Há quem veja no futebol apenas os dribles, os lançamentos, as tabelinhas e os gols – ou seja, só o ataque. Aprendi, desde os tempos de adolescente, lá no campo do Diamante, na Cidade Dutra, a valorizar também a defesa. Sair do campo esfolado, sujo, com o rosto cheio de grama, mas com a alegria de ter resistido ao inimigo e conservado a vitória é uma sensação inesquecível. Acredito que assim os suíços se sentiram hoje ao fazer valer sua tradição e resistir bravamente à armada espanhola, considerada por muitos, mais uma vez, como a favorita para vencer esta Copa.

Um dos problemas que tenho detectado na cobertura jornalística desta Copa é que há muitos comentaristas jovens, que acompanham o futebol há pouco tempo e estão convictos de que basta saber o que ocorre no momento. O futebol vai além disso. Para se entender bem uma seleção é preciso conhecer a história do país, de seu povo e seu futebol. Há povos cuja cultura está voltada para o ataque, enquanto outros adoram se defender.

Os suíços são, no futebol, o maior exemplo disso. Tanto é que a designação consagrada de defesa cerrada, quase impenetrável, é “ferrolho suíço”, angariada depois de anos e anos de ótima atuação defensiva.

Um dos momentos de glória desse sistema tático, aliás, aconteceu no nosso Pacaembu, na Copa de 1950. Naquela tarde de 28 de junho os suíços pararam o Brasil diante de 42 mil espectadores. Alfredo marcou para a seleção Brasileira aos 3 minutos, Patton empatou aos 17, Cbaltazar, o cabecinha de ouro, desempatou aos 43 do primeiro tempo e o mesmo Patton voltou a empatar aos 43 minutos do segundo tempo. Sim, 2 a 2, em um jogo no qual o Brasil saiu sob vaias e fez Nélson Rodrigues escrever que os paulistas nãoe ram patriotas.

Em 50 a Suíça não se classificou em seu grupo, pois ficou atrás de Brasil e Iugoslávia, mas é um país com história nas Copas. Chegou às quartas-de-final em 1934, 38 e 54. Já eliminou equipes de peso, como a Alemanha em 1938 e a Itália em 1954.

Não é à toa, e esse dado parece que foi ignorado pela maioria dos analistas, que a Suíça não sofreu um gol na última Copa, em que empatou com França e Ucrânia em 0 a 0 e venceu Togo e Coreia do Sul por 2 a 0 (os suíços foram eliminados nas oitavas-de-final, pelos ucranianos, na disputa de pênaltis).

Assim como espanhóis são temerários, suíços são precisos

O futebol, repito, exprime a alma do povo. Para se analisar uma partida não basta conhecer os números, as estatísticas. É preciso uma cultura e um feeling que, modéstia à parte, poucos comentaristas têm (tá bom, elogiei-me, isso é feio, mas é a verdade, enxergo coisas que poucos vêem).

Veja a Suíça, um país pequeno, encravado no centro da Europa, o continente mais belicoso da Terra, raiz de centenas de guerras. Um país de apenas 7,6 milhões de habitantes, tão influenciável pelos vizinhos, que fala quatro línguas: alemão, francÊS, italiano e romance (língua latina que só sobrevive lá). Que futuro esta nação teria se tivesse um caráter ofensivo? Ora, já estaria dilapidada, ou teria sumido do mapa.

Então, os suíços, inteligentemente, adotaram uma política defensivista e neutral. Política tão eficiente que não foram invadidos por nenhuma grande potência nas duas Grandes Guerras, mesmo estando no olho do furacão. Aprenderam a defender cada centímetro de seu território com astúcia, mas também com determinação e garra impressionantes.

Por outro lado, veja a Espanha. O que o país lhe lembra? Grandes artistas, -Picasso, Miro… – inconstantes como só eles, e os indefectíveis toureiros. O que é um toureiro? Um homem que desafia a morte pela arte, pela vaidade, pelo sucesso. Sim, a seleção espanhola, que ainda sequer chegou a uma final de Copa do Mundo, acredita tanto nos elogios dos críticos que se preocupa mais com firulas e belezas supérfluas do que com o resultado.

Quem leu os comentários deste blog sabe que cheguei a ironizar esse favoritismo que, repetidamente, críticos novatos dão à Espanha. Faltam não só verdadeiros talentos (esse Fernando Torres, que atuação lastimável), como estrutura tática, maturidade, personalidade, garra e humildade – qualidades que só verdadeiros campeões possuem.

