Blog do Odir Cunha

O ombudsman do Santos FC

Tag: Estádio do Morumbi

Prevaleceu o profissionalismo. Decisão será no Morumbi!

Glória aos deuses do futebol nas alturas! O profissionalismo prevaleceu. Graças à oportuna intervenção de Marco Polo Del Nero, presidente da Federação Paulista de Futebol, os dois jogos da decisão do Campeonato Paulista serão disputados no Morumbi nos domingos 6 e 13 de maio.

Ao invés de jogar no Brinco de Ouro e na Vila Belmiro, Guarani e Santos acataram o bom senso e aceitaram a decisão da Federação Paulista de Futebol de fazer os dois jogos no maior estádio de São Paulo, onde se espera no mínimo 50 mil pessoas por partida.

Com isso, as duas arrecadações serão divididas e cada clube deverá receber cerca de R$ 2 milhões líquidos. Além do valor, importante para equilibrar as finanças de Guarani e Santos, os jogos terão mais visibilidade e mostrarão, mais uma vez, a tremenda força da torcida santista.

Como os dois times são técnicos, jogam aberto e buscam o gol, as dimensões maiores do Morumbi certamente favorecerão a qualidade do espetáculo. Que os dois times façam grandes jogos e vença o melhor.

Reveja agora a última decisão do Campeonato Paulista no Morumbi:

E você, o que achou de os dois jogos serem no Morumbi?


Há 26 anos o Santos era campeão em cima do Corinthians e ainda impedia o tri do rival!


De canela é mais gostoso…

Passei o dia 2 de dezembro de 1982 fechado na técnica central da Rádio Globo de São Paulo. Como coordenador da jornada esportiva, distribuía a bola para repórteres, locutores, comentaristas e fazia o meio-campo dos homens da latinha com os operadores de mesa e técnicos de som. Só tínhamos uma tevê, sem som, para vislumbrar o jogo, quando dava. E meu coração, é claro, estava apertado.

Depois de muitos anos no sistema eliminatório (mata-mata), a Federação Paulista de Futebol resolvera voltar o Campeonato Paulista à fórmula dos pontos corridos, e o Santos se mantivera à frente o tempo todo. Nas últimas rodadas, entretanto, o Corinthians se aproximara perigosamente. Se vencesse aquela última partida – coincidentemente contra o Santos, líder do campeonato – o alvinegro da capital seria tricampeão paulista, repetindo o feito do Santos em 1967/68/69.

Estavam construindo o metrô na Rua das Palmeiras e, naqueles tempos, o que não faltava na Rádio Globo eram baratas e corintianos. Eu estava cercado por elas e eles. Conversei com o Osmar Santos antes da transmissão. Geralmente ele me pedia alguma frase para dizer na hora do gol. Naquele dia, só me lembro de ter passado a ele que o gol, em uma final como aquela, seria o momento da verdade que se eterniza. Ele improvisava em cima das minhas sugestões e percebo, ouvindo agora, que deu uma acoxambrada no que eu lhe disse.

Feios, sujos e malvados

Esta é uma expressão que o escritor José Roberto Torero utilizou para definir o time do Santos campeão em 1984 e concordo com ela. Aqueles jogadores fugiam do padrão santista. Depois de ver seus Meninos da Vila caçados em campo e roubados pela arbitragem – revolta que chegou ao clímax em 1983, quando Arnaldo César Coelho garfou o Alvinegro na final do Brasileiro, no Maracanã –, o torcedor queria um time menos ingênuo, com jogadores mais durões, malandros e até violentos.

E aquele Santos, com jogadores da estirpe de Rodolfo Rodríguez, Márcio, Toninho Carlos, Dema, Humberto e Serginho não era mesmo de levar desaforos para casa. Podia até perder na bola, mas no pau, nunca…

Debate de “O Grande Jogo”

No livro que fiz com Celso Unzelte sobre aquela que chamamos a maior rivalidade alvinegra do futebol, Celso e eu falamos desta final de 1984, claro. Reproduzo aqui o que cada um disse sobre ela:

Celso Unzelte
1984 era para ser o ano do tri, e só não foi porque apareceu justamente o Santos, e Serginho Chulapa, no meio do caminho. Reforçado pelo dinheiro da venda de Sócrates para a Fiorentina, da Itália, o Corinthians montou um time quase todo novo, com o goleiro Carlos e o lateral-direito Édson, que eram da Ponte; o volante Dunga, jovem revelação do Inter; o meia Arturzinho, o centroavante Lima, o ponta-direita Paulo César (ex-São Paulo) e até um ex-santista histórico, o ponta-esquerda João Paulo. Mesmo atrapalhado pela Seleção Olímpica, que durante um bom tempo nos tirou o volante Dunga e o técnico Jair Picerni, o Timão reagiu espetacularmente naquele campeonato, ganhando 22 dos últimos 24 pontos disputados, em uma época em que vitória valia só dois pontos. Bastava, na última rodada, vencer o Santos, que só precisava do empate para ser campeão.

