Blog do Odir Cunha

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Tag: espanholização do futebol brasileiro

Intransigência do Flamengo pode provocar um racha entre os clubes brasileiros


Presidente do Flamengo não quer discutir divisão de cotas: “a negociação é feita pelo clube com a TV e valem os interesses da TV”.

Todo mundo sabe que a evolução do futebol brasileiro passa pela criação de uma Liga Nacional, que dê aos clubes o comando do futebol no País, hoje nas mãos da Rede Globo de Televisão. Porém, conhecendo o caráter imediatista e individualista do dirigente brasileiro, já se sabia também que seria utópico esperar que os clubes privilegiados pelo atual sistema desigual de divisão de cotas de tevê ao menos concordassem discutir a situação. A entrevista do presidente do Flamengo, Eduardo Bandeira de Mello, à Agência Estado, confirma as piores previsões.

Duas das perguntas feitas pela Agência Estado se referem às divisões das cotas de tevê, que hoje privilegiam desmesuradamente a Flamengo e Corinthians. Nas duas, Eduardo Bandeira mostra sua intransigência, colocando as ambições de seu clube acima dos interesses gerais dos clubes brasileiros. Leia e analise a primeira:

AE – Há espaço para os clubes discutirem cotas de TV em conjunto?
Eduardo – A questão das cotas de TV não foi discutida nem vai ser. Não está em pauta. A negociação é feita pelo clube com a TV e valem os interesses da TV. A gente não imagina que esse caminho seja com todo mundo junto. Senão, vamos ter de chamar todos os 680 clubes brasileiros. Aí o Calouros do Acre vai dizer que quer ganhar que nem o Flamengo.

Perceba que o dirigente do Flamengo defende “os interesses da TV”. Ou seja, ele é presidente de um clube de futebol, mas como a decisão da TV favorece tremendamente ao seu clube, abandona a sua categoria para apoiar a liderança da TV. Este seu argumento de que seria preciso “chamar todos os 680 clubes brasileiros” evidentemente é furado. O que se estará em pauta, principalmente, é a transmissão do Campeonato Brasileiro da Série A, que conta com apenas 20 clubes.

Agora leia a resposta do presidente do Flamengo quando a pergunta se refere à Espanholização comandada pela Rede Globo:

AE – Alguns clubes consideram que o Brasil passa por um processo de “espanholização” de seu futebol, numa alusão a valores que Flamengo e Corinthians recebem da TV. O que acha disso?
Eduardo – Não concordo. O Flamengo sempre foi a maior torcida. Quando não tinha direito de televisão, a receita era de bilheteria. Hoje, a receita de TV é maior, o patrocínio também é maior porque a torcida do Flamengo é maior e nem por isso se está a assistindo à “espanholização” do futebol brasileiro. Há clubes que têm outras vantagens comparativas. O São Paulo, por exemplo, tem um estádio há mais de quatro décadas. Por competência, eles conseguiram fazer um trabalho de base. O do Flamengo se deteriorou. A nossa receita de venda de jogadores é ridícula. Nós nunca tivemos estádio, o nosso centro de treinamento está sendo construído agora e está ainda em uma situação precária em relação ao de outros clubes. Ou seja, eu não estou propondo que ninguém divida seu centro de treinamento nem estádio com o Flamengo. Cada um com suas vantagens.

Nesta resposta, o presidente flamenguista junta alhos com bugalhos para justificar o injustificável. Se outros clubes têm estádios ou um bom trabalho de base é porque tiveram méritos para isso. Nada, a não ser sua incompetência histórica, impediu o Flamengo de conseguir as mesmas coisas. E isso de torcida ser monetarizada em forma de cota de tevê merece uma longa e detalhada discussão.

Em primeiro lugar, o ibope se transforma em dinheiro à medida em que os horários das transmissões de futebol são vendidos a patrocinadores. Esses patrocinadores anunciam para um público que pode comprar seus produtos. Onde está esse público e onde estão esses patrocinadores? Estão, em 80% dos casos, na Capital e no Interior do Estado de São Paulo, justamente os mercados produtor e consumidor mais ricos do Brasil. Pois bem, qual é a dimensão da audiência do Flamengo nesses dois mercados? Nula! Isso mesmo: Nula!

