Blog do Odir Cunha

O ombudsman do Santos FC

Tag: Ética no esporte

Corinthians tenta tirar jogadores da base do Santos?

Já que não tem um Neymar, Corinthians quer levar Jean Carlos Chera?

É muito grave e precisa ser investigada a fundo a notícia, publicada no Blog do Paulinho, do site Mídias sem Média, de que o Corinthians está tentando surrupiar dois jogadores da base do Santos, entre eles o craque Jean Carlos Chera.

Na matéria, Paulinho, o autor do blog, diz que recebeu um telefonema de um amigo jornalista dizendo que em uma mesa do bar Pirajá, na avenida Faria Lima, André Negão, das categorias de base do Corinthians, estaria negociando com Serginho Chulapa, observador técnico do Santos, a aquisição de dois juvenis do Alvinegro Praiano. De um nome a testemunha não recordava, mas o outro, com certeza, era Jean Carlos Chera.

Bem, amigos, esta acusação é gravíssima. Duvido que a diretoria de futebol, muito menos a presidência do Santos, saibam que suas jóias, preparadas com carinho para um dia brilhar no time de cima e manter tradição do Santos de revelar craques do futebol, estão sendo negociadas com o maior rival.

Recentemente fiz uma matéria com os futuros Meninos da Vila para a revista Personalité, ouvi os profissionais que trabalham com os garotos, entre eles Luiz Fernando Moraes, gerente das categorias de base do Santos, e posso afirmar que não há qualquer intenção do clube de se desfazer de seus garotos, principalmente dos de maior destaque.

Nem passa pela cabeça da direção do Santos perder Jean Carlos Chera, 15 anos (12/05/1995), que aos seis já era considerado um fenômeno na pequena Vera, cidade de 9.500 habitantes no Mato Grosso do Sul, que depois mudou-se para Campo Mourão, Paraná, e lá foi descoberto por Eduardo Jenner, que o trouxe aos nove anos, com seus pais, para morar em Santos, onde é cultivado como uma flor preciosa.

O Santos deu moradia à família de Jean Carlos, paga-lhe um salário – que Serginho teria revelado a André Negão tratar-se de 11 mil reais – e lhe tem proporcionado segurança e assistência para se tornar um profissional, o que deve acontecer daqui a dois anos.

Tentar tirá-lo no Santos agora é, no mínimo, extremamente anti-ético. Mesmo que o Corinthians esteja disposto a pagar os cerca de R$ 15 milhões avaliados por seu passe, Chera é patrimônio do Santos e a torcida já conta com ele para reforçar o time em 2012, ano do Centenário do clube.

Além do mais, Chera é santista de coração. No seu twitter chega a ironizar os corintianos. Há poucos minutos, ao saber desta história envolvendo o seu nome, postou: “O que posso dizer pra vocês é que isso TUDO É MENTIRA… Não vou sair do #SFC”.

Negão é ligado a Andrés Sanches

O que mais me espantou nessa história são os nomes dos envolvidos. André Negão, o André Luiz de Oliveira, nunca teve cargo de diretoria, mas tem acesso direto ao presidente corintiano Andrés Sanches. Por outro lado, Serginho Chulapa é considerado um dos grandes ídolos da história do Santos.

Para os santistas seria incrivelmente decepcionante constatar que Serginho, um artilheiro histórico do Peixe, negocia por baixo do pano a venda dos futuros ídolos do clube, e justamente para o maior rival. Seria uma quebra de confiança tremenda. É o tipo de história que não pode ser simplesmente esquecida. É preciso haver, no mínimo, uma conversa séria entre a diretoria e Serginho para passar isso a limpo.

No começo do ano fui a Santos almoçar com alguém da nova diretoria e esta pessoa me confidenciou que o quadro que encontraram nas categorias de base do Santos era terrível. Profissionais contratados pelo clube achacavam pais e faziam conluios com agentes para aprovar a entrada de jovens nas categorias de base. Havia quase uma tabela: passar na peneira custava no mínimo R$ 5 mil.

Por isso, para, segunda este diretor, eliminar os maus elementos, houve uma grande reformulação no setor e muitos foram demitidos. Esta notícia agora, de que o Corinthians tenta agir nos bastidores para tirar dois jogadores da base do Santos, mostra que talvez todo o mal ainda não tenha sido erradicado.

Para um clube que baseia a história do seu futebol nas revelações que vêm das categorias de base, esses infanto-juvenis devem ser preparados por profissionais tão ou mais qualificados dos que os que lidam com o time principal. E qualificados não só técnica, mas, principalmente, do ponto de vista moral.

É o tipo da história que não dá para fingir que não aconteceu, que é boato, que é melhor deixar pra lá etc… Por mais que possa vir a doer a confirmação de que um ídolo do Santos participa ou participou de negociatas que lesam o patrimônio do clube, isso tem de ser discutido e esclarecido.

Agora veja alguns gols de Jean carlos Chera, mais um menino-prodígio da Vila

E você, o que achou dessa história e qual deve ser o papel da diretoria do Santos diante desta grave acusação?


