Blog do Odir Cunha

O ombudsman do Santos FC

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Santos não fez questão de ganhar. Avaí não quis perder

Além do belo gol de Robinho, aos 26m40s de jogo, em jogada bem tramada por Renato, Victor Ferraz, Lucas Lima e conclusão do 7 santista, o Santos teve inúmeras outras oportunidades para marcar no primeiro tempo. Em algumas errou o último passe, em outras, principalmente nos pés de Ricardo Oliveira, concluiu mal.

Mesmo com uma vantagem tão pequena, o Santos tocava a bola tranquilamente, como se estivesse em um rachão no CT Rei Pelé. Mas essa falta de apetite pelo gol foi fatal. No segundo tempo, o limitado Avaí, comandado pelo veterano Marquinhos, fez o que pode e não só conseguiu o empate, como poderia ter vencido.

O segundo tempo repetiu alguns segundos tempos que estão se tornando comuns na trajetória deste Santos. O time começa a sofrer um ou outro ataque do adversário e, quando percebe, já está dominado e torcendo para o jogo acabar. Alguns jogadores somem de campo, outros se precipitam, levam amarelos, são expulsos, a torcida adversária faz mais barulho e, de dominador, o Santos passa a dominado. Por que isso ocorre?

Uma teoria é a de que esse time perde o fôlego no segundo tempo, quando seus veteranos – no caso Robinho, Renato e Ricardo Oliveira – não têm mais pernas para disputar as bolas com a mesma vitalidade do primeiro. Uma outra é a de que a equipe se acomoda e tenta enrolar o jogo até o final. Ou seja: ganhar em se arriscar, sem fazer força. De uma forma ou de outra, faltou mexer no time quando a história foi se encaminhando para o mesmo enredo que a gente está careca de saber. E qual é ele?

Se o adversário tem um ex-jogador do Santos, pode crer que ele será o craque do jogo. Foi assim na derrota contra Ponte Preta, em que Rildo jogou como Johan Cruiff, e foi novamente assim hoje, em que mesmo se sabendo que o Avaí joga em função das cobranças de bola parada, dos passes e dos chutes a gol de Marquinhos, o meia não sofreu nenhuma marcação especial.

De Marquinhos veio o gol de falta, aos 18m40s, e dele também partiu o passe para Jesse, aos 39m51s, perder o gol mais feito dessa primeira rodada do Brasileiro. Enfim, o experiente armador passeou em campo sem que ninguém o marcasse. Faltou humildade para anular o principal articulador de jogadas ofensivas do adversário.

No final da partida, Gustavo Henrique, que entrou no lugar de Werley, machucado na testa, recebeu o segundo cartão amarelo e foi expulso. Cicinho entrou no lugar de Chiquinho, que saiu machucado, e em três minutos conseguiu receber um cartão amarelo. É inacreditável a afobação deste Yellow Cicinho. Enfim, no final da partida, o campeão paulista, que começou passeando em campo contra o humilde Avaí, terminou segurando o empate com as calças na mão.

Atuações dos santistas

Vladimir – Fez ótima defesa aos 37 minutos do segundo tempo, defendendo uma cabeçada à queima-roupa de Roberto.Mas demorou para saltar na bola no gol de falta. De qualquer forma, 6.
Victor Ferraz – Estava bem na lateral-direita. Foi um desastre na esquerda. Na média, 5.
David Braz – Regular. 5.
Werley – Vinha bem até sair, com um tremendo galo na testa. 6.
Chiquinho – O melhor da zaga. 6,5.
Valencia – Discreto, mas vinha bem no primeiro tempo. Acabou sobrecarregado no segundo. 6.
Renato – Cansou no segundo tempo e só cercou. 5.
Lucas Lima – Novamente o jogador mais lúcido em campo (ao lado de Marquinhos, do Avaí). Criou jogadas que, se aproveitadas, teriam decidido o jogo na primeira etapa.7.
Geuvânio – Disperso, errou passes importantes, esteve longe de ser o mesmo que joga diante de sua torcida. 4.
Ricardo Oliveira – Apresentou-se para o jogo, mas falhou em quase todas as jogadas. Deveria ter sido substituído. 4.
Robinho – Sumiu no segundo tempo. 4.

