O Santos tem problemas internos a serem resolvidos urgentemente, mas também precisa ter uma postura externa em defesa de alguns aspectos fundamentais para sua sobrevivência como clube competitivo, como a mudança da fórmula de divisão de cotas de tevê e alterações na Lei Pelé que o protejam, como clube formador de jovens valores que ele é. Este artigo abaixo, escrito por Tana Blaze, nosso colaborador da Alemanha, toca em pontos importantes e sugere alterações na legislação que só dependem de boa vontade para serem feitas. Todo mundo não quer que nosso futebol se livre do empresário, do intermediário entre os clubes e os jogadores? Então, por que não estudar o assunto desde já? Tana Blaze dá sua valiosa contribuição. Leia e opine.

Lucas, Felipe Coutinho e Neymar, três jovens jogadores brasileiros de grande futuro levados por empresários para a Europa antes de amadurecerem como homens e atletas

Por Tana Blaze, direto da Alemanha

Mal o juiz apitou o final de jogo dos 1 x 7 contra a Alemanha, voltaram os apelos para acabar com a Lei Pelé. Mas será difícil alterar a Lei Pelé, porque se um pedreiro pode trabalhar em outros países sem estar preso a um empregador e ao Brasil por qualquer vinculo tipo “passe”, seria injusto impedir que um jogador possa ter os mesmos direitos.

A Lei Pelé não pode ser alterada na sua essência, tampouco o desnível econômico do futebol europeu para o brasileiro vai acabar tão cedo. Mas existe pelo menos um fator perfeitamente coibível que tem catalisado e acelerado o êxodo prematuro de jogadores brasileiros ao exterior. São os investidores em direitos econômicos de jogadores, que tentam realizar quanto antes os maiores lucros possíveis, tentando vendê-los a clubes europeus mais ricos que os brasileiros.

Em nenhum outro país, excetuados talvez Portugal, Espanha e Argentina, investidores em direitos econômicos de jogadores do futebol que não sejam clubes e denominados na gíria inglesa por TPO (third party ownership), têm tamanha importância como no Brasil.

Tal qual a UEFA, a FIFA estudou, mas ainda não tomou a medida drástica de banir de vez os investidores em jogadores, se limitando a acrescentar a cláusula 18bis ao seu regulamento, que teoricamente fornece uma base para uma liga, um clube ou um jogador se defender dos abusos de investidores. Mas a cláusula é inócua na prática porque os investidores cooptam os jogadores para pressionar os clubes e estes na UTI financeira deles não querem denunciá-los.

1 – Investidores em direitos de jogadores na Europa

Já em 2007, em consequência do investidor Kia Joorabchian ter trazido o Tevez e o Mascherano para a vitrine do West Ham United, a Premier League simplesmente proibiu o TPO nos clubes federados, sendo seguida pela França e Polônia, ou seja, jogadores cujos direitos econômicos pertencem a investidores não obtêm licença para jogar nestas três ligas.

Na época o Presidente da Premier League, Richard Scudamore, qualificou os investimentos de terceiros nos direitos econômicos dos jogadores de “INDENTURED SLAVERY”, “ESCRAVIDÃO CONTRATADA”, acrescentando que os investidores muitas vezes se localizavam em paraísos fiscais, não pagando impostos sobre os lucros que auferiam com a venda de direitos na Inglaterra.

Na Alemanha não existe proibição, mas com a maioria dos clubes gozando de saúde financeira, e pelo fato de os jovens jogadores preferirem a infraestrutura, torcida e imagem dos clubes estabelecidos, os fundos de investimento que se criaram para investir em jogadores não vingaram muito. Entre os poucos casos de TPO constam alguns jogadores que vieram emprestados do Brasil, como o Cícero, na sua chegada ao Hertha Berlim em 2008.

Na Itália existe algum TPO, mas bem menos que na Espanha e Portugal e na América do Sul.

2 – Investidores em direitos de jogadores no Brasil

O Ministério do Esporte teria estimado que no mínimo 70% do total de direitos de atletas dos clubes do Brasil pertenceriam a terceiros. O São Paulo chegou a ter no seu plantel 10 jogadores do investidor Eduardo Uram (Brazil Soccer-Tombense), outros clubes não ficaram por muito menos.

