Blog do Odir Cunha

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Time dos Sonhos, só um

time dos sonhos - autor lendo trecho do livro para Robinho
Início de 2004, no CT Rei Pelé em obras, entrego o Time dos Sonhos e aproveito para ler um trecho para o garoto Robinho, que a partir dali citaria o livro como o seu preferido. É impossível amar o que não se conhece.

Ainda no sábado, pouco depois da final da Liga dos Campeões, teve jornalista que se precipitou ao dizer que este Barcelona é o melhor time de futebol que já existiu. Se as táticas e os métodos de treinamento evoluem, assim como os jogadores evoluem como atletas, então os últimos campeões, teoricamente, serão sempre melhores do que os anteriores. Mas esta é uma armadilha que pega quem comete o anacronismo de analisar o passado com os olhos do presente. Como arte, magia e impacto no mundo do futebol, ainda não se inventou um time superior ao Santos de 1962/63.

Nove vezes campeão consecutivamente, entre 1961 e 1963, nesse período o Santos de Gylmar, Lima, Mauro,Calvet e Dalmo; Zito e Mengálvio; Dorval Coutinho, Pelé e Pepe acumulou dois títulos estaduais, dois nacionais, duas Libertadores e dois Mundiais, além de um Rio-São Paulo, todas conquistas oficiais, seguidas.

Mais do que os títulos, aquele time tinha dez jogadores regularmente convocados para a Seleção Brasileira. Sete deles seriam bicampeões do mundo na Copa do Chile, em 1962, e Calvet só não foi sob a alegação de que a Seleção já tinha muito santista. E isso em um país com, no mínimo, oito times grandes, bem diferente da Espanha, que só tem dois, ou, com muita boa vontade, três.

Individualmente, mesmo com Messi e Neymar, este Barcelona não pode ser comparado ao grande Santos, um time com talentos natos, todos brasileiros, não uma legião estrangeira montada com a força do dinheiro. É possível comparar Ter Stegen com o campeoníssimo Gylmar? Ou os zagueiros Piqué e Mascherano com Mauro Ramos de Oliveira e Calvet? E um ataque com Dorval, Coutinho, Pelé e Pepe? E um meio-campo com Zito, titular e líder em duas Copas do Mundo e dois Mundiais Interclubes, além do clássico Mengálvio?

Vivia-se, como costuma informar Pelé, a época artística e romântica do futebol, em que um time só era conhecido no mundo todo se jogasse em todos os cantos, e assim o Santos fez, atuando em todos os continentes, das três Américas à Ásia, Europa, África, Oceania… As plateias apreciaram, in loco, o futebol encantador dos brasileiros.

Contei as histórias que compõem a saga deste time no livro Time dos Sonhos, lançado em dezembro de 2003, que teve suas três edições esgotadas. Lembro-me que fui a Santos no início de 2004 entregar exemplares a cada um dos jogadores campeões brasileiros de 2002, que seriam novamente campeões nacionais naquele ano.

Depois disso, no seu perfil no então Orkut, Robinho citava Time dos Sonhos como o seu livro preferido. Será que por isso valoriza tanto a história do Alvinegro Praiano? Provavelmente. Pois não se consegue gostar do que não se conhece, do que não se entende.

Prometi ao cantor e intérprete Zeca Baleiro, que fez de Time dos Sonhos o seu livro de cabeceira, relançar a obra logo que puder, pois ali está toda a história do time até o título brasileiro de 2002 – os bons e os maus momentos, pois também se aprende muito nas agruras, nas épocas de vacas magras, como esta que o Santos vive hoje.

Espero que os jornalistas e formadores de opinião que não tiveram a oportunidade de lê-lo, o façam desta vez. A leitura de Time dos Sonhos provavelmente evitará a heresia de se comparar uma equipe que foi o maior espetáculo da Terra, lotou os maiores estádios do planeta e chegou a interromper duas guerras na áfrica, com outra que só se apresenta nos palcos iluminados e protegidos da Europa.

E pra você, é possível comparar este Barcelona com o Santos de Pelé?


Jabuca e Briosa, dois times 100% da cidade de Santos

Minha coluna do jornal Metro fala da importância vital de se criar uma Liga Nacional de Clubes para a sobrevivência da competitividade entre os clubes brasileiros. Clique aqui, leia e comente.