Um esporte é feito de ataque e… defesa

Sim, somos adoradores do ataque, reconheço. Quem torce pelo Santos, por exemplo, tem o ataque no sangue. Mas é ilusão imaginar que um time será campeão apenas atacando. Já cansei de comprovar, nos meus livros e textos, que o grande Santos também se defendia muito bem. Tanto, que nos dois jogos mais importantes contra o segundo melhor ataque do mundo, na época – o do Botafogo de Garrincha, Didi, Quarentinha, Amarildo e Zagallo – o Santos marcou nove gols e não sofreu nenhum (5 a 0 na final da Taça Brasil de 1962 e 4 a 0 na semifinal da Libertadores de 1963, ambos no Maracanã).

Só vemos as cestas fantásticas e as enterradas da NBA, mas os especialistas do esporte lembram que a grande qualidade do basquete norte-americano é a defesa. A Seleção dos Estados Unidos pode impedir o adversário de marcar pontos durante várias ataques seguidos. Grandes cestinhas não se importam de se entregar com gosto à marcação e um toco é tão ou mais comemorado do que uma cesta.

Veja, agora, o tênis. Já ouviu falar do sueco Bjorn Borg, o que ganhou Wimbledon cinco vezes seguidas, além de conquistar seis vezes Roland Garros? Pois Borg só ia à rede para cumprimentar o adversário, mas seus tiros do fundo de quadra eram tão precisos, que aquele que resolvesse avançar contra ele invariavelmente se cansava de tomar passadas.

Perceba ainda que nas lutas a maior qualidade dos vencedores não é atacar, mas sim defender-se bem. Na verdade, eles contra-atacam, aproveitando o espaço e o tempo proporcionados pelo avanço do opositor. A mesma defesa também é essencial em esportes coletivos como vôlei, handebol, pólo-aquático… Enfim, não há campeões que não saibam proteger-se das investidas do oponente.

Então, no futebol, é melhor se defender?

Como sei que meus leitores são inteligentes e me farão esta pergunta, já me antecipo na resposta. É evidente que, na maior parte das vezes, a vitória cabe aos times que atacam. Até porque, se atacam, é porque se sentem em maiores condições, e às vezes até obrigados, a buscar a vitória.

Há um componente emocional muito valioso nesse processo, pois o time que joga em seu campo, impulsionado pelos gritos de seus torcedores, quase sempre toma a iniciativa do jogo e consegue mais vitórias do que quando enfrenta o mesmo adversário no campo deste. Curiosamente, o maior fator de vitórias e derrotas, apesar das disparidades técnicas, é o local onde a partida é disputada.

No entanto, times de maior qualidade técnica, que tomam a iniciativa, têm mais chances de vencer. E agora chegamos no cerne da questão. Têm mais chances, diria que de 55 a 70%, mas isso não quer dizer que vencerão. O grande erro dos comentaristas brasileiros é ignorar o percentual de vitória do time que se defende.

Claro que se a Suíça optasse por um jogo aberto contra França, suas possibilidades de triunfo se reduziriam a, digamos, 20%. Dar espaço a jogadores que sabem o que fazer com ele, é o mesmo que dar milho pra bode. A opção pela defesa, que fazem tão bem e à qual se dedicam quase com paixão, foi natural e mais uma vez se revelou vitoriosa.

Agora, creditar esta vitória apenas à capacidade suíça de destruição de jogadas seria tremendamente injusto. Mesmo indo poucas vezes ao ataque, quando o fez os suíços se deram muito bem, pois além do gol criaram outras oportunidades, entre elas uma bola na trave que poderia ter aumentado a aula de humildade sofrida hoje pelos orgulhosos espanhóis.

África do Sul e Uruguai… Agora vamos falar de ataque

O técnico Carlos Alberto Parreira pode não ter sido um defensor do futebol ofensivo, mas burro ele nunca foi. E logo mais, contra o Uruguai, ele sabe que a vitória é imprescindível para aÁfrica do Sul, pois no último jogo do grupo pegará a França.

Quer saber o que acho que vai dar? Acho que a África do Sul vencerá a partida. Marcará o Uruguai na saída de bola, será impulsionada por sua torcida como nunca se viu e, temo, terá alguma ajuda da arbitragem.

Claro que o se o Uruguai se defender bem e mantiver a calma, poderá sair com a vitória, mas desconfio do controle emocional dos nossos vizinhos sul-americanos. Quem conhece bem o Lugano, sabe que por pouco ele pode indo mais cedo pro chuveiro.

Enfim, se tivesse de cravar seco, colocaria África do Sul. E diria que será uma das partidas mais emocionantes da Copa.