Blog do Odir Cunha

O ombudsman do Santos FC

Tag: Dinheiro

Pra que dinheiro?

O confronto com o Corinthians é o que mais mexe com o santista. Se o clube já tivesse montado uma óbvia equipe para organizar os seus jogos e se escolhesse fazer o confronto, pela Copa do Brasil, em um grande estádio de São Paulo, a lotação seria completa e os problemas financeiros, ao menos os emergenciais, estariam resolvidos. Mas o duelo, na próxima quarta-feira, será na Vila Belmiro, para a alegria dos jogadores, da comissão técnica e da direção do clube, inexplicavelmente alheios à questão monetária que preocupa até o mais desligado dos torcedores do Santos.

Na verdade, como constatamos recentemente, os mesmos jogadores que fazem lobby para jogar na Vila serão os primeiros a entrar na justiça trabalhista caso seus rendimentos não sejam pagos em dia. Por isso, eu já disse no Conselho Deliberativo e repito: a responsabilidade por escolher os locais dos jogos é da diretoria, e não dos jogadores, pois essa decisão está diretamente relacionada ao equilíbrio financeiro do clube. Jogadores passam, o clube fica.

Se preciso, o Santos precisa mergulhar todo mundo em um tratamento psicológico para acabar com esse complexo de inferioridade de achar que só pode vencer grandes adversários se jogar no velho alçapão. Se as dimensões do campo são as mesmas e a torcida não entra em campo, o que pode explicar esse temor santista de jogar em estádios maiores, o que daria mais oxigênio às finanças do clube?

O correto seria fazer um esforço para marcar o grande duelo alvinegro para a próxima terça-feira, dia em que não haverá outro jogo na Capital. Estou certo de que o rival aceitaria. O Pacaembu seria a primeira opção, mas eu não descartaria jogar no belo e imenso estádio palmeirense. A novidade de atuar pela primeira vez, com seu mando de campo, em um estádio de primeiro mundo, confortável e espaçoso, seria mais um atrativo para o torcedor, em um confronto de muito público e muito dinheiro para os combalidos cofres do Alvinegro Praiano.

É evidente, porém, que haveria muita chiadeira na Baixada Santista se o Santos resolvesse mandar o seu jogo na Capital e perdesse a partida. A confraria que acompanha o presidente Modesto Roma trataria de alardear aos quatro ventos, como fez após a na final do Campeonato Paulista de 2013, que se o jogo fosse na Vila o time não teria perdido. Essa crendice bairrista é um tabu do qual o Santos precisará se libertar caso queira voltar a ser tão grande como já foi.

O Estádio das Laranjeiras, construído para o Campeonato Sul-americano de 1919, já foi o maior e mais importante do Brasil. Nele havia, e ainda há, uma tribuna especialmente preparada para receber o presidente da República. Chegou a receber 22 mil pessoas em 1922, mas hoje, com capacidade de oito mil pessoas, é usado apenas para os treinos do Fluminense. Imagine, caro leitor e amiga leitora, se os tricolores vivessem apegados à ideia de que só poderiam vencer os seus clássicos no velho estádio, de que as despesas seriam menores se jogassem em casa…

Imagine, ainda, se o Corinthians ainda resolvesse mandar seus jogos no Alfredo Shurig, o velho Parque São Jorge onde o Santos conquistou o seu primeiro título paulista, em 1935, oito anos depois da construção do estádio. Afinal de contas, a “Fazendinha” comporta 18.500 pessoas, mais até do que a Vila Belmiro. Mudar para Itaquera, que se saiba, não causou nenhuma revolução entre os corintianos mais tradicionais. E o Itaquerão fica a 14 quilômetros do Parque São Jorge e a 25,8 quilômetros do Pacaembu. No Rio, o ônibus do Botafogo pega 20 quilômetros de trânsito pesado, o que equivale à média de 40 minutos de viagem, para ir da sede do clube ao estádio do Engenhão.

É claro que o ideal seria a Vila Belmiro ser um estádio grande e moderno, com um público médio de 30 mil pessoas. Há cidades com menos habitantes do que Santos em que isso é possível. Porto, por exemplo, é uma delas. Com menos de 400 mil habitantes, a bela e organizada cidade portuguesa mantém um dos grandes times da Europa, que conta com uma torcida apaixonada e fiel que costuma lotar o belíssimo Estádio do Dragão. Infelizmente, porém, entre o sonho e a realidade há uma grande diferença.