Times do Interior de São Paulo, como Ponte Preta, Guarani e Ituano talvez despertem mais interesse no telespectador paulista do que equipes do Rio de Janeiro, como o Flamengo. Essa é uma questão cultural e jamais vai mudar. Assim como os comunistas soviéticos tentaram, em vão, acabar com o cristianismo nos países do Leste Europeu, usando para isso todos os recursos de propaganda, a Globo pode ficar até a eternidade tentando semear o interesse pelo futebol carioca em São Paulo e não conseguirá.

Portanto, é inegável que o Flamengo tenha maior torcida no Rio de Janeiro e no Norte/Nordeste do País, mas se estamos falando em converter essa audiência em dinheiro, o poder aquisitivo de cada mercado tem de ser levado em conta – e neste aspecto, São Paulo, Palmeiras e Santos vendem mais no rico mercado paulista do que o Flamengo ou qualquer outro time carioca.

Mas o que a Liga Nacional deve pretender, entretanto, não é mudar os nomes dos privilegiados, e sim acabar com os privilégios. Como já ocorre na Alemanha e Inglaterra, em que a divisão de cotas é justa e permite a estabilidade de todos os clubes da divisão principal e a competitividade obrigatória para o sucesso de suas competições internas, da mesma forma o Brasil pode ter um futebol mais rico e promissor caso mais clubes tenham plenas condições de serem incluídos no espetáculo.

Como todo dirigente de clube de futebol no Brasil, o presidente do Flamengo quer manter as vantagens que o sistema desproporcional dá à sua agremiação e mudar apenas as situações em que o Flamengo se sente prejudicado, como no Campeonato Carioca, cuja Federação cobra 10% da receita bruta de cada jogo do Estadual, o que é realmente é abusivo. Mas lutar contra as injustiças que nos prejudicam e apoiar as que nos favorecem nunca foi a política de um bom estadista, pois é evidente que ela provoca nos concorrentes uma reação igualmente radical, o que leva a situação a um impasse.

A intransigência do Flamengo no caso da divisão de cotas de tevê e da criação da Liga Nacional de Clubes certamente levará também à radicalização dos clubes adversários. A não ser que julgue viável participar de um eterno Rio-São Paulo com o Corinthians, o presidente do rubro-negro terá de mudar sua postura e entender que os interesses do futebol brasileiro devem se sobrepor aos interesses de seu clube.

E você, o que acha da intransigência do presidente do Flamengo?


Robinho traz alegria e esperança para o futebol brasileiro

Minha coluna de hoje no jornal Metro fantasia como seria o futebol brasileiro se os clubes tivessem de pagar todas as suas dívidas de uma hora para outra e a Globo desistisse de investir nas transmissões.

Futebol na estaca zero. Que ótimo!

Jornal Metro de Santos – edição desta sexta-feira

Robinho traz alegria e esperança ao futebol brasileiro

Robinho voltou. E com ele uma alegria da qual os santistas tinham se esquecido. O rapaz realmente traz ótimas lembranças e ainda significa muito não só para o Santos, mas para o que restou do futebol brasileiro. Este filme do Youtube que postamos ontem mostra jogadas que hoje parecem inacreditáveis. Que jogador brasileiro, além de Neymar, pode fazer aquilo?

Robinho não é só um jogador de extrema habilidade. Tem aquela inteligência do boleiro malandro e debochado, mas que sabe o que é importante para se ganhar um jogo. Qual jogador brasileiro, além de Neymar, repito, tem habilidade, confiança e personalidade para fazer o que Robinho faz em campo?

Kaká é outro ótimo jogador que voltou da Europa, mas voltou com sérias limitações clínicas. Infelizmente, jamais será o Kaká dos bons tempos. Ronaldinho Gaúcho era o jogador de maior destaque no Brasil, mas vai embora em busca do inesgotável pé de meia. Quem sobrou com bola e carisma para ocupar o seu espaço? Diga: tem sete letras.