Confesso que em meados dos anos 60 eu torcia para o Santos ser campeão e para a Portuguesa Santista, a “Briosa”, não ser rebaixada. E veja que eu era um menino de São Paulo, jamais tinha pisado em Santos. Mas o nome daquela cidade me lembrava praia, alegria, férias, e naquele tempo não se falava “vou à praia”, se dizia “vou a Santos”, como se fosse uma cidade mágica feita para as crianças brincarem. E eu, já fascinado pelo Santos, adotei também a Portuguesa Santista, que vi ganhar da Ponte Preta por 1 a 0, em 1964, gol do craque Samarone, e subir para a Divisão Especial do Campeonato Paulista.

Como a simpatia pelo Jabaquara, o “Jabuca”, veio na mesma época, me tornei um paulistano que torcia para os três times de Santos. Aposto que lembro algumas passagens que nem alguns torcedores desses times se recordam. Como a goleada da Santista sobre o Palmeiras, em pleno Parque Antártica, por 4 a 1, no Paulista de 1968, ano em que o Palmeiras só não foi rebaixado porque houve uma mutreta no jogo final contra o Guarani, em Campinas.

Não esqueço, também, os contorcionismos que o Jabaquara fazia para não ser rebaixado. Primeiro, apelava para os tribunais, alegando que como fundador da Federação Paulista de Futebol, não poderia sair da Primeira Divisão. Ganhou algumas causas assim e por isso a Divisão passou a ser denominada “Especial”, para evitar os dribles jurídicos do Jabuca.

Sem dinheiro, um dia o Jabaquara contratou o malabarista de um circo que passava pela cidade. Bastou uma partida para se perceber, entretanto, que o astro “Mandrake” – era este o nome da fera – se saía muito bem controlando a bola sem nenhuma marcação, mas não era o mesmo em uma partida (esta é a história que ouvi do narrador Raul Tabajara, da TV Record, mas o leitor deste blog, Antonio, diz que Mandrake jogava em times de várzea de Santos com muito sucesso. Quem sabe os dois não estar certos. Mandrake jogava em times de várzea e se apresentava como malabarista em circos).

Ambos fundadores da Federação Paulista, Jabaquara Atlético Clube e Associação Atlética Portuguesa, têm uma história que merece respeito. O Jabuca completou seu centenário em 15 de novembro de 2014, a Briosa comemorará o seu em 20 de novembro de 2017.

Se somarmos os craques que revelaram, teríamos um timaço. O Jabuca descobriu Gylmar, o maior goleiro do Brasil de todos os tempos, Baltasar, Feijó, Getúlio, Ramiro, Álvaro, Célio… A Briosa, além de Samarone, já citado, revelou Tim, craque da Seleção Brasileira de 1938, Joel Camargo, Marco Antonio… até Neymar começou lá.

Nenhum dos dois clubes conquistou um título estadual de primeira divisão, mas tiveram momentos de destaque. Ainda com o nome de Hespanha, o Jabaquara foi vice-campeão paulista, pela Liga Amadora de Futebol, em 1927, atrás apenas do temível Paulistano. No ano seguinte voltou a ter boa atuação, ficando em terceiro lugar.

A vitória mais comemorada do Jabuca o correu na noite de 31 de julho de 1957, na Vila Belmiro, quando goleou o Santos, bicampeão paulista, com Pelé e tudo, por 6 a 4. Naquela noite, comandado pelo argentino Filpo Nuñez, técnico que depois faria sucesso no Palmeiras, o “Amarelinho” como também era chamado o Jabaquara pela cor de sua camisa, saiu de uma derrota de 3 a 1 para uma goleada espetacular. Melão marcou quatro gols.

Quanto à Portuguesa Santista, além da heroica ascensão, em 1964, o time recebeu a Fita Azul por uma excursão invicta à Africa em 1959. Deixou tão boa impressão nos países onde jogou, que por lá passou a ser chamada, pomposamente, de “La Santista”. Sua melhor colocação na série principal do paulista foi o terceiro lugar, obtido em 1936, 1937, 1938 e 2003. Outro motivo de orgulho para seus torcedores é que o seu estádio, Ulrico Mursa, inaugurado em 1920, hoje com capacidade de 9.139 pessoas, foi o primeiro da América Latina a receber cobertura de concreto.

O histórico estádio do Jabaquara, o popular Caneleira, comporta 8.031 pessoas. O clube já teve um bom terreno de frente para o mar, na valorisadíssima Ponta da Praia, em Santos, mas em 1945, em grave crise financeira e às portas do rebaixamento, resolveu vender o terreno para pagar as dívidas. Acabou sem terreno e ainda com muitas dívidas, em um negócio que jamais ficou muito bem explicado.

