Blog do Odir Cunha

O ombudsman do Santos FC

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Homenagem de Mauro Mcfly e Blog do Odir ao aniversário do time mais misterioso do mundo


Armando Nogueira, um craque insubstituível

No Jornal da Tarde, quando falávamos em bons textos todos os dias, perguntei ao chefe de reportagem Roberto Avallone quem escrevia melhor entre os jornalistas esportivos. Ah, ele respondeu, não há dúvida de que é o Armando Nogueira. Já leu Bola na Rede? Então leia. Comprei o livro. Li e reli. Realmente, ninguém escrevia com aquela fluência e poesia entre os jornalistas dedicados ao esporte. Identifiquei-me com o estilo do tarimbado colunista acreano do Jornal do Brasil. Havia naquele ritmo, naquela maneira profunda e emocional de ver o esporte, muito do que eu também sentia.

Algumas vezes levei comigo Bola na Rede nas viagens pelo Interior, cobrindo jogos do Campeonato Paulista. Em uma delas a pauta era acompanhar o último jogo da Portuguesa Santista, já rebaixada, contra o XV de Jaú, em Jaú. Ouvi a preleção do técnico da Luzinha, pedindo brios a jogadores que vá tinham caído de divisão. E o sentimento foi tão forte que a equipe se superou e ganhou a partida que não valia nada, só orgulho próprio.

Ao lançar Time dos Sonhos eu tinha o desejo, quase sonho, de ser entrevistado no programa “Bate Papo com Armando Nogueira”, no Sportv, em que o autor de um livro de futebol conversava sobre sua obra com aquele que já era tratado como O Príncipe dos Cronistas Esportivos.

Cheguei a mandar-lhe e-mails falando do livro que demorei dez anos para terminar e me oferecendo para ser entrevistado, mas Armando nem ao menos respondeu. Fiquei decepcionado e irritado e escrevi sobre isso um texto deselegante, publicado em alguns sites. Imaginei que com aquelas deseducadas linhas tinha jogado uma pá de cal na possibilidade de aproximação com o autor dos textos tão belos que marcaram meu início de carreira jornalística.

Porém, três anos depois, quando lancei Heróis da América, a história completa dos Jogos Pan-americanos, fui surpreendido com o convite da produção do programa do Armando para, finalmente, conversar com ele sobre a obra que era – e ainda é – a mais completa já escrita sobre os Jogos.

Fui ao Rio, o que é sempre agradável, e na TV Globo pude abraçar o amigo Luis Fernando Lima, com quem cobri os Jogos Pan-americanos de Porto Rico. Em seguida encontrei-me com Armando Nogueira. Ele caminhava com alguma dificuldade, nas palavras que trocou com os colegas percebi que já padecia de um mal novo e que o preocupava muito, e em seguida ficamos só nós dois, adiantando os assuntos que seriam tratados no ar.

Falou, decepcionado, dos novos tempos, em que os torcedores se sentem no direito de ofender os colunistas, pela Internet. Lembramos do grande clássico do futebol brasileiro entre o seu Botafogo e o meu Santos, e eu lhe recordei que mesmo sendo uma partida equilibrada, nos jogos mais importantes entre ambos o Santos sempre ganhou, e de goleada. Ah, aquele Santos, quem podia com aquele time, resignou-se ele, enquanto entrávamos no estúdio.

Para nós, do Rio, era mais fácil torcer para o Santos do que para São Paulo, Corinthians e Palmeiras, ressaltou, explicando porque a imprensa carioca era tão simpática ao Alvinegro Praiano, chamado-o de o mais carioca dos paulistas.

Enquanto ajeitávamos os microfones por baixo da camisa, adiantou que Paulo César Vasconcelos não viria e, portanto, faríamos o programa só nós dois. Uma hora inteira com Armando Nogueira falando da história dos Jogos Pan-americanos! Mais do que eu poderia sonhar…

Fotos, imagens, comentários sob os vários aspectos do Pan, que dois meses depois seria realizado ali, no Rio, e cheguei a fazer uma previsão bastante otimista a respeito do desempenho brasileiro. Você está dizendo que o Brasil ganhará 50 medalhas de ouro, Odir?!, espantou-se Armando. Confirmei, pois tinha calculado bem todas as chances nas várias modalidades (o Brasil acabou ganhando 52 medalhas de ouro e ficou em terceiro lugar, atrás de Estados Unidos e Cuba).

Armando gostou do programa e sugeriu à equipe do Sportv que me convidasse para falar sobre o Pan durante a transmissão dos Jogos. Convidaram-me, realmente, para ser um dos comentaristas na festa de abertura, mas justo no dia eu tinha uma palestra no Sesc de Taubaté e não pude ir.

De qualquer forma, ficou na memória a tarde que passei com Armando Nogueira, o jornalista esportivo que mais influenciou meus textos e reforçou minha visão poética do futebol. Tive um programa inteiro com ele. Que mais poderia querer? Voltei a São Paulo e as informações era de que Armando nunca mais recuperara a saúde. Deixou de apresentar o programa, recolheu-se, até que hoje vem esta notícia de sua morte.