Aos 30 anos, Robinho ainda é jovem. Não padece de nenhum mal crônico, mantém o físico esbelto, a mesma ginga, e talvez só esteja precisando mesmo da confiança e do carinho que os santistas nunca lhe negaram.

Tenho inúmeras ótimas lembranças de Robinho. Não só de suas atuações extraordinárias nos Brasileiros de 2002 e 2004 e no primeiro semestre mágico de 2010, mas por suas demonstrações de amor ao Santos. Em 2003 estive no CT do Santos para levar exemplares do livro “Time dos Sonhos” a Vanderlei Luxemburgo, integrantes da comissão técnica e, principalmente, aos jogadores. Robinho foi um dos mais felizes com o presente.

Recebeu o livro, todo sorridente, posou para a foto que meu filho Thiago e o amigo dele, o Guilherme, fizeram, e depois deve realmente ter lido aquelas mal traçadas linhas, pois em seu perfil no falecido workut, inscreveu o “Time dos Sonhos” como seu livro favorito. Ao conhecer a história do Santos de cabo a rabo, entendeu melhor o honra de jogar nesse time e jamais permitiu que jornalistas ou dirigentes diminuissem o Santos.

Robinho e Santos é um caso de amor correspondido. Muitos clubes brasileiros já quiseram contratá-lo, mas ele sempre preferiu voltar para a querida Vila Belmiro. Agora, como em 2010, o Santos precisa tanto dele, como ele precisa do Santos. Torçamos para que este novo casamento seja para sempre.

Jornalistas José Calil e Fernando Sampaio apóiam nova divisão de cotas

Já tinha o texto quase pronto quando me deparei com a entrevista do presidente do Atlético Mineiro, Aleandre Kalil, no UOL. O dirigente, que tem demonstrado muita coragem em suas declarações, expõe de uma maneira nua e crua os problemas que a política de espanholização adotada pela Rede Globo estão causando aos clubes brasileiros. Em uma de suas contundentes respostas, Kalil afirma:

“A única coisa que eu espero que seja discutida é a “espanholização” do futebol brasileiro, porque eles só querem passar jogos de Flamengo, Corinthians, Corinthians e Flamengo. Só que a maior audiência da Globo no ano passado foi o Atlético-MG na Libertadores, e nós precisamos entender que acabou essa história de que Corinthians e Flamengo dão audiência. Dão porra nenhuma! Quem dá ibope é quem está na frente e quem disputa títulos. Você acha que alguém vai ver jogos do Flamengo com o time caindo? Você acha que o Flamengo no meio da tabela dá mais resultado para a TV do que o Internacional tentando ser campeão, por exemplo? A Globo deve ter visto isso. Ela se fudeu quando deu 52% da renda para cinco times. Acabou com a praça da Bahia, vai acabar com a praça de Belo Horizonte e vai detonar todas as outras. A Globo está fragilizada porque a audiência está indo para o caralho, e é só isso.”

Percebe-se que as ideias que são divulgadas e discutidas neste blog há mais de três anos finalmente estão germinando por aí. Ainda ontem enviei para amigos jornalistas a proposta que elaborei para a divisão de cotas de tevê. Dois deles já me responderam, apoiando a medida e sugerindo algumas alterações. Foram José Calil, da Rádio Transamérica, muito conhecido entre os santistas por comandar um programa apenas sobre o Santos na Rádio Trianon, e Fernando Sampaio, eclético comentarista da Rádio Jovem Pan. A seguir, transcrevo a íntegra de suas respostas:

Fala Odir,

Já tinha lido sua proposta. É muito boa mesmo. Eu sempre lutei contra essa espanholização que querem implantar por aqui.

Pessoalmente defendo uma proposta mais simples, com os 12 maiores clubes do Brasil recebendo rigorosamente a mesma quantia da TV e com o pagamento de alguns bônus por conquistas. E os demais clubes sendo divididos em categorias inferiores de pagamento de acordo com seu desempenho nos anos anteriores.

