Nos confins do universo, em uma galáxia distante, um sistema solar continha um planeta ensolarado em que um milenar time de futebol jogava em um estádio vazio. O interessante dessa estória é que, em um caso único entre bilhões e bilhões de planetas, de trilhões de times de futebol que corriam atrás da bola, em jogos dentro e fora de casa, este era o único que preferia manter o seu estádio vazio.

Ah, mas o estádio deveria ser uma porcaria, nem arquibancada devia ter, e por isso não cabia ninguém – dirá um ouvinte mais apressadinho. Ledo engano. A requintada arena esportiva era toda de ouro, cravejada de diamantes, com escadas de marfim e acentos de seda pura. Um luxo! E sua capacidade era de trezentos mil seres daquele planeta. Sentados!

Ora, então por que jogava para o estádio vazio? Era um time sem nenhuma torcida? – perguntará outro açodado leitor. Não, era uma equipe que tinha batido vários recordes de público e renda, mas que, em determinado momento de sua história, cismou de não permitir que nenhum torcedor entrasse em seu estádio.

Como aconteceu tal loucura? – questionarão, unanimemente, todos os leitores, ao que este humilde escriba pedirá só um pouco de paciência para, enfim, contar a estória que gerou esse post.

Tudo começou há dez mil anos, quando, depois de amargar mais uma temporada de uma longa fila de 127 anos sem títulos, aquele time que lotava o seu estádio foi punido pela confederação planetária por incidentes graves provocados por sua torcida. Em um jogo em que precisava muito da vitória, mas acabou sofrendo o empate no final, os trezentos mil torcedores presentes se revoltaram e, num gesto de fúria, um deles jogou um copinho de papel vazio no gramado.

Veja bem que estamos falando de um povo superultracivilizado, em que o gesto de jogar um objeto no chão era considerado ofensa gravíssima. Assim, em uma pena aceita sem contestação, o time foi obrigado a fazer dez jogos sem presença de público. Imagine o leitor o prejuízo que tal punição causou, pois dez jogos significavam três milhões de assistentes, uma autêntica fortuna naquele planeta de seres de elevadíssimo poder aquisitivo.

Porém, como a lei era respeitada naquele mundo de almas e gestos nobres, durante dez partidas aquele time jogou para ninguém. Como eram honestíssimos, não permitiram nem mesmo gandulas ou policiais. Apenas o pessoal da equipe médica e os jornalistas, mas sem os repórteres de campo.

E eis que, naquele recinto dourado, em que o som da bola sintética reverberava pelas tribunas desabitadas, o time ganhou o primeiro jogo sem público. Em seguida, ganhou o segundo, o terceiro, e assim prosseguiu, com dez vitórias consecutivas que acabaram lhe dando o tão ansiado título planetário, gostinho que não sentia havia 127 anos, comemorado em uma volta olímpica imersa no silêncio.

Na primeira vez que o estádio voltou a receber a torcida, justamente no jogo de entrega das faixas, o time perdeu, e feio. Antes da partida seguinte, a diretoria resolveu atender aos pedidos do técnico e dos jogadores, todos ainda vivendo dias de heróis pela grande conquista, e fecharam novamente os portões, dessa vez por livre e espontânea vontade. O resultado não poderia ter sido melhor: uma vitória, e por goleada!

Como torcedores de qualquer cantinho do universo querem mesmo é vitórias, começou um movimento subterrâneo para que o time jogasse sempre com portões fechados. Na verdade, isso não poderia ser feito, pois ao menos a torcida adversária tinha o direito assegurado de assistir ao jogo. A solução foi vender apenas cinco por cento dos ingressos para os visitantes, ou quinze mil entradas.

Estranhamente, constatou-se que os gritos dos torcedores adversários não atrapalhavam tanto o time em questão do que os de sua própria torcida, e ele continuou vencendo todos os jogos em seu lindo estádio, mesmo sem nunca mais ouvir o seu nome gritado ali.

Veio o segundo campeonato e o time foi bicampeão. No ano seguinte, tricampeão. Mas, a partir da quarta temporada, começaram os problemas. Sem as rendas dos jogos e a falta de patrocínio provocada pelo desinteresse da tevê, para quem a torcida fazia parte do espetáculo, era impossível continuar pagando aos jogadores salários dignos de tricampeões planetários e, aos poucos, os craques e ídolos do time foram para outras agremiações.

Os torcedores mais jovens se encheram de torcer para uma equipe que não podiam assistir ao vivo. Havia a televisão, mas queriam mesmo era sentir a emoção de ver e gritar um gol no estádio. Alguns dos torcedores mais velhos também pensavam assim e começaram a dizer que era melhor antes, quando o time podia até não ser campeão, mas cada jogo era uma festa inesquecível.

Acontece que a cultura do estádio vazio foi se arraigando de tal forma no grupo dominante daquele time, que técnico, jogadores, diretores e o presidente não queriam mais saber de mudar o que, segundo eles, estava dando certo.

O estádio foi se deteriorando, a torcida diminuindo, as finanças entrando no vermelho, mas, quando jogava em casa, mesmo com 15 mil torcedores contrários, o time sempre ganhava. Até quando perdeu os onze titulares e ainda foi condenado a pagar direitos trabalhistas para todos eles – obrigado, para isso, a vender o ouro, as pedras preciosas e o marfim que cobriam o seu estádio – e teve de apelar para os meninos de sua base, o time, cercado por arquibancadas de madeira e cimento, continuou a vencer.

Fora de casa, perdia todas, mas no velho alçapão já estava alcançando a marca de 1.456 vitórias consecutivas quando eu soube dessa estória que agora conto para vocês. Fiquei sabendo ainda que aquele time jamais ganhou um novo título, perdeu sua torcida e seu patrimônio, mas nunca foi rebaixado. E como não ser rebaixado passou a ser sua grande meta, jamais deixou de jogar em seu estádio vazio, pois isso era garantia de vitória.

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