E a realidade é que é um drama para lotar até mesmo os 16 mil lugares da Vila Belmiro, e isso ainda depende do comparecimento maciço de santistas de outras cidades. A realidade, ainda, é que o decantado Pré-sal furou. As esperanças de riqueza com a perfuração de petróleo na Bacia de Santos foram definitivamente sepultadas. A Petrobras está à deriva, Eike Batista faliu, o preço dos imóveis de Santos está caindo. O maior mercado consumidor, com mais de um milhão de torcedores santistas, é a Grande São Paulo. Não é preciso ser um gênio do marketing para perceber que o produto tem de ir aonde o seu público está.

Que não tenhamos de aprender da forma mais dura

Nesta quarta-feira vimos o River Plate se tornar campeão da Copa Libertadores pela terceira vez, apenas quatro anos depois de ser rebaixado para a segunda divisão do Campeonato Argentino. Não consegui assistir ao jogo até o final. Muito ruim. Perdi a conta das matadas de canela, dos chutões e encontrões. Creio ter sido uma das piores finais de Libertadores de todos os tempos. De qualquer forma, marca a ressurreição de um clube que parecia caminhar para a falência. Espero que o Santos não tenha de ir ao fundo do poço para aprender o que é essencial no futebol.

Por sua sorte, o centenário River tem um estádio como o Monumental de Núñez, em Buenos Aires, com capacidade para 61 mil pessoas, um símbolo do futebol argentino – onde o nosso Santos ganhou o seu primeiro título da Libertadores, em 1962, ao bater o uruguaio Peñarol por 3 a 0. O River não vive essa dicotomia santista, com seus adeptos divididos entre duas cidades. Ele não precisa jogar fora de Buenos Aires para atrair multidões e grande visibilidade aos seus jogos. Mas o Santos precisa.

E enquanto o Santos não for dirigido por pessoas que admitam isso e enfrentem essa questão de frente, seguirá patinando, empurrando o problema com a barriga e torcendo para que o imponderável do futebol resolva questões que deveriam ser solucionadas com planejamento e trabalho. Enquanto depender da opinião dos jogadores para saber onde deve jogar, seu futuro no futebol profissional será incerto.

E pra você, o Santos fez bem de jogar na Vila?

O poder da história

Mesmo depois de duas boas oportunidades que o Tigres teve contra o River Plate, comentei com a Suzana que o River seria o campeão. Mesmo com um time limitado, o representante argentino seria o campeão por sua história, pelo peso de sua camisa, pela necessidade maior que tinha de ser campeão. Desculpem-me os torcedores do Tigres, mas não é possível imaginar um grande argentino perder uma Libertadores em casa diante de uma equipe mexicana. Há momentos em que a história entra em campo.

Escrevo isso porque acredito piamente nessas palavras. Acredito que hoje, apesar de todos os seus problemas, o Santos é grande porque se sente grande e sabe que já fez muitas coisas grandes. Mesmo inferiorizado em todos os quesitos extra-campo, sabemos que ele não enfrentará o Corinthians apenas por enfrentar. Sabemos que ele entrará em campo para tentar vencer mais uma vez o seu tradicional adversário.

Para se entender essa força que a história empresta ao nosso Santos, não há outra maneira a não ser conhecer a trajetória do clube desde o longínquo 14 de abril de 1912. Por isso, atendendo aos pedidos de muitos santistas que não puderam adquirir o livro Time dos Sonhos, já esgotado, e cedendo ao interesse da Kickante, empresa especializada em crowdfunding, lancei a campanha pela reimpressão da obra que ficou conhecida como “A Bíblia do Santista”. Tenho trabalhado na recomposição do texto desde então.

Falta apenas uma semana para se encerrar o prazo dado pela Kickante. A meta estipulada não será alcançada, mas garanto que o livro será impresso mesmo assim e todas as recompensas serão dadas. Mais do que qualquer retorno financeiro, o que importa é divulgar a rica história santista, e divulgá-la da maneira como realmente ocorreu, e não como a imprensa esportiva contou.