Uma curiosidade que envolve os dois times e também o Santos Futebol Clube é que no Campeonato Paulista de 1935, o primeiro estadual conquistado pelo Alvinegro Praiano, o Corinthians liderou o primeiro turno sem nenhum ponto perdido, mas no segundo perdeu para Jabaquara e Portuguesa Santista, permitindo que o Santos, com mais uma vitória, comemorasse o título em pleno Parque São Jorge.

1935, um título do Santos, mas com ajuda da Briosa e do Jabuca Com seis vitórias em seis jogos, o Corinthians terminou o primeiro turno do Campeonato Paulista de 1935 na liderança. Mas logo em seu primeiro jogo do returno, foi enfrentar a Portuguesa Santista no Ulrico Mursa e perdeu por 2 a 1, com dois gols seguidos de Tim, aos 36 e 38 minutos do primeiro tempo. Na semana seguinte, o alvinegro paulistano voltou a Santos, dessa vez para jogar contra o Jabaquara, no antigo campo do Macuco, e saiu novamente derrotado: 2 a 0, gols de Chiquinho aos 21 minutos do primeiro tempo e Carazzo, de pênalti, aos 23 do segundo. Como depois ainda empatou com o Juventus (1 a 1), no Parque São Jorge, o time da âncora teria de vencer o Santos e o Palestra Itália, nas duas últimas rodadas, para sair campeão. Porém, o Glorioso Alvinegro Praiano subiu a serra acompanhado de uma corajosa torcida de estivadores, venceu por 2 a 0, gols de Raul aos 36 minutos do primeiro tempo, e Araken, aos 17 do segundo, e no dia 17 de novembro, em pleno estádio do adversário, comemorou o seu primeiro título paulista, conquista heroica que teve a participação dos três times de Santos.

Jabaquara, fundado pela colônia espanhola de Santos, que teve o dramaturgo Plínio Marcos como seu torcedor mais famoso, e Portuguesa Santista, time preferido da colônia portuguesa da cidade, hoje disputam a Série B do Campeonato Paulista e lutam para voltar à Divisão Principal do Estado. Conheça um pouco mais sobre ambos:

Clique aqui para entrar no site oficial do Jabaquara

Hino do Jabaquara:

Filme sobre o Centenário do Jabaquara:

Clique aqui para entrar no site oficial da Portuguesa Santista

Hino da Portuguesa Santista:

Filme sobre a Portuguesa Santista:

Melhores momentos de Jabaquara 2 x 2 Portuguesa, em junho de 2014, pela Segunda Divisão do Campeonato Paulista:

E você, o que acha das histórias de Jabaquara e Portuguesa Santista?


Santos contribuiu mais para a conquista da Jules Rimet

Os 5 a 0 de ontem pela melhor TV do mundo: a SantosTV:

Bastidores do “Nós contra Rapa”:


O santista Carlos Alberto Torres ergue a Jules Rimet

Participei ontem, domingo à noite, do programa Esporte Visão, da TV Brasil, e em determinado momento afirmei que o Santos foi o time que mais contribuiu para a conquista da Taça Jules Rimet. Ao que fui agressivamente contestado pelo companheiro Márcio Guedes, que participava do programa do estúdio no Rio de Janeiro.

Acho que expliquei que, somados titulares e reservas, o Santos teve mais jogadores nas três Copas que deram ao País a posse definitiva da Taça. Foram três jogadores em 1958 (Pelé, Zito e Pepe), sete em 1962 (Pelé, Zito, Pepe, Gylmar, Mauro, Mengálvio e Coutinho) e cinco em 1970 (Pelé, Clodoaldo, Carlos Alberto, Joel e Edu), completando 15. Nenhum outro time cedeu tantos jogadores. O segundo é o Botafogo, com nove, ou seis a menos.

Ouvia os convidados do Rio pelo “ponto”, aquele aparelhinho que a gente põe no ouvido. Se mais de uma pessoa fala ao mesmo tempo, você não consegue distinguir bem. Só sei que ouvi o Márcio dizer que reservas não valem, que os titulares é que jogam. Claro que concordo com essa afirmação. Percebi que ele deve ter entendido que eu disse que o Santos teve mais reservas. Se eu disse isso, me embananei, pois queria dizer que o Santos teve mais jogadores somando-se titulares e reservas.

Como o Márcio Guedes deve ter uns 413 anos de crônica esportiva e como reagiu de maneira tão confiante e até um tanto brusca, preferi não estender a discussão, até porque não há como comparar os resultados do Santos de Pelé e do Botafogo de Garrincha, por mais boa vontade que se tenha. Um foi seis vezes campeão brasileiro, duas vezes da Libertadores e duas Mundial; o outro só ganhou um brasileiro, o da Taça Brasil de 1968, direito que defendi galhardamente no Dossiê da Unificação.