Qualquer hora conversamos com calma.

Um abraço.

José Calil

Grande Odir,

É, sou contra a divisão atual, falo isso há um tempo. A espanholização prejudica o futebol, não existe Brasileirão forte sem todos fortes, afinal os maiores clubes já têm, naturalmente, uma receita maior porque vendem mais camisas, ingressos, patrocínios, etc…

Concordo com 50% dividido entre todos. Eu faria o restante pela ordem técnica.

Esta proposta de audiência é complicada. Não acho justo a TV ser obrigada a fazer jogos de clubes que não tem grande audiência. A TV tem suas obrigações e entregas comerciais. Acho justo fazer um mínimo, tudo bem, mas a maioria dos jogos devem ficar na escolha da TV, até porque alguns grandes podem estar fracos e outros disputando título ou rebaixamento.

Agora, o mais importante, FUNDAMENTAL, é negociação coletiva, como fazem as ligas que você citou: Alemanha e Inglaterra. Isso estava sendo feito aqui com o Clube dos Treze, mas em troca de favores (títulos e estádio) os clubes implodiram a negociação coletiva.

Alguns clubes só tiveram aumento na cota graças a entrada da RECORD na parada, caso contrário a Globo não teria aumentado a oferta.

Abs e saudades,

Fernando Sampaio

A situação submissa e inferiorizada de quase todos os times brasileiros diante da Rede Globo já era prevista logo que o Clube dos Treze foi desmantelado e a negociação coletiva foi trocada pela individual. A manobra, que teve Andres Sanchez como instrumento, a médio prazo só beneficiaria dois clubes, como vem ocorrendo. Olha só o que este Blog já dizia em 24/02/2011:

Pode ser o fim do Clube dos Treze ou pode ser o fim do futebol na Globo

E em 25/02/2011:

Negociação individual desvalorizará o Campeonato Brasileiro

E em 04/03/2011:

Negociação individual não deu certo na Europa

E em 24/03/2011:

Santos assina com a Globo e sacramenta sua inferioridade

Parabéns mestre Zito, o mentor do melhor time de todos os tempos


Um belo filme do amigo Wesley Miranda sobre o Zito

Um grande time não se faz só com craques habilidosos, mas sim com líderes natos, que colocam a alma em campo e conseguem passar essa vontade para seus companheiros. O melhor time de todos os tempos teve a sorte de contar com um mentor exigente e destemido chamado José Ely de Miranda, o Zito. Hoje, 8 de agosto, ele completa 82 anos. Nasceu em Roseira, que na época nem era cidade e pertencia à Aparecida do Norte, e desde que chegou à Vila Belmiro, em 1952, aos 20 anos, adotou Santos como sua cidade. Zito marcou 57 gols em 727 jogos pelo Santos, mas seu forte era a marcação, a organização do time, a liderança dentro e fora do campo. Podia-se dizer que era o auxiliar direto do técnico Lula, pois funcionava como um técnico dentro do campo. Ganhou 22 títulos oficiais com o Alvinegro Praiano: 2 Mundiais, 2 Libertadores, 5 Brasileiros (Taça Brasil), 4 Rio-São Paulo e 9 Paulistas, além de inúmeros torneios. Mande sua saudação ao mestre e ele a receberá.

E você, acha que Robinho pode brilhar no Campeonato Brasileiro?


Divisão de cotas de tevê no Brasil deve ser como na Bundesliga

Santos tem de ser o time da Baixada Santista

http://www.metrojornal.com.br/nacional/colunistas/o-esquadrao-da-baixada-santista-85567

borussia
Borussia Dortmund: de quase falido há 10 anos a um lucro de 45 milhões de euros em 2012. Seu estádio recebe a lotação máxima de 80 mil pessoas em todos os jogos.