O Santos era um time baseado principalmente nas defesas de Rodolfo Rodríguez e nos gols de Serginho. Passou o ano inteiro jogando como se deve jogar em um campeonato de pontos corridos, como foi aquele: empatando fora e ganhando em casa. Confiantes como sempre, os corintianos foram ao estádio plageando um sucesso da época, cantado pelo grupo de garotas Sempre Livre: “Eu sou tri, sempre tri, eu sou tri demais…” Eu poderia aqui choramingar um pênalti claro sobre o Zenon não marcado pelo árbitro José de Assis Aragão quando estava 0 a 0, mas não vou fazer isso porque não gosto de desmerecer as conquistas dos outros. É a sua vez de detalhar um pouco mais aquela vitória do Santos.

Odir Cunha
Como você bem disse, Celso, o Corinthians vinha de grande reação e precisava da vitória para chegar ao tricampeonato, repetindo o feito do Santos em 1967/68/69. Mais de 100 mil pessoas (101.587) pagaram para ver o jogo e no final tiveram de aplaudir os campeões Rodolfo Rodríguez, Chiquinho, Márcio, Toninho Carlos e Toninho Oliveira; Dema, Lino, Paulo Isidoro e Humberto; Serginho e Zé Sérgio, comandados pelo técnico: Castilho.

Você disse que aquele Santos vivia das defesas do uruguaio Rodolfo Rodríguez, um dos melhores goleiros que já atuou no Brasil, e dos gols de Serginho. Realmente, eram excelentes em suas posições, tanto que Serginho foi o artilheiro daquele campeonato, com 16 gols, repetindo o feito do ano anterior, quando havia marcado 22. Mas o Santos tinha muito mais.

Os zagueiros Márcio e Toninho Carlos chegaram a atuar pela Seleção Brasileira, assim como os meio-campistas Dema e Paulo Isidoro e o atacante Zé Sérgio. O time era melhor do que o Corinthians do técnico Jair Vicerni, ou melhor, Picerni.

As imagens do jogão

Trago três vídeos sobre a partida. No primeiro, logo abaixo, perceba que o Morumbi está dividido ao meio. Mesmo tendo o mando de jogo, o Santos jamais marcaria um clássico final do Campeonato Paulista para a Vila Belmiro, ou para o Pacaembu. Só o Morumbi comportava essa grande rivalidade. Portanto, trata-se de mais um título vencido longe da Vila. Note, ainda, que bandeiras e fogos eram permitidos.

Reveja agora os principais momentos do jogo. Costumo dizer que Serginho fez o gol de canela. Note bem que foi mesmo. Repare ainda que João Paulo, um dos Meninos da Vila de 1978, jogava pelo Corinthians e teve boa chance, defendida magistralmente por Rodolfo Rodríguez. Por fim, perceba que o gol do Santos começou com um passe errado de um corintiano, que cai no pé do santista Paulo Isidoro. Quem foi o corintiano? Ora, ninguém menos do que Dunga, este mesmo que não levou Ganso e Neymar pra Copa.

Por fim, termino com a narração do gol por Osmar Santos. Perceba como ele pega o lance em cima, narrando cada detalhe com precisão. Para mim, foi o grande nome da narração esportiva do Brasil. Claro que sou suspeito, pois além de ser seu redator por quatro anos, também fui e sou seu amigo.

E pra você, que recordações o título de 1984 traz?


O início da decadência do São Paulo

O São Paulo começou a perder a força que tinha quando o presidente Juvenal Juvêncio ironizou o Corinthians pelo fato de o Alvinegro não ter estádio. Isso provocou nos corintianos a determinação de não jogar mais no Morumbi, o que passou a gerar um grande prejuízo ao São Paulo, raiz de todos os males que afligem o clube hoje.