Marcelo Fernandes – Demorou para mexer no time. Gabriel entrou com pouco mais de 10minutos de jogo. Não conseguiu impedir a equipe de entrar no marasmo de sempre quando atua fora de casa.

Dos jogadores que entraram, Gustavo Henrique desta vez foi mal. De uma falta sua saiu o gol de empate do Avaí. Depois, levou outro amarelo e foi expulso. 3. Cicinho precisou só de três minutos para levar um amarelo. 2. Gabriel não teve tempo e não fez nada de especial, a não ser levar uma falta ao puxar um contra-ataque. Sem nota.

Conclusão: o time que não ganha na primeira rodada do Campeonato Brasileiro desde 2005 continua com o mesmo caráter pouco sério quando joga fora de casa. Creio que de partidas como esta é que nasceu o mito de que o Santos só pode vencer certas equipes quando joga na Vila Belmiro. Isso é um mito que tem de ser vencido com coragem e determinação. O jogo contra o Avaí era para virar 2 ou 3 a 0 para o Santos. Enquanto o Alvinegro Praiano não conseguir repetir fora de casa ao menos 70% do que joga em casa, qualquer sonho de ao menos conseguir uma vaga para a Copa Libertadores deve ser esquecido.

Não dá para, no segundo tempo, manter Robinho, Ricardo Oliveira e Renato no time ao mesmo tempo. Talvez nem mesmo Valencia deva continuar. O time cai demais e não consegue segurar a vitória quando a diferença é mínima. Só segurou contra o Palmeiras, e mesmo assim no sufoco, porque tinha dois gols de vantagem.

Agora veja o jogo pela lente da SantosTV:

Habilidade, categoria e experiência são fundamentais no futebol, mas vitalidade e velocidade também. Há momentos em que Marcelo Fernandes se apega demais aos jogadores mais afamados e não têm coragem de fazer as mudanças necessárias para impedir que o time caia tanto e passe a ser pressionado pelo adversário. Jogadores como Lucas Crispim, Carlinhos Gabriel, Leandrinho e mesmo Diego Cardoso precisam ser mais utilizados. Obviamente não têm o mesmo nível dos titulares, mas podem mudar alguma coisa no jogo e mexer com os brios do time, principalmente nos momentos em que o Santos mergulha na sua atávica letargia.

Robinho foi convocado para a Copa América e desfalcará o Santos em sete rodadas. Aliás, se Modesto Roma não conseguir dobrar os dirigentes do Milan, este jogo contra o Avaí pode ter sido o último de Robinho com a camisa do Santos. De qualquer forma, a exemplo do São Paulo, o Santos deve cobrar a CBF pelos salários de Robinho nesse período em que servirá a Seleção. Chega de pagar por um jogador que desfalca o time para ajudar a CBF.

E você, o que achou da estréia do Santos no Brasileiro?


Uma goleada histórica em 18 palavras

O Maestro e o Pequeno Madson: dois gols cada e atuações perfeitas

Tive a benção de estar lá, no Pacaembu, e tenho tanto para dizer sobre o jogo histórico de hoje, que resolvi fazê-lo em 18 palavras. Sim, dezoito, o número da maioridade para este time de garotos irresistíveis e geniais:

1 – Conquista. Há jogos que valem por um título. Até porque a emoção que provocam é a mesma da conquista de um título. Hoje, ao sair do Pacaembu e olhar no rosto das pessoas, você pensava: ali está indo pra casa mais um campeão, um ser humano feliz, que descobriu nesta noite de domingo o mais puro e belo significado do futebol.

2 – Harmonia. Esta é uma das palavras-chave que define este Santos. Quando ela existe, a falta de um ou outro jogador, mesmo quando são os maiores ídolos do time – no caso Neymar e Robinho –, o conjunto ainda flui com leveza e envolvimento. Chega um ponto em que a escalação parece apenas um detalhe, pois a impressão que se tem é que os jogadores, quaisquer que sejam, jogam juntos há décadas.

