Torcidas podem crescer ou diminuir e é aí que está a graça

Esse negócio de reserva de mercado é coisa dos tempos da ditadura militar, em que era proibido trazer um computador de fora, melhor e mais barato, pois era necessário “proteger” a indústria nacional. O que se conseguiu com isso foi disseminar a preguiça e a incompetência entre uma boa parcela dos empreendedoras brasileiros, pois não era necessário ser melhor, mais inventivo e trabalhar mais para ser recompensado. Essa divisão de cotas entre os times de maior torcida é como um decreto que proíbe as outras de crescerem e tornam o futebol um jogo de cartas marcadas.
Torcidas sempre cresceram ou diminuíram ao sabor dos acontecimentos e é aí que está uma das graças do futebol. Ao contrário do que dizem por aí, todas as torcidas tiveram períodos de subida e queda. Nos anos 70 faziam um tal de “Torneio do Povo” e os clubes convidados de Minas Gerais e Rio Grande do Sul eram, respectivamente, Atlético Mineiro e Internacional. Hoje, pelas pesquisas, os de maior torcida nesses Estados são Cruzeiro e Grêmio. Mas ter mais ou menos torcida nunca foi tão relevante, até que a Globo passou a dividir sua cota baseada nessas ralas e porcas pesquisas de torcidas que se faz no Brasil.

Em março de 1977, segundo a revista Placar, o Santos tinha a segunda torcida de São Paulo

Devemos repetir até a exaustão que sem adotar a meritocracia na divisão das cotas de tevê, sem levar em conta a classificação de cada time no Campeonato Brasileiro, a televisão estará incentivando a incompetência e abreviando a falência do nosso futebol.

O ideal é dividir pelo menos metade da verba em partes iguais a todos os participantes do Brasileiro, mais uma parte (sugiro um quarto) de acordo com a classificação de cada time, e só a parte restante segundo audiência. Não desprezo o quesito audiência, mas é evidente que ela não pode ser o critério único para a distribuição da verba aos clubes.

Certamente os torcedores dos dois clubes privilegiados e os assessores de imprensa destes clubes, espalhados pelas mais diversas redações do País, vão dizer que o regime é capitalista, que a Globo comprou os direitos e agora quer ter lucro e que passa o jogo que ela quiser e pronto.

Está bem. Diante dessa magnífica possibilidade de diálogo, suponhamos, só por um momento, que vivemos em um regime totalitário e a tevê do grande líder, também chamada The Eye of the Great Leader, decidiu quais os times devem ter visibilidade e dinheiro e quais serão condenados ao ostracismo, ou à morte. Veja bem, é uma suposição, qualquer semelhança com a realidade é mera coincidência.

Ótimo. Então, como eu não quero que o meu Santos e o futebol brasileiro morram, digamos que finjo acreditar que dividir o dinheiro pelo Ibope é a solução mais justa e sábia vinda do The Eye of the Great Leader. Porém, mesmo diante dessa ditadura de escolhas, ainda me resta utilizar o resquício de democracia que sobrevive em nossa pobre sociedade para dissecar o único critério imposto, o da audiência televisiva, certo?

Okay. E ao fazê-lo, o que eu constato? Que mesmo o abominável Ibope não consegue justificar tamanho protecionismo aos times chamados populares, ou os Big Brothers of the People. A diferença entre a audiência desses dois Filhos do Poder e de alguns outros clubes, é realmente muito pequena. E por que isso ocorre?

Ora, porque não é só a torcida estática de um time que lhe dá a garantia de maior audiência. Há fatores mais determinantes, como a relevância da partida, a rivalidade envolvida no jogo e a qualidade e o carisma dos jogadores. Tudo isso faz com que, em condições equivalentes, uma partida de um dos escolhidos não chegue a 15% de audiência a mais a de no mínimo outros seis grandes clubes brasileiros, entre eles o Santos.

Os números têm provado isso e nos causa espécie que The Eye of the Great Leader não os tenha enxergado. Para auxiliar nessa análise, pesquisei na Internet informações sobre a audiência dos clubes de futebol. Tive o cuidado de não incluir nenhum veículo dedicado ao Santos, para não dizerem que estou puxando a sardinha para o meu lado. Os casos estão em ordem cronológica. Vejamos:

1 – Segundo o Ibope, Santos deu mais audiência na soma dos Campeonatos Paulistas de 2008, 2009 e 2010.

As pesquisas mostram que a torcida do Santos disputa o terceiro lugar no Estado de São Paulo com a do Palmeiras. Entretanto, o Ibope mostrou que, apesar de muito equilibrada, a disputa pela audiência nesses três anos mostrou pequena superioridade do Santos, que, no entanto, recebia menos dinheiro da tevê do que seus concorrentes. Veja os gráficos:

ibope SP 2008-2009-2010

ibope - sp - media geral globo 2008-2009-2010

2 – Santos e Peñarol batem recorde de audiência em 2011. O primeiro jogo, em Montevidéo, rendeu 37 pontos, e o segundo, em São Paulo, mais 33 pontos de Ibope para a Rede Globo.