Santos deve jogar pra ganhar, mesmo que ajude rival

Ilustração de Malpicci feita originalmente para a revista Ética no Futebol

Já recebi alguns comentários de santistas, poucos na verdade, dizendo que como não tem mais chances de ser campeão, o Santos deveria entrega o jogo para o Fluminense para prejudicar o Corinthians. Respeito a opinião dos torcedores, sei que ela é o combustível que torna o futebol apaixonante, mas neste caso sou totalmente contra.

Em primeiro lugar porque o Santos nem está totalmente afastado da luta pelo título e nem livre do rebaixamento. Em segundo, porque cada vez que entra em campo o Alvinegro Praiano representa sua história, sua tradição, e incorpora este novo resultado ao seu currículo. Pesquisador que sou, detesto ter de incluir derrotas e, pior, goleadas nas minhas estatísticas.

Em terceiro, porque os jogadores do Santos devem encarar cada partida com respeito – ao torcedor e a ele próprio, que será desacreditado se um dia jogar para perder.

Por fim, há a ética, este troféu invisível que poucos conseguem tocar. Um time ético dá orgulho, é bonito de se ver, inspira mais respeito. Quem gosta de torcer para jogadores que demonstram maior ou menor motivação dependendo das circunstâncias, como se fossem movidos por dinheiro, ou sentimentos tão pouco nobres quanto?

Vôlei, São Paulo, exemplos que não param

Talvez outros esqueçam rápido, mas eu não. Lembro-me muito bem, por exemplo, do Campeonato Paulista de 2003, em que o São Paulo, depois de estar vencendo por 2 a 0, permitiu ao Santo André empatar em 2 a 2, no único resultado que eliminaria o favorito Santos da fase seguinte. O São Paulo teve de fazer um gol contra e no segundo gol do time do ABC, em um pulo forjado, Rogério Ceni se jogou na bola quando ela já tinha entrado. Uma palhaçada!

Alguns jornalistas, como Galvão Bueno, justificaram essa atitude do tricolor. Eu achei ridícula, suja e todos os adjetivos para definir algo nefasto para o futebol. Mas o Santos também já fez algo parecido. No Brasileiro de 2005, depois de ser goleado pelo Corinthians, não se empenhou nem um pouquinho na partida contra o Internacional, no Anacleto Campanela.

Assim, contra o mesmo time que tinha vencido no primeiro turno por 1 a 0, no Beira Rio, o Santos foi goleado por 4 a 0. Os jogadores que participaram daquela tarde lamentável foram Mauro, Luiz Alberto, Mateus, Kléber, Fabinho, Zé Elias, Bruno, Giovanni, Luciano Henrique, Heleno, Wendel, Cláudio Pitbull e Geílson. O técnico, obviamente fritado, era Nelsinho Batista.

Posso até entender que os jogadores estivessem revoltados com os privilégios dados ao Corinthians naquela competição, mas não tinham o direito de decidir por si mesmos que não jogariam para vencer. Nelsinho Batista deveria ter percebido a trama e escalado um time de reservas ou juvenis; Teriam feito mais bonito.

Aliás, foi o que o Grêmio fez no ano passado, na última partida do Brasileiro, contra o Flamengo, no Maracanã. Os torcedores do tricolor gaúcho queriam que o time entregasse o jogo para o Flamengo, pois uma vitória do Grêmio tornaria o Internacional campeão.

Na penúltima rodada o Corinthians já tinha perdido para o Flamengo sem fazer qualquer força, pois se vencesse ajudaria o São Paulo. E no último jogo o técnico do Grêmio, Marcelo Rospide, foi obrigado a escalar um time de garotos, formado por Marcelo Grohe; Mario Fernandes, Léo, Tiego e Fábio Santos; Túlio, Douglas Costa, Lúcio e Adilson (Mithyue); Maylson e Roberson (Bergson).

Os meninos do Grêmio, entretanto, foram homens, e terminaram vencendo o primeiro tempo, com gol de Roberson. A virada e o título do Flamengo só vieram no segundo tempo. Por ironia do destino, ao desembarcar em Porto Alegre os guris do Grêmio foram ameaçados de agressão pela própria torcida, que provavelmente os mataria se tivessem dado o título para o rival Colorado.

Acho isso de uma pobreza mental e moral agudas. Se o seu time proporcionou o título ao rival, com que ânimo os torcedores adversários virão ironizar o seu? É bem pior do que entregar o jogo e ainda ver o rival comemorar a conquista.

Joguem por suas carreiras

Não sei quem os convenceu, ou o que passou pela cabeça dos santistas que, sem se esforçar, perderam para o Internacional por 4 a 0 no Anacleto Campanela, em 2005. Só posso dizer que isso não foi bom para suas carreiras e muito menos para a sequência de seu trabalho no Santos.

Espero que os jogadores que entrarem em campo contra o Fluminense, com a camisa que já foi de Zito, Pelé, Coutinho, Dorval, Mengálvio, Pepe e tantos craques e homens admiráveis, saibam que cada compromisso do Santos é sagrado, entra para a história. E amolecer não existe no dicionário do santista.

Cada jogo é mais uma nova oportunidade para o jogador mostrar seu talento, de brilhar, de justificar seus sonhos. Quem não percebe isso acaba esquecido, desprezado, tratado como alguém que defendeu times profissionais, mas não foi, na verdade, um jogador profissional de futebol.

E você, acha que, dependendo das circunstâncias, um time deve entregar o jogo?


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