Santos também teve mais titulares na Jules Rimet

A vida é um constante aprendizado e não tenho nenhum problema de aprender uma nova lição a cada dia. Assim, humildemente, ao chegar em casa, fui consultar meus livros para checar a informação que Márcio Guedes anunciou com tanta certeza. Confira junto comigo, caro leitor e cara leitora:

Copa de 1958 – O Santos colaborou com os titulares Pelé e Zito; enquanto o Botafogo cedeu Garrincha, Didi e Nilton Santos. O Santos ainda teve um reserva, Pepe, enquanto o alvinegro carioca não teve nenhum reserva.
Detalhes – Em 1958, Zagalo do Flamengo, assim como Gylmar ainda era do Corinthians e Mauro do São Paulo.

Copa de 1962 – O Alvinegro Praiano teve quatro titulares: Pelé, Gylmar, Mauro e Zito. O Botafogo, outros quatro: Nilton Santos, Didi, Garrincha e Zagalo. Entre os reservas ainda havia três santistas: Mengálvio, Coutinho e Pepe. O Botafogo tinha um reserva: Amarildo.
Detalhes – Pelé se machucou no segundo jogo e foi substituído pelo botafoguense Amarildo. Coutinho e Pepe foram inscritos na Copa como titulares, mas, devido a contusões nos últimos jogos preparatórios, Coutinho foi substituído pelo palmeirense Vavá e Pepe pelo botafoguense Zagalo.

Copa de 1970 – O Santos teve três titulares no México: Pelé, Clodoaldo e Carlos Alberto Torres. E ainda mais dois reservas: Joel Camargo e Edu. O Botafogo só teve Jairzinho como titular. Roberto e Paulo Cezar Lima, ou “Caju”, foram reservas.
Detalhes – Gérson foi inscrito na Copa como jogador do São Paulo. Nas Eliminatórias, quando o time foi denominado “As Feras do Saldanha”, por ser dirigido pelo jornalista João Saldanha, o Brasil fez todos os jogos com seis titulares do Santos: Carlos Alberto, Djalma Dias, Joel, Rildo, Pelé e Edu.

Portanto, em que pese a ênfase dada pelo companheiro Márcio Guedes, a realidade é que além de ter mais jogadores nas três Copas, somando-se titulares e reservas, o Santos também teve mais titulares do que o alvinegro carioca nas Copas que deram ao Brasil a Jules Rimet.

Mesmo que se divida a titularidade entre Pelé e Amarildo em 1962, o fato de ter dois titulares a mais em 1970 ainda daria ao Santos o mesmo número de titulares do que o Botafogo, com nove titulares nas três Copas. Isto sem contar os reservas, que proporcionam uma vantagem absoluta ao melhor time de todos os tempos. E ainda sem contr o time nas Eliminatórias de 1970.

E pra você, que time contribuiu mais para a conquista da Jules Rimet?


Peñarol está encantado por fazer a final com o Santos

Está acontecendo algo estranho. Santos e Peñarol estão conscientes de que o destino os colocou em um raro momento histórico, o de reviver a era de ouro do futebol, em que Coutinho, Pelé e Pepe rivalizavam com Joya, Spencer e Pedro Rocha pelo domínio do continente. Mais do que rivais, parecem parceiros. Há um verdadeiro encantamento dos uruguaios por chegar a esta final. Não só porque faz muito tempo que o Peñarol não volta a brilhar, mas porque a decisão será contra o Santos.

Assisti a uma entrevista do técnico Diego Aguirre após a classificação contra o Vélez e ele estava exausto e extasiado. Parecia não acreditar no sonho que estava vivendo. “Enfrentamos a potencias e os tiramos a todos para afuera”, disse, recostado no sofá do hotel. E completou dizendo como era importante reviver um confronto histórico com o Santos, que, segungo ele, “será muy difícil”.

De fato. O Peñarol sentiu várias vezes o gosto da eliminação, mas sempre deu a volta por cima. O time estava fora quando o Inter marcou o primeiro gol em Porto Alegre, mas conseguiu virar para 2 a 1. O jogo ia para os pênaltis no Chile, contra o Universidad Católica, quando os uruguaios diminuíram para 2 a 1, no final, e garantiram a vaga; e contra o Vélez Sarsfield, como explicar o escorregão e o pênalti perdido pelo “Tanque” Santiago Silva?

Milagre? Destino? Será que alcançar a final fará com que o time uruguaio se dê por satisfeito e não ofereça grande resistência ao Santos? Não creio. Acho que agora que sabem do que são capazes, de que todos os obstáculos podem ser superados, talvez se tornem ainda mais perigosos.