Audiência de finais da Copa LIbertadores

3 – Na manhã de domingo, 18 de dezembro de 2011, mesmo terminando o primeiro tempo com uma desvantagem de 3 a 0 para o Barcelona, o jogo do Santos pela final do Mundial da Fifa rendeu 32 pontos de média na Grande São Paulo, além de outros três pontos na TV Record. O índice superou em 20 pontos o Ibope normal do horário das 8h30 às 10h30, que não passa de 12 pontos. O share (porcentagem de tevês ligadas no jogo) foi de 73%.

Ibope recorde na manhã de domingo para Santos e Barcelona

4 – Em 2012 o Santos voltou a participar do jogo com maior audiência na tevê. Desta vez, contra o próprio Corinthians, na Vila Belmiro, na primeira partida pela semifinal da Copa Libertadores. O Clássico Alvinegro alcançou 39 pontos, dois a mais do que o duelo entre Corinthians e Flamengo, que abriu o mata-mata da Libertadores em 2010, e também apenas dois pontos a mais do que a final do ano anterior, entre Santos e Peñarol. Para se ver que em jogos de igual importância, a diferença do Ibope não chegou a 6%.

Santos x Corinthians dá maior audiência para a Globo em 2012

5 – No Campeonato Paulista de 2012 o Santos voltou a dar mais audiência. Mesmo decidindo o título com o Guarani e ganhando os dois jogos com facilidade, mais da metade dos aparelhos de tevê estavam ligados nas partidas.

Audiência da final do Paulista de 2012

6 – No final de 2012 o Corinthians também jogou a decisão do Mundial da Fifa, e apesar da incansável cobertura da imprensa e da decantada imensa torcida, só atingiu os mesmos 32 pontos na Globo que o Santos alcançou no ano anterior. O site Esporte Interativo somou os índices de Globo e Bandeirantes para dizer que o Corinthians deu muito mais ibope que o Santos, mas na Globo foi exatamente igual.

Na Globo, decisões dos Mundiais de Santos e Corinthians deram o mesmo Ibope

7 – O Ibope do Campeonato Brasileiro de 2013, em que o Santos só teve Neymar no primeiro jogo, diante do Flamengo, mostra que tanto o jogo de maior audiência no primeiro, como no segundo turno, tiveram a participação do Santos. No primeiro, alcançou 26 pontos nesse jogo já mencionado contra o Flamengo, e no segundo marcou 24 pontos em uma partida contra o Corinhtians. Antes que escrevam o que estou pensando, lembro que Flamengo e Corinthians enfrentaram diversos outros adversários com tevê, mas só deram seus melhores ibopes com o Santos.

Essa informação vem do blog Teoria dos Jogos, de Vinícius Paiva, que, admirado com os números, conclui: “Em um primeiro momento, é de se pressupor que o Corinthians apresente audiência muito superior à concorrência – justificando o fato de 57% dos jogos lhe envolverem. São 23,9 pontos em média, contra 21 do Santos e 20,1 do São Paulo. Mas a concentração nos dias de maior audiência (oito jogos na quarta-feira), além de inflar os números corintianos, faz desabar as estatísticas rivais. Por incrível que pareça, apenas um jogo do São Paulo foi televisionado às quartas. Seus oito embates aos domingos auferiram média bem mais próxima à do Corinthians. O share do Tricolor é de 45%, igual ao do Peixe e apenas um ponto abaixo do Corinthians. Haveria, sim, algum equilíbrio nas audiências paulistanas”.

Note que mesmo jogando na maioria dos jogos de quarta-feira, que têm mais audiência, o Corinthians só teve 10% a mais de audiência de Santos e São Paulo. E isso, mesmo depois que o Santos perdeu Neymar.

Santos participou dos jogos de maior audiência nos dois turnos do Brasileiro de 2013

ibope - primeiro turno de 2013

ibope - segundo turno 2013

8 – No jogo decisivo do Campeonato Paulista de 2013, em 19/05/2013, reunindo Santos e Corinthians, em que havia, além, do apelo da rivalidade, a possibilidade de o Santos conquistar um tetracampeonato inédito, o Ibope da partida alcançou 24,4 pontos na Globo e 7,7 da Bandeirantes, somando um total de 32,1 pontos, o recorde da competição.