Mesmo amigos jornalistas que julgavam já saber tudo sobre a história do Santos, ficaram impressionados com muitas das informações que leram em Time dos Sonhos. Por isso, sinto-me confortável para sugerir que, se você ainda não leu e não tem o livro, entre nessa campanha de pré-venda e garanta o seu exemplar e o seu nome no último capítulo da obra. Garanto que não se arrependerá.

História – isso ninguém vai tirar do Santos

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Deu tudo errado…

O horário era péssimo.Os santistas de São Paulo bem que gostariam de ver os Meninos Campeões ontem, contra o Avaí, mas marcar um jogo de meio de semana para começar quase às 22 horas e terminar às vésperas do fechamento do metrô é pedir para o torcedor – que precisa acordar cedo – ficar em casa. Por isso, uma partida que atrairia normalmente 15, 20 mil pessoas, contou só com sete mil.

O adversário era chato. O Avaí não é das equipes mais tradicionais, mas tem jogado melhor do que Palmeiras, Grêmio, Atlético/MG e muito time de nome. Em uma competição eliminatória, era um dos piores brasileiros a ter pela frente.

O técnico do Avaí é bom, conhece a profissão, sabe tirar o máximo de equipes e elencos medianos. Sim, o veterano Antonio Lopes saber armar um time. Não sei porque não é tão valorizado, pois é melhor do que muito treineiro que se acha…

Por mais que todos quisessem prevenir, o Santos vinha de uma ressaca. Passou alguns dias comemorando o título da Copa do Brasil, passou outros comemorando a convocação e a boa exibição dos Meninos da Vila na Seleção Brasileira. A motivação para estrear na Copa Sul-americana, convenhamos, era pouco maior do que zero.

Um jogo do avesso

O Santos começou sem Paulo Henrique Ganso e Neymar, no banco, mas mesmo assim atacou mais do que o Avaí e teve três boas chances para marcar. Só que o Santos não fez e o Avaí, que teve uma só oportunidade, inaugurou o marcador depois de um bate-rebate na área santista.

No segundo tempo, Dorival Junior tirou Léo, cansado – até aí tudo bem – mas tirou também o onipresente Madson, deixando o inoperante Marcel em campo. Marcel é aquele centroavante que já jogou em alguns times grandes, mas em todos mal. Ele destoa. Não completa uma tabela. É o tipo de jogador que quando é expulso, o jogo do time flui melhor.

O Santos começou a segunda etapa em cima do Avaí. Tão em cima que se esqueceu da defesa e tomou o segundo gol logo aos dois minutos, depois que o goleiro Rafael tinha saído de campo com suspeita de fratura de crânio.

Mas Neymar fez grande jogada e Zé Eduardo diminuiu para 1 a 2. O empate parecia iminente e o Avaí abusava da cera sem que o árbitro, o fraquíssimo Ricardo Marques, fizesse alguma coisa para impedir.

O Santos sempre foi vítima de juízes com o estilão desse Ricardo Marques; histriônicos, cheio de gestos e chiliques. Armando Marques, Arnaldo César Coelho, Márcio Rezende de Freitas, todos eles já prejudicaram muito o Santos.

O de ontem simplesmente decidiu que não daria cartões amarelos para os jogadores do Avaí nem por cera, nem por faltas repetidas. Zé Eduardo deve ter recebido umas 15 faltas, quase todas por trás. Mas o tal de Ricardo Marques só começou a dar cartões amarelos para os jogadores do Avaí depois que a vitória do visitante já estava assegurada, pois ganhava de 3 a 1, faltavam cerca de 10 minutos para o fim do jogo e o Santos atuava com um a menos, pois Neymar, machucado, saíra carregado para não mais voltar.

O Avaí jogou muito bem, mas mesmo assim poderia ter perdido. O Santos teve algumas falhas, mas mesmo assim poderia ter vencido. É claro, porém, que os comentaristas de resultado sempre dirão que O Santos mereceu perder e o Avaí mereceu ganhar.