Que o Santos se motive para esta decisão como toda a vontade e atenção como se fosse enfrentar o Barcelona. O desdém dos adversários foi uma arma que os uruguaios souberam usar muito bem. Que Muricy Ramalho saiba preparar o time para não se deixar enroscar por essa armadilha.

Reveja o jogo que mudou a sorte do Peñarol nesta Libertadores. Repare como o Internacional não teve tranqüilidade para definir a partida, enquanto os uruguaios jogaram com muita vontade:


http://youtu.be/mxlOhdCno4c

Se você fosse Muricy, o que diria aos santistas sobre o Peñarol?


Há 47 anos o Santos se tornava o primeiro bicampeão mundial do futebol


O Santos para a final, sem Pelé, Calvet e Zito. O pênalti de Maldini em Almir.


Dalmo cobra o pênalti do título, o time dá a volta olímpica e, no vestiário, Pelé agradece a Almir.

Há 47 anos, em um sábado à noite, no Maracanã, o Santos se tornou o primeiro bicampeão mundial da história do futebol ao bater o Milan, campeão europeu, por 1 a 0. Dois dias antes, na virada mais importante e espetacular do futebol brasileiro, os santistas transformaram em 4 a 2 uma derrota parcial de 2 a 0 no primeiro tempo, devolvendo o mesmo marcador com que haviam perdido em Milão.

Ainda sem os titulares Pelé, Calvet e Zito, que, machucados, já não tinham podido jogar na segunda partida, o Santos entrou em campo com Gylmar, Ismael, Mauro, Haroldo e Damo; Lima e Mengálvio; Dorval, Almir, Coutinho e Pepe.

Como dois dias antes, o Maracanã estava superlotado. Oficialmente, pagaram ingressos 120.421 pessoas, mas testemunhas afirmam que o estádio tinha cerca de 200 mil pessoas. Depois de perder a final da Copa de 1950, 13 anos antes, o maior estádio do mundo poderia ver o futebol brasileiro reinar naquela noite em que a classe santista seria substituída pela raça de onze guerreiros comandados por Almir Albuquerque.

Volte no tempo e acompanhe a decisão do Mundial Interclubes de 1963. Para contar como foi a partida, recorro a um capítulo do livro Na Raça!, que escrevi para a Editora Realejo e foi lançado em 2008.

Primeiro Tempo

A expectativa pela decisão do título Mundial Interclubes é enorme. Até o presidente do Brasil, João Goulart, não se nega a dar seu palpite para o jogo: 3 a 1 para o Santos é o seu prognóstico.

Um estrondo digno da era atômica – assim o jornal A Gazeta Esportiva descreve o barulho provocado pelos fogos de artifício e pelos gritos da torcida quando o Santos entra em campo.

Exatamente às 21 horas (de Brasília) Lodetti, o camisa oito do Milan, inicia a partida decisiva do Mundial Interclubes de 1963 tocando para Mazzola. O primeiro ataque do campeão europeu é perigoso. Mora penetra pela direita, passa por Dalmo e é combatido por Mengálvio, que joga para escanteio.

Aos cinco minutos, Dorval toca para Coutinho, que é cercado por Trapattoni. Ao tentar recuar para Ismael, o centroavante santista faz um passe curto que é interceptado por Amarildo. Este avança e ao tentar chutar a gol é prensado por Dalmo, que alivia o perigo.

Um minuto depois, Pepe cobra uma falta e a bola, rebatida por Balzarini, sobra para Almir. Ao tentar o chute, o atacante brasileiro acerta a cabeça do goleiro, que começa a sangrar (a partir daí Balzarini jogaria com a cabeça enfaixada, e seria substituído ao final do primeiro tempo). Maldini se revolta e vai pra cima de Almir, que ergue os braços, alegando inocência. Os italianos partem para a briga. Junto à linha de fundo, Pellagalli agride Coutinho. Mauro vem correndo e entra no bolo. Pela TV Record, o locutor Raul Tabajara diz: Vejam o clássico zagueiro santista, que dizem jogar com luvas de pelica, sair em defesa de seus companheiros. Repórteres e policiais invadem o campo e a área do Milan se transforma em um pandemônio. O ponta Mora vai ao chão, agredido não se sabe por quem.

Aos sete minutos, Maldini comete falta em Almir, mas, descontrolado, não gosta quando Juan Brozzi marca a inflação e o encara, dando-lhe uma peitada.