O Brasil anda meio engraçado. Não se espante se um dia desses você receber um e-mail convidando-o para assistir a uma palestra de um cientista da Albânia, ou de um marqueteiro da Bolívia. Suécia? Dinamarca? Noruega? Gênios financeiros de Wall Street? Não servem. E no caso da distribuição de cotas da tevê aos clubes de futebol, obviamente se adota o modelo espanhol, fórmula que só agrada a dois clubes e condena os demais à eterna coadjuvância.

Na Bundesliga, em que a colocação do time no campeonato é levada em conta na hora de distribuir a verba da TV, o estratosférico Bayern de Munique recebeu 29,96 milhões de euros (R$ 71,9 milhões) ao final da temporada passada, enquanto o desconhecidíssimo Saint Pauli, rebaixado para a Segunda Divisão, abiscoitou 13,2 milhões de euros (R$ 31,68 milhões). Vê-se que mesmo entre equipes tão opostas, a diferença de valores não foi constrangedora como no Brasil, em que os dois primeiros da lista recebem quatro vezes mais do que os últimos.

Na semana passada os 36 clubes da Primeira e Segunda Divisões do futebol alemão assinaram um novo contrato com as duas cadeias de televisão públicas do país e com a Sky pelo qual receberão até 2017 um total de 2,5 bilhões de euros (R$ 6 bilhões), um bilhão a mais do que no último contrato. Competitivo, com estádios lotados e clubes fortalecidos, o futebol alemão está mais cheio que caneca da Oktoberfest.

Os segredos, óbvios, da Bundesliga

Gastar menos do que arrecada, ter muitos sócios e cobrar pelas entradas preços acessíveis à classe média – estes são alguns dos segredos do sucesso da Bundesliga.

Com ingressos baratos, a média de público nos modernos estádios alemães alcança 45 mil torcedores. Mesmo assim, o valores dos ingressos praticamente não sobem há sete anos.

O Borussia Dortmund, virtualmente falido há dez anos, resolveu aproximar-se do seu torcedor, passou a adotar ingressos baratos (média de 11 euros, cerca de 33 reais), investiu na formação de atletas em suas categorias de base e na prospecção em clubes menores, chegando a obter um lucro de 45 milhões de euros em 2012. Sua média de público alcança 80 mil pessoas.

Mas é claro que só a divisão mais democrática do dinheiro da televisão não garantirá o equilíbrio de forças, pois há outros fatores que interferem no poder econômico dos clubes, que são: patrocínio, merchandising, quantidade de sócios e arrecadação.

Quem é contra a mudança do sistema brasileiro, que segue o rumo da espanholização, para o da Alemanha, gosta de dar o exemplo do Bayern, que mesmo inserido em um sistema mais justo, que favorece a mérito, ainda assim se destaca bem mais do que seus concorrentes. O caso, porém, é que o Bayern se destaca justamente pelo mérito de sua eficiência.

Há 24 anos o clube apresenta superávit financeiro, ou seja, arrecada mais do que gasta. Eu disse 24 anos! Por aí já se percebe que não pode haver nenhuma comparação entre o grande alemão e qualquer clube brasileiro. Em segundo lugar, o Bayern consegue uma arrecadação maior por ter 10 milhões de torcedores. E aqui são torcedores-consumidores, ao contrário das torcidas brasileiras, das quais nenhuma chega a ter um milhão de consumidores de produtos oficiais do clube.

Este blog não é mais uma voz no deserto

A gritaria contra a espanholização, que no Brasil começou com tímidos murmúrios – entre eles os deste humilde blog –, hoje ganha corpo. O presidente do Goiás, Sergio Rassi, é o mais recente engajado. Ele diz que já tem apoio de Coritiba, Atlético-PR, Bahia, Vitória e Sport. A ideia é adotar uma fórmula parecida com Bundesliga alemã, a Premier League inglesa ou a Série A italiana. Grassi explica:

“Funcionaria mais ou menos assim: 60% do valor seria repartido igualitariamente entre os 20 times, enquanto que 20% seriam pela exposição na mídia e o outro 20% pelo desempenho em campo. Seria mais justo. A única liga que não segue isso é a espanhola. Não por acaso tem um futebol sem graça, restrito basicamente a dois clubes, com um terceiro surgindo de vez em quando. As demais têm uma alternância de títulos”, afirma.