Enfim, uma derrota por 3 a 1 que praticamente elimina o Santos na Copa Sul-americana logo na estréia, dois jogadores importantes machucados seriamente, um público pequeno cuja renda mal dá para pagar um mês de salário do Neymar e a sombria perspectiva de que até o final da maldita janela de transferências alguns craques santistas baterão asas. Enfim, uma noite para esquecer e uma lição: na próxima partida, que os jogadores do Santos joguem com um galho de arruda na orelha para tirar o mau olhado. A secação está demais…

Pra quê dinheiro?

A entrevista de Dorival Junior depois do jogo mostrava o seu quase desespero diante da perspectiva de perder seus principais jogadores. Wesley irá para o Benfica? O Chelsea chegará no valor da multa para levar Neymar?

Bem, clube de futebol não é banco. Não precisa de dinheiro, mas de craques, que geram vitórias, que trazem títulos… Se o clube já tem o craque, vendê-lo só dá prejuízo.

Por mais dinheiro que o Santos consiga por Wesley, Neymar ou mesmo Ganso, o que poderá fazer com a fortuna? Saldar suas dívidas? Sim, é bom, mas no Brasil há clubes que devem dez vezes mais do que o Santos, não pagam e continuam sobrevivendo sem serem incomodados.

O que mais se pode fazer com muito dinheiro? Contratar grandes craques? Sim, mas quanto custa alguém do nível de Neymar e Ganso? Certamente três, quatro vezes mais do que o Santos receberá por eles.

Então, por incrível que pareça, um time que vende seus craques se empobrece, não ganha nada relevante em troca, a não ser dinheiro insuficiente para fazer uma reposição à altura. Só pode ser bom para o time que abre mão de ser grande, de lutar para conquistar todos os títulos que disputa.

Uma pena que a Lei Pelé tenha dado tanto poder aos jogadores e seus agentes e deixado os clubes à mercê de um esquema em que o dinheiro é a maior, talvez a única valia.

Mesmo que queira, mesmo que lute com todos os argumentos de seu coração apaixonado de santista, talvez o presidente Luis Álvaro não consiga segurar nenhum dos Meninos que encantaram o Brasil no primeiro semestre deste ano. Contra a vontade sincera do presidente há o desejo do jogador, do pai e do agente deste jogador, do clube estrangeiro, do paternalismo da lei, da situação falimentar do futebol brasileiro e, acima de tudo, da força de uma moeda que põe o real na roda.

Se vender suas galinhas dos ovos de ouro, o Santos ficará sem dívidas e ainda com um monte de dinheiro na mão. Mas perderá o encanto e o fascínio que nunca deveriam e poderiam ser quantificados. E terá de garimpar, tudo de novo, uma outra geração dourada…

E se dinheiro, a gente aprende no futebol, não é tão importante assim para um clube brasileiro, então eu sugiro que o Santos dê um fim digno a uma porção ínfima desse capital que vai entrar: contrate seus veteranos nobres para atuar como cicerones no clube. É o mínimo que se pode fazer para atletas como Dorval, Mengálvio, Coutinho, Pepe, Joel Camargo, além de outros campeões mundiais. Um clube também é reconhecido pela maneira como trata seus ídolos.

E você, o que achou da derrota para o Avaí e da possibilidade de o Santos perder Wesley, Neymar…


O futebol brasileiro não precisa mais ser deficitário

A Vila nos tempos em que o Santos vivia só da bilheteria

Poucas marcas são tão conhecidas no Brasil como a do Flamengo. No entanto, nenhum outro clube deve tanto neste país. Há coisa de seis meses, Leonardo, hoje dirigente do Milan, disse que a dívida do rubro-negro era “impagável”. Uma fonte confidenciou-me que chegava a R$ 1 bilhão. Mesmo com os juros bancários mais baixos que se encontrar, é fácil perceber que a estrutura atual do futebol nacional não permite que se quite esse enorme passivo.

Outra agremiação de grande contingente de torcedores é o Corinthians. No entanto, só agora, com uma gestão mais moderna, o Alvinegro da Capital está conseguindo acalmar os credores. E quanto ao Santos? Bem, as últimas análises dão conta de que a dívida está em R$ 177 milhões, dos quais cerca de R$ 100 milhões são de impostos antigos.

