Conquistar o título mundial de 1962 goleando o Benfica, bicampeão europeu, em Lisboa, é a maior façanha de um time sul-americano na história do futebol.

Sei que muitos de vocês querem que eu fale da dívida do Santos, agora real, de mais de 70 milhões de reais com o lamentável Leandro Damião, em um caso que faz o santista sentir-se duplamente roubado. Sei também que há outros assuntos atuais de grande prioridade para a comunidade Alvinegra Praiana. Porém, vou por um caminho que pode parecer pura abstração, mas tem o seu propósito, como se verá.

Da lista dos 100 museus mais visitados do mundo, um pouco mais da metade está na Europa. Enquanto isso, o continente africano é o único que não tem nenhum. Disso se extrai uma constatação óbvia: o respeito e o interesse pelo passado é um traço das sociedades mais desenvolvidas. Ignorar os fatos e ensinamentos que perpassam o tempo é optar pela estagnação, ou o retrocesso. Sim, porque o passado ensina.

O melhor caminho para o futuro pode estar no que já passou. Esta semana, pesquisando sobre a primeira viagem internacional do Santos, em vôo da Varig para a Argentina, em março de 1954, deparei-me com a notícia de que o então presidente da Federação Paulista de Futebol, Mario Frugiuele, estudava utilizar a área do antigo Hipódromo da Moóca para construir um estádio para, pasmem, 120 mil pessoas, pois, segundo ele, “o Pacaembu não atendia mais aos anseios do público.”

Veja como são as coisas. Hoje os grandes clubes paulistas se dão por satisfeitos quando conseguem públicos de 30 mil pessoas, um quarto do que pretendia o ousado dirigente. E não podemos nos esquecer de que em 1954 o Brasil ainda não tinha sido campeão mundial, o que ocorreria nas Copas de 1958, 1962 e 1970. Outro detalhe é que em 1954, apesar de contar com um futebol que lotava estádios, a cidade de São Paulo tinha cerca de dois milhões e 200 mil habitantes, apenas 20% do que tem hoje.

Como explicar, então, a gradual falta de interesse do paulistano pelo chamado esporte das multidões? Outras opções de lazer? Violência nos estádios? Horários impraticáveis, principalmente nos jogos noturnos? Carestia dos ingressos? Perda da qualidade e do prestígio dos times paulistas e do próprio futebol brasileiro? Ausência de ídolos?

Provavelmente todos esses fatores tenham contribuído para a diminuição do interesse do paulistano, do paulista, do brasileiro pelo futebol. Por outro lado, percebemos que na Europa, onde o esporte é mais rico e organizado e os clubes têm mais voz ativa, os grandes jogos continuam atraindo multidões. Como parte de um círculo virtuoso, os europeus têm as melhores equipes, os melhores estádios, a imprensa esportiva mais qualificada, faturam muito mais com todos os meios que podem rechear seus cofres, ostentam todos os grandes ídolos internacionais e exibem o único futebol de clubes que realmente vale a pena ser assistido no planeta.

Latinos sul-americanos que somos, mantemos o futebol vivo em nossas vidas apenas pela teimosia de nossa paixão. Sabemos que não somos mais os melhores, talvez nem mesmo os segundos melhores. Tememos que nossas crianças não escolham mais os times brasileiros para torcer, ou que daqui a pouco os europeus nem queiram mais disputar o Mundial Interclubes com a gente. Afinal, há quase dez times na Europa de um nível técnico e tático bem acima dos melhores da América do Sul.

Precisamos nos reinventar, mas essa reconstrução não passa apenas pelo futebol. Nossas sociedades estão contaminadas pela corrupção, pela desorganização e pela incompetência, e nossos clubes refletem isso.

Podemos aprender com as sociedades mais evoluídas como depurar a nossa, como prosperar em busca do futuro que queremos. Afinal, métodos e técnicas podem ser aprendidos. Porém, como podemos testemunhar nos Estados Unidos, ou Canadá, não basta ter um futebol organizado e próspero se não há tradição, não há essa força que vem do passado.

Por isso, por tudo que já conquistou, por ter tido um time como o Santos, que deslumbrou povos de todas os idiomas e etnias por duas décadas inteiras, é que o futebol brasileiro ainda tem o direito de sonhar com um futuro similar ao seu passado de ouro. Conhecer o passado é dar-lhe vida, trazê-lo para os nossos dias, usá-lo para modificar o presente. Por isso escrevo livros sobre a história do futebol, e do Santos.

Por isso passei dez anos da minha vida, antes da Internet, compilando informações, pesquisando e entrevistando jogadores – autênticas lendas vivas – para escrever Time dos Sonhos (livro que ofereço a um preço super promocional nesse abril de aniversário do Santos).

Por isso o Santos foi o primeiro clube a contar com uma Associação de Pesquisadores e Historiadores, a Assophis, fundada há dois anos, cujos integrantes estão envolvidos em trabalhos que esmiuçam a vida de 104 anos incompletos do clube e resgatam mais e mais motivos para acreditarmos que o glorioso passado do Alvinegro Praiano ainda voltará a ser presente.

E você, acredita que o passado pode construir o futuro do Santos?