Corinthians, o time era líder do campeonato, com 24 pontos em 11 jogos. Nos 17 jogos seguintes, teve sete vitórias, quatro empates e seis derrotas, ficando as últimas cinco rodadas sem vencer e culminando a fase ruim com uma derrota para o Atlético Goianiense, em pleno Pacaembu, por 4 a 3.

No Santos aconteceu o inverso. Depois de um primeiro semestre em que manteve três atacantes e dois meias ofensivos, fazendo o time golear meio mundo e relembrar os tempos de Pelé & Cia, Dorival Junior ficou preocupado com as saídas de Robinho, André e Wesley, além da contusão de Paulo Henrique Ganso, e resolveu proteger mais o meio-campo. Foi o suficiente para cair em desgraça com a torcida.

A questão é que o Santos foge ao lugar-comum tático de que times com jogadores melhores devem atacar, e com jogadores medíocres devem se defender. Não importa a qualidade técnica de seus representantes em campo, o santista só aceita que seu time jogue no ataque.

“Quem joga na defesa é time pequeno” é uma das máximas que se ouve na Vila Belmiro, território que não tolera o defensivismo de alguns técnicos. Não é à toa que o Alvinegro Praiano é o time que fez mais gols na história do futebol. Tudo no clube leva ao ataque.

Qual o único zagueiro de Copa do Mundo revelado no Santos? Joel Camargo. Fácil. Agora, um doce para quem enumerar todos os meias e atacantes excepcionais que nasceram na Vila. Adolfo Millon, Arnaldo Silveira, Haroldo, Araken Patusca, Antoninho, Del Vecchio, Pepe, Pelé, Coutinho, Juary, João Paulo, Pita, Edu, Robinho, Diego, Neymar, Paulo Henrique Ganso… E por aí vai… (certamente esqueci muitos).

Nunca me esquecerei da frase do técnico Francisco Formiga, quando lhe perguntei se o santos jogaria recuado contra o Flamengo, no Maracanã, para assegurar o título brasileiro de 1983: “Esse time não sabe jogar na defesa”, foi sua resposta. E o que poderia parecer uma deficiência, soou, para mim, como um grande elogio.

Enquanto outros torcedores se orgulham de serem “sofredores”, ou de terem uma “defesa que ninguém passa”, o santista pede: “Vai para cima deles, Santos!”. E já tem um coro pronto para quando a festa está completa: “Caiu na rede é peixe, eh, eh, ah, o Santos vai golear!”.

Talvez haja um quê de temerário nessa postura, mas foi assim, com coragem para confiar no seu talento de fazer gols, que o Santos construiu um caminho onde não havia nada. E assim ele seguirá, deixando que os outros se preocupem com a defesa.

Reveja agora a grande goleada do Santos este ano:

Você acha que atacar sempre é a melhor defesa, ou às vezes o Santos exagera e acaba se dando mal?


Ganso e Neymar estreiam na Seleção, como já aconteceu com os Meninos da Vila Millon e Arnaldo, Pelé e Del Vechio, Juary e Nilton Batata, Robinho e Diego…

Guardem bem esta data: 10 de agosto de 2010, dia que pode entrar para a história do futebol, pois hoje os Meninos da Vila Neymar e Paulo Henrique Ganso estreiam na Seleção Brasileira. Como tudo que acontece no Santos, o fato de dois garotos começarem juntos sua carreira na Seleção não é novidade. A história começou logo no primeiro jogo oficial do Escrete, no longínquo 27 de setembro de 1914, em Buenos Aires.

No campo do Club Gimnasia Y Esgrima e diante de um público de 17.200 pessoas – excelente para a época – a Seleção Brasileira jogou a primeira partida oficial de sua história contra a Argentina, em disputa da Copa Roca. Entre os titulares do Brasil lá estavam dois jovens, de 20 e 22 anos, que dois anos antes tinham participado da fundação do Santos: o ponta-direita Adolfo Millon Junior e o ponta-esquerda Arnaldo Silveira.

O Brasil venceu por 1 a 0, gol de Rubens Salles, do Paulistano, aos 13 minutos do primeiro tempo, mas lembro esta partida apenas para perguntar: Não é assombroso que a primeira geração dos Menino das Vila já tenha sido representada logo no primeiro jogo oficial da Seleção Brasileira?

Pelé, bem acompanhado

No dia 7 de julho de 1957, ao estrear na Seleção Brasileira, com apenas 16 anos, Pelé olhou para o lado e lá estava o santista Del Vecchio, outro Menino da Vila, 22 anos. Mais à esquerda, mais um santista, Tite. Atrás, Zito, que depois foi substituído por Urubatão, também do Santos. Era o Maracanã, mas parecia um jogo na Vila Belmiro. À vontade, o estreante marcou o gol de empate, aproveitando um rebote do goleiro.

Daquele período até 1970 o Santos e a Seleção Brasileira se confundiram e muitos Meninos da Vila honraram também a amarelinha, como Pepe, Coutinho, Pagão, Joel Camargo, Clodoaldo, Edu…

Em 1978/79, quando surgiu a geração que consagrou a denominação “Meninos da Vila”, todos eles também chegaram à Seleção Brasileira na mesma época: no segundo semestre de 1979 o técnico Cláudio Coutinho chamou os meninos Juary, João Paulo, Nilton Batata e Pita.

O mesmo aconteceu com Robinho e Diego, estrelas do time campeão brasileiro de 2002, que embora tivessem apenas 21 e 20 anos, respectivamente, passaram a ser convocados regularmente para a Seleção a partir de 2004.

Agora é a vez de Neymar e Paulo Henrique Ganso, que representam não só o orgulho dos santistas, mas a esperança do futebol brasileiro de reencontrar suas origens de futebol bonito e ofensivo. Que os deuses do futebol os protejam hoje à noite e que possam jogar tão alegres e irreverentes como se estivessem na Vila mais famoso do mundo.

O que você espera da atuação de Neymar e Ganso no jogo de hoje? Acha que sentirão o peso da camisa da Seleção, ou jogarão tranqüilos e darão show?


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