“Santos” e “dívida” são duas palavras que há anos se relacionam – com alguma turbulência no começo, mas agora sob o acomodado clima de tolerância mútua. Parece uma praga, um gripe que volta todo ano, um mal que quase chega a ser necessário. Clube de futebol no Brasil e “problemas de fluxo de caixa” não se desgrudam. Mas será que tem de ser assim?

Confesso que quando Pelé parou e o clube não era mais capaz de pagar altos salários e manter um elenco forte, temi pelo pior. Estava começando a carreira jornalística e nas idas à Vila Belmiro, em meados dos anos 70, a visão era desoladora. O campo esburacado e o estádio caindo aos pedaços me faziam ter inveja, por exemplo, do Brinco de Ouro da Princesa, do orgulhoso Guarani, que em 1978 tornou-se campeão brasileiro.

Como a Ponte Preta foi vice-campeã paulista em 1977 e 79, o título brasileiro do Guarani marcou uma época em que muitos diziam que o futebol de Campinas ultrapassaria o de Santos, onde o Jabaquara já estava nas últimas, a Portuguesa Santista se contentava em não ser rebaixada e o Alvinegro Praiano claudicava a cada competição.

A revista Placar chegou a publicar que o Santos teria de se acostumar a ser pequeno e que Guarani e Ponte eram os novos grandes de São Paulo. O presidente do Juventus, José Ferreira Pinto, foi a um programa de tevê para mostrar o plano que tornaria o seu clube o novo grande da Capital. Pelos cálculos do dirigente, a torcida santista debandaria toda para o time da Moóca com a ausência de Pelé.

Em uma de minhas primeiras entrevistas, perguntei a Zito, então dirigente do clube, como sanar as dívidas do Santos. Ele, naquele jeitão tranqüilo, respondeu apenas que sempre ouviu falar de dívidas no Santos, mas isso nunca impediu o time de ganhar títulos e revelar grandes jogadores.    

De fato. Como do nada, surgiram os Meninos da Vila que, com algumas modificações, deram alegrias e esperanças aos santistas de 1978 a 84. Percebi, ali, ao ver Pita, João Paulo, Juary, Nilton Batata e Ailton Lira, entre outros, que grandes times não se formam só com dinheiro, mas com paixão, com carisma, com a força da camisa, coisas que o Santos tem de sobra. 

Antes, até o sucesso gerava o fracasso

Parece brincadeira o que vou dizer agora, mas durante muitos anos a verdade é que a estrutura do futebol brasileiro fazia com que o sucesso trouxesse o fracasso… Explico:

Imagine um time grande qualquer, com um elenco razoável, um técnico compatível com a equipe, torcida numerosa e quer ainda assim conseguia manter suas finanças em dia. Ótimo. Se fosse uma equipe que só almejasse não ser rebaixada, talvez pudesse viver dessa maneira anos e anos sem maiores problemas. Mas time grande quer ser campeão. Eternamente. E aí começava o problema.

Se o título demorasse a vir, certamente a despesa com o elenco seria maior a cada temporada – atendendo aos apelos cada vez mais desesperados da torcida – o ponto de equilíbrio financeiro seria atropelado, os presidentes e seus planos mirabolantes se sucederiam e em menos de uma década a orgulhosa agremiação, além de continuar na fila, estaria falida. 

Se um ótimo time fosse formado e os títulos viessem, obviamente tudo ficaria melhor no começo, mas seria apenas uma questão de tempo para que os problemas ressurgissem. Vejamos:

Jogadores campeões querem aumento, sem contar que alguns se tornam ídolos e mui justamente exigem receber como tais. A folha de pagamentos é a maior despesa de um clube de futebol e logo o seu inchaço jogava o balanço no vermelho. Ainda não havia patrocínio de camisa ou a verba milionária da tevê. A única saída era negociar os melhores jogadores, às vezes a preço de banana, pois até pagar os seus salários se tornava impossível.

Assim, em um período máximo de cinco anos, um clube que tivesse encantado o Brasil voltava novamente à estaca zero, à espera do imponderável surgimento de novos craques, que ganhariam títulos, seriam ídolos e depois iriam embora. Naquela realidade, não havia como impedir isso. 