Espero que o esforço de Sergio Grassi seja recompensado. Não há porque os grandes clubes brasileiros temerem a concorrência. Eles ainda terão mais facilidade para conseguir patrocinadores e atrair público para seus jogos, além de maior audiência na tevê. É evidente, porém, que precisarão ser mais competentes, o que, grosso modo, contribuirá para o crescimento do nosso futebol.

E pra você, a Bundesliga deve ser o exemplo para o futebol brasileiro?


Carlos Miguel Aidar deve liderar a luta contra a espanholização

Carlos Miguel Aidar 2carlos miguel aidar
Carlos Miguel Aidar como eu o conheci, e como está hoje, novamente presidente do São Paulo. Um dirigente que pode liderar a luta contra o monopólio da Globo e a espanholização do nosso futebol.

Conheci Carlos Miguel Aidar na casa de um amigo comum, o Nelson Blanco, há muitos anos. Discreto, simpático, Aidar mal falou sobre seus planos para a presidência do São Paulo, cargo que ocuparia de 1984 a 1988. Agora ele volta a dirigir o clube do Morumbi e já anunciou que uma de suas metas é unir os clubes descontentes com a divisão de cotas da tevê, lutando contra a espanholização que a Rede Globo quer impor ao futebol brasileiro.

Imaginei que o Santos é que fosse encampar essa luta, como um dos mais prejudicados por essa divisão que não leva em conta o currículo dos clubes, nem sua importância para a história do futebol. Cheguei a prevenir Luis Álvaro Ribeiro sobre isso durante um café que ele ofereceu aos blogueiros santistas logo que assumiu o cargo, em uma época em que nossas relações ainda eram cordiais. Porém, animado com o aumento da cota que o Santos receberia, Laor não me deu ouvidos. Ele não percebeu que de nada adiantaria o Santos receber mais se a diferença para os dois privilegiados aumentaria a cada ano, até escavar um abismo enorme e insuperável.

A partir de 2016 o Santos receberá 80 milhões de reais por contrato com a Globo, exatamente metade do valor que será destinado a Flamengo e Corinthians. O São Paulo ficará com 110 e os demais grandes do Brasil com 60 milhões. A espanholização, como um cavaleiro do apocalipse, vem a galope para ceifar a competitividade que ainda embala nosso futebol.

Nos próximos dias o novo presidente do São Paulo e o seu vice de futebol, Ataíde Gil Guerreiro, deverão iniciar os contatos com Santos, Palmeiras, Fluminense, Cruzeiro, Botafogo, Grêmio, Internacional, Atlético Mineiro e Bahia, todos integrantes do dissolvido Clube dos Treze, para traçar uma estratégia de negociação com a Rede Globo.

O monopólio que a Globo exerce no futebol acabou lhe dando o poder de estabelecer que time será realmente grande e qual deverá se conformar com uma posição subalterna. A Espanha é o maior exemplo do que a preferência por dois times pode fazer com os clubes de futebol de um país.

Até meados dos anos 60, Barcelona e Atlético de Madrid se equivaliam em títulos e visibilidade. Hoje o Barça, assim como o Real Madrid, recebe 120 milhões de euros da tevê, enquanto o Atlético apenas 42 milhões. É quase impossível ser competitivo assim. A exceção pode ocorrer em uma ou outra temporada, mas não se iluda: a capacidade de investimento do time catalão é infinitamente maior.

No Brasil, que vive fase de grande populismo e péssima administração de recursos – não me venha dizer que um país que prefere gastar bilhões em uma Copa e esquece saúde e educação tem preocupações sociais sinceras –, os times considerados mais populares já são beneficiados com patrocínio de estatais, auxílio-estádio e rolagem infinita da dívida. A preferência da tevê é a cereja do bolo que faltava para perpetuar a desigualdade.

Meritocracia já!