O Santos é mais ofensivo. Aos 18 minutos Coutinho tabela com Almir, a bola desvia em Trapattoni e sobra para Lima, na meia-direita, próximo à entrada da grande área. O santista atira rasteiro, Balzarini não pega e a bola passa raspando a trave.

O bicampeão sul-americano prossegue tentando o gol. Aos 27 minutos Coutinho recebe de Lima e passa na esquerda para Almir. Mesmo pressionado por Pellagalli, o atacante santista corre em direção à linha de fundo e chuta cruzado, obrigando Balzarini a uma defesa acrobática.

A defesa do Santos só assiste a partida, que se desenrola no campo do adversário. O Santos toca de pé em pé e o Milan se encolhe na defesa.

Aos 30 minutos, Lima centra para a área. A bola vai em direção de Almir. Trebbi escorrega ao tentar cortar o passe e o desesperado Maldini, quando busca chutar para a frente, acerta a cabeça de Almir, que cai rolando no gramado. Juan Brozzi marca pênalti, para revolta geral dos italianos, que o cercam, enfurecidos. Sobre o lance, Almir escreveu assim em seu livro “Eu e o futebol”: Lima fez um cruzamento alto. Eu estava mais ou menos ali pela marca do pênalti. Ia chegar um pouco atrasado na bola, mas tinha de tentar, tinha de acreditar em mim. Vi quando Maldini, desesperado, levantou o pé, tentando cortar o lançamento. Eu tinha de dar tudo ali naquele lance: meter a cabeça para levar um pontapé de Maldini, correr o risco de uma contusão grave, ficar cego, até mesmo morrer, porque o italiano vinha com vontade. Agora era ele ou eu. Meti a cabeça, Maldini enfiou o pé, eu rolei de dor pelo chão. O argentino não conversou: pênalti.

O jogo fica interrompido por cerca de quatro minutos. Os italianos protestam, tiram a bola da marca do pênalti. Maldini, que segundo Almir, parecia “enlouquecido”, ofende o árbitro e tenta agredi-lo, sendo expulso. Revoltado, o capitão do Milan só abandona o gramado com a intervenção dos policiais, com os quais discute também. Outros jogadores do Milan ameaçam abandonar o campo. A torcida vaia os italianos.

O campo é invadido por repórteres, fotógrafos e policiais. Os italianos tinham tentado impedir que repórteres e fotógrafos acompanhassem o jogo de dentro do campo, mas o vice-presidente do Santos, Modesto Roma, disse que no Brasil mandavam os brasileiros. Nossa imprensa sempre teve toda a liberdade para trabalhar e não vamos tirá-la agora, disse o dirigente santista em uma reunião anterior com dirigentes do Milan e representantes da Confederação Sul-americana, realizada no Hotel Glória.

Em meio ao tumulto, Dalmo se aproxima de Pepe, diz que está confiante e pede para cobrar o pênalti. Pepe, que seria o cobrador natural, percebe que o companheiro realmente está decidido e cede ao lateral aquele que seria o seu maior momento na história do futebol.

Gol do Santos. 1 a 0. Dalmo

Aos 34 minutos, o lateral-esquerdo Dalmo aproxima-se da bola para cobrar a penalidade, mas interrompe o movimento do chute ao perceber que Balzarini adiantou-se tanto a ponto de pisar quase na risca da pequena área. O árbitro admoesta o arqueiro italiano e pede que ele volte à sua posição inicial. Novo apito e desta vez Dalmo bate de pé direito, rasteiro, no canto esquerdo. O goleiro pula no canto certo e quase chega a tocar na bola, mas esta morre no fundo do gol.

Depois, Dalmo descreveria os momentos que antecederam o gol: Era um barulho ensurdecedor, aquele povo todo gritando. Houve um desentendimento. Quando eu ia bater, dava a paradinha, (sou o inventor da paradinha), e o goleiro se adiantava. O árbitro mandou que eu não fizesse a paradinha e que o goleiro não se adiantasse. Fui frio e calculista, pois estava acostumado a cobrar pênaltis nos outros clubes em que joguei. Quando corri para a bola, o estádio silenciou. Mas já estava decidido. Bati no canto esquerdo do goleiro, rasteiro e fiz o gol.

O Alvinegro Praiano se anima com a vantagem e continua melhor do que o Milan, que parece atordoado. Aos 40 minutos o Santos tem um gol anulado. Em casa, assistindo pela TV Record, percebo que ao saltarem para tentar aproveitar um cruzamento na área italiana, Mengálvio e Coutinho fazem falta no goleiro. A bola sobra para Coutinho, que chuta para as redes, mas o gol é invalidado e os santistas não reclamam.