No Brasil, os investidores em direitos econômicos estão muitas vezes associados aos agentes de jogadores, quando já não são a mesma pessoa ou grupo empresarial, podendo assim, além de negociar os direitos econômicos, faturar a comissão de agente. Um perverso conflito de interesses em detrimento tanto do jogador como do futebol, porque na função de agentes tendem a aconselhar o jogador no sentido de maximizar seu lucro de investidores, o que muitas vezes não corresponde à melhor solução para o jogador.

Mesmo se a separação de agentes e investidores fosse decretada, subsistiria o risco de continuarem a trabalhar juntos veladamente, ou seja, o agente recebendo benefícios para orientar o jogador no sentido do investidor.

A base lucrativa do negócio dos investidores no Brasil continua sendo a exportação de jovens promessas. Os riscos parecem pequenos, pois mesmo em casos de jogadores não alcançarem a titularidade na vitrine de times grandes brasileiros, como o Renê Junior e o Bruno Peres no Santos, acabam achando comprador no exterior.

Alguns investidores infestam as cercanias dos CTs de Base dos clubes para seduzir os pais dos jovens, compactuando com os estes antes mesmo que seus filhos alcancem 16 anos, a idade do primeiro contrato profissional legal. Cria-se um laço entre menores de origens geralmente humildes e os seus investidores.

Com o jogador se aproximando dos 18 anos, a idade em que pode ser exportado, se inicia a ação dos investidores movidos pela perspectiva de erosão em cinco anos ou menos dos direitos econômicos que lhes pertencem. Então, em muitos casos já no segundo ano de contrato pressionam o jogador para se transferir de clube para que possam faturar os seus direitos, ou fechar um novo contrato em outro clube com prazo mais longo.

Os riscos assumidos pelos “investidores-agentes” são menores ainda, porque se não vendem os direitos econômicos, podem pelo menos faturar a comissão de agente tanto na ida para a Europa, como a cada troca de clube e na volta dos mesmos ao Brasil. Um belo de um negócio porque a cada ano 900 jogadores deixam e 700 voltam ao país. Alguns jogadores rendem mais pela rotatividade e ficam girando pelo mundo, se transformando em “jogadores-leasing”, como Diego Souza.

3 – Os abusos de investidores e efeitos negativos

Para conseguir movimentar a sua mercadoria de clube a clube a fim de faturar direitos e comissões, alguns investidores não hesitam em recorrer a práticas duvidosas.

PRIMEIRO TIPO DE ABUSO. Nos casos de fim de contrato se aproximando, induzem o jogador a solicitar aumentos ou condições absurdas, para motivar o clube a vendê-lo ou não renovar o empréstimo.

Quando no meio ou início de contrato houver uma oferta vantajosa, aconselham o jogador à cizânia com o clube empregador. Um caso célebre de ingerência foi o do investidor-agente DIS, que aconselhou o Ganso, do qual detinha praticamente a metade dos direitos econômicos, a não assinar um contrato oferecido pelo Santos que triplicaria o seu salário, exigindo para tanto que a multa rescisória fosse reduzida à metade e 50 a 25 milhões e euros para vendê-lo rapidamente à Europa. A própria DIS se gabou, numa entrevista ao Jornal da Tarde de 17 de Junho de 2011 do fato, relatando as suas atividades a seguinte forma:

“O trabalho nos bastidores é divulgar propostas de rivais como forma de o clube valorizar o atleta. Se não der certo, a empresa convence o jogador a recusar qualquer proposta de renovação de contrato, como no caso de Paulo Henrique Ganso.” Um tal de Guilherme Miranda da DIS acrescentou na época: “Acho que não é bom negócio os clubes brigarem com a gente. Hoje um atleta ser da DIS é uma grife de qualidade e os clubes sabem disso”.

Foi um ano e meio de quiproquó e de desgaste envolvendo o Ganso, que com o desvio de foco do futebol perdeu uma etapa importante na sua evolução de jogador e ficou fora da Seleção Brasileira, atrasando a sua carreira por no mínimo três anos.

SEGUNDO TIPO DE ABUSO. Exercem pressão sobre os clubes para que o jogador não fique no banco de reservas e jogue, envenenando o ambiente e o desempenho de sua equipes e prejudicando a si próprio. Óbvio, jogador só valoriza se estiver jogando.