Hoje na divisão de cotas da tevê não há lugar para o mérito esportivo. O dinheiro é dividido de acordo com a quantidade de torcedores dos clubes. Se um dia a Fifa fizer isso, um time chinês provavelmente receberá mais dinheiro do que os grandes europeus. Por esse critério, times que tiveram mais relevância técnica em sua existência são preteridos por outros “mais populares”. O “critério econômico” prepondera.

O que Aidar e Gil Ferreiro propõem é exatamente o que este blog sugere há anos: que a divisão de cotas siga os modelos bem-sucedidos da Inglaterra ou Alemanha, pelos quais metade da verba total é dividida entre todos os participantes da divisão principal do campeonato nacional (no nosso caso, a Série A) e o restante é distribuído entre as equipes mais bem classificadas na competição, as de maior ibope na tevê e as das outras séries.

Com isso, a audiência da tevê deixaria de ser o único critério para a distribuição das cotas. Obviamente, seria uma fórmula mais justa, a que daria aos clubes uma possibilidade maior de brigar pelos títulos, aumentando o interesse do público e melhorando a qualidade do espetáculo futebol.

Alternativas para acabar com o monopólio

Como disse bem o jogador Alex, do Coritiba, hoje o futuro do futebol brasileiro está nas mãos de uma emissora de tevê. A Globo detém os direitos da tevê aberta, da tevê por assinatura e do pay per view. Isso quer dizer que, além da distribuição do dinheiro, ela pode decidir que times terão mais visibilidade, detalhe fundamental para a captação de patrocinadores.

Mas há muitas alternativas viáveis que podem substituir, com vantagem, o sistema vigente. Esse monopólio poderia ser evitado, por exemplo, com a liberalização para que outras emissoras transmitam jogos que não interessam à emissora vencedora da concorrência. Poderíamos ter um jogo na Globo, outro da Record, outro no SBT, outro na RedeTV, Rede Vida, Canal Interativo etc. Poderia-se, ainda, dar aos clubes a possibilidade de criar a sua própria tevê pela Internet, ao menos para satisfazer aos seus sócios.

Hoje o torcedor brasileiro vive uma situação bizarra. Ele pode escolher entre uma dezena de jogos internacionais, mas só tem uma opção quando se trata do Campeonato Brasileiro. Essa prática está cerceando o direito de clubes brasileiros tradicionais se manterem competitivos.

O sistema também estabelece uma ditadura nas relações da Globo com os clubes, pois os que reclamarem poderão ser ainda mais prejudicados, já que a emissora faz sua escala de transmissões sem dar satisfação a ninguém. Com a extinção do Clube dos Treze, os grandes clubes perderam a voz e o poder de negociação. E, como muitos já adiantaram suas cotas, estão quietinhos, sem dar um pio.

Com a abertura para que outros canais de tevê dividam o bolo, os outros clubes, hoje marginalizados, teriam ao menos uma visibilidade maior e, com isso, maior possibilidade de conseguir patrocínios. Do jeito que está, todos dependem da boa vontade da Globo, que define que clube brasileiro ficará rico e qual será apenas um coadjuvante no País da Copa, assim como já decidiu que os jogos noturnos só podem começar depois do último beijo na novela.

Hoje é o Dia do Choro, mas o choro bom. Uma homenagem do grande Vitor Lopes
Meus amigos!!!
Hoje, dia 23 de abril, seria o aniversário de São Pixinguinha, padroeiro da Música Popular Brasileira! Em sua honra, hoje comemoramos o Dia do Choro!!!
Esse é um dia muito especial para todos nós, músicos e fãs de choro de todo o mundo e, para prestar uma homenagem à cultura popular brasileira, fiz uma parceria com a Mova Filmes e realizamos uma gravação singela e delicada de “Lamentos”, de Pixinguinha. O link segue acima.
Espero que vocês gostem!
Viva Pixinguinha!!! Viva o Choro!!!
Um grande abraço,
Vitor Lopes.
www.vitorlopes.net

E você, acha que o Santos deve apoiar a luta contra a espanholização?


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