Aos 43 minutos, Balzarini cai no gramado e pede atendimento médico. O sangue escorre por seu rosto. Sem condição para continuar, o goleiro é substituído pelo reserva Barlucci.

Um gesto de elegância em meio ao clima hostil da partida: aos 46 minutos Dalmo joga a bola pela lateral para que Fortunato, caído, seja atendido.

Oito minutos além do tempo regulamentar, Amarildo dá uma entrada forte em Ismael, que parte para cima do atacante do Milan e lhe desfere uma cabeçada. Amarildo cai, exagerando, e Juan Brozzi expulsa o jogador do Santos. Profundamente arrependido, Ismael sai de campo acompanhado por Coutinho e, aos prantos, é recebido pelo massagista Macedo, que o acompanha até o túnel.

Juan Brozzi dá onze minutos de descontos. Ao final do primeiro tempo, os milaneses saem de campo vaiados, enquanto os santistas são aplaudidos.

Segundo Tempo

Às 22h45m Coutinho dá a saída.

O clima é tenso os jogadores pegam pesado. Almir é o primeiro a ir ao chão. Antes de se completar três minutos de jogo, Haroldo dá uma entrada violenta em Amarildo.

Aos sete minutos, Almir dá um belo drible em Trapattoni e segue em direção à área italiana. Já batido, o zagueiro italiano apela e derruba acintosamente o brasileiro, merecendo apenas uma bronca do árbitro.

Aos 10 minutos percebe-se que o Milan, mesmo sem criar lances de perigo, está jogando melhor. Dalmo e Haroldo erram passes e quebram a evolução do time, que não consegue atacar.

Mas o Santos se reapruma e aos 14 minutos Almir tenta escapar pela direita e sofre falta de Trapatoni. Pepe cobra, a bola passa pela barreira, mas Barlucci agarra firme, quando Haroldo já estava pronto para aproveitar um possível rebote.

Aos 20 minutos o Santos tem uma chance de ouro de ampliar o marcador. Após receber excelente passe de Haroldo, Lima surge livre na frente de Barlucci. Mas o meia santista demora muito para atirar e, quando o faz, o goleiro, que já fechou o ângulo, salta para espalmar para escanteio, numa grande defesa.

Na seqüência da jogada, Pepe cobra o escanteio e Coutinho cabeceia, encobrindo Barlucci. A bola vai entrando, mas Benitez consegue salvar.

Aos 24 minutos Almir corre e evita a saída de bola pela linha de fundo. Trapattoni vem marcá-lo e o atacante brasileiro usa o corpo para proteger a bola. Sem ter como desarmar o santista, Trapattoni o derruba, cometendo falta.

A 15 minutos para terminar a partida, o Santos segue sem dar oportunidades ao campeão europeu. Com a expulsão de Ismael, o ponta Dorval recuou para a lateral-direita e conseguiu anular Fortunato, o bom atacante do Milan.

A primeira grande oportunidade do Milan surge aos 32 minutos, quando Fortunato passa por Haroldo e cruza para a direita. Mora vem na corrida, domina a bola e penetra livre. Na hora de concluir, entretanto, entorta o chute e a bola sai à esquerda da meta de Gilmar.

As coisas começam a se complicar para o Santos com as contusões de Almir e Pepe (à época só eram permitidas substituições de goleiros). O substituto de Pelé, de tanto correr e levar pancadas, sente uma contusão na coxa direita e passa a jogar com uma cinta elástica, deslocando-se para a extrema direita. Minutos depois, Almir cai e em seguida aparece com duas cintas, uma em cada coxa. Pepe também manquitola e é atendido pelo massagista Macedo. O Santos está em frangalhos e o Milan vem para cima.

Aos 37 minutos Mazzola perde ótima oportunidade para empatar. Após receber de Amarildo, na posição de meia-esquerda, ele avança livre e chuta, mas a bola sai.

Mesmo sem poder andar direito, Almir continua lutando como um leão. Aos 43 minutos ele acerta bom passe em profundidade para Pepe, que sofre falta de Pellagali na entrada da área. O mesmo Pepe cobra a falta e obriga Barlucci a grande defesa, jogando a bola para escanteio.

O final da partida é de pressão total do Milan. Aos 44 minutos Mora avança pela direita, passa por Dalmo e cruza rasteiro para Amarildo. Mas Gilmar se antecipa e agarra firme.

A impressão que se tem é que se o Milan empatar, o estropiado Santos não terá forças para buscar a vitória e o título na prorrogação. Os italianos ainda estão inteiros, enquanto os santistas capengam pelo campo, tentando suportar de todas as formas a pressão do adversário.