RISCO DE ABUSO. Finalmente, o risco de investidores pressionarem a convocação de jogadores, principalmente para as seleções sub, é evidente. As especulações a respeito não cessam. Neste aspecto os clubes também não são isentos de suspeitas, mas são pelo menos mais controláveis do que as centenas de investidores.

A evasão de jovens talentos debilita o futebol brasileiro de duas formas:

INTERRUPÇÃO PREMATURA da evolução esportiva e social do jovem jogador, com centenas de carreiras sucumbindo abruptamente quando esses jovens mudam de clube ou são expatriadas. Não sabemos a qual ponto teriam evoluído se não tivessem sido precocemente exportados, como o Anderson, do Grêmio para o Manchester, o “jogador de grife” da DIS, Breno, que está preso na Alemanha, e tantos Lulinhas e Kerlons que desapareceram na Europa.

NIVELAMENTO POR BAIXO dos campeonatos jogados no Brasil devido à constante evasão dos melhores jogadores. O interesse das torcidas pelos clubes seria maior se os pratas da casa estivessem em campos brasileiros.

Existem certamente alguns exemplos em que investidores contribuíram para e evolução de um jogador e ajudaram o clube, como no caso do Radamel Falcão no Atlético Madrid. Mas vendo o fenômeno em sua totalidade, o efeito da especulação com os direitos econômicos é deletério tanto para os jogadores como para o futebol como um todo.

4- Como proibir e as vantagens de se fazê-lo

O Brasil deveria proibir o investimento de terceiros em jogadores de futebol. Donos de direitos econômicos só poderiam ser clubes de futebol devidamente registrados e o próprio jogador.

Para impedir que investidores se escondam atrás de um clube-tampão, como os Tombenses, Iratys, Central Español /Rentistas e outros, poder-se-ia estabelecer uma regra pela qual um clube só pode emprestar, digamos, cinco jogadores, que não foram formados na sua base dos 15 aos 16 anos de idade. A CBF cadastraria clubes estrangeiros com atividades evidentes, como o Rentistas do Juan Figer, que não poderão emprestar jogadores no Brasil.

Então um Tombense poderia ter os direitos econômicos de quantos jogadores quisesse, mas poderia emprestar somente cinco jogadores cujos direitos comprou. Além destes, só poderiam ser emprestados jogadores que tivessem sido formados comprovadamente pelo Tombense entre 15 e 16 anos de idade. Portanto, se o Tombense tiver formado 100 jogadores, aí sim poderia emprestá-los todos.

Os times de base deveriam ser certificados e a existência dos jogadores registrada e auditada. A burocracia eventualmente decorrente de cadastrar jogadores de 15 e 16 anos será compensada pelos efeitos benéficos para o futebol brasileiro. Clube não licenciado que forma jogadores não registrados, continuaria sendo formador pelas regras da FIFA, podendo vender os direitos desses jogadores, mas poderia emprestar apenas cinco deles.

Claro que a proibição teria que ser decretada com validade imediata para todos os jogadores que vão completar 16 anos, uma espécie de “Lei do Pé Livre” do profissional nascente. Para os demais, teria que ser fixado um prazo de cinco anos para permitir o desengajamento ordeiro dos investimentos.

A vantagem de proibir os investidores se manifestaria em vários níveis para o futebol brasileiro:

PRIMEIRO: Embora não vá coibir o fluxo de jovens jogadores para a Europa, vai reduzir e desacelerar o numero de saídas.

SEGUNDO: Vai acabar com os inúmeros abusos dos investidores. Mesmo que predatórios também, os agentes são tendencialmente menos nefastos, porque não sentem a pressão da erosão do capital investido em direitos econômicos. Agentes bons tendem a agir mais a longo prazo, porque, desde que tenham bem aconselhado, podem continuar agenciando o jogador mesmo que outros clubes comprem os seus direitos.

TERCEIRO: Sem a disponibilidade de jogadores para tapar buracos por parte de investidores, os clubes serão obrigados a investir mais em suas bases, administrar melhor as suas finanças, planejar melhor o futuro do plantel e melhorar as suas competências na condução de contratos.