Lembro-me perfeitamente. No almoço no CT Rei Pelé que gerou o G4 Paulista, no ano passado, Andrés Sanches, presidente do Corinthians, explicava a mim, ao José Carlos Peres e ao presidente Marcelo Teixeira, por que o Corinthians não jogaria mais no Morumbi.

Por ele, Sanches, seria bom voltar a jogar, pois é um estádio que comporta mais pessoas e, conseqüentemente, dá mais lucro, mas, explicava, não podia voltar atrás em sua palavra, depois que a torcida corintiana, revoltada com a arrogância do São Paulo, pressionara o Corinthians para nunca mais jogar no Morumbi.

Quem não tem casa, tem de jogar na casa dos outros e não reclamar, foi o que disse Juvenal Juvêncio depois de um impasse sobre as taxas a serem cobradas pelo São Paulo para abrigar um jogo do seu rival. Até ali, Juvenal dizia o que queria, sem maiores conseqüências, mas naquela vez o Corinthians resolveu reagir, com resultado desastroso para o Tricolor.

Não se perdeu só o aluguel…

Sanches nos contou que o diretor de uma empresa que mantinha painéis de publicidade no Morumbi tinha ligado para ele para saber se o Corinthians não voltaria mesmo a jogar no Morumbi. Diante da confirmação, a empresa resolveu não renovar o contrato com o São Paulo.

Sim, porque o Corinthians, e eventualmente o Santos, não propiciavam ao São Paulo apenas as gordas taxas de aluguel do estádio. O maior valor arrecadado vinha da visibilidade das placas publicitárias – vistas não só pelos torcedores no estádio, mas também pelos espectadores da tevê e, através das fotos, por leitores de jornais, revistas e da Internet.

Com a restrição do uso do estádio apenas para jogos do São Paulo, o clube não pôde mais renovar seus contratos de publicidade nos mesmos valores e passou a perder alguns milhões de reais por ano.

Contratações ruins

Para mim, ficou evidente que o São Paulo estava com problemas quando contratou uma leva de ex-santistas que nem eram cogitados para voltar à Vila Belmiro, como André Luis, Léo Lima, Cléber Santana e depois trocou o sonolento Rodrigo Souto por Arouca.

O centroavante Washington nunca correspondeu no Tricolor, e Fernandão também já estava em má fase quando foi contratado. Ricardo Oliveira, outro ex-santista, não parece ter físico para muitas partidas seguidas.

Especular em cima de jogadores ainda com algum nome, mas decadentes, é típico de clubes que precisam manter a aura de fortes e competitivos, mas estão com “problemas de fluxo de caixa”.

Certamente o torcedor são-paulino preferiria que fossem repatriados Luís Fabiano, Júlio Batista, ou mesmo Josué. Para um clube que diz preocupar-se tanto com o marketing, estes três seriam alternativas mais eficazes e de maior impacto. Acontece que o São Paulo não tem receita suficiente para gestos tão ousados.

A venda de Hernanes, sem que houvesse um jogador do mesmo nível para o seu lugar, foi um exemplo de que de clube comprador, o São Paulo de Juvenal Juvêncio se tornou fornecedor de mão de obra.

Marca desvalorizada

A derrota constrangedora para o Corinthians, ontem, por inapeláveis 3 a 0 – décima partida sem vencer o rival –, que mantém o São Paulo próximo da zona de rebaixamento, foi apenas a ponta do iceberg. É interessante lembrar que além deste desconfortável tabu para o time que não tem estádio, o São Paulo já perdeu quatro vezes para o Santos este ano. Ou seja, não é mais o time vencedor de outras temporadas.

Tudo isso está desvalorizando a marca trabalhada com tanto carinho nos últimos anos. Recentemente o São Paulo tentou fechar um contrato de patrocínio com valores equivalentes aos dos grandes clubes europeus, mas não conseguiu. A alegação da empresa consultada é que o time está sem grandes atrativos – além do veterano Rogério Ceni, perto do aposentadoria, não há um ídolo que atraia a mídia.

A impossibilidade de conseguir parceiros para ser o estádio inaugural da Copa de 2014 também contribuiu para abalar a imagem do São Paulo. Com a constatação de que o clube não é tão organizado como tenta transparecer, de que seu marketing não faz milagres e sua direção tem um sentimento de grandeza e auto-suficiência que não corresponde à realidade, o Tricolor do Morumbi volta a ser um time comum.

Você acha que a fase ruim do São Paulo é transitória, ou o time está em decadência?


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