Quando Juan Brozzi apita, assinalando o final da partida, os jogadores do Milan saem correndo do campo em direção aos vestiários, sem cumprimentar os santistas ou dar entrevistas aos repórteres, o que era usual à época. Percebia-se, entretanto, que protestavam contra a atuação do árbitro. Na verdade, durante todo o jogo tinham sido insuflados contra a arbitragem pelo seu técnico, o argentino Luiz Carniglia. Dos vestiários, foram direto para o Aeroporto Internacional do Galeão.

Os jogadores do Santos, por sua vez, recebem o apito final do árbitro com alívio e alegria. Pulam, carregam Almir nos braços, enquanto Ismael, que voltou a campo ainda de calção, mas sem meias, chora copiosamente. Lima, Coutinho e Haroldo caminham aos saltos. Organiza-se uma volta olímpica. O Santos parece um exército Brancaleone. Alguns jogadores mancam, outros estão semchuteiras. Todos erguem as mãos para o público, agradecendo o comovente apoio nos dois jogos.

O capitão Mauro Ramos de Oliveira é convocado para subir à tribuna de honra e receber a taça de campeão mundial interclubes das mãos de Raul Colombo, presidente da Confederação Sul-americana de Futebol. O estádio rompe em aplausos. Em menos de um ano e meio o elegante zagueiro santista erguia duas taças de campeão do mundo (a primeira pela Seleção Brasileira, no Chile, em 17 de junho de 1962).

Almir Albuquerque, o Almir Pernambuquinho, descreveu esse momento em seu livro: Eu ouvia o público gritar meu nome num coro que tomava o Maracanã de ponta a ponta: – Al-mir! Al-mir! Àquela altura eu não tinha condições de fazer a volta olímpica, com os demais jogadores. Estava no bagaço, de tão massacrado. Dei muita pancada, mas também apanhei demais. Saí do campo capengando, me arrastando, não agüentava de tanto cansaço. Fiquei um tempão na banheira térmica do vestiário… Nós estávamos hospedados na concentração do próprio Maracanã. Várias vezes os jogadores tiveram de chegar à janela para acenar à multidão, ali em frente à rampa das arquibancadas. O povo dançava acompanhando a marcação do surdo com um coco que alternava duas palavaras: – Al-mir! Bicampeão! Al-mir! Bicampeão! Quase arrastado por seu Moran, cheguei á janela: houve um delírio ali diante do lugar onde o Santos mandou colocar uma placa à homenagem à torcida carioca. Eu tinha me comportado como um marginal? Para o povo, ali, e para a imprensa, no dia seguinte, eu era um herói. Eu, Almir Morais Albuquerque, apenas havia aplicado o que o futebol me ensinou.

A placa foi mesmo encomendada pela diretoria santista e colocada na entrada das arquibancadas do Maracanã. Ela dizia: Às palmas dos cariocas, o coração do Santos Football Club. Os cariocas elegaram o triunfo santista como uma vitória deles também, uma vitória do Brasil. Há três anos a capital da nação havia se mudado para Brasília, mas a verdade é que o Rio de Janeiro ainda se sentia o coração do País. A vitória do Santos era a vitória da raça brasileira. A imprensa nacional se colocou ao Santos do Santos cem por cento. O time se sentiu amparado por ela nas 72 horas martirizantes que decidiram o Mundial de 1963.

O mais inflamado de todos era o locutor da Rádio Globo Valdir Amaral. Ele, que dramatizou ainda mais os últimos minutos de jogo com seu bordão “o relóóógio maarcaaa” agora discursava apoteoticamente, num som metálico que reverberava entre a multidão que abandonava o Maracanã com a alma lavada: Esse maravilhoso Santos deu ao Brasil, a mim, a você, senhor, ao País, a glória imensa de ser bicampeão do mundo! Transcendemos como nação!.

Naquela noite o Santos e a imprensa carioca fizeram o brasileiro acreditar que vivia no maior país do mundo: o maior estádio, o maior futebol, Pelé, o Carnaval, Copacabana… O milagre do futebol se espalhou pelas pessoas. O Santos não pertencia mais a ele mesmo.

Veja agora um vídeo sobre as finais do Mundial de 1963. Há mais cenas do jogo na Itália, em Milão, em que o Milan venceu por 4 a 2 e Amarildo disse que era melhor do que Pelé. No final do filme vê-se o pênalti cobrado por Dalmo. Repare que é como o milésimo de Pelé: de chapa, rasteiro e no canto esquerdo do goleiro.

O que você sabia deste Mundial de 1963? Tem alguma lembrança?


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