3 – Gols. Após os dez anos que levei pesquisando, escrevendo e mergulhando na alma do Santos (sim, todo time tem uma alma) para fazer o livro “Time dos Sonhos”, cheguei à conclusão de que o Santos nasceu sob o signo do ataque e só consegue achar o seu equilíbrio com uma equipe capaz de marcar muitos gols. Portanto, o Santos só está seguindo o seu instinto natural, respeitando o seu DNA.

4 – Felicidade. É o que se percebe nesses garotos, e ela contagia os veteranos do time, a torcida, todo o estádio. O estilo do Santos é marcado pelo destemor próprio da juventude e a alegria por se fazer o que se gosta. Amanhã talvez esses garotos tenham de sair do país para ficarem multimilionários em algum clube europeu, mas garanto que nunca esquecerão de dias como este domingo e que nunca serão tão felizes como estão sendo no Santos.

5 – Penitência. Nos comentários que fiz do jogo contra o Palmeiras, disse que André não poderia ser centroavante do Santos, por cabecear mal e não chutar bem. Já tinha mudado minha opinião no meio da semana, mas hoje jogo uma pá de cal sobre meu infeliz comentário. No estádio é que se percebe como o garoto joga sem bola, como se movimenta, como faz a apara e abre espaço para os companheiros, como tem coragem de enfrentar os zagueiros botinudos e como tem errado cada vez menos nas tabelas. Além disso, só pra me calar a boca, fez um gol de cabeça e um chutando forte. É um ótimo centroavante, sim, e deve melhorar ainda mais.

6 – Maestro, mas pode chamar de Gênio. Da mesma forma que afirmei que Neymar era craque logo na primeira vez que o vi jogar, digo, repito e não canso – que o Ganso não é só craque, é um gênio do futebol. Hoje ele fez a melhor partida de sua vida. É um iluminado, um cara que se treinar melhor o chute, ficará bem próximo da perfeição. Mais ligado no jogo, ajudou na marcação, apresentou-se sempre para o passe, lançou, tabelou, driblou, fez dois gols. Nossa, nesta Seleção tem de ser Ganso e mais dez.

7 – Adversário. Alguns, ao invés de ver as qualidades do Santos, enxergam terríveis debilidades no adversário que é goleado pelos Meninos da Vila. Coitado do Naviraiense, do Remo… Porém, antes que digam que o Ituano é uma porcaria, lembro que este mesmo time empatou com o Palmeiras, no Parque Antártica, por 3 a 3, e que só está a uma vitória do mesmo Palmeiras na classificação do campeonato.

8 – Vingança. Saulo era o goleiro do Santos naquele jogo suspeito em que o time foi goleado pelo Corinthians por 7 a 1. O rapaz saiu do Santos falando mal do clube e o processou. Ontem, ficou tão desestabilizado com o sétimo gol que sofreu, que em seguida deixou passar uma bola fácil, num frangaço. Acabou expulso e saiu de campo humilhado. Tomos os mesmos 7 a 1 e mais dois de lambuja.

9 – Violência. Só depois de 14 faltas do time adversário, algumas delas por trás, é que o árbitro começou a dar cartão amarelo. O Ituano bateu o tempo todo e duas expulsões ficaram barato. Parece que esta será uma tendência, pois os adversários não estão conseguindo parar os Meninos na bola.

10 – Respeito. As críticas de que o Santos estava fazendo muitas firulas e não jogando objetivamente, acabaram se tornando extremamente úteis. Hoje o time jogou atacando o tempo todo. Dorival Junior fez substituições para tornar a equipe ainda mais ofensiva, o torcedor pediu mais e mais gols e os jogadores, vencendo por 9 a 1, ainda estavam marcando pressão na saída de bola do adversário. Se era esse tipo de respeito que pediam, ele está aí. Só acho que os próximos adversários, se pudessem escolher, prefeririam as firulas.