Ibope do Santos na final do Paulista de 2013

9 – Mesmo com uma visibilidade bem menor nos programas esportivos da Globo, o Santos manteve praticamente a mesma média de audiência do Corinthians nos jogos pelo Campeonato Paulista de 2014 e o único jogo que superou bem a média ocorreu justamente no clássico em que o Santos goleou o rival por 5 a 1, na Vila Belmiro. Ao menos dois sites perceberam isso:

Grandes têm a mesma média contra pequenos no Paulista de 2014

Santos goleia o Corinthians e eleva o Ibope da Globo

10 – Na partida decisiva pelo título Paulista de 2014, entre Santos e Ituano, a audiência foi de 21 pontos na Globo e 7 na Band, 28 no total, o recorde do campeonato. Comparando este resultado com o da decisão do ano anterior, entre Santos e Corinthians, percebe-se que o confronto do Santos com um humilde clube do Interior, que tem uma torcida bem menor, deu apenas 4 pontos, ou 11% menos de Ibope do que o histórico Clássico Alvinegro. Por aí se nota que a importância da partida nivela por cima a audiência da tevê.

Ibope de Santos e Ituano, final do paulista de 2014

Conclusão: essa divisão desproporcional de cotas não se justifica

Está bem, então o que essas informações querem dizer? Vamos lá:
1 – Que a audiência de um jogo depende dos dois times e não só de um. Não dá para fazer um show com uma dupla de equilibristas, por exemplo, e pagar um cachê absurdo para um deles e uma ninharia para o outro, já que o sucesso do número dependerá dos dois.
2 – Que a importância do jogo (uma final, por exemplo) costuma atrair mais a atenção do telespectador do que partidas corriqueiras de meio de campeonato, mesmo quando envolvem times considerados populares.
3 – Que times grandes, quando estão em uma fase técnica similar às dos seus concorrentes, costumam dar ibopes parecidos.
4 – Que se os times grandes e suas partidas tivessem a mesma divulgação da Globo, certamente os índices de seus jogos seriam ainda mais parecidos.
5 – Que mesmo admitindo-se a tendência de que times de maior torcida dão mais Ibope, este índice, na média e na prática, não ultrapassa mais do que 15% do Ibope dos outros clubes grandes do Brasil.
6 – Que o Santos, mesmo recebendo uma cota de tevê menor do que outros cinco clubes brasileiros, na prática é um tem marcado seguidos recordes de audiência, tanto no Campeonato Estadual, quanto no Brasileiro.

Ainda seria mais engolível se Corinthians e Flamengo recebessem até 15 ou 20% a mais do que os outros grandes clubes brasileiros. Isso já quereria dizer, em 2014, uma vantagem de 17 a 22 milhões por ano para ambos. Seria discutível, como já disse, mas ainda aceitável. Agora, pagar para os dois mais do que o dobro do que o quinto colocado a partir de 2015, não tem justificativa lógica. Parece mais uma ação política do que mercadológica.

E ainda é extremamente antiético, pois esse privilégio gera outros, na mesma rede de tevê, quais sejam: 1 – Por pagar mais a estes dois clubes, ou talvez por isso, a Globo transmite uma maioria absoluta de jogos de ambos. 2 – Como os jogos desses clubes precisam dar um bom Ibope, eles precisam ter uma visibilidade maior e por isso ganham mais espaço do que seus concorrentes nos programas esportivos das tevês da emissora – aberta, por assinatura e pay per view. 3 – Essa maior visibilidade dá a esses dois clubes uma possibilidade também maior de conseguir patrocínios, atrair mais público para seus jogos e conquistar mais torcedores, multiplicando sua receita e seu potencial de crescimento, em um círculo vicioso que os tornará cada vez mais ricos do que os demais, reduzindo a cada ano o nível de competitividade do futebol brasileiro.

E se, mesmo com todas essas evidências, a Globo insistir de que para ela só interessa dividir as cotas do jeito desproporcional que faz, mantendo os privilégios a apenas dois clubes, para evitar esse monopólio que condena os demais à eterna coadjuvância, deveria haver uma cláusula no contrato dando aos clubes descontentes a possibilidade de procurarem outras emissoras para transmitir seus jogos.

Além da ausência de ética, não há pudor e muito menos qualquer concessão ao mérito esportivo nessa política de distribuição de cotas instituída autoritariamente pela Globo. Também não há qualquer fundamento razoável no campo do marketing. É só olhar o que ocorre na Alemanha, Inglaterra e Estados Unidos para se aprender como os profissionais mais competentes do esporte e da televisão esportiva lidam com os clubes e as competições, promovendo a igualdade de forças e, consequentemente, a competitividade. A espanholização pode resolver o problema da Globo a curto prazo, mas fará o futebol brasileiro retroceder no tempo – aliás, o que já vem ocorrendo.

E pra você, se justifica pagar tanto a mais para a dupla Fla-Co?