QUARTO: Os lucros hoje auferidos pelos investidores ficariam no futuro essencialmente com os clubes que revelam jogadores de qualidade.

QUINTO: O capital financeiro disponível para o futebol no Brasil não serviria mais para a especulação pura, mas teria que ser investido forçosamente em clubes e no futebol de base.

5 – Os temores de clubes brasileiros face a uma eventual proibição de investidores

O Santos, mesmo tendo sido depenado por investidores, foi um dos clubes brasileiros a assinar carta à FIFA em 22 de Abril de 2013, portanto alguns meses antes do licenciamento do Laor, solicitando a não proibição dos investidores, defendendo assim os fundos amigos Teisa e o de 40 milhões.

Mas a proibição que pleiteamos se limitaria aos investimentos formais em direitos econômicos, e se um grupo como a Doyen ou Teisa quiser emprestar ou investir 40 milhões de reais no Santos, poderiam continuar a fazê-lo, porque empréstimos não são investimentos diretos em direitos econômicos, mesmo que a engenharia financeira por cláusulas anexas referentes a juros e à repartição de eventuais lucros, possam se assemelhar. O que diferencia o empréstimo como o da Doyen, é que o clube da Vila Belmiro foi considerado merecedor de crédito por parte de um investidor.

O argumento frequentemente usado de que no Brasil no mínimo 70% dos direitos econômicos dos jogadores pertencem a investidores e que uma proibição poderia acarretar um colapso financeiro do futebol não parece proceder.

Se verdadeira, a porcentagem seria apenas indicadora para a repartição de receitas entre investidores e clubes no caso da venda de direitos. Não indica a relação de valores que os investidores e clubes realmente investiram. Porque afora alguns investimentos realmente milionários, como os feitos pela Elenko Sports no Marlone, temos um cenário no qual muitos investidores empregam ninharias em centenas de jogadores de base, angariando porcentagens altas.

Então, é possível que os investidores estejam contribuindo com 70% dos investimentos iniciais, fixando a porcentagem dos seus direitos, e os investimentos restantes, salários, custo de dependências, treinadores estejam sendo feitos unicamente pelos clubes.

Neste exemplo hipotético, o investidor poderia ter contribuído com, digamos, apenas 20% dos investimentos totais feitos ao longo dos anos, mas manteria 70% dos direitos econômicos que angariou inicialmente – configuração que indicaria que os clubes investem mais, mas ganham menos na venda de jogadores, o que deveria servir de base para se acabar imediatamente com os investidores,para que não sangrem ainda mais os clubes brasileiros.

Além do mais, estamos propondo um desengajamento durante cinco anos e a medida levaria à expansão de empresas que realmente formassem jogadores e fossem licenciadas, e à expansão da base de clubes das Séries B e C, todos autorizados a emprestar jogadores, desde que registrados. Investidores que mantêm equipes que formam jogadores jovens, como o Audax e a Traffic/Desportivo Brasil, não seriam afetados pela proibição. A medida visaria acabar com o cancro dos “empresários” atravessadores.

Vários clubes, como o Santos e o Atlético Paranaense, que têm equipes com muitos jogadores da própria base, provam que não vai haver nenhum colapso financeiro se os investidores forem proibidos.

Digno de notar que justamente a liga que mais fatura no mundo, a Premier League inglesa, com os seus estádios sempre lotados, e que teoricamente seria a menos prejudicada por investidores – porque jogador inglês, como o Bale, só é exportado por 90 milhões de euros -, tenha imediatamente proibido os investidores, enquanto no Brasil, o país dos estádios vazios, e o mais prejudicado pelo sistema, os investidores fazem a festa. Existem países que têm o habito salutar de agir por princípios.

O argumento de um possível colapso financeiro no futebol brasileiro (no caso da expulsão dos intermediários) parece tão falso como há mais de um século foram falsos os argumentos de que haveria um colapso na agricultura brasileira no caso da abolição da escravidão.

Que o Brasil siga a França, a Polônia e a Inglaterra e acabe com o parasitismo sanguessuga e inútil dos investidores.

Minha filosofia de vida? É a deste livro: simples.

E você, o que pensa dos investidores que proliferam em nosso futebol?