11 – Inteligência. Jogar para fazer mais gols, mesmo quando já se está ganhando de goleada, é sinal de inteligência. O “olé” mexe com os brios e com os nervos do adversário, que reage agressivamente. Mas ir pra cima para aumentar a goleada deixa o inimigo em pânico, como se viu hoje. Mesmo goleado, o Ituano jogava atrás e fazia cera para não tomar mais gols. O que foi inútil.

12 – Méritos. Há jogadores que não aparecem tanto, mas são essenciais neste time, casos de Arouca e Marquinhos. Um que nem pode ser considerado reserva, pois sempre que entra se sai muito bem, é o pequeno Madson, que hoje viveu um de seus melhores momentos no Santos, marcando dois gols, movimentando-se o tempo todo e até participando de boas tabelas. Outro que voltou a jogar bem e saiu ovacionado – por incrível que pareça – é o discutido Pará. Menos errático, tem jogado bem as últimas partidas e está se firmando como lateral esquerdo.

13 – Dúvida – A primeira bola que foi ao gol, entrou. Mas depois Felipe se redimiu, praticando duas defesas seguidas muito difíceis. Entretanto, com a recuperação física do experiente Fábio Costa, a posição ficará indefinida. O que pesa a favor de Felipe é sua discrição e integração com o grupo, coisas difíceis de se esperar do problemático Fábio Costa.

14 – Ousadia. Dorival Junior é o técnico certo para o Santos. Mesmo quando o jogo já estava definido e um outro faria uma substituição para fechar o meio-campo, ele colocou mais gente no ataque. Tirou Arouca para colocar Maikon Leite; pôs o atacante Zé Eduardo no lugar de Pará e o meio-campo Roberto Brum no lugar do zagueiro Edu Dracena. Apesar de separados por cinco décadas, Dorival partilha da filosofia ofensiva do eterno Lula, o técnico do Time dos Sonhos.

15 – Título. Pode vir ou não vir. Mas como cada jogo do Santos neste Campeonato Paulista dá muita alegria aos seus torcedores, certamente ao se somar todas as horas e dias e semanas e meses de felicidade que este time tem proporcionado, esse contentamento já será bem maior do que a euforia proporcionada por mais um título paulista. Em outras palavras, não acho que um título apague tudo o que foi feito antes. Um time medíocre que é campeão jogando feio nunca será lembrado com o mesmo respeito e carinho do que um outro que tenha elevado o futebol aos limites da arte, como este Santos está fazendo.

16 – Talento. O Santos tem provado que nada é irreversível no futebol. Muitos duvidavam de que nestes tempos de ultracompetitividade uma equipe pudesse reproduzir as performances e os marcadores dos anos 60, a década de ouro do futebol brasileiro. Diziam: se Pelé jogasse hoje, não conseguiria dar um drible. Pois o mesmo Santos que já foi de Pelé e hoje é de Ganso, Neymar, Robinho & Cia, está provando que os grandes jogadores dão dribles e fazem gols em qualquer época.

17 – Competição. Há quem desqualifique o Campeonato Paulista, porque assim desqualificam também o sucesso de uma equipe na competição. Agora, aqui entre nós: esta decantada Copa Libertadores da América este ano tem um nível baixíssimo. Só há clubes fakes, que de time grande só tem o nome. Lemos “Racing” e pensamos no argentino, mas é uruguaio; “Independiente”, mas também não é o argentino, é equatoriano; e tem ainda o “Nacional” do Paraguai e o “Cerro” do Uruguai. E não há nenhum time que esteja jogando um futebol que encha os olhos.

18 – Futuro. Manter esses jogadores no Santos, manter esse time que tem revivido o melhor que o futebol brasileiro pode atingir, deixou de ser apenas um problema do Santos Futebol Clube. O mercado do futebol brasileiro ganha muito com o sucesso de um time brasileiro que revive a ginga e a arte dos bons tempos. É a hora de as empresas ligadas ao futebol mostrarem visão de mercado e agirem para manter esse time, com todos os seus garotos, jogando aqui para sempre.

E você, o que acha deste Santos? Já tinha visto um time brasileiro jogar de maneira tão ofensiva e envolvente? Acha que surgirão patrocinadores com visão e dinheiro capazes de manter todos os Meninos aqui?


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