Fontes de renda x despesas

Segundo José Carlos Peres, ex-superintendente do Santos em São Paulo, hoje executivo do G4 Paulista, um clube como o Santos, sem parque esportivo e social, voltado exclusivamente para o futebol, pode ser mantido com uma verba de R$ 3 milhões mensais. “Com este valor você mantém um time top”, diz ele.

Bem, isso dá R$ 36 milhões por ano. Como os orçamentos nunca batem,  arredondemos para R$ 40 milhões anuais de despesas. Muito bem, agora vamos às receitas estimadas do Santos em 2010:

TV – R$ 7,6 milhões pelo Campeonato Paulista e R$ 20 milhões pelo Campeonato Brasileiro. Com Copa do Brasil e Copa Sul Americana, fechamos conta em R$ 29 milhões.

Camisa – Com os calções deve-se chegar a R$ 15 milhões.  

Bilheteria – Líquido de R$ 10 milhões por ano (revezando Pacaembu e Vila Belmiro).

G4 Paulista – Já entrou R$ 3 milhões e há a possibilidade de se entrar mais R$ 10 milhões para cada um dos quatro grandes de São Paulo.

Marketing (Licenciamento) – Por enquanto tem dado cerca de R$ 900 mil.

Veja, leitor e leitora, que mesmo sem conseguir a meta estabelecida para a camisa e ainda sem o contrato assinado pelo G4, que pode dar mais R$ 10 milhões ao clube ainda este ano, o Santos deve arrecadar R$ 57,9 milhões em 2010, R$ 17,9 milhões a mais do que seria o suficiente para se manter um time de ponta no Brasil.

Claro que boa parte dos direitos de tevê já devem ter sido antecipada e que os juros das dívidas comem uma fatia generosa da receita, de forma que este cálculo deve ser visto apenas como um exemplo de que é possível, sim, um clube com a estrutura enxuta do Santos conservar-se competitivo e extremamente saudável financeiramente.

Como os valores da TV, do patrocínio de camisa, das arrecadações e do marketing só tendem a crescer, é impossível não ficar otimista com o futuro do Santos, apesar desta dívida anunciada de R$ 177 milhões.

E note que, de propósito, eu nem citei o que para os grandes clubes do Brasil já é o principal item de receita, que é a venda de seus melhores jogadores para o exterior. Porque o ideal seria faturar o suficiente para manter os seus astros, o que aceleraria não só o crescimento do Santos, mas do mercado brasileiro de futebol.

Tanto no passional, como no profissional…

Minhas duas últimas entrevistas para a seção Cara a Cara da revista FourFourTwo – João Paulo Rosenberg, diretor de marketing do Corinthians, e J Hawilla, diretor-presidente da Traffic, parceira do Palmeiras – trazem, basicamente, a mesma mensagem: para crescer e marcar presença no mundo competitivo do futebol moderno, os clubes não podem mais contar com amadores em cargos importantes.

A mesma paixão que é importante em campo, pois costuma levar a equipe a vitórias empolgantes, pode ser extremamente prejudicial fora dele, quando a vaidade pueril de alguns diretores pode afastar pessoas essenciais para o crescimento do clube. Quantos técnicos e jogadores de prestígio e alto salário já não foram marginalizados ou demitidos após uma discussão à toa com um dirigente não remunerado, que ambiciona o cargo apenas para exibi-lo como um troféu?

Felizmente, os grandes clubes de São Paulo parecem estar, a cada dia, mais alertas para esta armadilha que é deixar uma fortuna nas mãos de pessoas que mal sabem cuidar das finanças pessoais. A profissionalização chega decididamente aos clubes e aquele que não a adotar, que preferir continuar montando suas equipes de trabalho pela amizade e camaradagem, ficará para trás.

E você, leitor e leitora, acha que há remédio para a terna penúria dos clubes brasileiros? Tem alguma idéia que pode aumentar o faturamento de seu time? Vá aos comentários e mande ver.


Jogadores do Santos pressionam, mas “bicho” é coisa que tem de acabar no futebol

O sempre bem-informado Ademir Quintino informa que houve uma saia justa no Santos, entre a diretoria e jogadores, devido ao valor do prêmio, ou “bicho”, oferecido a cada atleta pela vitória contra o Corinthians: R$ 1 mil.