Armando Nogueira morreu em sua casa, na Lagoa, aos 83 anos, vítima de câncer no cérebro – diagnosticado em 2007, pouco antes de nossa entrevista. Nasceu em Xapuri, no Acre, começou a carreira aos 23 anos, no Diário Carioca. Consagrou-se como colunista do Jornal do Brasil e chegou a diretor de jornalismo da TV Globo, onde criou o Jornal Nacional e o Globo Repórter.

Homenagem ao poeta do futebol

Reproduzo, agora, o trecho de um artigo de Armando Nogueira intitulado A busca do tempo perdido. Há um sonho nessas linhas que talvez nunca seja realizado, ou que talvez explique o entusiasmo que sentimos ao ver um time como este Santos, que parece reviver a alegria de crianças jogando futebol.

… Abençoada a obra que nasce e morre e renasce do ânimo lúdico de brincar. Na essência do esporte, a ação estendida como brincadeira pura. E se do gesto participa uma bola, aí, então, amigo, aí principia o jogo que há de levar o homem à purificação.

Pelo menos hoje, não tomarei como base os números que exprimem eficiência, nem os fatos que condenem e absolvem os homens do futebol. Prefiro, agora, a vaga lembrança de um certo chute que morreu nas redes, depois de partir ao meio o coração do estádio – metade bandeira, metade silêncio.

Que seria de ti, de mim, que seria de nós, amigo, o domingo sem a comovente mentira de um gol?

É certo que não aprendemos muito da vida no ano que se vai: o futebol é hoje um mundo um tanto envenenado por pequenas misérias que os homens podiam perfeitamente deixar no meio-fio, antes de cruzar a borboleta dos estádios.

Enfim, ao cabo de tantos encontros dominicais, há de ter ficado conosco, ao menos, a serena certeza de que ainda não morreu em nós o menino que já não somos. Porque no fogo cruzado das paixões de um campeonato entrevia-se uma multidão de crianças, dentro e fora do campo, construindo castelos de areia que a maré do tempo logo destruía.

É por tudo isso que, hoje, não quero nem o rigor das táticas, nem a geometria que divide os campos, dividindo os homens.

Em nome da bola, forma sublime, em nome da grama que floresce na infância, em nome do gesto gratuito que faz o encanto do esporte, deitemos fora a aritmética do futebol. E que as portas dos estádios se reabram no tempo próximo para que lá, como Albert Camus, possamos viver outra vez sublimes momentos de inocência.


Minha homenagem ao cartunista Glauco Vilas Boas

No final de 1980 cheguei a fazer algumas reuniões – geralmente no café no térreo do edifício do Terraço Itália – com um cartunista que estava começando a carreira para que, juntos, produzíssemos um livro infanto-juvenil. Eu era sub-editor da revista TênisEsporte e ele e seu colega Laerte eram nossos colaboradores, desenhando tiras sobre as peculiaridades do tênis. A revista teve só mais alguns meses de vida e o projeto do livro foi indefinidamente adiado. Mas o vivo interesse pelo trabalho e a criatividade daquele cartunista, que assinava Glauco, me impressionaram.

Fomos por caminhos diversos e paralelos da profissão. As tiras de Glauco ficaram famosas na Folha de São Paulo. Criou mais de uma dezena de personagens, entre eles Geraldão, Casal Neuras e Zé do Apocalipse. Tornou-se uma referência entre os profissionais brasileiros do cartum.

Hoje, lemos esta notícia trágica de que Glauco Vilas Boas, 53 anos, e seu filho Raoni, de 25, foram mortos ontem à noite por dois homens que invadiram sua casa, na Estrada Alpina, bairro Santa Fé, em Osasco. A primeira informação era de que além de roubar a casa, os invasores queriam seqüestrar Glauco. Ele, um cara do bem, padrinho fundador da igreja Céu de Maria, teria tentado conversar com os bandidos, mas estes, drogados, o alvejaram, assim como ao seu filho, que chegava da faculdade. Sua mulher, Beatriz Galvão, e uma filha, presenciaram os crimes (nesta manhã surgiu a informação de que os assassinos eram conhecidos da família).

Um cara fantástico se foi e deixa mulher e duas filhas. É só isso que posso dizer. E o mínimo que posso fazer neste momento – eu que tenho um respeito enorme por estes artistas populares que são os ilustradores, cartunistas, desenhistas em geral –, é publicar uma tira antiga que encontrei na minha coleção da TênisEsporte. Ela foi publicada em dezembro de 1980, justamente no período em que tratávamos do lançamento do livro para crianças. Nesta tira, Glauco brinca com o fato de, no tênis, os jogadores serem tradicionamente obrigados a se cumprimentar depois do jogo, mesmo depois de tomarem uma surra de um estranho adversário.


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