Ademir informa que chegou a haver uma reunião no CT e os ânimos estavam exaltados, pois o humilde Santo André ofereceu R$ 1,5 mil pela vitória sobre a Portuguesa. Outro agravante é que no ano passado os santistas já recebiam R$ 1,5 mil por vitória em clássicos. Ou seja, a nova diretoria cortou 33% do prêmio.

A notícia diz que Roberto Brum e Paulo Henrique Ganso eram os mais exaltados. Diante da revolta geral, os diretores prometeram rever a decisão. Sobre isso tenho muito a dizer, mas tentarei ser sucinto.

Em primeiro lugar, o “bicho” já deveria ter sido extinto do futebol, ao menos nos grandes clubes. Se os jogadores das principais agremiações do País já têm altos salários e toda a infraestrutura e assistência para exercer a profissão, por que ainda precisam de estímulos para vencer?

Se não tiverem esse estímulo, o que farão? Corpo mole, entregarão o jogo, jogarão para perder? Ora, só mesmo maus caráteres incorrigíveis fariam tal coisa. Se no elenco do Santos há alguém assim, que seja escorraçado já.

A competência é uma obrigação do profissional. Aquele que não a tiver, por que deveria continuar jogando no Santos? Que vá ao Santo André, ou a outro time com a milionésima parte da visibilidade que um jogador tem na Vila Belmiro.

Nos casos de Roberto Brum e Paulo Henrique Ganso, esta exigência é ainda mais esdrúxula. Um é pastor, um homem de Deus, que deveria estar mais preocupado com a alma do que com o bolso; e o outro acabou de renovar por uma fortuna. Que jovem brasileiro ganha mais de R$ 150 mil por mês? Paulo Henrique está extrapolando. Alguém precisa dar uns conselhos a este garoto.

Nos tempos dos outros Meninos, o bicho era tudo

Houve época em que o “bicho” era o que garantia o pão de cada dia do jogador. Nos tempos dos Meninos da Vila Pita, Juary, João Paulo, Nilton Batata & Cia, o Santos não tinha como pagar salários elevados, mas jogava quase todos os clássicos em São Paulo e dividia o Morumbi com a torcida corintiana.  Então, o presidente do clube, Rubens Quintas Ovalle, decidiu que os jogadores receberiam parte da renda.

Era só ver o Cícero Pompeu de Toledo lotado e ter a certeza de que o Santos jogaria com o coração, pois a vitória encheria os bolsos dos garotos. Hoje, porém, a situação é diferente e muito mais confortável para quem veste a sagrada camisa do Alvinegro Praiano.

Se tiver cabeça e guardar cerca de 10% do que ganha, qualquer jogador que atue em um time grande, mesmo o mais discreto, em dez anos terá uma poupança capaz de lhe garantir aposentadoria maior do que 99,999% dos cidadãos brasileiros.

Então, considero essa pressão pelo aumento dos bichos uma indecência, uma vergonha, mesquinhez de atletas que deveriam pensar grande e não se preocupar com valores que para eles são insignificantes.

Por outro lado, não entendo como a diretoria deixou a situação chegar a este ponto. Provavelmente por falta de um diálogo mais efetivo antes. Aliás, como a maioria dos santistas, aprovo as decisões e a filosofia de trabalho de Luis Álvaro de Oliveira e sua equipe, mas acho que só estão pecando em não ouvir mais as pessoas.

Torcedores e jogadores são essenciais na vida de um clube e devem ser consultados. Sempre. Decisões que vêm de cima, frias e pragmáticas, nunca são bem recebidas. Domingo tivemos um público decepcionante na Vila Belmiro justamente por este comportamento autoritário e um tanto soberbo dos jovens diretores do Santos. E agora, pelo que se entende, uma situação ruim foi gerada por uma diferença de 500 reais por jogador.

Bem, o certo é que é urgente que jogadores e diretores se entendam.  A fase maravilhosa que o Santos está vivendo no campo não pode ser atrapalhada por lambanças fora dele.  

E você, acha que os jogadores têm o direito de receber bonificações por resultados, ou a diretoria do Santos é que está certa em reduzir o “bicho” por vitórias nos clássicos?


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